->Pirandello, Gabriel Villela, Scaldati e o Grupo Galpão

por Francesca Della Monica

Nos Gigantes da Montanha de Gabriel Villela e do Grupo Galpão três lendas se reúnem: a de Franco Scaldati, o jovem alfaiate de Palermo, que escreveu e encenou em sua oficina histórias extraordinárias; a do tecelão de uma linguagem pura e primitiva, representada pela escrita de Pirandello; e a do tear/teatro de Gabriel Villela. Todos os três artistas reconhecem a cena como uma forma de arte que implica imediatamente no homem, que o engole, digere-o…. que o obriga a viver, conhecer e entrar em conflito.

Uma obra-mundo onde o dramaturgo, diretor e atores tentam desvendar o monumento artístico que é o ser humano, sua fisicalidade, as múltiplas facetas do seu universo interior, cada um dos quais sendo uma perspectiva de visão do mundo, a sua luz e sua escuridão. “Os Gigantes da Montanha” do Grupo Galpão e Gabriel Villela é uma redescoberta das vozes profundas nas quais que a vida flui impetuosa. A linguagem como um meio de comunicação: Scaldati elege um discurso claramente antigo e pós-moderno, um siciliano que destila sons, ritmos, significados. Os dialetos, a semente que está fluindo, a raiz que atinge 8000 anos de civilização, uma viagem às origens: a sua palavra se espalha por um conhecimento denso, arcaico, primitivo, e expressa o relacionamento com essas raízes antigas. Sicília e Minas Gerais com seus mundos de sonho e fatos mitológicos, de pontos de vista extremos, onde a violência é acompanhada por doces momentos de ansiedade, estabelecendo um absoluto de tensão poética, em que o corpo-voz do poeta e dos jogadores perseguem a utopia de uma liberdade interior que só a vida fora das regras pode garantir até o fim.

Histórias dos anjos caídos em lugares diferentes, distantes e próximos, mas perto de um teatro onde a solidão das vozes se transformam em uma polifonia atemporal que chega ao verdadeiro encantamento.

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->A travessia do deserto

Estamos naquele ponto dos ensaios de “Os Gigantes da Montanha” conhecido como “a travessia do deserto”.

Os personagens vão sendo esculpidos, as cenas levantadas, um espírito individual e coletivo vai sendo moldado.

Como diria nosso amigo Ulisses Cruz, “um cego tateando no escuro, buscando conduzir outros doze cegos numa sala escura”.

A criação é um permanente desencontro na busca de se encontrar algo.

Tentativa e erro na procura de tornar palpável algo de imponderável.

Alguma coisa chamada personagem que te persegue vinte e quatro horas por dia, que você vai conhecendo cada vez mais através de suas palavras, para quem vamos tentando moldar um corpo e uma voz, uma visão de mundo, um modo de se relacionar com os outros, mas que ainda nos é estranho.

Como um apêndice que muitas vezes destoa e nos desequilibra. A queda que nos faz levantar, quase sempre de forma diferente.

Algo que começa a te pertencer e fazer parte de seu corpo e do seu espírito, mas que subitamente te escapa.

Uma miragem no deserto. Um oásis que parece estar próximo e que, de uma hora para outra, se torna mais distante ou desaparece.

Uma inquietação que te arranca do tempo histórico e te lança num tempo mítico. Um tempo que te aparta de datas, fatos, jornais, encontros sociais, compromissos. O mergulho no universo da pura ficção.

Arrebatamento que necessita de silêncio e solidão para nos nutrir de forças suficientes para a travessia em seu ponto mais distante e ameaçador.

Como um náufrago disposto a se agarrar a qualquer coisa para não sucumbir ao fundo do mar. Aprendiz de mago que desenha maravilhas nos vãos das sombras.

Alquimista da incerteza mergulhado na inquietação de uma permanente embriaguez celeste. Desbravador de buracos negros em busca de fantasmas.

Andarilho da loucura desprovido de rumo e de direção

Ser atirado no olho do furacão.

O ator no meio da travessia do deserto.

