->O Baobá de Nísia Floresta*

Em 2003, Eduardo foi convidado para passar as férias em Natal / RN com toda a família. Partimos com Tiago, João e Bárbara, para nossa temporada de verão, convidados pelos Clowns de Shakespeare. Em uma de nossas andanças para conhecer o Rio Grande do Norte, me vi completamente dominada por uma emoção inexplicável ao passar diante de um Baobá centenário, plantado no meio de uma pequena cidade chamada Nísia Floresta. Esta árvore, com sua potência natural, existia em meus pensamentos desde a infância, com um toque de maravilhoso, por causa das ilustrações de “O Pequeno Príncipe”. Estava eu, na terra de uma mulher que lutou pela igualdade das mulheres, diante de uma árvore de duzentos anos supostamente plantada por uma mulher africana, sentindo a energia de histórias que sempre amei ler e escutar, num momento de completa sintonia com as forças da natureza.

No mesmo instante tive uma inspiração: um dia, quero montar um espetáculo que aconteça debaixo de uma árvore e que tenha como ponto de partida os contos tradicionais brasileiros. Câmara Cascudo com certeza estava por ali também… Eu sou dessas que abraçam árvores, pedras e sempre presto atenção aos sinais da natureza. Em 2008, afortunadamente, pude colocar essa inspiração para fora. Fui convidada para dirigir o Projeto Pé na Rua do Galpão Cine-Horto e, dessa matriz nasceu o espetáculo Arande Gróvore, que encenávamos sempre debaixo de uma grande árvore. Mas isso, é outra história…

Agora, estou lendo um livro que está me fascinando: “Encontros com o griot Sotigui Kouyaté”, escrito por Isaac Bernat. Vi Sotigui em cena algumas vezes, nos espetáculos dirigidos por Peter Brook e para sempre guardarei na memória a imponência doce da sua figura enorme, com braços e pernas muito longos e mãos tão grandes que capturavam a todo instante o nosso olhar. Isso sem falar na energia de paz e sabedoria que exalava do seu corpo em cena. Lendo o livro de Isaac, descubro que Sotigui era um griot, que significa mestre na arte de falar, responsável pela transmissão de conhecimento , apaziguador de conflitos, contador de histórias, genealogista, conselheiro de reis, nascido numa tradicional família de griots, os Kouyaté. Herdeiro por hereditariedade desse ofício que sua família exerceu na África Ocidental desde tempos imemoriais, referência cultural de países como Mali, Guiné e Burkina Faso, região onde viveu e vive essa tradicional família, ele, não separava a vida da arte. Sotigui não separava o ofício e a vida, ele unia o visível ao invisível através de uma prática diária do sagrado. Trabalhando no plano da sensibilidade, ele se mantinha em conexão constante com o mundo espiritual.

Acompanhando numa leitura ávida a experiência maravilhosa de Bernat na África junto a Sotigui, fico sabendo que o Baobá é uma árvore sagrada onde antigamente se enterravam os griots, e por isso, há o costume das pessoas se sentarem à sua sombra para ouvir e contar histórias. Em cada detalhe do livro, em cada pensamento do encontro destes homens notáveis, fui criando uma identificação profunda com a simplicidade sofisticada dessa troca, que aguçou e fortaleceu o desejo de ir cada vez mais ao encontro das minhas singularidades.

Tudo isso para dizer que, mesmo sem saber que em Nísia Floresta eu estava diante de uma árvore sagrada para os griots, em minha rudimentar conexão com minha ancestralidade, recebi o recado direitinho. Nós atores, somos contadores de histórias, cada qual ao seu jeito e precisamos nos conectar com nossas raízes. Que são profundas como as dos Baobás. Por isso, fiquei com uma vontade louca de contar essa história.

No generoso relato de Bernat, ele compartilha muitas pérolas de Sotigui. Faço um colar com duas: “Para a tradição malinca, não há nada que alguém possa lhe dar que já não esteja em você” e “Quando você estiver perdido, lembre-se de onde veio e não estará mais perdido”.

Para mais, sugiro a leitura do maravilhoso livro “Encontros com o griot Sotigui Kouyaté” – de Isaac Bernard – Editora Pallas.

*texto escrito em janeiro de 2016

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->Notícias

Finalmente vem aí um pocket musical. do Galpão..

Depois da apresentação de três workshops coletivos em que o grupo mergulhou na proposta de montar um espetáculo musical, começam agora, no princípio de julho, com direção de Simone Ordones e Lydia dell’Picchia, os ensaios do trabalho.

Os workshops, dirigidos por Simone Ordones, Julio Maciel e Luiz Rocha, apresentaram cenas que exploraram diferentes possibilidades, abordando temas e formas teatrais as mais diversas.

.A cena dirigida pelo Julio teve como mote um reencontro de um grupo de atores( A “Tropical trupe”), num asilo de velhos, em comemoração aos cem anos da fundação da companhia. Já a cena dirigida pela Simone fez um mergulho no universo feminino através de diferentes canções abordando a exploração do trabalho feminino. Já Luiz Rocha criou um sarau cênico-musical misturando músicas do repertório do Galpão com textos do autor uruguaio Eduardo Galeano.

Os workshops foram apresentados para um público de convidados e foi uma etapa fundamental para que os atores do grupo refletissem sobre o novo trabalho a ser montado.

A ideia da montagem vem ao encontro de uma diversificação das formas teatrais exploradas pelo grupo, com a busca por espetáculos de porte menor e possíveis de serem apresentados em locais alternativos e de mais fácil circulação.

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->DIÁRIO DA TURNÊ ESPÍRITO SANTO-BAHIA

Todas as observações e opiniões aqui emitidas são de inteira responsabilidade desse escrivinhador, sem nenhuma  relação com o Grupo Galpão ou qualquer um de seus membros.

 

31/08

Chegada a São Mateus,

Últimos preparativos para mais uma viagem. Depois de uma rápida parada em Presidente Prudente, noroeste do estado de São Paulo, para uma única apresentação de “Os Gigantes da Montanha” no festival da cidade, passamos menos de um dia em Belo Horizonte, e já estamos de partida para a turnê pelo Espírito Santo e Bahia.

Já não sei muito bem o que é ter casa depois de oito dias rodando por cidades de Minas, oito dias na França por conta do festival de Avignon, dez dias de filmagens em Diamantina, cinco fins de semana de temporada no SESC Santana, em São Paulo. Sinto-me como um caramujo que leva sua casa própria nas costas. A falta de lugar ou a minha casa é o mundo.

Pegamos um carro no Galpão em direção ao aeroporto da Pampulha. A mudança para um aeroporto mais próximo, pequeno e caseiro é, de certa forma, um alívio. Talvez por causa da novidade, uma vez que a viagem para Confins já se tornou uma repetição tediosa. Viajamos Jimena, Carol, Fábio e eu. Não sei por que cargas d’água, nosso voo saiu separado do resto do grupo. De toda a forma, sair da Pampulha já deu um outro tom para nossa partida. Bom sinal.

Jimena está entrando no oitavo mês de gravidez. O pequeno Caetano certamente vai estranhar tanta agitação. Espero que goste. Sendo da estirpe dos mambembes, certamente vai se divertir. O atendente da companhia aérea pede o atestado médico. O teatro é uma atividade em que sempre é preciso um tanto de coragem, ainda mais com uma barriga de quase oito meses, dormindo cada dia num hotel, numa cidade diferente, enfrentando viagens de avião, vans, ônibus e horas infindáveis de ensaios, passagens de som, aquecimentos e apresentações para milhares de pessoas. Parabéns para a intrépida Jimena!

Chegamos ao acanhado aeroporto de Vitória e estamos à espera do resto da trupe. O grupo chega uma hora depois e seguimos de ônibus, por mais de quatro horas, em direção ao norte do Espírito Santo, na cidade de São Mateus. A rota é a famosa BR101, que sai do sul do país e chega até o norte. Uma movimentadíssima estrada de integração nacional. Nossa parada se dá numa cadeia de alimentação chamada “101”. Deve ser algum tipo de concessão para o grupo que controla a rodovia. A estrada é a metáfora acabada dessa profissão transitória e efêmera que é o teatro. Como Mercúrio, estamos o tempo todo circulando de um canto para o outro. Volto ao tema da falta de pouso.

Chegamos a São Mateus um pouco depois da meia-noite. O hotel já é um velho conhecido. Estivemos aqui há uns dez anos, circulando com o espetáculo “Um homem é um homem”. As dependências do hotel, situado numa galeria, bem no centro da cidade, me trazem lembranças das brincadeiras com minha filha, Bárbara, na época  entre os dois e três anos. A piscina do hotel me traz esse lampejo de lembrança que estava guardada em algum lugar do meu passado. Saudades da infância da minha filha, de um outro tempo, de algo que não volta mais.

Novos ares que trazem ansiedade noturna e insônia.

 

Primeiro de setembro,

Dois terços de 2015 já se foram. O tempo caminha a compassos cada vez mais largos. Vou cedo, com os técnicos, escolher o lugar no porto de São Mateus, onde começaremos nossas apresentações, com “Os Gigantes da Montanha”. A praça do porto, às margens do rio Cricaré, é um lugar muito charmoso e de proporções bem aconchegantes. É uma pena que algumas construções da cidade alta manchem a paisagem do se vê da perspectiva do rio. O rio passando suavemente ao largo da praça, as casas antigas, o sítio histórico que foi preservado pelas prostitutas. O preconceito que separa a cidade alta (moderna e habitada pelo comércio e pelos mais ricos) da baixa (antiga e ocupada pelos marginais e alternativos), me faz lembrar um pouco Salvador e tantas outras cidades brasileiras, sempre marcadas pelo preconceito e a segregação.

São Mateus é de 1.544 e foi chamada originalmente de povoado de “Cricaré”, em homenagem ao rio. Foi o ponto de maior entrada de escravos no norte do Espírito Santo e tem hoje uma das maiores populações negras do estado. Dá um pouco de aflição perceber que a parte baixa da cidade, que é tão bonita e cheia de significado, esteja relegada ao esquecimento, enquanto a parte alta, árida e desprovida de qualquer poesia e beleza, seja onde a cidade pulsa. Justiça seja feita, até existe um mercado interessante numa das principais avenidas da parte alta, mas o conjunto da obra é de uma feiura que salta aos olhos. Triste queda do ser humano que desbanca a nossa falsa crença de que a história anda para a frente.

São Mateus já teve um festival de teatro que se estendeu ao longo das décadas de setenta e oitenta. O próprio Galpão chegou a apresentar aqui, “Corra enquanto é tempo” e “A comédia da esposa muda”. Já nesse século, as edições se tornaram mais escassas e o festival acabou minguando. Hoje, o que vemos funcionar na área do porto, a duras penas, é uma oficina de máscaras para crianças, uma creche e uma secretaria de cultura, que funciona num belo casarão caindo aos pedaços e com precárias condições de funcionamento. Isso num lugar que deveria estar amplamente ocupado pelo turismo, educação e cultura. No centro da praça está um monumento às prostitutas que conseguiram preservar aquele local histórico.

Passamos à tarde no porto fazendo aquecimento vocal com a gravação dos exercícios na voz de Francesca e equalizando o som dos microfones. A comunidade vai chegando aos poucos, com certa desconfiança, que logo vai sendo quebrada, especialmente, pelas crianças. Bagre está estacionado com seu caminhão nas proximidades e já prepara uma peixada para à noite, comemoração da estreia da temporada. Os ciganos chegaram e estão ocupando a praça. A vida do porto se agita e se transforma. O espetáculo é um sucesso e as pessoas, ao final, vêm nos agradecer pelo fato de estarmos ali, de termos escolhido a cidade para apresentar o espetáculo. Um grupo de capoeiristas abre as portas de sua sede e começa a esquentar os tambores. Um churrasco começa a ser feito ao ar livre. No outro extremo do largo, instala-se uma vendedora de pastéis, com uma enorme vasilha de óleo fervente. Sete horas, e as trezentas cadeiras já estão ocupadas. Algumas crianças assustam-se com a entrada dos fantasmas na cena inicial. Os cachorros ficam alvoroçados com o movimento, mas nem tudo é caos e agitação no mundo canino: na cena, já no final da peça, em que Cotrone, dirigindo-se à Spizzi, diz que “muitas vezes falamos em vão, como um cachorro noturno que, depois de ter latido para uma sombra, volta para o seu canto”, um cachorro com alma teatral, entra em cena, solta um latido melancólico e deixa a ribalta com o rabo entre as pernas. Foi aplaudido em cena aberta.

 

02/09

Hora de tentar colocar o corpo no lugar. Tantas viagens de ônibus, decolagens e aterrissagens, tantas camas e travesseiros estranhos e diferentes, deslocamentos de vans, o cotidiano em permanente transitoriedade, deixa o corpo fora de lugar. Fazemos um alongamento no chão, conduzido pela Fernanda.  Estamos na sede da secretaria de Cultura de São Mateus, que tem um belo salão no seu segundo andar. Existe ali um arcabouço de teatro. A dedicada secretária nos diz que saiu uma verba do IPHAN para reformar o casarão. Deitado no chão, percebo uma grande quantidade de furos nas telhas do teto.

Passamos as músicas no tablado montado para “De Tempo Somos”, que será encenado no mesmo lugar onde representamos “Gigantes”. É uma forma de simplificar o trabalho de montagem para os técnicos e de também marcar um território. Hoje as pessoas já se aproximam com muito mais naturalidade e soltura, perguntando a que horas será o espetáculo e se amanhã vai ter mais. Alguns meninos ficam curiosos e indagam sobre a sexualidade de Paulo André e seu personagem do dia anterior, Batalha. Afinal, é homem ou mulher? Hoje os bares no entorno do porto estão cheios e tudo transparece um clima bem mais festivo.

Noite de futebol no Brasil. O Espírito Santo torce pelos times do Rio. A TV, por conveniência comercial, torce pelo “Curintians”. Completamos nossa quarta vinda à cidade de São Mateus. Algumas pessoas falam da nossa apresentação com um “Um homem é um homem”. A cidade adormece. Os casarões resistem e o silêncio noturno parece encarnar o banzo dos milhares de escravos que aportaram à força pela entrada do porto do rio Cricaré.

