por Eduardo Moreira
1 de novembro, 2012, 15:23
O fim do ano se aproxima e estamos prestes a fechar as comemorações dos 30 anos do Galpão com os últimos espetáculos no Rio de Janeiro. 2012 fecha com pouco mais de cem apresentações em 17 cidades de 7 estados brasileiros. A grande concentração de apresentações se deu em Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Consequência de ser um ano de estreia e de lançamento de “Eclipse”, além da concentração da remontagem de “Romeu e Julieta” nas três capitais.
Mesmo assim, só nesta última semana estive em cinco cidades de quatro estados diferentes, apresentando espetáculos do Galpão e participando de encontros com artistas e grupos de teatro – Vitória (ES); Natal (RN); Timóteo (MG) e Caraguatatuba e São José dos Campos (SP). Horas infindáveis em ônibus e aviões, turbulências, estradas esburacadas e perigosas, muito sol e um pouco de chuva, hotéis confortáveis e outros nem tanto.
Nosso primeiro destino foi Vitória, a capital do Espírito Santo. Chegamos ao hotel Cannes, no centro da cidade. Um hotel barulhento e decadente como em geral, todo o Centro mais antigo da cidade. As indicações são de que ninguém saia sozinho à noite. As vielas, becos e escadarias do velho centro parecem esquecidos. Prédios abandonados e entregues ao tempo. Deixaram seus prédios opulentos, os poderes executivos, legislativo e o Judiciário. Todos migraram para uma região mais comercial. Sobra ainda a velha catedral. Na região degradada e desvalorizada, surgem as sedes de alguns grupos como a do “Folgazão” e o “Repertório”.
É para lá que vou, para falar sobre a experiência do Galpão para um grupo de vinte atores. Todos discorrem com muita pertiniência sobre as dificuldades e os grandes desafios da construção do teatro de grupo e o ofício do ator. Quase todos ainda são obrigados a dar aulas de arte ou de teatro, para poderem sobreviver em seus grupos. A grande angústia é o isolamento do teatro e a incapacidade de estabelecer pontos de relação com o público. As leis de incentivo também são bastante criticadas. Alguns dizem que antes, quando os grupos queriam montar um novo trabalho, iam para a sala de ensaio. Hoje, a primeira coisa que fazem é escrever um projeto e ficar esperando que ele seja aprovado. Prática teatral só depois do projeto aprovado. É claro que as leis criaram distorções, mas seria bom pensar também o que teria acontecido com a cultura brasileira sem a existência das leis.
A tarde do mesmo dia é dedicada à apresentação de “Romeu e Julieta” dentro da programação do festival da cidade. Nosso espetáculo está marcado para uma simpática lona de circo montada na área externa do teatro Carmélia. O teatro fica próximo à rodoviária e padece da mesma impressão de decadência que ronda, em geral, o centro da cidade. O interior da casa do prédio dá uma sensação de sujeira e da maresia que vai tomando conta de tudo. O festival apresenta uma ótima programação que, além de bastante extensa, traz uma boa diversidade de grupos do Rio, São Paulo, Minas, Espírito Santo, Nordeste e alguns pontos das regiões Sul e Centro-oeste. A equipe do festival mostra-se solícita e muito simpática. A entrada é gratuita e as pessoas interessadas fazem longas filas para pegar senhas. Fico na dúvida se essa seria mesmo a melhor política para fomentar e formar o público.
Meia hora antes do horário da apresentação e as arquibancadas estão lotadas e ainda existe uma grande fila do lado de fora. Inspirado por Mnouchkine (que não admite que ninguém fique de fora), digo que só podemos começar quando todo o público estiver acomodado. O clima é ameno entre as pessoas que esperam e os organizadores do evento. Não existe nenhum tipo de pressa ou de stress. O horizonte e a presença do mar parecem deixar as pessoas mais tranquilas.
A apresentação acaba se revelando uma celebração de tudo que a trajetória do Galpão significa para muitas das pessoas que estão na plateia.
NATAL – OS “CLOWNS DE SHAKESPEARE” E A ORGANIZAÇÃO DO TEATRO DE GRUPO NO NORDESTE
Para sair de Vitória para Natal é preciso voltar para São Paulo! Sempre São Paulo impondo sua hegemonia como centro do Brasil. Depois de uma hora e vinte de vôo até Guarulhos, sou obrigado a viajar mais duas horas e vinte minutos até Natal. A cidade, inconfundível pela sua brisa e a luminosidade dos seus dias, está cheia de arranha-céus. A grande maioria de qualidade bem duvidosa. A ganância da especulação imobiliária vai roubando a beleza e a qualidade de vida das nossas cidades.
Depois de um almoço no velho Mangaio, chego na nova sede dos Clowns. Encontro com meus queridos amigos, colegas de jornada e de ofício. Fernando, César, Marco, Renata, Nara, Titina, Camile, Dudu, Paulinha, Joel, grandes artistas que conduzem com um enorme empenho um belo trabalho artístico com o grupo “Clowns de Shakespeare”. O trabalho alcança boa repercussão, viajando muito pelo Brasil. O grupo prepara sua primeira turnê internacional europeia, para participar do festival Iberoamericano de teatro de Cádiz, numa Espanha envolta em crise econômica e desemprego. O país que era um modelo de economia neoliberal integrada à Europa na década de noventa e no início deste século, caiu como uma fruta podre.
Mas, voltando ao Nordeste, o panorama de teatro é bastante animador. Fui participar do lançamento do Catálogo de teatro de Grupo dos nove estados do Nordeste. Os livros, escritos a partir de entrevistas feitas com integrantes dos principais grupos do Nordeste, faz um grande painel da história e dos grandes temas e dificuldades enfrentadas por esses grupos. É um documento valiosíssimo, que certamente vai contribuir muito para que os grupos se conheçam melhor e se façam ser conhecidos entre si. Cada vez mais fica claro que é preciso criar e solidificar uma rede de grupos que troquem informações e se ajudem mutuamente. E isso vai se concretizando de maneira bem forte no Nordeste.
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