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->Grupo Galpão – História de Encontros no Chile

O chileno Osvaldo Obregón enviou-nos, por e-mail, um belo depoimento sobre a apresentação do Grupo Galpão no Festival Santiago a Mil e sobre o livro “Grupo Galpão: Uma História de Encontros”, escrito por Eduardo Moreira.  Confiram a seguir:

“Tu regalo “Historia de encuentros” ha sido mi libro de cabecera después del FIT Santiago a Mil y durante mi estancia en Valdivia. Te transmito el comentario prometido en una apretada síntesis: 1) Muy acertado el título, que corresponde perfectamente a los encuentros del Galpón (prefiero usar la traducción al español, ya que es difícil encontrar el acento portugués de la palabra); 2) Es impresionante la amplitud nacional e internacional que ha logrado tener el Galpón en su historia de 30 años; 3) Es muy rico el bagaje teatral que tú has ganado desde su fundación, tanto a nivel teórico como práctico. Mencionas a casi todas las grandes figuras y corrientes contemporáneas que han aportado a la dramaturgia textual y escénica. Entre los clásicos se destaca Shakespeare, en particular gracias al montaje de “Romeo y Julieta”. También se menciona a Molière; 4) He aprendido mucho sobre el teatro brasileño (que he podido ver en los festivales de Cádiz y Almada), gracias a que el Galpón ha trabajado con los grandes maestros nacionales; 5) El libro es una mezcla amena de testimonios, narración y reflexión; 6) No es común que una compañía estable tenga tal longevidad. En general, durante los primeros años, se produce una confraternidad idealizada y después comienzan los conflictos interpersonales. Al parecer, el Galpón ha logrado mantener una sana convivencia; 7) El período en que el Galpón incursiona en el cine es atractivo y se habla de la mezcla cine-teatro, que es una tendencia actual presente en Italia, Chile y otros países; 8 ) La lectura me ha servido también para saber algo más de Inés Peixoto como actriz del Galpón; 9) Si hubiera por ventura una nueva edición del libro, valdría la pena re-elaborar el final, el cual me parece muy abrupto, sin una síntesis con las debidas conclusiones; 10) El Galpón ha practicado el teatro de sala, pero especialmente el teatro de calle o al “aire libre”. Me parece que han incursionado en muy variados aspectos del espacio teatral de esta última categoría, salvo en uno: actuar en un estadio de fútbol. Esto se ha producido en varios países. Vi hace algunos años en el Estadio Nacional de Francia en París un montaje de “Ben Hur”, de gran calidad, dirigido por Robert Hossein. Se hicieron varias representaciones con mucho público. En Chile se produjo un fenómeno que no tiene precedentes, que yo sepa, en el resto del mundo. Entre 1940 y 1973 se fue gestando progresivamente, sin que nadie lo programara, un teatro popular de masas, con motivo del “clásico universitario”, debido a la confrontación de los clubes deportivos profesionales y rivales de la Universidad de Chile y de la Universidad Católica. Paralelamente al partido de fútbol, las barras universitarias competían también, presentando cada una un espectáculo, que tenía como escenario todo el rectángulo de juego, más la pista de ceniza, la torre del marcador y la puerta de maratón, como entrada y salida a escena. Participaban cientos y miles de actores, bajo la tutela de un director y varios sub-directores, en dos versiones: la diurna y la nocturna. Este espectáculo convocaba cada vez 60 y 70 mil espectadores de ambos sexos y de todas las edades. Sobre este tema se va a publicar a mediados de marzo y por primera vez en Chile, un trabajo mío, ya publicado íntegramente en francés y catalán en sus respectivos países, con versiones parciales en español (Canadá, España, Francia y Guatemala) e igualmente en inglés (USA). Si me das tu dirección postal, tendré el placer de enviarte el libro por publicar en Chile.

Leyendo tu historia del Galpón me ha parecido que el escenario de un estadio sería un bello desafío para tu compañía, bajo la condición de contar con un centenar de “extras”, mediante una “parcería”.

Felicitaciones, entonces, por este libro que condensa la memoria del grupo desde su nacimiento y que perdurará como principal testimonio de la trayectoria del Galpón. (¿Tiene alguna relación con el también famoso Galpón de Montevideo, liderado hasta su muerte por Atahualpa del Cioppo?).

