Quem viver, verá
por Eduardo Moreira 2 de janeiro, 2012, 14:46
Estamos entrando em 2012, ano em que o Galpão completa seu trigésimo ano de atividade ininterrupta. A data nos fez pensar numa série de eventos comemorativos e, antes de mais nada, na criação de uma marca, que funcione como um emblema desse momento tão significativo. Quando completamos vinte anos, o lema comemorativo veio com os dizeres – “Grupo Galpão, 20 anos de teatro”. Os vinte e cinco anos falavam de “um teatro de encontros”, celebrando o fato do Galpão ser um grupo de atores que, ao longo de toda a sua existência, trabalhou com diferentes diretores, cenógrafos, figurinistas, dramaturgos, atores e artistas em geral, numa permanente troca de experiências, que acabou por ser fundamental na moldura daquilo que chamamos a linguagem do grupo. E agora, os trinta anos? Que universos e novas perspectivas se abrem no horizonte do grupo? A idéia de uma marca precisa partir de um conceito que nos ajude a pensar no lugar do grupo dentro do contexto atual e também do significado da existência de uma companhia de atores que consolidou uma proposta artística ao longo de trinta anos, numa cidade como Belo Horizonte.
O que teria acontecido nos últimos cinco anos de singular em relação aos 25 anos anteriores que celebraram a arte dos encontros? Sem dúvida que a passagem do tempo e uma certa urgência com relação ao mesmo. Acho que as características mais marcantes que seguem acompanhando a trajetória do Galpão são o trabalho coletivo, baseado num esforço de grupo; o fato de sermos um grupo de atores que continua trabalhando com diferentes diretores convidados, o que dá `a sua linguagem uma qualidade bastante diversa ( o “Eclipse” é, certamente, um dos exemplos mais radicais dessa multiplicidade de linguagens) e uma busca pelo risco e pelo desconhecido que também está intimamente ligado a uma prática teatral muito mais próxima da diversidade do que da especialização. Lembro que quando chegamos `a finalização do livro dos 15 anos do Galpão, eu e Cacá Brandão, chegamos, sem pestanejar, ao título – “Grupo Galpão, 15 anos de risco e rito” . A busca do risco sempre foi, em alguns momentos mais outros menos, outro objetivo primordial. Tentando responder `a pergunta que abre esse parágrafo, acho que o grupo começa, pouco a pouco, a se abrir `a reflexão sobre o possível legado que o Galpão poderia ou deveria deixar para as gerações futuras.
É claro que essa não é uma propriamente uma novidade. A própria fundação do Galpão Cine Horto, quase quinze anos atrás, é uma prova irrefutável desse desejo de transmissão de uma forma de fazer teatro característica do grupo. Além disso, as dezenas de encontros e de breves oficinas que fazemos todos os anos por nossas viagens pelo Brasil são também testemunhos dessa preocupação. O curioso é que os muitos artistas e grupos que se formaram ou se reciclaram dentro do Cine Horto, apesar de se organizarem teatralmente em características bem próximas `as do Galpão, acabaram por praticarem uma linguagem muitas vezes diametralmente oposta `a do grupo, especialmente quando pensamos na questão do público. A tendência mais forte que nasceu e floresceu no centro cultural do Galpão foi de um teatro colaborativo, que frequentemente privilegia menos a comunicação com o público e mais um processo de produção interna do grupo. Nisso não vai nenhum tipo de crítica ao trabalho desses coletivos e desses artistas, mas apenas a percepção de os universos são bem distintos. O grupo não criou uma nova de geração de atores que esteja presente dentro dos espetáculos do próprio grupo. Isso não propriamente por uma incapacidade, mas mais por uma opção.Talvez fosse o momento de repensar esse tipo de opção. Quando nos preparamos para fazer uma remontagem comemorativa da nossa versão de “Romeu e Julieta”, dirigida pelo Gabriel Villela, fico pensando com meus botões, se essa nova versão não poderia contar com uma nova geração de atores, que certamente ajudariam na renovação do grupo.
Esse tipo de renovação acontece muito quando os atores do grupo trabalham com outros grupos mais jovens ou no seio do Cine Horto, mas ainda não penetrou no seio do próprio grupo, que se mantem fechado. Não tenho certeza sobre que tipo de transformação está sendo gestada no limiar desses nossos trinta anos, mas creio que mudanças grandes virão. Alguns indícios claros disso são a divisão do grupo em dois elencos distintos no projeto “Viagem a Tchékhov” e a arriscada empreitada de uma nova sede que reuniria o Grupo Galpão e o Cine Horto na avenida dos Andradas. Quem viver, verá.