 

03/09

Sete da manhã e já estamos de partida junto com os técnicos para a cidade de Linhares. A montagem dos “Gigantes” é mais trabalhosa e exige mais força por parte da técnica. Rumamos em direção ao sul do estado. Linhares é um polo econômico importante, centro de empresas como a Petrobras e a Aracruz.  Cortada ao meio pela BR101, a cidade cresceu e se modernizou bastante. Nosso hotel fica bem em frente ao campo de futebol do “América Futebol Clube”, com as cores e o escudo idênticos ao velho América carioca, segundo time de todos os torcedores do Rio.

A crise está gritando por aqui. A primeira coisa que gosto de fazer, no saguão dos hotéis por onde chegamos, é folhear as páginas dos jornais locais. Por aqui, as manchetes estampam a demissão de funcionários contratados pela prefeitura, que já não sabe como pode pagar suas contas e saldar seus compromissos. O macro reflete no micro e já não sabemos mais onde começa e onde termina essa crise. O certo é que os mais afetados serão, mais uma vez, os mais necessitados.

Nosso espetáculo está instalado na recém-construída Praça 22 de Agosto. O que teria acontecido na referida data? Consulto o todo poderoso Google e ele me ensina que 22 de agosto é o dia do folclore. A praça é simpática, bem cuidada, mas já foi atacada pelos pichadores. Os mesmos que deixaram suas marcas em vários casarões do centro antigo de São Mateus. Tudo o que é público no Brasil vira terra de ninguém. O que impera é o desleixo e o importante é dar vazão à frustração e à falta de oportunidade de uma imensa massa. Ninguém é dono de nada e existe sempre um sentimento de vingança a tudo que é público.

O Brasil é a terra do caixote e do puxadinho. As construções têm sempre aquele feitio pragmático dos caixotes de Brasília e vão se estendendo com apêndices improvisados. Não existe a menor possibilidade de planejamento. A favela é a nossa grande cara. Em Linhares, motos com alto-falantes estridentes percorrem as ruas anunciando forrós e bailes sertanejos. Do jeito que a cultura no Brasil está encurralada e na míngua, só vai restar o sertanejo universitário, o Lobão e as novelas da televisão. E, talvez, a OSESP, para o deleite do PSDB paulistano, ao ter a sensação de que a região dos Jardins é Nova York ou Paris e Londres. O mundo gira dramaticamente e vendo as cenas dos naufrágios dos refugiados sírios, que tentam chegar à Europa, fico pensando em qual é o sentido de se fazer teatro em Linhares.

Apresentação dos “Gigantes” na praça. Muitas crianças concentram-se no chão, em frente à plateia. A dispersão é grande e fica difícil manter o jogo e a concentração. O teatro de rua tem um mecanismo delicado entre o dentro e o fora da cena. É preciso estar sempre bem conectado com o público e com a sua vibração, mas quando a coisa tende a degringolar, é preciso reforçar o jogo interno entre os atores. Fortalecer a comunicação entre os que estão dentro dos limites da encenação. Se a dispersão do público te consome, fica muito complicado manter a conexão com a história que está sendo contada. Essa apresentação foi bem emblemática quanto a esse tipo de dilema. Aliás, o teatro não dá tréguas. Cada encontro com o público, cada nova função é um percurso novo, por mais que as falas e as marcas sejam as mesmas.

 

04/09 Sexta-feira

Entrevista para o jornal “A Gazeta” de Vitória. As pautas e as perguntas seguem sempre um padrão, independente do jornal. Nada escapa ao previsível e ao clichê. A pergunta já pressupõe uma resposta, assim o sistema segue dentro dos seus formatos. Tudo muito pasteurizado, seguindo um padrão, que é quase sempre ditado pela Rede Globo de televisão. Incrível como um país enorme e tão diverso como o Brasil, se rendeu a uma unidade domesticada, à mercê de um circo de horrores, em que monstros, com as expressões paralisadas pelo excesso de esticamentos e enchimentos, propagam o medo, a mesquinharia, a vulgaridade, sempre com uma visão simplista, adocicada e moralista da vida e seus percalços. Não posso deixar de pensar em Baudelaire, em seu extraordinário “Meu coração a nu”, um dos textos que eu havia separado como um dos possíveis selecionados para a composição do “De Tempos Somos:

“É impossível percorrer um jornal qualquer, seja qual for o dia, o mês ou o ano, sem deparar quase linha a linha com os sinais da perversidade humana mais detestável, quase sempre acompanhados pelas mais inverossímeis proclamações de honestidade, de bons sentimentos e de caridade, ou por manifestações da maior confiança em relação ao progresso e à civilização. Da primeira à última linha todos os jornais não passam de um amontoado de horrores. Guerras, crimes, atentados ao pudor e crimes particulares, enfim, o delírio da crueldade universal. E é com esse repugnante aperitivo que o homem civilizado toma todos os dias o seu café da manhã. Tudo neste mundo transpira a crime: o jornal, a muralha e a face do homem. Custa-me acreditar que se possa de mão limpa tocar num jornal sem sentir um vômito de repulsa”.

 

Fazemos uma tele reunião com nosso gerente para falar de assuntos urgentes do Galpão. Adorei. Agora só quero fazer tele reuniões!

Almoço num hipermercado à beira da rodovia. São tantas televisões expostas no enorme salão da praça de alimentação, que me dá a impressão de que não somos nós que as assistimos, mas que são elas que nos vigiam. Não existe alternativa. Assim como não existe a menor possibilidade de silêncio. O tempo todo é preciso estar com algum estímulo sonoro e visual. Algo que preencha o vazio insondável que nos ronda e nos ameaça. É a mesma sina com a presença divina. Somos martirizados pela permanente presença de Deus. Aquele carro foi presente de Deus, aquele outro é guiado por Jesus. Tudo tem que vir acompanhado de uma saudação divina.

Hoje fizemos aquecimento corporal e vocal acompanhados pelo grupo de teatro “Shalom”, que montou a peça católica “Filho de Deus menino meu”. São jovens simpáticos, com olhares esperançosos e cheios de boas intenções. A Igreja sempre foi um lugar de iniciação teatral, especialmente no interior. Fico me lembrando do grupo “Fratelo” de Araxá, que está sendo dirigido pelo Júlio e que também teve sua iniciação dentro de uma igreja.

 

05/09, Sábado

Trânsito parado na BR101. Um acidente com uma carreta e dois carros de passeio. As rodovias no Brasil seguem com sua rotina de carnificina. Ficamos uma hora e meia parados nas proximidades do município da Serra, quase chegando a Vitória. Bexigas cheias, urinas sendo aliviadas na beira da estrada. Mais um pretexto para fotos a serem colocadas na “rede”. Essa incomensurável rede de tolices, vulgaridades, perversidades e matérias de absoluta falta de sentido e inutilidades. Um lixo total usado em prol de uma distraçãozinha nesse tédio absoluto que é a vida moderna.

Jimena não passou bem esta noite, sentiu várias contrações e dores. Ligamos o sinal de alerta. Ela nos diz que se sente bem quando faz o espetáculo. Talvez seja muito complicado e arriscado ir com ela até o final desta turnê. Colocamos as barbas de molho.

Estamos hospedados na praia do Boi, num antigo hotel do SENAC. Temos uma bela vista da baía de Vitória. A região é muito bonita. A ocupação da orla é feia. Como o Rio, em que a paisagem é deslumbrante, mas a ocupação humana deixa muito a desejar. O ser humano acaba sempre atrapalhando tudo. O hotel tem cara de colônia de férias. Os mineiros não podem sentir o cheiro da maresia que logo colocam bermudas, chinelos e bonés, por mais nublado que esteja o tempo. A falta atávica do mar mexe com seus sentimentos profundos.

Dia de conversa com os grupos de teatro de Vitória, na sede do “Folgazões”. O grupo ocupa uma sede própria, situada bem ao lado do palácio do Governo. Está bem em frente à praça onde José de Anchieta fazia suas pregações aos índios e aos gentios. Levo todo o material de registro da história do Galpão, entre livros, CDs, DVDs, para ilustrar um pouco o grande esforço de preservação da memória desenvolvido pelo grupo. No debate, estão presentes mais de cinquenta pessoas, com destaque para um grupo de pesquisadores que está desenvolvendo um projeto piloto para a implantação da graduação em artes cênicas na UFES. Muitas vezes o diálogo descamba para o tom de lamentação pela penúria do teatro. Isso é um tanto tedioso, mas, no geral, a conversa é positiva e dá para sentir que as pessoas consideram o encontro algo importante e como o trabalho do Galpão serve como referência para os atores e os grupos.

 

06/09 , domingo

Chove em Vitória e vivemos, mais uma vez, a agonia de fazer ou não fazer o espetáculo. Não existe a possibilidade de um lugar alternativo no parque da Pedra da Cebola. Vou cedo ver o espaço. Uma pelada com péssimos jogadores de futebol de domingo se desenrola, com gritos e entusiasmo excessivos. A manhã de domingo traz uma breve pausa na agitação das cidades. Bagre, nosso motorista, ao ter que atravessar um campo de grama com a carreta, para aproximá-la ao local do espetáculo, diz, parafraseando o personagem de Batalha dos “Gigantes”: “Eu tenho mêdo!” As frases mais marcantes de cada espetáculo acabam permanecendo e suplantando o tempo do próprio espetáculo, sendo sempre repetidas pelo elenco e pela equipe técnica como um bordão.

Ensaio com Fernanda fazendo Ilse numa sala do hotel. É uma daquelas estranhas salas de encontro de convenções. Todos estão cansados, mas o trabalho sai concentrado. Ao final, lágrimas nos olhos de Jimena, que parece mais aliviada. Fernanda está preparada para assumir o desafio de fazer Ilse em Ilhéus. Cumprimentos e aplausos gerais para as duas.

Passamos o som no parque da Pedra da Cebola. Nuvens negras e enormes aviões passam bem rente ao nosso cenário. O parque está colado ao aeroporto de Vitória. Existe uma tensão no ar. A partir das cinco horas começam a chegar alguns atores dos grupos da cidade, que acompanham o aquecimento e os ajustes de música. Aproveitamos algumas passagens, para firmar as marcações com a Fernanda. A manipulação de alguns objetos de cena é feita pela primeira vez.

Seis e meia. O apertado camarim está abarrotado. Fernanda testa a maquiagem de Ilse. As cadeiras e o chão já estão apinhados de gente. Temos entre setecentas e mil pessoas que aguardam pelo espetáculo. Gilson, o menino portador da síndrome de Down, que participou do nosso workshop sobre “Os persas”, no festival de Inverno da UFMG, em Ouro Preto, está presente. Veio acompanhado de sua mãe.  Ele já está com uma barba grisalha. É melhor nem pensar quantos anos já se passaram, desde que fizemos aquele trabalho sobre a peça de Ésquilo, com supervisão de Adyr Assumpção.

 

07/09, segunda

Programas de entrevistas para a televisão. Somos forçados a acordar de madrugada e a nos expormos com roupas escuras ao sol escaldante à beira da praia de Camburi. O jornalismo televisivo investe numa máscara de descontração e improviso que só revela sua cartela de programação previsível.

Aliás, é inacreditável como os colunistas se repetem nos jornais. O maior diário de Vitória, “A Gazeta” é uma filial de “O Globo” e lá estão os mesmo articulistas de sempre, que também martelam as pessoas maciçamente na imposição televisiva. A verdade é que vivemos uma uniformização brutal da informação no Brasil. Um verdadeiro pensamento único onde falta polêmica, discordância e abertura de opiniões. Muita manipulação e quase nenhum espírito crítico. E quando se aponta para o problema, logo te jogam na cara que você está fazendo o jogo do outro lado, nesse Fla-Flu, cheio de rancor e preconceito que tomou conta de qualquer debate no Brasil. Mas é só dar uma olhada em quem controla as filiais da TV Globo no Nordeste e os grandes jornais da imprensa escrita, para perceber a concentração e controle da mídia que, pretensamente, estaria defendendo a pluralidade de pensamento no país. O fato é que o jornalismo exercido por aqui está às léguas de qualquer tipo de “imparcialidade”.

Mas, voltemos ao teatro. Uma fila gigantesca se forma em torno do teatro Carlos Gomes para que as pessoas consigam retirar seus ingressos para assistir ao “De Tempos Somos”. É um reflexo da nossa apresentação de “Gigantes”. Os dois espetáculos fazem uma bela dobradinha, em que um acrescenta e complementa o outro. São dois espetáculos de muita qualidade e tão diferentes entre si, que explicitam de forma muito clara a excelência e a diversidade do trabalho do Galpão. O teatro Carlos Gomes fica lotado e mais de cem pessoas não conseguem entrar. A apresentação estabelece uma comunhão única com os presentes. A primeira música já coloca o público dentro do espetáculo. Ao final, há um estado de êxtase. Todos os grupos que estavam no debate estão presentes. Nossa presença em Vitória consegue promover um movimento de mobilização entre os artistas da cidade. Ao final, comemoramos com uma cerveja moderada –(afinal, saímos amanhã às 5h30, para Ilhéus, na Bahia) com amigos do grupo Boyasha.

 

08/09, terça-feira

O dia começa com o cancelamento do voo da TAM. Nossa rota seria Vitória-Brasília-Ilhéus. Um percurso meio estranho: viajar uma hora e dez minutos até o Distrito Federal e depois mais uma hora e vinte até o sul da Bahia. Se tivesse um voo direto, não levaríamos mais que quarenta minutos. As rotas de voo no Brasil são muito concentradas, vide a ligação de Belo Horizonte com o Nordeste que é quase sempre feita via São Paulo ou Brasília.

O aeroporto de Brasília está enorme. Hoje só é superado em movimento pelo de Cumbica. Caminhamos mais de dois quilômetros (segundo o aplicativo de passos dados!) para encontrar o desembarque, desembarcar, embarcar de novo, e achar o novo portão de embarque. É impressionante a quantidade de “duty- frees” por onde passamos mesmo no embarque nacional.