Un abrazo grandote para ti e Inés, Osvaldo Obregón”

 

Galpão no Chile, em 2013. Foto: Babaya

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->UM CICLO QUE SE FECHA

A participação de “Romeu e Julieta”no encerramento do festival “Santiago a mil”, no Chile, celebra o ponto final das comemorações dos trinta anos de existência do Galpão. O festival de Santiago é hoje a principal vitrine do teatro internacional na América do Sul, especialmente depois das crises econômicas que esvaziaram importantes eventos do continente, como os festivais de Caracas e de Bogotá.
Um ciclo comemorativo se fecha para que o grupo retome um novo período dedicado à sala de ensaio e à gestação de um novo espetáculo. Saímos da celebração do encontro com o público para entrarmos num processo de isolamento e de reflexão interna. É o momento de nascer “Os gigantes da montanha”, nossa nova parceria com Gabriel Villela.
A história do grupo é feita da alternância desses dois estados – de um lado, as viagens e as apresentações e, de outro, o isolamento da sala de ensaios, na criação de espetáculos. Nesse sentido, períodos de ensaio representam redução drástica de turnês e apresentações.
Ao longo do ano, de maio de 2012, em Londres a janeiro de 2013, em Santiago, foram 31 apresentações de “Romeu e Julieta” nas cidades de Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana, São Paulo, Santos, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Caraguatatuba, Caxias do Sul e Rio de Janeiro., além das duas capitais estrangeiras.
Mais uma vez a tragédia dos amantes de Verona na versão de Gabriel Villela para o Galpão mostrou sua força e empatia incondicional do público. Qual é o segredo do espetáculo?
“Romeu e Julieta” foi pensado para o interior mais profundo do Brasil. Os ensaios no vilarejo de Morro Vermelho, distrito de Caeté, foram uma ferramenta fundamental para que sedimentássemos essa característica. O espetáculo traz uma brejeirice e uma ingenuidade tão brasileiras, que cativa e encanta não só o nosso público como também o estrangeiro. Canções como “Amo-te muito”, “Lua branca”, “A ultima estrofe”e “É a ti flôr do céu”encarnam como nunca esse DNA de um Brasil profundo. Algo que, por mais adormecido e soterrado que esteja, sempre emerge como nossa natureza mais profunda. Um substrato cultural que, assim como o samba, “agoniza mas não morre”. O público é convidado desde a abertura da peça, a entrar num mundo de ancestralidade em que o tempo das nossos avøs emerge e quem assiste, volta a se transformar também em criança que ouve histórias de uma tragédia de amor contada através de luas e estrêlas suspensas em varas de bambu, flôres de plástico, figurinos pintados com cal que remetem às casas de pau a pique do interior, cruzes tôscas que compõe a lápide do casal. Tudo é tão singelo e arrebatadoramente mágico e teatral, que se torna irresistível. A poesia se derrama sobre as praças das cidades, o tempo fica suspenso e o mundo inteiro se ilumina de poesia.
Talvez seja pretensioso referir-se assim a um espetáculo do próprio grupo, mas “Romeu e Julieta”, mais uma vez, vinte anos depois de sua estreia, provou sua força arrebatadora, emocionando as multidões por onde passou. Como registro inesquecível dessa volta celebrativa, dois momentos mágicos ficaram marcantes para sempre na minha memória de artista.
O primeiro, na praça do Papa, em Belo Horizonte, quando na cena do casamento de Romeu com Julieta, o dueto de “Amo-te muito”cantado por mim e pela Fernanda foi acompanhado por um coro de 6000 vozes delicadamente afinadas. O segundo aconteceu na apresentação no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, em que uma multidão de quase duas mil pessoas, impossibilitadas de assistir o espetáculo, por falta de espaço disponível, ouviu a peça atrás do palco montado sob a Veraneio, na mais absoluta concentração e silêncio.
“Romeu e Julieta” é um momento muito mágico e poético na vida do Galpão e de milhares de pessoas. Para mim, como artista e ser humano, um marco.

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->Diário de bordo

O fim do ano se aproxima e estamos prestes a fechar as comemorações dos 30 anos do Galpão com os últimos espetáculos no Rio de Janeiro. 2012 fecha com pouco mais de cem apresentações em 17 cidades de 7 estados brasileiros. A grande concentração de apresentações se deu em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Consequência de ser um ano de estreia e de lançamento de “Eclipse”, além da concentração da remontagem de “Romeu e Julieta” nas três capitais.
Mesmo assim, só nesta última semana estive em cinco cidades de quatro estados diferentes, apresentando espetáculos do Galpão e participando de encontros com artistas e grupos de teatro – Vitória (ES); Natal (RN); Timóteo (MG) e Caraguatatuba e São José dos Campos (SP). Horas infindáveis em ônibus e aviões, turbulências, estradas esburacadas e perigosas, muito sol e um pouco de chuva, hotéis confortáveis e outros nem tanto.

