por Eduardo Moreira
2 de abril, 2012, 8:51
Aconselhado pelo ortopedista e amigo José Arthur Aguiar a fazer uma consulta sobre um pequeno desvio na cervical provavelmente causado pelo acidente que sofri no bonde de Santa Teresa, no Rio, resolvo juntar a fome com a vontade de comer. O nome indicado era da Irene Ziviane, uma estudiosa do corpo e seus mecanismos de postura, de quem sempre ouvi falar muito e com quem sempre tive uma enorme vontade de trabalhar junto com o Galpão. Toda uma gama de amigos ( de médicos, a atores e bailarinos) sempre falavam maravilhas sobre o seu trabalho. E realmente o trabalho da Irene é iluminado. Como disse o Paulo André, o ideal seria que pudéssemos nascer de novo, a partir das noções e percepções que a Irene nos passou nesses seis encontros ( de 02 horas cada) para podermos aproveitar melhor a vida e o bem estar dos nossos corpos.
Pedindo desculpas pelo meu atrevimento em relatar assuntos que estou longe de dominar, não resisti a fazer um breve relato desse encontro, que lanço aqui, nesse espaço, em capítulos.
ENCONTRO COM IRENE ZIVIANE – 1
Depois de uma série de telefonemas e combinações, finalmente chegou a hora de nos encontrarmos. Irene mora no bairro da Serra e vamos buscá-la, Inês, Paulo e eu. Como é de praxe numa pessoa que trabalha com o corpo, sua postura é centrada e seus olhos são atentos. Ela traz duas malas com o material necessário para a aula. No percurso da sua casa até a sede do Galpão, ela faz algumas perguntas sobre a constituição física dos componentes do grupo e me pergunta se seria interessante que ela fizesse uma avaliação física individual de cada um.
Ao chegar no Galpão, montamos o piso com as estruturas de borracha, bebemos água e ficamos esperando os retardatários. A cidade está enfrentando uma greve de transportes. Irene não aparenta nenhum tipo de ansiedade com o tempo. Pergunta o nome da ceda um,com exceção de Lydia e Fernanda, que já são suas velhas conhecidas. Ela é da turma do Klaus e da Angel Vianna. Sentamos em roda e Irene diz que está felia em poder trabalhar com um grupo de artistas maduro, que já atingiu um grau de excelência e que tem uma trajetória. Ela tira da mala um pequeno esqueleto inteiro de um ser humano eos ossos de uma perna em tamanho natural composta pelo pé, a tibia, o fêmur e a bacia direita. Com o esqueleto inteiro, mostra as diferenças necessárias a que nos transformássemos em bípedes, as transformações e o esforço que precisamos fazer para nos mantermos de pé sobre duas pernas.
Mostrando o peuqeno esqueleto de pé, ela sublinha como é importante pensar na musculatura anterior (a da frente) do corpo nos alçando sempre para cima e a posterior (de trás), puxando para baixo. Fazemos alguns movimentos bem simples, como levantar uma perna, assentar-se ou deitar, pensando sempre em puxar a musculatura anterior para cima. Ela saca da sacola um esqueleto da bacia e, com a ajuda de um elástico e de um pedaço de espuma, nos mostra a importância do trabalho do músculo PSSOAS, que faz a ligação profunda en tre a musculatura das pernas e as seis primeiras vértebras de baixo da coluna vertebral. Como uma espécie de suspensório, nosso trabalho precisa ser o de sempre alçar o PSSOAS para cima. Ela mostra como, em todos os movimentos mais quotidianos e simples, devemos sempre pensar em alçar o suspensório do PSSOAS e também do músculo coxo-femural.
Em seguida, ela volta ao pequeno esqueleto, apontando como as vísceras da barriga são envolvidas pelo PSSOAS e a musculatura vertical e transversa da barriga. Ela nos alerta para a importância de fazer com que o movimento parta sempre da bacia, tirando a força de músculos sobrecarregados, como o trapézio, o pescoço e a cabeça. Fazemos movimentos de subir e abaixar, rotação e torção, procurando sempre ativar o movimento a partir da bacia.
O trabalho é sutil e exige senso de observação e muita sensibilidade. O passo seguinte é fazermos a observação das estruturas corporais e seus desvios e compensações em cada um individualmente. A proposta da Irene é ver umas três pessoas hoje e ir pegando o resto do grupo ao longo do trabalho. O foco é sempre a posição da bacia. Irene diz que o encaixe da perna com a bacia, na altura do osso representado pelo triângulo do TROCANTER deveria ser feito sempre para fora. Segundo ela, grande parte de todas as anomalias acontecem em função do fechamento nesse encaixe das pernas com a bacia, seja de um lado, seja do outro. Isso acaba fazendo com que a bacia fique torta ou desbalanceada. Isso, por sua vez, acaba criando tensões tanto nos pés, nos joelhos como na musculatura superior, do tronco, pescoço e da cabeça.
Três pessoas são analisadas – Teuda, Arildo e eu. Irene pede que cada um caminhe de frente e de costas. O fechamento do encaixe da perna com a bacia é mais evidente no quadril de Teuda. Seus passos parecem sobrecarregar mais uma perna que outra. O peso está desequilibrado. Os músculos anteriores do corpo parecem ter dificuldade de se alçarem para cima. A percepção do desequilíbrio é menos simples nas caminhadas de Arildo e na minha. No meu caso, ela diz que minha perna esquerda está fechando para frente na articulação com a bacia. É preciso pensar em abrí-la para trás. O movimento, é claro, precisa ser sutil e com cuidado. Ela diz que, frequentemente, depois de acertar o encaixe de uma perna , é preciso voltar o foco para o encaixe da outra, que caba sempre por também sofrer alterações.
Ao final do trabalho, as imagens e observações ficam reverberando em nossas cabeças, como se precisassem ser melhor digeridas e compreendidas. Um tempo mais dilatado que precisa ser assimilado pelos corpos. As observações, sempre feitas no Pilates, de segurar o centro do corpo, a partir de colocar o umbigo para dentro, parecem fazer um no vo sentido, especialmente a partir da imagem do PSSOAS como um suspensório que alça nossos músculos e estrutura óssea anterior, para cima.
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