Chegamos a Ilhéus. A pista do aeroporto é pequena. Dizem que ele fecha com certa frequência, especialmente, quando aparecem rajadas de ventos. O centro da cidade fica numa ilha. Estamos no hotel Ilhéus, que fica em frente à catedral de São Sebastião. A igreja tem uma escadaria e “Os Gigantes” será apresentado lá. Comemos uma moqueca baiana no restaurante “Vesúvio”, que ficou famoso pelo romance “Gabriela cravo e canela”, de Jorge Amado. Era a bodega do Nacib, o amante de Gabriela. Com a pança cheia, a solução é fazer a digestão caminhando pelas ruas do centro da cidade. Visitamos a casa onde morou Jorge Amado. A guia nos diz que seu pai chegou a ganhar na loteria e ter bastante dinheiro, mas que perdeu tudo por ser um “mão aberta”, que emprestava para os outros e não sabia cobrar de volta. A Bahia tende sempre para uma folclórica auto-exaltação. Tudo aqui parece mais pitoresco, típico e engraçado. É um lugar simpático, mas dá a impressão de muito improviso. Improviso demais.

O centro de Ilhéus tem prédios muito interessantes, mas é tão desleixado e mal cuidado. Uma pena! As construções se misturam e se acumulam. Prevalece a lógica do caixote e do puxadinho e belos casarões se misturam com horrendas construções, sem o menor critério estético. O alto da cidade é dominado pela bonita igreja da Nossa Senhora da Piedade, um convento fundado pelas Irmãs Ursulinas. Ao lado do convento fica a majestosa casa do Bispo, hoje em ruínas. Fomos conhecer também o teatro municipal da cidade, que está em obras e fechado há quase dois anos. Foi, segundo o simpático e falante vigia, interditado depois do acidente da boite Kiss no sul do Brasil.

 

09/09, quarta

Visita ao terreiro de Mãe Ilza Mukalê, um dos mais tradicionais no culto da nação angola. O ipê foi fundado em 1.885 e D. Ilza é a quarta geração do candomblé. Ela é filha de Matamba Tombenci Neto, que é quem dá o nome ao terreiro. Jogo de búzios e recomendação de banhos de limpeza e de descarrego. O que mais me atrai nas religiões africanas é a conexão íntima com os elementos da natureza. Existe uma leveza e uma soltura que contrasta com a tristeza e a sisudez das religiões monoteístas, sempre acusatórias e punitivas. Mãe Ilza é um doce de pessoa, cheia de vitalidade.

Almoço com Rogério Matos, nosso produtor e membro do “Teatro Popular de Ilhéus”. No restaurante, encontramos com uma amiga sua que é delegada. A polícia local acaba de fazer uma apreensão de uma tonelada de maconha. A moça, bastante falante, diz que é totalmente favorável à  liberação para o consumo próprio do usuário. Ela nos diz que está cansada de ter que fazer expediente para prender e autuar gente que foi presa com um baseado no bolso. Como em todos os lugares do Brasil, das grandes, passando pelas médias e chegando às pequenas cidades, o grande flagelo é o consumo de crack. Em Ilhéus não é diferente. O centro está cheio de gente esmolambada, com uma magreza de Biafra, os corpos destruídos, os olhares sulcados, a expressão de alucinados. Nossa amiga delegada nos diz que foi o crack que transformou, de fato, a questão da droga num problema de segurança pública no país. Acompanhando a montagem está uma mulher que tem vinte e poucos anos e uma aparência de sessenta. Vinte anos, cinco filhos e devastada pelo crack. As perspectivas são sombrias.

Longuíssimo ensaio de som no simpático circo do “Teatro Popular de Ilhéus”. A lona está montada na beira da praia. O grupo já teve sua sede num casarão no centro da cidade. Acabaram despejados do lugar, onde hoje funciona uma loja de roupas. A manutenção do espaço é feita a duríssimas penas. Falta estrutura de banheiros, os livros estão dispostos numa biblioteca improvisada, mas o espaço tem alma.

Após a apresentação do “De Tempo Somos”, faço um rápido debate com o público. Um ônibus com estudantes de teatro veio da universidade de Jequié. Duas professoras trazem um grupo de trinta alunos. Existe brilho nos olhos desses jovens. Um brilho que se apagou definitivamente dos olhares dos desesperados que perambulam pelas ruas, devastados pelo crack.

 

 

10/09, quinta

Carros de som, inclusive um com a propaganda das peças do Galpão, circulam incessantemente pela cidade, criando uma insuportável poluição sonora. O volume é de deixar qualquer cristão alucinado.

Mais ensaios pela manhã para deixarmos Fernanda um pouco mais tranquila para assumir o posto de Ilse. O processo de substituição foi muito fácil, especialmente, pelo empenho e a disciplina da nossa atriz.

Visito o Bataclan, o bordel que tinha uma conexão secreta com o bar Vesúvio. Dizem que, enquanto as esposas iam para a missa, os homens ficavam no bar e de lá, por uma passagem secreta, se divertiam no Bataclan. As más línguas informam que o padre sempre esticava as missas, para que os senhores pudessem ter mais tempo e tranquilidade para a diversão. Ilhéus é cheia de lojas que vendem chocolate. Não sei se virou tradição, mas hoje, quinta-feira, teve uma missa enorme, que foi das 11h às 13h30. Do meu quarto, fico escutando os cantos religiosos entoados pelos fiéis.

Não nos sobra alternativa senão fritar no sol, fazendo aquecimento de voz, equalização dos microfones e ensaiando algumas cenas com os objetos de cena. A brisa do mar traz um cheiro de mangue e de esgoto, que chega a embaralhar o estômago. Transeuntes param e tiram fotos. O espetáculo  está marcado  para as 18h, mas é certo que teremos que atrasar. É impossível afinar a luz com esse tempo exíguo de escuro. Dez para as seis e a escadaria da catedral e as cadeiras já estão tomadas. Um largo espaço de chão ainda está vazio. A imensa maioria da plateia é composta de jovens. Um grupo de atores da cidade de Serra Grande está montando “Romeu e Julieta”, baseado na versão do Galpão. Teuda encontra uma amiga de Santo Antonio do Leite, de Minas.

Estreias de Fernanda fazendo o papel de Ilse e Fabinho pilotando a mesa de som. É claro que o espetáculo apresenta alguns probleminhas de operação e passagens de cenas truncadas. Fernanda se sai muito bem. Temos um público de aproximadamente 800 pessoas que assiste ao espetáculo com muita atenção e em absoluto silêncio. Todos já demonstram cansaço e parecem exauridos  de tantas apresentações, ensaios, testes de som, entrevistas, chegadas e partidas, viagens de van, ônibus e aviões. Só em 2015 serão vinte e quatro cidades em 102 apresentações. A idade e a passagem do tempo vão apresentando a conta. Há alguns anos ainda fazíamos excursões de uma média de três semanas. Hoje acho difícil suportarmos mais de duas semanas direto. Os atores e os técnicos reclamam de dores e contusões. O encontro com grandes públicos, na média entre setecentas e mil pessoas, em lugares abertos, são experiências extenuantes. Ao final do espetáculo, a adrenalina só começa a baixar depois de um bom tempo.

 

Assisto, num bar pé sujo, a vitória do Flamengo sobre o Cruzeiro. Todos vibram com os dois gols. A Bahia é rubro negra.

 

11/09

Viagem para Salvador. Somos recebidos no aeroporto pela simpática Fernanda, nossa produtora local. No caminho do aeroporto até ao hotel, nota-se como a cidade está lotada de obras, especialmente, o horripilante trem de superfície, que parece mais um viaduto encaixotado, enfeando terrivelmente a paisagem. A construção já foi alvo de escândalos e muitos boatos.

Salvador está apinhada de favelas e de construções precárias que se avolumam numa organização caótica. Acho que, pela primeira vez nessa viagem terei, de fato, uma tarde de folga. Aproveito para caminhar pelo Campo Grande e ir, pela Sete de setembro, até a praça Castro Alves, onde fica o simpático cine Glauber Rocha. Na livraria do cinema, compro “Americanah”, livro da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A indicação me foi dada pelo livreiro, enquanto eu lhe indagava sobre um livro de outra escritora, a sul-africana branca Nadine Gordimer e sua obra “O melhor tempo é o presente”.

Assisto ao filme “Quando será que ela volta”, de Anna Muylaert, que foi escolhido como candidato brasileiro para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro. O filme é bem feito e traz uma boa opção à encruzilhada do cinema nacional, dividido entre filmes muito conceituais e cabeças de um lado, e de outro, pelo comercial idiota e televisivo. A produção é dos Gullane e tem no elenco o Michael Joseas que fez o menino de “O ano em que meus pais saíram de férias”. O trabalho dos atores é muito bom, especialmente o da Regina Casé.

A noite ainda reserva a abertura do FILTE – Festival latino-americano de teatro de Salvador, com o espetáculo “Fishman”, dos amigos do teatro Bagaceira, de Fortaleza. Na entrada do teatro, baianas a caráter servem abarás para os espectadores. O festival se mantém na base da resistência e, infelizmente, por questões contratuais, nossos espetáculos não puderam ser inseridos dentro da sua programação.

 

 

12/09, sábado

Os técnicos penam para entrar com a carga no labiríntico espaço do SESC Pelourinho. São muitas escadas e o caminhão tem dificuldades para entrar na área protegida pelo patrimônio histórico. Nas ladeiras, em frente ao Espaço cultural Jorge Amado, soam os tambores numa cantilena turística, que parece meio superficial. Um totem de Michael Jackson pendurado na sacada de um casarão nos indica o lugar onde o ídolo pop regeu o batuque do Olodum. A axé music, as roupas coloridas, a malemolência e os sorrisos estampados parecem querer te lembrar o tempo todo: “Sorria, você está na Bahia!”

Em contraponto a isso, se o turista quiser conhecer o Centro cultural da casa do Benin, no Pelourinho, ele não pode, porque o espaço está fechado em pleno sábado. Todos dizem que o espaço dedicado ao Benin é um dos pontos altos da cultura afro na Bahia. A maioria dos escravos que vieram para a Bahia era do Benin. É uma pena que não me sobre tempo para visitar o ipê de Mãe Estela, assim como o museu de Pierre Verger. A Bahia é um lugar incrível, mas prefere sempre ficar exaltando a superficialidade de sua cultura.

Antes do aquecimento e da preparação para o espetáculo, faço uma visita técnica com a produção, até o parque dos Namorados, na praia da Pituba, onde faremos os “Gigantes”. A viagem é longa e percorremos um longo trecho pela costa da cidade, do mercado Modelo, passando pelo Farol, a Ondina, o Rio Vermelho, até chegar à Pituba. A natureza é de uma beleza de tirar o fôlego, mas a ocupação humana é desleixada e algumas construções e prédios nos fazem morrer de raiva.

Teatro lotado e público vibrando com “De Tempo Somos”. A fórmula do espetáculo é infalível e conquista as pessoas desde as primeiras canções. Ao final, aplausos entusiasmados e pessoas fazendo fila para nos cumprimentar. Esperando a van que vai nos levar ao hotel, acabo entrando num bar pé sujo em pleno Pelourinho. O quadro é apavorantemente assustador – um cantor banguela e desafinado toca um violão rachado, acompanhado por um gaitista bêbado e fora do ritmo e da melodia. Rastafaris na iminência da mendigagem riem e aplaudem. No interior do bar, pessoas gordas com shorts curtos deixam suas enormes panças à mostra, enquanto tomam cerveja. Um carro de polícia monta guarda com suas luzes piscantes. Parecem tentar controlar um barril de pólvora social, que está prestes a explodir a qualquer momento.

 

13/09, domingo

Domingo de parada gay em Salvador. O desfile e a concentração vão sair do Campo Grande. O dia é de sol escaldante. Notícia ruim para os nossos técnicos que passarão o dia torrando na montagem ao ar livre. O espetáculo será à beira da praia, numa área bastante devassada, numa praça desprovida de árvores. Fico me perguntando até que ponto essas paradas só não reforçam o preconceito contra os que fizeram determinada opção sexual ou de gênero, tachando-os de alegres e/ou extravagantes. Mas esse é um assunto tão envolto em radicalismos e posições exacerbadas, que é melhor passar ao largo. O certo é que Malafaia devia mesmo é sentar na rôla, como diria Batalha, para não ficar enchendo o saco. E também se tantos enrustidos se assumissem de uma vez, o mundo poderia ser um pouco menos careta, aborrecido e intransigente. E, certamente, com menos pregação divina.

Nossa montagem acabou perturbando o dia dos skatistas que passam o dia fazendo manobras no parque dos Namorados. Mesmo assim, eles permanecem, fazendo seus saltos e piruetas arriscadas, na lateral do cenário. Cinco e meia, faz um pôr de sol deslumbrante na praia da Pituba e as arquibancadas e cadeiras da arena já estão completamente tomadas. A classe teatral de Salvador está presente em peso. Começamos o espetáculo e o público acompanha cada cena em silêncio e com atenção. A mesa de som enlouquece e a programação das cenas se perde. Fábio é obrigado a deixar um dispositivo padrão e operar na mão todas as entradas de instrumentos e de detalhes de cena a cena. Os atrasos são inevitáveis, especialmente, porque a mesa não é analógica.

A tensão do espetáculo cresce e é preciso bastante calma e respiração para manter o jogo e a atmosfera das cenas. A cada nova cena surge uma suspensão que possibilita os ajustes de instrumentos e de intensidades vocais. A tecnologia  é boa, mas só quando funciona. Quando destrambelha, é uma encrenca só. Ficamos à mercê, como os pilotos de avião que, hoje, são comandados pela máquina e seus dispositivos.

 

14/09

Saímos cedo do hotel em direção ao aeroporto. Trânsito intenso, agitação de começo de semana. As pessoas caminham como autômatos nas ruas e se aboletam em ônibus, apinhados de gente. Fim da turnê, hora de passar alguns dias em casa.

 

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->AVIGNON OU A URGÊNCIA DA POLÍTICA

Desde o ano passado que Avignon e seu festival de teatro rondavam minha cabeça. O festival, hoje um dos mais extensos e importantes do mundo junto com o de Edimburgo (Escócia), teve sua primeira edição concebida e heroicamente executada pelo diretor francês Jean Vilar. Vilar foi o criador do “Théâtre National Populaire” que foi um dos principais centros de discussão teatral na França ao longo do século XX. O festival, criado em 1946, um ano após o término da avassaladora e traumática segunda guerra mundial, serviu como uma forma dos franceses recuperarem sua autoestima. A Europa estava arrasada e em crise social, política e econômica e o caminho para se reerguer foi o de reafirmar a vocação artística e cultural da França e do continente.