Nosso primeiro destino foi Vitória, a capital do Espírito Santo. Chegamos ao hotel Cannes, no centro da cidade. Um hotel barulhento e decadente como em geral, todo o Centro mais antigo da cidade. As indicações são de que ninguém saia sozinho à noite. As vielas, becos e escadarias do velho centro parecem esquecidos. Prédios abandonados e  entregues ao tempo. Deixaram seus prédios opulentos, os poderes executivos, legislativo e o Judiciário. Todos migraram para uma região mais comercial. Sobra ainda a velha catedral. Na  região degradada e desvalorizada, surgem as sedes de alguns grupos como a do “Folgazão” e o “Repertório”.

É para lá que vou, para falar sobre a experiência do Galpão para um grupo de vinte atores. Todos discorrem com muita pertiniência  sobre as dificuldades e os grandes desafios da construção do teatro de grupo e o ofício do ator. Quase todos ainda são obrigados a dar aulas de arte ou de teatro, para poderem sobreviver em seus grupos. A grande angústia é o isolamento do teatro e a incapacidade de estabelecer pontos de relação com o público. As leis de incentivo também são bastante criticadas. Alguns dizem que antes, quando os grupos queriam montar um novo trabalho, iam para a sala de ensaio. Hoje, a primeira coisa que fazem é escrever um projeto e ficar esperando que ele seja aprovado. Prática teatral só depois do projeto aprovado. É claro que as leis criaram distorções, mas seria bom pensar também o que teria acontecido com a cultura brasileira sem a existência das leis.

A tarde do mesmo dia é dedicada à apresentação de “Romeu e Julieta” dentro da programação do festival da cidade. Nosso espetáculo está marcado para uma simpática lona de circo montada na área externa do teatro Carmélia. O teatro fica próximo à rodoviária e padece da mesma impressão de decadência que ronda, em geral, o centro da cidade. O interior da casa do prédio dá uma sensação de sujeira e da maresia que vai tomando conta de tudo. O festival apresenta uma ótima programação que, além de bastante extensa, traz uma boa diversidade de grupos do Rio, São Paulo, Minas, Espírito Santo, Nordeste e alguns pontos das regiões Sul e Centro-oeste. A equipe do festival mostra-se solícita e muito simpática. A entrada é gratuita e as pessoas interessadas fazem longas filas para pegar senhas. Fico na dúvida se essa seria mesmo a melhor política para fomentar e formar o público.

Meia hora antes do horário da apresentação e as arquibancadas estão lotadas e ainda existe uma grande fila do lado de fora. Inspirado por Mnouchkine (que não admite que ninguém fique de fora), digo que só podemos começar quando todo o público estiver acomodado. O clima é ameno entre as pessoas que esperam e os organizadores do evento. Não existe nenhum tipo de pressa ou de stress. O horizonte e a presença do mar parecem deixar as pessoas mais tranquilas.

A apresentação acaba se revelando uma celebração de tudo que a trajetória do Galpão significa para muitas das pessoas que estão na plateia.

 

NATAL – OS “CLOWNS DE SHAKESPEARE” E A ORGANIZAÇÃO DO TEATRO DE GRUPO NO NORDESTE

Para sair de Vitória para Natal é preciso voltar para São Paulo! Sempre São Paulo impondo sua hegemonia como centro do Brasil. Depois de uma hora e vinte de vôo até Guarulhos, sou obrigado a viajar mais duas horas e vinte minutos até Natal. A cidade, inconfundível pela sua brisa e a luminosidade dos seus dias, está cheia de arranha-céus. A grande maioria de qualidade bem duvidosa. A ganância da especulação imobiliária vai roubando a beleza e a qualidade de vida das nossas cidades.

