->Encontro com Irene Ziviane 4

ENCONTRO COM IRENE ZIVIANE 4:
Segue o relato da nossa série de encontros com a Irene:
Irene volta a sublinhar a importância dos olhos na composição postural. Trabalhar os seis músculos do sistema ocular, procurando imaginá-los sendo puxados do fundo da cabeça. São músculos vitais porque atravessam a cabeça, chegando até à coluna cervical. Ela mostra como nosso esqueleto é feito de um empilhamento harmônico e que, frequentemente, um desequilíbrio gravitacional na regiâo da bacia pode, por reflexo, causar um deslocamento de um dos lados do globo ocular. Nesse sentido, os olhos são fundamentais para o bom empilhamento da cabeça com a coluna e desta, com a bacia. A boa colocação dos olhos pode ser um termômetro para reencontrarmos a boa postura. Irene cita o exemplo de psicopatas, que sempre tem os olhos completamente desequilibrados (é o caso do goleiro de futebol Bruno).

Pensando no encaixe do braço com o tórax, somos levados a projetar os dedos mindinhos que ajudam a produzir o tal do “sorriso da clavícula”. Isso porque os mindinhos são o prolongamento da una, que é um osso fundamental para assentar a força descendente dos músculos posteriores do braço e tirar a força dos músculos do trapézio. Outro ponto fundamental para a saúde postural é o de projetar o osso da ponta do esterno para cima e para a frente. Isso ajuda a firmar a força ascendente da musculatura anterior do tórax. Depois de trabalhar com muita atenção a região da bacia, Irene coloca agora o foco na região do tórax e da cabeça.

O trabalho se concentra em fazer flexões tentando diminuir a força que é feita na região posterior do trapézio, transferindo-a para a musculatura anterior ( reto da coxa, pssoas). Irene pede para que ponhamos atenção na força da gravidadde da cadeira da una, puxando os cotovelos para baixo. As flexões são feitas com as pernas esticadas e flexionadas. Na parte final do trabalho, ela nos passa uma massagem na cabeça que é feita com o dedão na parte de trás da orelha e os outros quatro dedos na parte superior da cabeça. A massagem deve ser feita movimentando o couro cabeludo para frente e para trás. Quando o dedão está mais próximo das orelhas, a massagem está sendo feita no músculo cleido-mastóide (que liga o osso mastóide na cabeça até o osso cleido no esterno). Quando pegamos com o dedão mais para trás,fazendo o mesmo movimento para frente e para trás, passamos a massagear o trapézio.

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->Encontro com Irene Zivizne 3

Segue o relato de nossos encontros com Irene Ziviane. Ontem,fazendo “Romeu e Julieta” no ensaio lembrei o tempo todo de suas observações sobre a verticalidade bípede da nossa condição. Querida Irene!
Irene começa a olhar um a um, sentados com os isquios na ponta da cadeira. Todos, sem exceção, apresentam desvios da bacia, ocasionados pelo mau encaixe da perna ( direita ou esquerda) com o trocanter. Ela aponta para o fato de que as compensações desses desvios são inevitáveis, podendo acontecer de forma cruzada ( do outro lado do corpo) ou de forma isonômica ( do mesmo lado do corpo). No meu caso específico ( da perna esquerda estar posicionada para a frente do trocanter), ela aconselha que eu ponha atenção no músculo do reto da coxa direita ( puxando de forma ascendente) para ajudar a liberar a perna esquerda para trás.

Irene nos aconselha sempre a prestar atenção nas indicações que nosso corpo dá. Ele, instintivamente, busca o conforto. A cada um que vai se sentar na cadeira, ela nos pede que observemos a distribuição do peso do quadril. A dinâmica que se repete é a de que se, por exemplo, o lado direito está mais assentado, é sinal de que o encaixe da perna esquerda com o quadril está deslocado para a frente. E se, por outro lado, é o lado esquerdo que está mais assentado, é sinal de que é o encaixe da perna direita com o quadril é que se deslocou para a frente. O deslocamento da perna no Trocanter faz com que a musculatura posterior das costas do mesmo lado sofra um levantamento.