Vilar propôs ao governo do general De Gaulle transformar a cidade feudal dos papas de Avignon numa capital mundial do teatro , ao longo do mês de julho, em pleno verão europeu, época em que as grandes cidades se esvaziam e os europeus buscam as regiões da campanha. Hoje, a Avignon antiga, um sítio histórico todo cercado de muros feudais, agrega em seus limites mais de cento e cinquenta teatros e espaços abertos  adaptados para a prática teatral. De 04 a 25 de maio, estão em cartaz mais de trezentos e setenta espetáculos, só na mostra OFF e mais de 40, na mostra oficial. A grande maioria é de espetáculos franceses, mas existem grupos da Bélgica ( que ocuparam um teatro), Coréia do Sul, Austrália e até do Brasil (um espetáculo sobre Nijinski) de uma companhia de São Paulo.

Além da enorme variedade de espetáculos, Avignon ainda conta com uma extraordinária exposição sobre o diretor de teatro, ópera e de cinema, Patrice Cheréau. Recentemente falecido, Chéreau é mais conhecido internacionalmente por ter dirigido  o filme “Rainha Margot”. O festival ainda conta com uma série enorme de debates, palestras, discussões, ciclos de conferências, encontros e muitas conversas em bares, restaurantes, boulangeries e em cada esquina. O que se atesta aqui é a paixão dos franceses e dos europeus em geral, pelo teatro. Todos os espetáculos, apresentados de nove da manhã até às onze da noite,  estão bem cheios, e os mais comentados e bem avaliados, tem enormes filasse espera. É uma verdadeira guerra conseguir um lugar nas filas “d’attente”.

As ruas estão apinhadas de atores distribuindo panfletos e filipetas, fazendo cenas de suas peças e números musicais para tentar atrair a atenção dos espectadores. Os muros da cidade estão tomados por uma fileira interminável cartazes dependurados. O calor insuportável ( fala-se de 38 graus à sombra!) não consegue vencer o ânimo e o entusiasmo dos que divulgam seus espetáculos e dos espectadores ávidos por assistir algo. Tudo isso me faz pensar sobre a natureza absolutamente anti-burguesa da atividade teatral. Não somos celebridades e sim, ao contrário, estamos sempre atrás do público , procurando chamar sua atenção, trazê-lo para dentro daquilo que fazemos. num permanente jogo de sedução em que nos irmanamos com os prestidigitadores, os vendedores ambulantes, as prostitutas. Sempre correndo atrás da sedução dos olhos de quem possa vir a nos assistir. Os atores nas ruas de Avignon buscando ávidamente capturar o público me faziam todo o tempo me lembrar dessa essência absoluta do teatro.

Retomando o fio da meada que abriu esse texto – por que Avignon esteve desde o ano passado em minha cabeça? Antes de mais nada, porque o Galpão tinha tido uma proposta de arriscar a ocupação  de um espaço dentro do festival junto com outros grupos brasileiros. O espaço teria que ser montado às nossas custas, assim como teríamos que arcar com boa parte dos gastos de transporte, alimentação e hospedagem. A proposta, a princípio sedutora como um possível investimento de risco para a nossa carreira internacional, acabou por se revelar inviável em função dos custos elevados e também pelas precárias condições de montagem e de desmontagem, que teriam que ser feitas muito rapidamente, o que, certamente, prejudicaria muito a qualidade do formato dos espetáculos do Galpão. Feitas as contas e colocados na balança, os prós e os contras, desistimos do projeto.

Mas Avignon voltou à minha agenda como curador do FIT, o festival internacional de teatro de Belo Horizonte. A passagem, conseguida aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, foi patrocinada pela embaixada da França no Brasil. Aliás, o Brasil é o lugar no mundo onde existem mais estudantes de francês matriculados nas alianças da língua de Molière e Baudelaire. O dado, confesso, me surpreendeu. Tudo isso combinou com uma pausa na extenuante agenda do Galpão. E lá fui eu, fazendo contatos de ultima hora, respondendo requerimentos do setor cultural do consulado, arrumando as malas em meio a temporada em São Paulo e viagens por Poços de Caldas e Araraquara.

No voo São Paulo-Paris, viajo acompanhado por um grupo de jovens bailarinos brasileiros que vão fazer um workshop com Ismael Ivo, o extraordinário bailarino e artista brasileiro que, depois de encantar Nova York com seu trabalho com Alvin Ailey, partiu para fazer uma brilhante carreira de pesquisa na Alemanha e na Europa. Todos os bailarinos são muito jovens e de origens bem humildes. Vem das periferias das grandes cidades brasileiras. Conversar com esses jovens e perceber sua empolgação pela oportunidade de trabalho, me anima. Me dá a sensação de como somos  capazes de dar a volta por cima, por mais que as condições sejam desfavoráveis ou pouco propícias. Uma das meninas é de Belo Horizonte e me diz que a mãe sempre a levava para assistir aos espetáculos do Galpão, especialmente na rua.

Terminada a viagem de São Paulo a Paris, fixo os olhos na tela com o anúncio de nossa descida no aeroporto Charles de Gaulle,e vislumbro na TV do monitor do avião a distância percorrida: quase dez mil quilômetros. Agora estou cinco horas adiantado. Tudo definitivamente está fora da ordem e a adaptação precisa ser feita a fórceps.

Depois de me informar e ficar sabendo se o meu TGV para Avignon sairá da parte sul ou norte do terminal, finalmente consigo entrar num trem abarrotado de malas e de pessoas. Meu vagão está apinhado de famílias com muitas crianças que fazem uma enorme algazarra. Parece que os franceses  estão definitivamente disposto a correr à la recherche du temps perdu”, fazendo muitos filhos.

Chego a Avignon às 15 horas. O calor é digno de fritar um ovo na calçada. Faltam táxis. O que dizem que é uma praxe durante o festival de teatro. Preciso correr para me inteirar da programação do festival. A produção do FIT não conseguiu articular quase nada de contatos. É preciso correr contra o tempo. Consigo, a duras penas, um táxi para o hotel Adonis, situado na periferia ao sul de Avignon. A ocupação da cidade na sua periferia é triste, cinzenta e opressiva. Os conjuntos residenciais parecem as edificações da arquitetura socialista. Uma arquitetura meramente utilitária, maçante, sem nenhuma poesia. Tudo tediosamente planejado dentro dos moldes do pragmatismo e do utilitário. Chegando a Paris, no caminho do aeroporto até o rio Sena, temos exatamente a mesma sensação de um mundo que vai se tornando cada vez mais feio, sempre regido pelas normas do economicismo pragmático.

Feito um rápido reconhecimento do quarto onde dormirei a próxima semana, desfaço rápidamente alguns itens essenciais da mala e corro para o centro da Avignon antiga. Já de posse do grosso programa do OFF do festival, pego um táxi que me leva até ao escritório central do festival. O motorista, um negro simpático e falante, me conta que Avignon se transforma com o festival. É a estação em que os comerciantes e os prestadores de serviços tiram o pé da lama. No console do carro está o Alcorão numa bonita edição com os desenhos árabes.

A diretora do festival não está no escritório. Só me resta sentar e tentar entender a estrutura do festival e arriscar alguma peça para o dia de hoje.  O ritmo da cidade é absolutamente festivo, muitas pessoas correm de um lado para o outro, tentando reservar lugar para os espetáculos mais concorridos. Muitos turistas asiáticos e orientais passeiam pelas ruas estreitas um pouco alheios a tudo aquilo. Na sede do festival desenrola-se um caloroso debate sobre a questão da diminuição progressiva dos recursos do Estado para a cultura e as artes. Os franceses sentem-se ofendidos pela progressiva abstenção do Estado nas questões da cultura. A verdade é que a Europa ( talvez com a exceção da Alemanha) não conseguiu sair da crise que já se estende por bons anos e a cultura, em especial, sofre uma substancial redução em seus aportes de verbas. O próprio festival de Avignon teve seu período de duração brevemente reduzido em função desse declínio.

Como em todo o mundo, também na França a questão da política explode. Não poderia ser diferente com o festival. O tema da imigração e da relação da sociedade francesa com os emigrantes, especialmente os árabes, está presente em muitas peças e nas conversas nos bares e nas ruas. País que colonizou uma larga faixa da África do Saara, a França tem uma ampla comunidade de origem árabe que tem cidadania francesa. Ao contrário dos latinos e africanos negros, os árabes mostram-se muito mais reticentes em se misturar com os hábitos e os princípios da república. O diretor geral do festival, o ator e diretor Olivier Py, diz no seu texto de apresentação do programa de Avignon que “a França só poderá superar a violência e o trauma do atentado ao “Charlie Hebdo” através do incentivo à arte e a cultura.

Enquanto setores significativos da sociedade francesa tendem cada vez mais para uma perigosa posição xenófoba, que a aproxima da extrema direita, o teatro busca uma atitude de diálogo e de aproximação. Na televisão surge com frequência a figura falante e simpática de Marie Le Pen, a musa da extrema direita francesa. Ela fala da greve dos camioneiros que interrompeu o país, especialmente na rota de Lyon. Enquanto o monsieur socialista parece meio aparvalhado, a senhora reacionária parece se sentir à vontade na oposição. Mas, voltando à seara do teatro, muitas peças trataram da questão da interseção das culturas árabes e francesa. É o caso de espetáculos como “Les Cavaliers” que faz um mergulho na tradição oral dos griots, através da adaptação de um conto afegão. Algumas produções do “Théâtre de la Manufacture” como “Finir en beauté” e “page en construcción” que tratam de gamas sensíveis aos habitantes provenientes de países árabes (Tunísia e Argélia) e que vivem na França. Além de serem produzidos e representados por artistas que, vivendo na França, são originários desses países, os espetáculos propõe um caminho de entendimento e compreensão com a alteridade. Uma tentativa de propor alternativas de como as culturas distintas podem conviver, se alimentando e se enriquecendo mutuamente. Essa é a utopia que se contrapõe ao preconceito e à intransigência.

Outro sintoma dessa preocupação que ecoa no país e no festival é a inclusão da ótima produção egípcia “The last super”, dirigida por Ahmed Al Attar, que retrata o grotesco e frívolo jantar de uma família da alta burguesia do Cairo. Durante a refeição, reina a futilidade, o desprezo pelo próprio país, a obsessão pelo consumo e pelos artigos importados e o mais absoluto desrespeito pelas classes menos favorecidas. Os empregados são tratados como cachorros. Qualquer semelhança com nossa descontente e mobilizada classe alta, não é mera coincidência. O elenco é muito bom, com tipos extremamente engraçados e expressivos, numa crítica mordaz ao desinteresse cruel e mesquinho das classes dominantes pelos destinos de seus próprios países.

Nas páginas dos jornais franceses o festival de Avignon é tratado com pompa e resistência. O “Le Monde” e o”Liberation” trazem resenhas diárias e os dois principais jornais lançaram extensos cadernos especiais por ocasião do lançamento do festival. As manchetes da semana tratam com grande destaque da devastadora invasão de mais setecentos mil refugiados , tentando encontrar abrigo nos países do continente. A grande maioria proveniente da Síria, Líbia, Afganistão, Iraque e também dos países dos Balcãs. Na Alemanha, a extrema direita faz atentados e incendeia sete abrigos para refugiados e jura ódio e vingança ~a política conciliadora e remediadora de Angela Merkel e da União Européia. Em Avignon, depois da vitória da extrema direita nas prévias das eleições, a direção do festival ameaçou abandonar a cidade sob a justificativa que a prática do teatro não se coaduna com as políticas pregadas pela extrema direita. O resultado foi que os comerciantes, a atividade econômica local e a comunidade se mobilizaram e conseguiram alterar o quadro. A política ferve na Europa e no mundo.

E falando de política, foi muito bom assistir à estreia da nova peça de um dos grandes expoentes do atual teatro portento, o dramaturgo e diretor Mariano Pensotti, que já havia causado grande sensação com seu texto “El passado es un animal grotesco” e que, trouxe para uma co-produção com Avigno, o espetáculo “Cuando vuelva a casa voy a ser otro”. As duas encenações seguem uma estrutura de cenários que se deslocam como esteiras rolantes. Os dois textos são verdadeiros épicos generacionais. No caso de “Cuando vuelva a casa…”, Pensotti faz um comovente retrato da geração argentina pós golpe militar a partir de coisas que um pai, um militante de esquerda,  enterrou no jardim de sua casa e que são desenterradas vinte e cinco anos depois. Tudo isso é encarnado cenicamente pelos atores de sua companhia, todos representantes da boa e velha escola realista do teatro argentina. A dramaturgia de Pensotti faz, com muita delicadeza e habilidade, a fusão entre as linguagens do cinema e do teatro, numa estrutura dramaturgia que traz reflexão e emociona. A Argentina esteve também presente na mostra oficial com outro espetáculo – “Dínamo” de Claudio Tolcachir, uma produção da consagrada companhia “Timbre 4”.

Num momento tão repleto de indagações e perplexidades políticas, é natural que o festival de Avignon abrisse um espaço significativo para Shakespeare ( “o carvão que nos aquece”, como diria Peter Brook). O diretor do festival, Olivier Py apresentou “Rei Lear”, o jovem diretor portuguIes Tiago Rodrigues trouxe uma versão de “Antonio e Cleópatra” com dois atores-bailarinos, e a grande sensação foi, sem dúvida, a versão de “Ricardo III” do alemão Thomas Ostermeier.

Ostermeier fez história no teatro alemão com o grupo “Baracke” e sucedeu o memorável Peter Stein, na direção do “Schaubune” teatro de Berlim. É, sem dúvida, um dos ícones do teatro na Europa hoje, tendo um acento bastante político em todas as suas encenações. Suas montagens de “Um inimigo do povo” de Ibsen e “Hamlet” de Shakespeare são consideradas obras primas. A “Schaubune” é hoje sinônimo de qualidade e sofisticação. Companhia de atores , técnicos e produtores que praticam a autogestão, em que todos participam das decisões sobre o que montar,a “Schaubune” é um teatro que recebe uma subvenção de doze milhões de euros por ano, conseguindo uma média de receita de dois milhões de euros de bilheteria em Berlim e uma média de dois milhões de euros em turnês pelo mundo. Portanto, do orçamento geral da instituição, 75% é bancado e 25% provem de receitas próprias.