Depois de um almoço no velho Mangaio, chego na nova sede dos Clowns. Encontro com meus queridos amigos, colegas de jornada e de ofício. Fernando, César, Marco, Renata, Nara, Titina, Camile, Dudu, Paulinha, Joel, grandes artistas que conduzem com um enorme empenho um belo trabalho artístico com o grupo “Clowns de Shakespeare”. O trabalho alcança  boa repercussão, viajando muito pelo Brasil. O grupo prepara sua primeira turnê internacional europeia, para participar do festival Iberoamericano de teatro de Cádiz, numa Espanha envolta em crise econômica e desemprego. O país que era um modelo de economia neoliberal integrada à Europa na década de noventa e no início deste século, caiu como uma fruta podre.

Mas, voltando ao Nordeste, o panorama de teatro é bastante animador. Fui participar do lançamento do Catálogo de teatro de Grupo dos nove estados do Nordeste. Os livros, escritos a partir de entrevistas feitas com integrantes dos principais grupos do Nordeste, faz um grande painel da história e dos grandes temas e dificuldades enfrentadas por esses grupos. É um documento valiosíssimo, que certamente vai contribuir muito para que os grupos se conheçam melhor e se façam ser conhecidos entre si. Cada vez mais fica claro que é preciso criar e solidificar uma rede de grupos que troquem informações e se ajudem mutuamente. E isso vai se concretizando de maneira bem forte no Nordeste.

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->Preparativos para a montagem dos Gigantes

Começamos os trabalhos com os Gigantes. Além das leituras do texto, estamos nos debruçando nas outras obras de Pirandello. Como sempre, esbarramos numa enorme deficiência de traduções brasileiras. Se pensarmos que autores consagrados como Tchékhov e Pirandello apresentam essa carência, podemos imaginar o que acontece com outros autores menos conhecidos. O mercado editorial brasileirto em geral e , especialmente na área de teatro, é uma calamidade. Só para dar um exemplo, das últimas peças de Pirandello, especialmente as escritas depois da sua relação com a atriz Marta Abba, nehuma delas ( exceto os “Gigantes da montanha”) tem tradução brasileira. É o caso de peças como “La amica delle moglie”, “Come tu mi vuoi”, “Trovarsi”, “Diana e la Tuda” ,”La nuova colonia” e “Non si sa come”. Todas elas fazem parte da chamada fase mítica do autor, que se afasta do formalismo teatral e busca uma radicalidade da expressão poética. Acho que, assim como fizemos o mergulho na obra de Tchékhov com a montagem dois espetáculos (“Tio Vânia” e “Eclipse”) e a filmagem de seis curtas baseados nos seus contos, a montagem de “Os gigantes da montanha” e o encontro com a obra de Pirandello deveria trazer um mergulho na sua obra que poderia contemplar ações como novoas filamgens de curtas baseados na sua vasta obra literária e também ( por que não?) traduções de algumas dessas peças desconhecidas no Brasil. A presença da nossa querida e italianíssima Francesca della Monica certamente abre boas perspectivas para um projeto desse tipo. A verdade é que acredito que o encontro do Galpão com a obra de Pirandello deve render outros frutos além da montagem dos “Gigantes”. Penso em ações que possibilitem uma maior difusão e conhecimento de sua obra tão importante para o público brasileiro.

O trabalho de estudos e de elaboração musical e de material cênico para o espetáculo já se iniciaram com algns encontros com a Francesca. No começo de outubro chega o material do atelier de cenário e de figurino que o Gabriel está trazendo de São Paulo. Nosso espaço do Galpão vai sofrer uma reviravolta para acomodar os tecidos, figurinos, adereços, mesas e cadeiras de material de demolição( que foram adquiridos na cidade de Passos, em Minas). Como um grande alquimista, Gabriel começa a montar as peças de seu grande experimento que resultará na cenografia e nos figurinos do espetáculo. Ao mesmo tempo, o elenco vai se inteirando de um repertório de músicas populares italianos. A montagem dos “Gigantes” nos promete um enorme e fascinante trabalho.