Numa manhã de sábado escaldante, com uma platéia ao ar livre, abanando leques distribuídos pela organização do festival , peguei uma parte do debate que juntou Olivier Py e Ostermeier. O tema era Shakespeare. No livro lançado em Avignon, com entrevistas de Ostermeier para o crítico alemão Gerhard Jorder, lançado pela editora “L’Arche”, ele diz num determinado momento que uma das razões da crise da arte dramática é a ausência de empatai no mundo. A incapacidade da nossa época de se ater, de se preocupar com o outro, de se confrontar com a alteridade. Uma época que que aboliu o amor em troca da amizade porque, ao contrário do amor, a amizade nos dispensa de ter que dar aquilo que o amor exige. O amor exige uma contrapartida de construção e de reconhecimento que fica dispensada ou afrouxada na amizade. A nossa sociedade do bem estar, segundo o diretor, também teria abolido a ideia da morte, da embriaguez, da transgressão, da desinibição, “tudo aquilo que é da ordem do visceral, do espiritual e do transcendente. E também da ordem da comunidade  e da solidariedade. No fundo, nos tornamos extremamente acanhados e puritanos”.

Domingo de manhã. Saio mais cedo do meu hotel na parte sul da cidade e caminho pelos arredores. É dia de mercado na praça central. Nas ruas, portarias dos conjuntos habitacionais, nos pontos de ônibus, todos usam véus,turbantes, túnicas e lenços revestindo as cabeças. Fora dois franceses bem velhinhos caminhando pesadamente com suas bengalas, só encontro árabes e muçulmanos nas ruas. No ônibus, ninguém fala francês, com exceção do motorista. É um mundo alheio à sociedade onde está inserido, ao país em que vivem. Uma manada isolada. Aposto que ali ninguém tem a mínima ideia do que se passa no festival. A trágica experiência da radical ausência de alteridade.

Oito dias de viagens, contando os dois deslocamentos internacionais entre o Brasil e a França.Em seis dias, consegui assistir a dezoito espetáculos. Há uma certa tendência vazia de se usar projeções de vídeo e de imagens que não tem o menor sentido dramatúrgico. É o que acontece, por exemplo, no ótimo espetáculo musical da banda ucraniana  “Dakh daughters”. As seis atrizes fazem uma primorosa combinação de canto polifônico (ao estilo “Vozes búlgaras”) e irreverência punk. Muito bom também os números de circo moderno dos jovens artistas do “Knee Deep” da Australia. Consegui ainda assistir à sensação da mostra OFF, que foi o espetáculo “Réparer lés vivants”, um monólogo que é uma adaptação do romance de Mayles de Karangal, qua conta a história de um jovem de dezoito anos que, após sofrer um acidente, tem morte cerebral. O ator, Emmanuel Noblet, muito bom, começa fazendo o menino e depois passa a maior parte da peça, encarnando o médico que luta para que os órgãos do acidentado sejam doados. Tudo é muito justo e na medida certa, abordando um tema bastante delicado com sensibilidade e descrição. É uma pena que seja mais um monólogo, essa imposição feita ao teatro, muitas vezes por razões econômicas. Outro espetáculo que me tocou bastante foi ‘The great disaster”, mais uma produção do “Manufacture”, um texto de Patrick Kermann, que relata o desastre do Titanic contado a partir do ponto de vista de Giovanni Pastore, um empregado que lavava pratos na transatlântico. O ator que encarna o personagem faz o monólogo de cinquenta minutos, sem se mexer e sem nenhum recurso de luz. Nada de artifícios teatrais, apenas o poder da palavra ( ainda que o francês tenha me escapado bastante).

Retorno para Paris onde pernoito antes de voltar para o Brasil. Fico hospedado num daqueles hotéis caixote ao lado do aeroporto. Aproveito para caminhar pela margem do Sena e ver um pouco Paris. A temperatura está bem mais amena. Caminho pelas ruas do “Le Marais”, especialmente a simpática praça Vosges, onde está a casa de Victor Hugo. Passando em frente à antiga sinagoga desse bairro, que já foi habitado maciçamente por judeus, sentimos o clima que ronda a França. Soldados do exército montam guarda acintosamente em frente à bela fachada da sinagoga. Dizem por aqui que muitos judeus estão saindo da França em direção a Israel.  Ainda ronda entre os franceses um temor e uma fissura social que eclodiu com o apavorante atentado ao Charlie Hebdo. A velha Europa tenta resistir com seus princípios republicanos e democráticos. O teatro e a cultura continuam sendo uma de suas melhores armas.

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->Crítica “De Tempo Somos” por Gustavo Fioratti (Folha de São Paulo)

Não é surpresa que o Grupo Galpão fique tão à vontade para apresentar sobre o palco um show puramente musical em vez de uma peça de teatro.

Em “De Tempo Somos” –dirigido por Lydia Del Picchia e Simone Ordones que fará mais três sessões até domingo no Sesc Santana­– os atores da companhia mineira demonstram no gogó que seus trinta e poucos anos de trajetória carregam muito rigor, suor e aprendizado musical.

Tecnicamente impecável, o sarau traz 25 das inúmeras canções acumuladas nessa curva de estrada traçada desde os anos 1980, quando o Galpão se lançou sob a proposta de ocupar ruas e palcos com um teatro de veia popular, empenhado em falar para crianças e velhos, pobres e ricos etc e tal.

Essa identidade resultou em um repertório voltado às tradições orais. O cardápio de agora lista desde a folclórica “Maninha”, entoada em “Romeu e Julieta” (1992), um Shakespeare de rua, até “Yo Vengo a Ofrecer Mi Corazón”, do argentino Fito Páez, canção interposta entre os diálogos de “Tio Vânia “” aos que Vierem Depois de Nós” (2011), um Tchekhov comportado.Para entender o Galpão, é necessário saber que o grupo pensa suas peças como obras para serem colocadas dentro da mala, transportadas em viagens pelo país, destinadas às praças do sertão e aos teatros dos centros urbanos.

Por trás do conjunto de canções reside ainda a intenção elementar de criar uma atmosfera idílica. Sobre o palco, além de violões, instrumentos de sopro, acordeões, ouve-se um par de sons da natureza.

Com apitos que imitam pios de pássaros, com a luz que sobe e depois cai lentamente, o grupo cria imagens, muito belas, de auroras e crepúsculos. Faz “cantoria à beira-rio, em noite de lua cheia”, como diz o texto de apresentação.

É interessante notar que esse mesmo repertório também condense um conflito: como olhar para as tradições (do cancioneiro, do folclore, do mambembe) sem abrir mão do desejo de ser visto como legítimo exemplar contemporâneo.

Os solos também rendem momentos agradáveis, como em “O Sole Mio”, a canção napolitana. A plateia de sábado passado respondeu efusivamente ao fim. Belo show.

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->DIÁRIO DE BORDO: O ator e diretor Eduardo Moreira descreve o dia a dia da turnê do Galpão por cidades do interior de Minas e, a estreia, em São Paulo, do espetáculo “De Tempos Somos”.

08/06

Viagem na noite de domingo para Barbacena. O trecho percorrido está em obras. O que mais chama a atenção é a construção de áreas de cobrança de pedágio. Nossa última incursão pela Zona da Mata foi com “Um homem é um homem” que percorreu cidades como Carandaí, Barbacena e Viçosa.

Nosso hotel fica bem na praça central. A primeira coisa que chama a atenção na cidade é o traçado de suas ruas que parecem amontoadas com construções que se acumulam sem planejamento. A cidade ainda conserva belos casarões que se espremem diante de uma sucessão de imóveis, aparentemente abandonados, mal construídos e sem a menor preocupação estética. A beleza, nos dias de hoje, perdeu definitivamente espaço para o utilitarismo.

A “Cidade das Rosas” transformou-se em um verdadeiro deserto de árvores. Com exceção de umas poucas árvores frondosas, que resistem na praça central, as ruas não têm sequer uma árvore plantada. Triste realidade de várias outras cidades, como também é o caso de Uberlândia. Caminhando em direção ao espaço onde nos apresentaremos, a estação “Ponto de Partida”, a paisagem se altera radicalmente. Um simpático bairro de casas e uma vila militar despontam. Em volta, uma mata vistosa resiste e nos acalenta um pouco as vistas. Aos poucos, a cidade se humaniza e percebemos o cuidado com as propriedades privadas, ao contrário dos logradouros públicos, que sempre dão a impressão de uma terra de ninguém, onde não se zela por nada, como em tantas outras cidades.

O espaço do grupo “Ponto de Partida” é maravilhoso. Antiga fábrica de seda, o centro cultural ocupa uma Alameda com três casarões vistosos e bem cuidados. No primeiro fica a escola de música, “Bituca”, que é um centro de referência do ensino e da difusão musical em Minas. O segundo casarão é a sede do grupo, com três salões no andar de baixo e uma grande sala de ensaio no segundo andar. Na entrada, vemos uma exposição dos figurinos e dos objetos de cena do espetáculo “Grande Sertão Veredas”, criados pelo Álvaro Apocalypse. A estação ainda tem um terceiro casarão, quase já todo reformado e que será ocupado pelo projeto da “Casa do Saber”, com uma biblioteca e um café abertos ao público e à comunidade.

O trabalho do “Ponto de Partida” é um modelo a ser seguido pelo poder de mobilização que o grupo exerce junto à comunidade de Barbacena. A escola está cheia de alunos jovens e a reforma do espaço é feita através de doações e permutas com empresários da região. As pedras que compõem o piso da Alameda central e os mármores que revestem os banheiros vêm dos restos que sobraram de uma fábrica da cidade vizinha de Barroso. Chama a atenção o mobiliário mineiro requintado que decora os cômodos. Tudo aqui é um brinco. Dá gosto trabalhar numa sala com piso de madeira e com um enorme janelão com vista para uma linda mata. Os jardins foram projetados pelo Instituto Inhotim e são cuidadosamente mantidos pelo Renato, um dos atores do “Ponto”. O café é servido numa grande mesa de madeira. Tudo é tão caprichado que não dá vontade de sair mais dali.

Enquanto Lydia e os técnicos ajustam o palco na área exterior do jardim, onde nos apresentaremos à noite, Júlio, Toninho e eu ministramos uma oficina para os atores do grupo. É bonito ver pessoas que amadureceram e que convivem com uma geração mais nova de atores, que renovam as energias do grupo.

Os quinhentos ingressos da apresentação se esgotam em menos de quatro horas. Existe uma lista de espera de mais de duzentas pessoas. Os números atestam o prestígio do Galpão e, especialmente, a capacidade de mobilização do “Ponto de Partida” na cidade. O frio é grande e o sereno da noite intenso. Testemunhar a construção de um espaço cultural desse porte e intensidade, levado a cabo por um grupo de teatro, nos enche de esperanças e expectativas.

 

09/06

Sete da manhã e já estamos na estrada rumo à Juiz de Fora. Nossas apresentações estão agendadas para acontecerem no “Centro Cultural Bernardo Mascarenhas”, antiga fábrica de tecidos, incrustada bem no centro da cidade. Juiz de Fora, a Manchester mineira. Lembro-me dos anos de 1970, quando passávamos por dentro da cidade em direção ao Rio ou à Belo Horizonte. A viagem durava oito horas e, naquele tempo, a passagem por Juiz de Fora ainda era uma interminável sucessão de quebra-molas.

Caminhar pelo centro de Juiz de Fora, por meio de suas antigas galerias foi como voltar ao passado. Alguns comércios mais antigos ainda resistem ao tempo: lojas de costureiras, relojoeiros, cafés e sapateiros. O tradicional restaurante “Faisão de Ouro” fechou as portas. É triste saber também que, há anos, o teatro Central está fechado. Aqui também vamos nos apresentar em uma pequena sala, com capacidade para duzentos espectadores. Se o fechamento da livraria “Mineriana”, em Belo Horizonte, foi um baque terrível, o recente anúncio do final da “Leonardo da Vinci”, no centro do Rio, foi um golpe mortal. Não consigo achar uma livraria pelas ruas do centro de Juiz de Fora.

A sensação que tenho é que o espírito das trevas avança. Em meio às montanhas de blockbusters, best-sellers, bancas de revistas, apinhadas de matérias de fofocas sobre celebridades e, jornais pingando sangue, que alimentam diariamente um estranho sentimento de pânico e de prazer mórbido nas pessoas. Seguimos… Hoje o jornal “Tribuna da Imprensa” traz uma matéria grande, de capa, sobre a estreia do Galpão. Ontem aconteceu um crime bárbaro de um adolescente que foi morto no centro, numa briga entre gangues. O fato virou um alvoroço e os jornais venderam feito água. Foi impossível adquirir um exemplar nas bancas para ver a nossa matéria. A violência, a morbidez da crueldade e as notícias ruins vendem jornal.

Tomo um café num balcão de uma das galerias incrustradas bem ao lado do teatro Central, quando sou cumprimentado por um senhor com brinco na orelha. Ele me pergunta se está tudo pronto no teatro. Digo que sim e pergunto se ele vai nos assistir. Com o avanço da conversa, fico sabendo que ele é o Paulo Arbelaz, responsável pelo figurino do espetáculo “De Olhos fechados”, a segunda peça do grupo, que estreou em 1983. Ele foi amigo e companheiro de FAFICH do Marcão que, nos primórdios do grupo, nos ajudou na produção dos espetáculos.

Arbelaz comenta que a irmã da Teuda é quem costurava as roupas para nós e como era precária a estrutura de produção do grupo. Ele escreveu um trabalho de doutorado sobre o figurino de “A rua da amargura”. Atualmente, trabalha no centro cultural Murilo Mendes. Eu adoraria visitá-lo, mas não foi possível porque um setor administrativo da Universidade está em greve. Coincidências e acasos da vida: um fortuito café e um encontro com alguém que trabalhou com o Galpão, há 32 anos.

Teatro apinhado de gente. Pouca presença de atores e artistas. O movimento teatral parece meio adormecido na cidade. Tenho notícias de que o teatro “Divulgação”, do Zé Luís está com um espetáculo infantil em cartaz nos finais de semana. A companhia completará cinquenta anos em 2016. Fico pensando no Galpão com cinquenta anos e não consigo me afastar de uma sensação de pavor. Não há saída: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Vamos em frente.