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->Notícias dos 30 anos

POR POUCO A GREVE NÃO NOS PEGA
Sábado, dia 28 de julho, começamos nossas comemorações dos 30 anos em São Paulo. O que seria mais uma data festiva a ser dividida com nosso público paulistano, acabou virando uma espera cheia de tensão e expectativa. O motivo foi uma greve deflagrada pelos camioneiros na BR Fernão Dias que liga Belo Horizonte a São Paulo. Nosso caminhão, dirigido pelo experiente e simpático Bagre, que deveria chegar à capital paulista na sexta, véspera da estreia, ficou prêso pelos grevistas, que bloquearam completamente a estrada. O primeiro bloqueio aconteceu em Igarapé, logo na saída de BH. Depois disso, nosso intrépido Bagre tentou uma saída alternativa pela estrada de Divinópolis. Mais uma vez ele ficou detido na altura de Arcos. Obrigado a passar a sexta-feira inteira próximo a Arcos, nosso caminhão via cada vez menos perspectivas de chegar à tempo em São Paulo para podermos montar o cenário e apresentar o espetáculo programado para as 16 horas de sábado. Foi por volta de uma e meia da madrugada de sábado, que chegou a notícia de que, finalmente, o bloqueio havia sido aberto pela polícia. Se tudo desse certo e o caminhão pudesse seguir sem novas interrupções, ele conseguiria chegar ao meio-dia. De qualquer modo, teríamos de fazer uma montagem às pressas.A solução foi aumentar o número de carregadores e adiantar ao máximo nossa estrutura de amplificação de som.Entre muita adrenalina, incertezas e projeções, o caminhão entrou no parque da Juventude, no local onde funcionava o antigo presídio do Carandiru às onze horas e cinquenta minutos. Faminto e fervorosamente aplaudido, Bagre havia rodado a madrugada inteira, sem descanso para que fizéssemos o espetáculo. Seria a primeira vez que uma greve impediria uma apresentação de espetáculo nosso. O aconteceimento só demonstra como o teatro é fruto de um esforço coletivo, que depende da boa contribuição do contra-regra, do produtor, do divulgador, dos técnicos, da faxineira, da moça do lanche, dos atores… Enfim, essecialmente em trabalho de equipe.

APRESENTAÇÕES EM OURO PRETO E MARIANA
Duas apresentações de “Romeu e Julieta” no festival deInverno de Ouro Preto e Mariana coroaram a ligação do espetáculo com as cidades. Ouro Preto foi fonte de inspiração para a construção do espetáculo. Lembro que mal decidimos montar o espetáculo, estávamos passeando pelas ladeiras da cidade, recebendo aulas de nosso teórico e “dramaturg” Cacá Brandão sobre o barroco da cidade. A essência do espetáculo começou naqueles passeios povoados pela teatralidade do barroco da contra-reforma.
Uma pena foi termos feito o espetáculo numa área tão poluída visualmente pela construção de tendas modernosas que fizeram com que o fundo do cenário ficasse completamente prejudicado. Foi o contrário do que aconteceu em Mariana, onde o contraste de um céu esplendoroso desenhado pela delicadeza do casario barroco da praça da Sé, criou um fundo mágico para o amor de Romeu e Julieta. Foi digno de nota o silêncio e a atenção da multidão que assistia ao espetáculo.
A nota mais triste é perceber a feiúra e a falta de cuidado das casas e construções nas entradas das duas cidades históricas mais famosas de Minas. Um horror! É inacreditável a falta de cuidado e fiscalização para proteger um dos acervos mais importantes da nossa história e da nossa cultura.

ECLIPSE VAI GANHANDO O MUNDO
Vi o espetáculo nas suas apresentações no teatro Francisco Nunes, dentro da programação do FIT BH. Fiquei satisfeito em perceber como os atores evoluíram e vão, pouco a pouco, cada vez mais, tomando as rédeas do espetáculo. As notícias da recepção do público em praças como São João del Rey e Divinópolis foram as melhores possíveis e o espetáculo vai amadurecendo para os próximos compromissos nos festivais de Santos (“Mirada”) e Porto Algre (“Porto Alegre em cena”) e para a temporada de São Paulo, que acontecerá de 27 de setembro a 14 de outubro, no SESC Vila Mariana.

TIO VÂNIA EM BUSCA DE TEMPORADAS MAIORES
Dentro da comemoração dos trinta anos, apresentamos “Tio Vânia” de quinta a domingo, no teatro Wanda Fernandes do Galpão Cine Horto. Como já havia acontecido na nossa temporada no teatro Klaus Vianna, Oi futuro, nosso público foi só aumentando, fruto claramente do bôca a bôca do público. Acho que o ideal seria fazer uma temporada de pelo menos uns dois meses, que permitisse o aumento gradativo do público. É uma pena que o teatro faça temporadas cada vez mais curtas. Saudades dos tempos em que estreiávamos um espetáculo para fazer uma temporada de, no mínimo, trêsmeses de duração.

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->A volta de Romeu e Julieta a BHZ

Passei o final de semana com azia. Uma estranha sensação de comer apenas refeições leves e frugais e sentir uma queimação no estômago. Era evidente que se tratava do efeito chamado de “a praça da Papa”. Na ocasião em que estreamos “Tio Vânia” no Rio, Yara me perguntou que público e que praça me incutia mais nervosismo e apreensão. Achei que era o público do Rio. Talvez pelo fato de ser o berço da infância, das primeiras sensações do mundo, da formação.Além, é claro, da paixão que guardo pela cidade. É claro que Belo Horizonte é ainda mais especial. Acho que o Galpão só conseguiu seguir sua estrada ao longo desses trinta anos porque o público de Belo Horizonte abraçou o grupo e se considera parte dele. Quando começamos o espetáculo diante de cinco ou seis mil pessoas ( seria bom fazer uma média entre o cálculo dos organizadores e o da polícia militar, como nos bons e tristes tempos das manifestações estudantis contra a ditadura militar!), senti a força de uma massa que se considerava parte daquilo tudo, daquela história. No domingo, vivi uma das cenas mais emocionantes como ator quando, durante a cena do casamento, meu personagem entoando a canção “Amo-te muito” foi acompanhado por um coro suave e delicado de dez mil (vá perguntar à polícia militar!) vozes.Uma coisa estrondosamnte emocionante! Perceber como aquelas cenas, aquela história, o cenário, os personagens fazem parte da memória de vida de uma geração, de uma cidade.
No sábedo seguinte fomos para o Parque Estrela Dalva e mais uma vez uma multidão encantada seguiu vidrada o espetáculo. Com direito até a cantar um “Parabéns para você…” no final da apresentação. Nosso querido Marcio Medina, que foi assistir com Cacá Carvalho, dizia que nnunca tinha visto uma manifestação tão forte de pertencimento de uma peça a uma comunidade inteira. Como uma lembrança de infância que guardamos com especial carinho.
Mas, mudando de assunto, lavou minha alma, o esclarecedor artigo do João Paulo no caderno “Pensar” do jornal “Estado de Minas” falando das apresentações do Galpão na praça do Papa, com o título “Galpão e a cidade”. Isso poruqe ganhou destaque nas páginas do mesmo jornal a manifestação de protesto da associção de moradores do bairro Mangabeiras contra as desordens causadas ao trânsito da região pelo afluxo de dez mil pessoas. Por mais que transtornos possam acontecer ( e na praça, eles definitivamente não aconteceram) é preciso entender e respeitar essa celebração de uma memória coletiva que se manifestou e extravasou numa noite de sábado e num entardecer estonteante de domingo.
Na verdade, tudo isso é muito sintomático de um país onde os ricos encastelados em suas mansões e condomínios, se afastaram de tal forma do espaço público e do bem comum, que só se interessam pelo seu próprio bem estar e consumo.Isso só me faz ter a certeza de que a retomada do espaço público como celebração da convivência e do projeto de bem estar de uma comunidade é um projeto fundamental que está intrinsecamente ligado com a educação, a saúde, a cidadania das pessoas, a conscientização dos direitos e deveres de cada um, o fim dos abusos e da corrupção. Temos um longo caminho pela frente. Que os filhos dos filhos dessa nova geração que conseguiu assitir a “Romeu e Julieta” cheguem lá. E que nós façamos também a nossa parte, no pouco tempo que ainda nos resta.

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->Notas dispersas da viagem de reestreia de “Romeu e Julieta” 7