 

10/06

Bate-papo com alunos, professores e educadores. Falamos sobre a história do Galpão. Sinto falta de encontrar com atores que estejam em atividade na cidade. A plateia é simpática, mas pouco participativa. Aproveito para divagar em histórias sobre a vida de Molière, Tchékhov e Shakespeare. Boas histórias do mundo do teatro.

À tarde, fazemos uma reunião por Skype com Kênia Dias, visando uma oficina dentro da próxima montagem, com o diretor Márcio Abreu. É difícil girar o disco. O cansaço das apresentações começa a aparecer e, colocar a cabeça em outro projeto, requer muita concentração e esforço.

A passagem de som dá lugar a um ensaio, em que algumas dinâmicas são pontuadas e melhor ensaiadas. A apresentação está com a lotação esgotada. A plateia está visivelmente mais quente. Há muita gente do teatro. Ao final, aplausos entusiasmados e um bis. Terminada a apresentação, desmontagem junto com mais um debate para falar do Galpão (é o terceiro, em Juiz de Fora!).

Dez e meia da noite. Como um salgado meio requentado num boteco pé sujo próximo ao hotel e termino o dia com uma cerveja na solidão do quarto 1101, do hotel César Park. Amanhã, partimos para São Paulo. A van vem nos apanhar no hotel às quatro e meia da manhã.

 

11/06

Périplo de doze horas para irmos de Juiz de Fora para São Paulo. Talvez tivesse sido melhor usar como transporte, uma boa bicicleta ou uma charrete. Aeroporto fechado por conta da neblina. Atraso de uma hora e meia no voo para Belo Horizonte. Quando estávamos apertando os cintos de segurança e travando as mesinhas para a decolagem em direção à Congonhas, o computador detectou uma falha no sistema elétrico. Espera de mais quarenta minutos dentro do avião. Em seguida, retorno para o saguão do aeroporto. Duas horas de espera e, finalmente, o voo para Congonhas. Saímos às quatro e meia da manhã de Juiz de Fora e chegamos às cinco da tarde no nosso hotel, no bairro do Paraíso (SP). Isso sem nenhum tipo de justificativa, lanche ou gentileza por parte da companhia aérea.

Caminho pelas ruas da grande metrópole. As pessoas correm apressadas. Como em Londres, o lado esquerdo das escadas rolantes, deve ficar liberado para os que caminham com o tempo marcado. Não há espaço para os flâneurs. Ninguém olha para ninguém. Todos estão entocados em seus fones de ouvido e digitam, furiosamente, suas telinhas de celulares. Estamos no centro financeiro do mundo, do consumismo, da pressa, dos murais, das tribos contemporâneas, esteiras rolantes correm diante dos anúncios estampados em outdoors animados à la Blade Runner e, acima de tudo, atestamos uma grande solidão. Ninguém presta atenção em ninguém. Cada um vive encastelado em seu próprio mundo digitalizado.

 

12/06

Dia de estreia. Os jornais da cidade dão destaque a estreias de outras produções. Exceto pelos anúncios contratados pela programação do SESC, não existe nada sobre nosso espetáculo. Fico pensando se o Galpão se transformou numa coisa sem grandes atrativos para uma mídia que se alimenta de uma constante quimera chamada “novidade”. A cidade parece tão acumulada de atrações culturais, que ninguém mais presta atenção em nada. Os cadernos com roteiros culturais dos finais de semanas são gordos e cheios de anúncios e a cidade está apinhada de stand-ups e musicais importados. São as peças que parecem ter mais patrocínio e público porque têm espaços de anúncios maiores. A indústria cultural do entretenimento domina.

O teatro em Santana é distante, o que acaba por afastar um pouco o público, mas a estrutura do SESC se impõe e é impecável. A estreia nos permite encontrar com velhos amigos da cidade, além de muitos mineiros que vivem por aqui e vêm matar as saudades. Ao final do espetáculo, muitos falam da cronologia das próprias vidas, a partir de algumas canções de trabalhos do Galpão, que marcaram momentos de suas vidas. É inevitável encontrar um ou outro que começou a fazer teatro por ter assistido a determinado espetáculo do grupo.

Madrugada de sexta para sábado. A metrópole não para nunca. Nas ruas próximas ao hotel, no bairro do Vergueiro (SP), o trânsito de veículos é incessante. Hora de começar mais uma temporada na cidade, que me traz lembranças tão marcantes. A Paulicéia Desvairada pulsa e encanta. Hora de dormir que ninguém é de ferro. E, amanhã, tem mais!

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->GRUPO GALPÃO: CRÔNICA DE LONDRES

Autor: Arildo de Barros

Chovia intensamente em Londres no dia 5 de julho de 1996. Desde muito cedo, sob a lona de um circo úmido e frio, montado dentro do Battersea Park, a equipe do Grupo Galpão esperava pelo público que viria ali para a estreia do nosso “Romeu e Julieta”. Depois do surpreendente sucesso da semana anterior, no festival “Theater der Welt”, realizado naquele ano em Dresden e em outras cidades adjacentes da Alemanha ex-Oriental, nossa expectativa era grande. Foi, portanto, decepcionante iniciar o espetáculo com cerca de sessenta espectadores, a maioria deles brasileiros. Ainda não sabíamos, ouvindo os primeiros acordes de “Você gosta de mim, ó maninha?”, que no meio daqueles gatos pingados se encontrava um grupo de diretores do Shakespeare’s Globe Theatre, a centenária companhia comandada, na alvorada do século XVII, pelo próprio bardo de Stratford-upon-Avon. Assim que cessaram os aplausos finais, aqueles circunspectos senhores e senhoras rodearam os atores, o diretor Gabriel Villela e nossa convidada, a crítica Barbara Heliodora. Entre atônitos e comovidos, manifestaram seu encantamento pelo frescor e pela qualidade do que acabavam de presenciar. Um deles chegou a afirmar que os ingleses haviam convertido o seu Poeta em peça de museu, e que fora preciso aparecer ali um grupo da América Latina que resgatasse para eles o caráter festivo e popular do teatro de Shakespeare e que, enfim, lhes ensinasse de novo a encená-lo. As consequências desse encantamento não tardaram muito.

O New Globe Theatre foi inaugurado em 1997, na mesma Southwark onde se erguia o original seiscentista. Entre seus novos projetos, havia o “Globe to Globe”, que programava, para cada verão londrino, a apresentação de uma das peças de Shakespeare, produzida em algum país do mundo e cuja montagem envolvesse elementos da cultura desse país. Nos primeiros anos, foram exibidas ali três obras do bardo, provenientes da índia, da África do Sul e de Cuba, todas ignoradas pelo público. Esse fracasso ameaçava a sobrevivência do projeto. E foi assim que o Grupo Galpão foi convidado a voltar a Londres, dessa vez para se apresentar no “Vaticano da fé Shakespeariana”.

Em 11 de julho de 2000, estreamos “Romeu e Julieta” no Shakespeare’s Globe, sob a sombra do pavilhão nacional do Brasil, hasteado na mais alta torre daquela arquitetura. O começo da noite estava ainda claro, e, de novo, úmido e frio. O elenco entrou pontualmente às 20h, pela porta da frente do teatro a céu aberto, e abriu caminho para o palco no meio do público, executando a versão instrumental de “Flor, minha flor”. É muito curioso observar, no DVD do espetáculo, a expressão tensa e desconfiada dos espectadores ingleses, diante daquela trupe incomum, morena, maquiada como palhaços e vestindo coloridíssimas roupas puídas, entoando uma estranha canção de ritmo incompreensível, e depois comparar essa imagem com a dos mesmos espectadores ao final da apresentação, acompanhando a saída dos atores através do mesmo caminho pelo qual haviam entrado. Sua expressão era, então, a de quem tivesse, durante uma hora e meia, experimentado o elixir da felicidade. Sorrisos abertos, olhos brilhantes, excitação à flor da pele. E mais: marcando com palmas o ritmo, agora familiar, daquela estranha canção do sul. Havia até quem tentasse cantar junto: “Flor, minha flor…”. A equipe do Globe nos recebeu no palco com champanhe. Estava salvo o “Globe to Globe”.

A temporada, de catorze récitas, se estendeu até o dia 23 de julho, sempre recebendo a mesma calorosa acolhida do público, em que aos londrinos se misturavam turistas de toda a Europa e, obviamente, do Brasil. Compareceram até um casal de noivos com todos os padrinhos e convidados, para celebrar suas bodas diante do mesmo frade que abençoava a união dos protagonistas. Emoção e alegria povoavam os bastidores, onde cruzávamos com técnicos e funcionários da casa, igualmente eufóricos e tocados pelo espetáculo. Encontrávamo-nos também por ali com os elencos que dividiam conosco todos os espaços e camarins. Diariamente, às duas da tarde, ocorria no mesmo palco, uma sessão, em dias alternados, de “Hamlet”, protagonizado pelo grande ator Mark Rylance, então diretor artístico do Shakespeare’s Globe, e “A tempestade”, com o Próspero na pele de ninguém menos que Vanessa Redgrave. Pois a grande estrela se empenhou em assistir ao nosso “Romeu e Julieta”. E quando lá esteve, Vanessa se fez acompanhar de sua irmã, a também atriz Lynn Redgrave, e de sua mãe, Rachel Kempson, que aos noventa anos, rememorava suas atuações na obra de Shakespeare: quando menina, havia encarnado Julieta, mais tarde, a Sra. Capuleto, e já idosa fora uma respeitável Ama. Numa noite especialmente fria, as três providenciaram bons cobertores, que as mantiveram quentinhas nas desconfortáveis poltronas de madeira de seu camarote.

Michael York foi mais um astro do teatro e do cinema que se entusiasmou com nossa apresentação. Já nos camarins para saudar os atores, York, que fora o Teobaldo no célebre filme de Franco Zefirelli, entregou ao Chico Pelúcio, que ali fazia o mesmo papel, um foto com a dedicatória: “De um Teobaldo para outro”. E indistinto no meio da massa, só o soubemos anos mais tarde, encontrava-se também o encenador canadense Robert Lepage. Em 2003, contratado para dirigir um mega espetáculo no Cirque Du Soleil, Lepage exigiu, para protagonizar sua obra, “uma atriz brasileira que vi em Londres, no papel da Ama de ‘Romeu e Julieta’, fazendo o público rir e chorar ao mesmo tempo”. E lá se foi a nossa Teuda Bara brilhar por três anos em Las Vegas.

Anos depois desses eventos, um conhecido meu e sua mulher, passando por Londres em viagem de núpcias, foram conhecer o Globe Theatre, então fora de temporada.  Incógnitos em meio a um grupo de turistas, foram guiados em sua visita por uma daquelas simpáticas senhorinhas que se dedicam como voluntárias a esse trabalho. A certa altura do trajeto, a guia comentou que muitas coisas espantosas já haviam ocorrido naquela casa, mas o mais extraordinário acontecimento dos últimos anos fora a passagem de um grupo brasileiro, com uma versão absolutamente bela e original de “Romeu e Julieta”. E, para orgulho e comoção do jovem casal mineiro, apontou na parede o cartaz de divulgação do Grupo Galpão.

Corte para 2012, ano das Olimpíadas de Londres. Mais um projeto do Globe envolve montagens das obras de Shakespeare pelo mundo. Na programação da maratona cultural pré-olímpica, a ideia era levar à casa do maior dramaturgo da história suas trinta e sete peças, montadas em trinta e sete países do mundo e em trinta e sete línguas diferentes. Enquanto se pesquisavam, por todo o mundo, as produções recentes que atendessem às exigências do projeto, um grupo de técnicos e funcionários do teatro trouxe uma sugestão à equipe curadora do evento: o “Romeu e Julieta“ só pode ser aquele do Brasil. Esse voto, espontâneo e rigorosamente democrático, foi acatado.

O Galpão fez de novo suas malas e mais uma vez partiu em direção a Londres, para mais uma vez conquistar londrinos, brasileiros que para ali convergiram de diversos pontos da Europa, turistas do mundo inteiro e todo um conclave de artistas e críticos de teatro oriundos dos cinco continentes. E assim se fez. Missão cumprida, voltamos para casa, para o trabalho, para o risco, para os desafios. Para a vida real.

Aos quase trinta e três anos de existência, o Galpão coleciona um vasto repertório de lembranças, recolhidas em sua passagem por palcos, ruas e praças de todo o Brasil e mais dezesseis países. Viagens curiosas, lugares insuspeitados, encontros insólitos, profundas emoções, afetos que permaneceram e até grandes aflições que o tempo cuidou de converter em divertimento. Lembranças todas boas, ótimas em sua maioria. Mas a vitoriosa conquista do santuário shakespeariano, considerados todos os seus significados, ocupa, na preciosa coroa dessas memórias, a posição central e única do mais esplêndido diamante.

(Arildo de Barros)

Em 12-04-15

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->Para Barbara, da sua “patota”

O bardo nos uniu de uma maneira forte e indissolúvel. Lembro-me de nossa primeira temporada de “Romeu e Julieta” no parque de Battersea, em Londres. D. Bárbara acompanhou toda a temporada e ainda nos deu o luxo de repartir conosco seus conhecimentos, numa visita a Stratford-upon Avon.

A viagem, feita num micro-ônibus, teve direito a uma aula completa sobre a vida e a obra de Shakespeare. De pé, no desconfortável veículo, ela nos explicava os tortuosos caminhos das intermináveis guerras dos York e dos Lancaster. Sem dar a mínima para a bucólica paisagem rural britânica, ela se entusiasmava e nos deleitava com sua paixão pelo teatro e, especialmente, por Shakespeare.

Nossa relação de respeito, amizade e paixão pelo teatro começou um pouco antes, precisamente no ano de 1993, quando fizemos nossa estreia carioca de “Romeu e Julieta”, no Centro Cultural do Banco do Brasil, em parceria com o espaço do Centro dos Correios. No sábado da mesma semana, numa coluna do jornal “O Globo”, ela escreveu sua crítica entusiasmada da montagem, com o título preciso de “Fidelidade na infidelidade”.

Ela cantou em sua crítica aquilo que os ingleses repetiriam com frequência nas nossas subseqüentes três temporadas em Londres: que o espetáculo, em sua atrevida concepção brasileira do texto original, trazia uma leitura muito viva sobre o caráter popular da obra de Shakespeare.