Não conheço público que tenha mais respeito e admiração pelo teatro que o inglês. Eles assistem uma peça de quatro horas em pé na maior concentração e respeito. Nas apresentações do Globe era comum ver pessoas assistindo e acompanhando o texto original em inglês.Durante a segunda guerra o horário do teatro em Londres passou para as sete PM porque os alemães costumavam bombardear a cidade lá pelas dez. Assim, os londrinos ainda podiam ir ao teatro antes das bombas caírem do céu. Uma pausa prolongada num teatro britânico torna-se uma suspensão sempre cheia de intensidade.
Além das três apresentações de “Romeu e Julieta”, consegui ver e sentir a reação do público em mais três espetáculos – “KIng John” ( Rei João) da Sérvia, “King Lear” ( Rei Lear) da Bielorrúsia e “As you like it” (Como gostais) da Geórgia. Os três dividiram conosco o palco do “Globe” . Trata-se de três produções do leste europeu. Apesar de não ter aguentado assistir todo o espetáculo dos sérvios, fiquei impressionado com o vigor do teatro do leste europeu. Encenações viscerais, atores com uma presença exuberante, muito música e cenas vigorosas, apesar de estéticamente `as vezes muito sujas. Dizem que o teatro do leste da Europa tem a marca muito presente das encenações do diretor lituano Eimuntas Nekrosius. Ela estará no festival “Globe to globe” com sua famosíssima montagem de “Hamlet” ( em lituano – Hamletas ).
O mais incrível é que, em cada encenação, percebia-se por trás das peças de Shakespeare, o espírito diferente de cada povo. Em três espetáculos bem musicais dava para sentir como o espírito e a maneira de ver o mundo de cada país e cultura se expressava na voz e no corpo dos atores. Esse, aliás, foi o sentido mais admirável, dessa louca empreitada que foi fazer um festival com 37 companhias de trinta e sete países diferentes,uma entrando depois da outra. Possivelmente um dos cenários mais complicados das montagens presentes no festival foi o nosso. As três companhias que assisti usavam o palco praticamente vazio. Tive a impressão de que os ingleses sentiam-se orgulhosos em ouvir as obras de Shakespeare faladas em português, sérvio, russo e georgino(?). Shakespeare, o autor que arrebatou o mundo. ( continua)

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->Notas dispersas da viagem de reestreia de “Romeu e Julieta” 6

Começa a apresentação e, de cara, sentimos uma forte vibração que vem da platéia. Os brasileiros reagem com uma forte emoção e um sentimento de nostalgia da infância e da terra natal distante, que é trazida pela música. Isso a tal ponto que, quando eu entro como o melancólico Romeu cantando e tocando “Lua branca” na perna-de-pau, já vejo na platéia uma porção de pessoas com os olhos vermelhos e enxugando as lágrimas. É incrível o poder emocional que a música traz para o teatro. Já os ingleses parecem achar aquilo tudo curiosamente atrativo e estranho. Seremos sempre os exóticos. O povo que recentemente saiu das florestas e começou a fazer teatro. Mas, por outro lado, como eles adoram teatro e especialmente Shakespeare, ficam bem orgulhosos que o Bardo seja também reverenciado e montado pelo povo estranho das florestas da América do sul.
O espetáculo sai com a energia dos que sobrevivem a um naufrágio. Em alguns momentos é muito difícil segurar a emoção. A voz fica engasgada. A fala tropeça. O espetáculo nos traz muitas lembranças e voltar a encená-lo no Globe, depois de quase doze anos, faz voltar um filme de muita emoção. Traz de volta os ensaios de Morro Vermelho, a presença e a perda da Wanda, os sonhos, conquistas, cicatrizes e perdas de trinta anos de estrada. O palco baixo me obriga a mudar a marcação da segunda parte da “Lua branca”. É impossível levantar do palco e tocar o acordeon ao mesmo tempo. A janela não abre no começo da cena do balcão e Julieta não sai para reverenciar a lua manipulada pelo Narrador. Pouco importa. A cena segue quente e cheia de poesia. A buzina sai mascada e perde-se um pouco o feito cômico da interrupção da cena de amor entre os amantes de Verona. A luta entre Teobaldo e Romeu sai perfeita como até então não havia saído em todos os ensaios. Depois da cena da festa e do balcão, o público está de tal maneira entregue `a encenação, que tudo passa a ser comunhão e magia. A morte de Mercucio e a despedida dos amantes são aplaudidas. O público parece estar hipnotizado e o nosso encontro parece interromper o tempo. Como se experimentássemos um vácuo na passagem irremediável do tempo. Os relógios pararam, a vida quotidiana está suspensa. Quase quatro horas. Depois do monólogo final de Shakespeare, o grupo entoa o “Flôr, minha flôr” e a platéia desperta do sonho e aplaude furiosamente. Despertamos do sonho. Finalmente estreamos!!!

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