Daí em diante, nossos encontros passaram a ser frequentes. Sempre que fazíamos temporada no Rio de Janeiro, era religioso que marcássemos nossa sopa na sua casa, no largo do Boticário. E sempre nos divertíamos imensamente com suas histórias, sua fúria contra o mau teatro e sua paixão pelo ofício e pela vida. Era o encontro da “patota”.

Mesmo quando alguns dos nossos espetáculos não a agradavam muito, nós nunca deixávamos de honrar nosso encontro com a “patota”. Crítica honesta e fiel a seus princípios, nunca se isentou de nos malhar, quando assim acreditava que deveria fazê-lo. E, independente, de qualquer coisa, sempre nos encontrávamos com um enorme carinho e um tremendo respeito mútuo.

O teatro perde uma grande apaixonada, quixotesca e furiosa defensora.  D. Bárbara vai nos fazer uma enorme falta, sobretudo, pela sua inteligência e clareza ao expor seus pontos de vista e colocar os pingos nos “is”, sempre sem papas na língua.

Tricolor de coração, era uma mulher adorável, sem nenhum ranço de erudição pedante, apesar da vastíssima cultura. Conversava de tudo, sempre com muito humor e espontaneidade. Nada a deixava mais satisfeita e entusiasmada do que um bom espetáculo. E nada a deixava mais contrariada do que um teatro displicente e mal elaborado. Em sua braveza crítica, tinha uma ironia e uma malícia deliciosas.

Nosso último encontro se deu numa noite fria, em pleno aterro do Flamengo, quando D.Bárbara, já com a saúde debilitada, garantiu com antecedência um dos assentos da frente, para assistir ao espetáculo “Os gigantes da montanha”. Foi em outubro de 2013. Lembro-me dela saindo, às pressas, feliz da vida e correndo para ainda ter tempo de escrever uma crítica do espetáculo, que pudesse ser publicada na mesma semana. O amor pelo teatro a mantinha viva e plena de vigor,   apesar da debilidade pulmonar que ia consumindo-a.

Clara, lúcida e extremamente generosa, deixa para o teatro brasileiro um legado teórico e de crítica que vai nos fazer muita falta. Estamos mais pobres e mais órfãos. Para mim, fica a lembrança, sempre viva, de D. Bárbara subindo as escadas para pegar um livro escondido, quase inacessível, no ponto mais alto da estante de sua maravilhosa biblioteca, do sobrado do Boticário, para nos mostrar alguma boa peça ou estudo crítico. Sua vontade de ensinar, de servir, de falar e venerar a arte do teatro era incomensurável.

É a vida…cumprimos nossa sina. Mas que merda! Ah, quer saber, muita MERDA D. Bárbara! Viva sempre o teatro. Da sua “patota”.

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->O PÚBLICO, ESSE FUGIDIO OBJETO DE DESEJO

Foi destaque na imprensa escrita de Belo Horizonte, nessa semana, o fato da campanha de popularização do teatro ter apresentado uma queda acentuada de público no ano de 2015. Há um bom tempo, fala-se da importância de se criar alternativas para a carência absoluta do grande público nos espetáculos de teatro da cidade. Os espetáculos já não cumprem temporadas e, as apresentações, quando acontecem em maior número, dificilmente excedem uns três fins de semana.

No início da década de 1980, quando comecei a fazer teatro, os espetáculos cumpriam, normalmente, três meses de temporadas, sendo que as funções aconteciam, no mínimo, de quinta a domingo. Hoje, o lançamento de um espetáculo tornou-se uma espécie de evento. A bilheteria perdeu completamente seu valor e, as companhias e grupos, não estabelecem mais uma relação de sobrevivência com o fluxo de espectadores que compram ingressos na bilheteria. Essa tendência de alicerçar a sobrevivência em projetos, que precisam ser aprovados, retira a independência do teatro e o torna ainda mais vulnerável. Não conseguimos mais, como artistas de teatro, viver da venda direta do nosso trabalho. A maioria tem se salvado no refúgio das instituições universitárias.

É claro que não é o caso de querer comparar o teatro de uma época com o de outra. Teria sido o teatro do início da década de oitenta mais independente ou limitado do que o é hoje? Não saberia responder. Na época, havia muito menos pessoas em volta do fazer teatral. Menos grupos, menos escolas, menos informação e muito menos casas de espetáculos. Sem dúvida, a produção era mais barata. Independente de comparações que acabam não levando a nada, acredito, que, de alguma forma, a ausência de vínculo das produções com o fluxo de público, acaba criando distorções e um certo desprezo ou indiferença dos artistas em relação ao “maravilhoso público pagante”. Isso também não deixa de ser um fator preocupante. O próprio público frequentador de teatro criou o costume de querer receber convites para as produções em que amigos participam, como se também fosse possível “descolar um pão gratuito na padaria ou um litro de leite no supermercado como uma cortesia”.

Essa reflexão me leva a citar dois pontos de vista congruentes de duas personalidades do mundo teatral a quem tive o prazer e o privilégio de ter acesso nesse último mês. O primeiro foi o livro ‘Teatro’, escrito pelo dramaturgo e diretor norte-americano David Mamet. E o segundo foi a entrevista dada pela nossa querida atriz Bibi Ferreira, no programa ‘Roda viva’ da TV Cultura. Ambos falam, sem reserva, que o teatro é feito única e exclusivamente para o público. Uma peça, para continuar viva,  precisa agradar ao público que vai assistir ao espetáculo e paga. Acho que uma boa parte da classe teatral torceria o nariz diante de uma afirmação tão singela e óbvia como essa.

Provocativo e contundente, Mamet afirma que, numa verdadeira troca teatral, “a plateia precisa ter duas qualificações: 1- deve ter vindo para ser entretida e 2- deve ter pagado o ingresso”. E por que a plateia deve ser formada por pagantes? Abro as aspas para as palavras do roteirista de ‘Tio Vânia em Nova York’: “Para permitir que as forças mágicas operem. (…) As frases mágicas induzem a plateia a se auto-sugestionar quanto à existência de forças de outro mundo. O preço do ingresso é um sacrifício que dá o direito à plateia de ter esse deleite. A plateia precisa ser formada por pagantes. O ato de pagar faz com que as pessoas passem de críticos a consumidores de direito. (…) O público que vem para ser satisfeito e que paga para ter esse privilégio vai extrair da peça esse deleite a que tem direito. Se a peça não for deleitável, ele vai ler o programa, dormir ou ir embora.”

O curioso é que a falta de conexão com o público faz, segundo a opinião tanto de Bibi quanto de Mamet, com que o grande nó do teatro atual seja a falta de bons dramaturgos. O teatro está sem rumo no quesito da construção de ideias. Para quem frequenta teatro, o argumento me parece bem consistente e, podemos até ser mais enfáticos, irrefutável. A grande maioria de todos esses processos coletivos/colaborativos/grupais se perdeu em devaneios. Boa parte deles, por uma espécie de esquizofrenia intelectual, em que falta ter como objetivo, a cadeia final e mais importante do teatro: o público.

Volto a citar o texto de Mamet, dirigindo-se aos aspirantes a dramaturgos, com sua linguagem direta, típica de um anglo-saxão: “Essa é a essência da troca teatral, e aqui observamos que o teatro é um exemplo perfeito de operação desimpedida do livre mercado. O dramaturgo não tem nenhuma oportunidade de explicar ao ator, investidor ou público: “O que eu quis dizer foi tal”. Ele pode apenas oferecer seus bens para a venda e ver se alguém os compra. (…) Que dizer da opinião do público? Seu julgamento desimpedido deve ser levado em consideração, pois a audiência é o reduto de potenciais compradores e, ainda que você possa discordar da rejeição, precisa compreendê-la, senão morrerá de fome”.

E, Mamet, continua: “A rejeição não articulada da plateia é a melhor ferramenta de estudo (talvez a única) do aspirante a dramaturgo. Sabemos porque a plateia aceitou este ou aquele trecho ou peça: porque era divertido, era triste, era dramático. Mas por que ela, caso a caso, cena a cena ou ritmo a ritmo, rejeitou a peça? Geralmente, por uma só razão: não tinha dramaticidade. (…) Bom, o que isso significa? Uma coisa apenas: que a tarefa do dramaturgo é fazer o público se perguntar o que vai acontecer depois. Só isso. Dizer que algo tem dramaticidade significa dizer: “Fiquei com vontade de continuar aqui para descobrir o que acontece depois””.

O teatro ganhou muitas coisas nas últimas décadas. Existe um espírito de inquietação e de reflexão, que é sempre muito positivo. As trocas e os encontros tornaram-se mais recorrentes, mas, de alguma maneira, perdemos um pouco (ou muito) no quesito de nossa ligação com o público. As audiências parecem estar mais restritas a guetos, a turmas. Os espetáculos perderam um pouco o seu sentido republicano de res publica, feito para uma cidade, para um país, o mundo. Em suma, para plateias sem restrições. E, por que não? Que paguem.

As respostas diretas e sem rodeios de Bibi, em sua entrevista, dizendo que o público é a instância fundamental e o fim de toda a estrutura teatral desde sempre, só me deixam mais convicto de que os grupos e a classe precisam encarar essa questão do encontro com o público.

Quanto à campanha, que foi um pretexto inicial para esse escrito, não há dúvida de que ela precisa ser repensada. As repetições de peças, a baixa qualidade de um bom número delas e a falta de disponibilidade dos organizadores e da classe em arregaçar as mangas e repensar um modelo, que dá provas de um esgotamento, atestam o fato. Seria bom que os grupos, os artistas e suas associações de classe repensassem o modelo da campanha dentro de um contexto de uma programação mais global, pensada para o ano todo. Bom, mas esse é um assunto para outra ocasião.

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->História, ancestralidade e teatro

Fui convidado recentemente pelo Instituto Inhotim para participar de uma mesa com o tema da História. O programa era constituído por uma fala e, posteriormente, a abertura para perguntas e questões dos espectadores. Além de mim, participaram da mesa, a historiadora Norma Côrtes, da UFRJ, e a artista plástica Adriana Varejão, que tem uma exposição permanente num dos pavilhões do Inhotim.

Os organizadores haviam me pedido um depoimento que fosse ligado à minha experiência como artista, especialmente como fundador e membro contínuo ao longo dos 32 anos de existência do Galpão.

Meu primeiro impulso ao pensar na palavra história foi lembrar que, nesse ano de 2014, completam-se cinquenta anos do malfadado golpe militar. Fiquei refletindo em como foi tímida a cobertura e a reflexão da grande mídia sobre esse momento histórico. E, com uma boa dose de tristeza e incômodo, fiquei pensando nas dificuldades para se jogar luz sobre uma série de arbitrariedades e assassinatos cometidos pelo período mais duro da ditadura, especialmente a partir de edição do AI-5, em dezembro de 1968.

A sensação que temos é que a Comissão da Verdade, instituída por uma presidente que sofreu torturas do sistema então vigente, é confrontada o tempo todo e não consegue levar a cabo seu trabalho. Esse tema foi o ponto de partida de minha exposição porque a fundação do Galpão se dá exatamente no momento em que a sociedade civil no Brasil tenta começar a se articular e a contestar a censura e a falta de liberdade imposta durante quase vinte anos pelos militares.

O Galpão nasceu em 1982, ano em que estávamos sob jugo do governo do general Figueiredo. O momento já não era tão favorável ao sistema, uma vez que a conjuntura internacional de crise do petróleo impunha reveses ao governo. A euforia dos “anos do milagre”, com taxas de crescimento bastante elevadas, era substituída por um quadro de incertezas e de cautela.

O momento torna-se propício para que o descontentamento se extravasasse. É nessa conjuntura, que nasce o Galpão e uma série de outros grupos pelo Brasil. O traço comum desses grupos é que eram coletivos que, buscando construir uma narrativa ficcional que seria fruto de sua experiência enquanto coletivo de atores, não aceita mais ficar em silêncio e ficar sob o jugo da censura e da falta de liberdade, decretada pelos militares.

São grupos que nascem não simplesmente para montar um determinado espetáculo, mas para construir conjuntamente uma história, que seja reflexo e manifestação de seus anseios e seu modo de ver o mundo, coletiva e individualmente. Projeto que se propõe a ser de médio e longo prazo, rompendo com a limitação de planejar-se apenas para o próximo espetáculo.

Era preciso reconquistar a capacidade de ser agente de uma narrativa própria, uma história que representasse a nós mesmos, nosso tempo e nossa sociedade. Coisa que, aliás, o teatro, sabia fazer muito bem até o final da década de sessenta, quando foi violentamente perseguido pela ditadura, exatamente por ser a vanguarda do movimento artístico político e social. A resistência vai ser a marca do DNA de muitos dos grupos que nascem nesse período.

No caso dos primórdios do Galpão, a resistência se dá com o teatro popular e de rua que, rompendo com a imobilidade e o silêncio, vai para as praças, juntando quinhentos, mil espectadores em volta de uma roda e associando-se a sindicatos e associações de bairro e profissionais. A sociedade começa a se movimentar em torno da democracia em manifestações que dariam origem à luta pela anistia, o retorno dos exilados políticos, as eleições amplas e gerais e a Constituinte. A água parada e represada, que gerava o mau cheiro de construções faraônicas, começava a circular e a ameaçar o status quo.

O diretor americano Peter Sellars, numa conferência para estudantes de teatro, na França, cita Aristóteles para dizer que a Poesia é mais importante que a História. O filósofo grego afirmava que enquanto a “História” fala das coisas tais como elas foram, a “Poesia” fala das coisas como poderiam ter sido. Nós, seres humanos, necessitamos mais do que simplesmente entender as coisas tais como foram, mas ir bem além disso, vislumbrando as coisas como poderiam ter sido. Aí, precisamente, está o poder transformador da “Poesia”, como elemento alternativo de construção do possível, de uma utopia. Utopia pensada na acepção defendida pela diretora francesa Arianne Mnouchkine quando ela diz que “L’utopie, c’est le possible non encore realisé”. A utopia como o possível ainda não concretizado.

E aí acho que começamos a nos deslocar do campo da “História” com “H”, para entrar no campo da “Estória”, da criação de uma narrativa simbólica e ficcional. Estória que nos conta, nos narra e nos representa enquanto indivíduos, coletivo, brasileiros, vivendo num determinado lugar e num determinado período de tempo.

Acho que a função primordial de um grupo de teatro como o Galpão, que persegue uma linguagem e o desenvolvimento de uma pesquisa, é o de criar uma narrativa. Uma narrativa que seja fruto e motor de nossos anseios individuais e de um micro-coletivo (um grupo de teatro) e que se confunde com os anseios e a trajetória de uma coletividade num determinado lugar e tempo. Essa, na verdade, tem sido nossa bússola ao longo desses mais de trinta anos. Um norte que se direciona pela heterogeneidade de encontros com diferentes diretores e artistas. Esse amálgama de diferentes influências acaba por gerar uma linguagem híbrida, com uma combinação de diferentes estilos e linguagens. Um permanente diálogo entre a tradição e a renovação, a rua e o palco, o erudito e o popular, mas cuja celebração primordial sempre foi o encontro com o público.

Essa gama de diferentes influências que acaba por gerar uma formação muito mais ligada à prática do que à escola, me leva a pensar no teatro do Galpão como uma matriz essencialmente brasileira. Para o bem e para o mal. O nosso caráter essencialmente intuitivo e carente de escola e de tradição, permanentemente entregue a esse processo de devoramento sensitivo e carnal. Pura antropofagia. Algo que comemos, digerimos e vomitamos, numa busca desesperada de compreensão e de apreensão através dos sentidos e da intuição. Feita aos trancos e aos barrancos.

E aí é importante que tenhamos em mente a natureza essencialmente presencial do teatro. O teatro é puro presente, que se faz no aqui e no agora. Sua natureza é perecível. Efêmera. Ele se faz enquanto ato, no encontro do artista com o público. O próprio trabalho do ator é um incessante movimento de vida e de morte. Aquilo que brota com uma potência extraordinária, fruto do jogo e da improvisação, começa a morrer quando precisa tomar uma forma a ser repetida. A presença viva do momento que se esvai no desejo de sua fixação. Aí está o grande desafio do ator – manter a presença viva, do aqui e do agora, naquilo que precisa conter uma forma e ser repetido.

Para dimensionarmos o caráter fugidio, contraditório e paradoxal do trabalho do ator, devemos ter em mente que, quando ele se lança na aventura da criação de um novo personagem, ele precisa buscar as mais diferentes referências como fonte de estudo e de inspiração. Suas fontes são as memórias e as experiências pessoais, as observações dos fatos, lugares, outras pessoas, leituras variadas, etc.

Paradoxalmente, é preciso também que ele consiga se esvaziar. Deixar de lado todos os maneirismos, as máscaras, trejeitos e truques que acumulou ao longo de uma carreira e que habitam seu corpo, fonte de sua expressão. É preciso esvaziar o pote para poder preenchê-lo com outro líquido. Nessa dialética entre o encher e o esvaziar-se é que transita a vida do ator. Precisamos pesquisar o material o mais amplo o possível e, ao mesmo tempo, transformarmo-nos numa página em branco, capaz de trilhar novos rumos e se desvencilhar do caminho já estabelecido. Percorrer a história e poder transcendê-la a partir de um salto poético.

O mesmo pêndulo em que oscila a arte entre a tradição e a renovação e a ruptura. O teatro é uma arte habitada pelos clássicos, pela presença de nossos ancestrais. Somos bisnetos da tragédia grega, da comédia latina, dos autos medievais, dos comediantes dell’arte, do teatro Elizabetano, Shakespeare, Molière, os heróis pícaros espanhóis, o teatro burguês, o melodrama, o realismo russo, o simbolismo, o teatro do absurdo, Becket, etc., etc.

Esse diálogo com a tradição, a ancestralidade, os clássicos é uma constante na nossa linguagem. Ela faz parte desse momento no processo de criação teatral que chamamos de “reconhecimento”. Reconhecermo-nos como agentes transformadores de uma herança que nos foi transmitida. É o mesmo Peter Sellars quem vai dizer: “Para ser ator, é preciso que o espírito de um dos seus ancestrais fale através de seu corpo. Você é universal. Universal simplesmente por uma determinada sabedoria dos ancestrais que pode ser comunicada novamente através de seu corpo e sua expressão, nesse preciso e determinado momento”.

Esse embate amoroso com a tradição e a herança dos ancestrais me remete a algumas passagens artísticas significativas na história do Galpão. A primeira delas com a montagem de “Romeu e Shakespeare” e as nossas duas temporadas no palco do “Shakespeare’s Globe theatre”, em Londres. Concebida como uma montagem que “falava ao coração do Brasil”, o espetáculo dirigido por Gabriel Villela, usava e abusava de referências da cultura popular brasileira e mineira. O casal de Verona cantava a seresta “Amo-te muito” na cena do casamento e morria embalado pela música de roda “Flor, minha flor”. Existia uma clara intenção de releitura e de infidelidade, transformando a tragédia de amor mais famosa de todos os tempos numa singela brincadeira de crianças.

A partir de sua abertura em 1998, o “Globe” havia criado um programa de intercâmbio, convidando montagens que segundo eles “contribuíam com leituras pouco ortodoxas para novas visões sobre a obra do Bardo”. Dentro desse espírito, eles fizeram contato e, em 2000, nosso “Romeu e Julieta” subiu ao palco do Globe para duas semanas de temporada.

Os ingleses, amantes inveterados do teatro e, especialmente, de Shakespeare, lotaram todas as apresentações. Diante de nossa entrada com uma banda espalhafatosa e os rostos pintados com uma maquiagem bem clownesca, a primeira reação era sempre um certo ar de espanto e de perplexidade que, pouco a pouco, era substituída por  alegria e deleite.

Dentro do espírito de recriação e de transposição, o que soava como infidelidade, era reconhecido como um resgate da mais genuína herança popular do teatro de Shakespeare. Na saudação de encerramento da temporada, o ator Mark Rylance, então diretor artístico da instituição, saudou o trabalho como uma aula que relembrava aos ingleses que o teatro de Shakespeare nasceu e foi escrito para uma plateia eminentemente popular. Não foi à toa que outro inglês, como o diretor Peter Brook, afirmou num artigo que o único lugar no mundo contemporâneo capaz de reproduzir o ambiente da audiência do teatro Elizabetano, seria a rua.

Outro tipo de transposição e de diálogo com a tradição se estabeleceu na nossa montagem da peça “Um homem é um homem”, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, com direção de Paulo José. O texto foi escrito e reescrito por seu autor ao longo de quase trinta anos. Como um teatro essencialmente dialético e político, as peças de Brecht estabelecem uma relação muito direta com a realidade. O próprio autor, no entanto, lançava mão do recurso da fábula, como elemento distanciador e, ao mesmo tempo, potencializador da crítica ao mundo da política e da história. A fábula como elemento poético, paradoxalmente, distanciava e aumentava o poder de crítica à realidade da sua escrita.

Na peça original, um grupo de quatro soldados do exército colonialista britânico, que está ocupando militarmente a Índia, assalta um pagode religioso para comprar bebida. Na operação, um dos soldados fica ferido e é preso. O grupo precisa arrumar um substituto e, para isso, encontra o estivador Galy Gay, um homem do povo que, julgando ser esperto, aceita a missão e se transforma num militar pronto para matar. A peça é uma fábula política sobre as consequências desastrosas que podem suceder a um homem “que não sabe dizer não”.

Nosso espetáculo foi montado no auge das chamadas “guerras preventivas” do período do governo Bush, que se sucederam ao ataque das torres gêmeas, em Nova York. Mantendo o espírito fabular da obra, fizemos também algumas adaptações que criavam conexões mais diretas com o presente. Nesse sentido, o exército da rainha era substituído por um grupo de metralhadores yankee, a história se passava na fictícia cidade de Dagbá, uma corruptela de Bagdá, que acabara de ser destruída pela invasão das tropas ocidentais e o temível sargento Fairchild se transformava num mexicano cucaracha, que tentava de todas as maneiras ocultar sua origem não caucasiana.

A mesma relação entre poesia e história podemos vislumbrar em outra montagem do Galpão, com direção de Paulo José, que foi a peça “Um inspetor geral” do escritor russo Nicolai Gógol. O texto faz uma radiografia demolidora da corrupção e dos pequenos “pecadilhos” que se tornam quotidianos na administração pública de uma distante província no interior da Rússia.

Comédia de erros, a peça extrai seu humor de um equívoco: o Governador e seu secretariado confundem o suposto inspetor que seria enviado pelo Czar, com um malandro dândi, que está preso num hotel por conta de dívidas contraídas no jogo. Como uma crítica feroz à corrupção e aos maus costumes da administração pública, a peça serve como uma luva a todo o tipo de adaptação aos dias de hoje e à nossa realidade. Paradoxalmente, nesse caso específico, nossa montagem optou por manter a trama no espaço da fábula e da poesia. Tal opção, creio, foi acertada e potencializou o espírito crítico da história.

É a mesma intenção de busca por uma narrativa ficcional e simbólica, que seja expressão da nossa história como indivíduos e coletivo, que nos lançou ao desafio de montar a última peça inconclusa do autor italiano Luigi Pirandello. A peça é uma fábula (mais uma!) que narra o encontro de uma companhia decadente de teatro (a Companhia da Condessa) com o mundo dos sonhos e da imaginação (a vila do mago Cotrone). Obra aberta que não foi terminada pela morte prematura do autor, “Os gigantes da montanha” é uma discussão sobre o possível caminho da arte, sugerindo um mergulho radical na poesia e no poder da imaginação como instrumento de sua sobrevivência num mundo cada vez mais dominado pelas regras do pragmatismo e o economicismo.

Voltando à sentença de Aristóteles de que a poesia é mais importante que a história, creio que ela está intimamente ligada à possibilidade que a arte tem de criar alternativas. Utopias e possibilidades que nos permitem fugir desse mundo sem solução, de aparências, que nos é apresentado de maneira massacrante nos noticiários dos jornais, nos folhetins da TV, nas opiniões fortuitas e irresponsáveis, alimentadas pela virtualidade das redes sociais. Aquilo que a prosa corrosiva de Baudelaire nomeou como “os sinais da perversidade humana mais detestável, quase sempre acompanhados pelas mais inverossímeis proclamações de honestidade, de bons sentimentos e de caridade”.

A alternativa a esse mundo sufocado pela objetividade e o controle é exatamente o mergulho no mundo da imaginação e da poesia proposto como saída pelo mago Cotrone para a arte e o teatro.

Há muito tempo se diz que o teatro está em crise e condenado ao desaparecimento. A crise será sempre seu estado inevitável, uma vez que é da sua natureza o ser efêmero, aquilo que morre no exato instante em que acabou de nascer. Mas, acredito que, ao contrário, o teatro se faz cada vez mais uma arte não apenas necessária, mas essencial. Isso porque sua característica mais marcante é o encontro de uma comunidade que celebra e reflete sobre a vida em comum. O encontro, a presença viva, o embate carnal entre um homem que conta e interpreta uma história, um drama, um conflito humano e uma comunidade (de espectadores) que vê, escuta e elabora sentidos. O “theatron” grego como máquina de se ver.

E, para terminar, gostaria de me reportar mais uma vez à história do Galpão e sua relação de 32 anos com a comunidade de Belo Horizonte, cidade em que o grupo nasceu e onde vive até hoje. Acho que o grupo, principalmente com o seu teatro de rua, ajudou para que a cidade descobrisse e reconhecesse com seu, espaços públicos vitais da sua geografia e de sua história. É o caso das praças Sete, Liberdade e da Savassi (que foram ocupadas nos incertos anos oitenta que ainda viviam a égide do controle policial e militar) e das praças do Papa e JK, literalmente descobertas pelos espetáculos do Galpão.

Se Belo Horizonte faz parte da história do Galpão, o Galpão, por sua vez, também faz parte da história de Belo Horizonte. O grupo se conta através de sua narrativa de espetáculos e ajuda à sua comunidade a se contar e a reconhecer-se como parte integrante de uma história.

Sintetizando o resumo dessa história, gostaria mais uma vez de citar as palavras de Peter Sellars quando ele diz: “O objetivo de uma artista não é o de simplesmente ver o mundo de uma maneira direta e objetiva: alguém é violento, esse alguém consequentemente é preso e colocado detrás das grades. Essa maneira direta de ver as coisas é o grande problema da nossa sociedade, que vive presa às aparências. A questão do teatro é outra – essa pessoa é violenta por quê? Quando começamos a perguntar por que, começamos também a intervir de forma criativa e não simplesmente destrutiva. (…) Existe alguma alternativa à violência? Isso é o teatro, dizer as coisas muito difíceis, dolorosas e sempre com amor. Se não nos confrontamos com essas coisas, elas acabam tornando-se ainda piores. Não se pode viver evitando-as. Sendo assim, o objetivo do teatro é, antes de mais nada, identificar aquelas coisas de que temos medo em nossas vidas e de enfrentá-las diretamente, pessoal e socialmente. Não morrer com elas, mas viver com elas. Não se entristecer dizendo: Mas o que é que se pode fazer? Nada. Nós decidimos que o mundo é podre e que nada pode ser feito”.

O teatro é uma espécie de ativismo em que reafirmamos que um único ser humano é algo de imenso. O que verdadeiramente está por trás da questão de Hamlet é: viver ou não viver, ver o mundo como uma espécie de sonho esfumaçado ou despertar e ser ativo, engajar-se diante do que está podre no reino da Dinamarca (…).

E é aí que a história de “Romeu e Julieta” nos emociona tanto. Eles não mudaram em nada, nem os Capuletto nem os Montecchios, que continuaram sendo horríveis. Mas essas duas pessoas disseram: “nós nos recusamos a viver assim, viveremos à parte e criaremos um outro mundo, pelo menos entre nós dois, no qual valha a pena viver”.

Eles não conseguiram, mas quinhentos anos depois, nós contamos e recontamos sua história porque ela nos traz um momento de glória e de alegria em nossas almas. Há algo nessa tristeza que nos faz ser mais corajosos. Portanto, nós continuamos a representar e a contar a história desses dois jovens que se recusaram a viver em meio ao ódio, ao racismo e a essa forma mesquinha e excludente de dizer: “Essas pessoas são boas e aquelas outras são más (…)”.

Se falamos de história é simplesmente porque ela está em nós. Estamos aqui graças ao trabalho e ao sacrifício de nossos ancestrais. As pessoas que morreram para que nós possamos ainda estar vivos. Nós “devemos respeitar as pessoas que tiveram coragem nesse mundo, porque, de outra maneira, perde-se toda e qualquer esperança”.

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