O exercício proposto para a cadeira é que cada um se assente nos isquios do quadril e abra a perna para a lateral, primeiro a direita e, depois, a esquerda. Ela nos pede para focar o ponto de partida de um movimento banal como levantar a perna e cruzá-la. A força tem que partir do centro do corpo, da ação do Pssoas e do reto da coxa. O que frequentemente acontece é que concentramos a maior parte da força nos músculos do joelho e dos pés. Privilegiar a força que vem do centro, procurando tirá-la da periferia. É a mesma atenção que precisamos ter quando enrolamos a coluna para a frente tentando encostar as mãos no chão. Apesar do corpo estar descendo, é fundamental que pensemos na musculatura anterior sempre voltada para cima. Isso automáticamente nos faz focar na força do reto do abdomen e na ação do Pssoas. Irene nos pede que façamos o percurso de estar de pé até sentar no chão em quatro tempos, pensando sempre na idéia do centro do corpo da parte da frente sendo segurado de forma ascendente. Depois,, ela pede que façamos, também em quatro tempos, o percurso de estar sentado até deitar no chão. Em seguida , mais quatro tempos, para encontrar diferentes posições de estar deitado no chão. E, por fim, fazer o percurso contrário, do estar deitado até se levantar e ficar de pé.

Repassamos o esquema dos músculos do centro do corpo A importância vital do Pssoas como o músculo que faz a ligação da perna com a bacia e é responsável por empilhar as 06 vértebras da lombar e a primeira vértebra da torácica, É também o músculo que segura as vísceras na parte posterior, Na parte anterior das vísceras vêm os músculos transversais e oblíquos, que fazem todo o trabalho de torção e, por fim, o reto do abdômen, que fecha o zíper, sempre com a idéia de puxar a região abdominal para cima. Irene mostra todas as etapas com seu pequeno esqueleto que já nos parece sua bonequinha de estimação.

Depois de analisar os deslocamentos e compensações de cada um, ele fala sobre as diferenças dos corpos. Como as pessoas normalmente se classificam em três divisões gerais – os endofórmicos ( mais assentados para baixo, que são viscerais) , os ectofórmicos ( mais longelíneos, com ossos mais alongados) e os Mezofórmicos que são mais quadrados. Entre os ecto estariam Teuda e Lydia. Entre os ecto, Paulo, Julio e Fernanda e entre os mezo, eu, Inês, Arildo, Toninho e Chico.

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->encontro com Irene Ziviane 2

Continuo o relato, numa espécie de diário de bordo, do nosso encontro com a Irene Ziviane, que representou, em muitos aspectos, uma renovação na nossa visão de um corpo apto à expressão criativa a partir de princípios posturais muito sutis e delicados.

ENCONTRO COM IRENE ZIVIANE
Segundo dia:

Começamos passando bolinhas de tênis nos pés. Irene nos pede que a bola passe nas bordas interna e externa dos pés. Ela fala em como o apoio dos pés causa desequilíbrios e distorções no balanceamento do corpo. Os pés que pendem para dentro e os pés que podem pender para o exterior. O exercício seguinte é o de apertar a bola com os pés, mantendo os calcanhares apoiados no chão.

O passo seguinte é fazer uma revisão de tudo o que foi visto e falado no encontro anterior. Pondero com Irene sobre a dificuldade de perceber a postura ascendente do musculatura anterior do corpo, especialmente com relação ao músculo reto da coxa. Talvez pela prática do treinamento do Pilates e a necessidade de estar sempre “colocando o umbigo para dentro”, a percepção do sentido ascendente e de alça do PSSOAS fique mais fácil de ser percebido.

Irene nos pede que façamos alguns abdominais, passando da posição de deitado para sentado e vice-e-versa. Em todas as flexões, ela alerta as pessoas para a importância de distribuir a força. Ela mostra como a força se concentra muito mais no trapézio e na região do pescoço e aponta para a necessidade de concentrar a força na região da musculatura anterior, com especial atenção para o músculo do reto da coxa e do PSSOAS. Por exemplo: o movimento de levantar uma perna deve partir do centro do corpo e não do joelho. Tirar a força da periferia e concentrar no centro. Ao se levantar uma perna, não é o pé que faz a força, mas o centro do corpo.

Outra questão levantada é a de empilhar a coluna. Irene nos fala da importância dos músculos que compõe os olhos e a língua na estabilidade da cabeça e, consequentemente, também da coluna. Como segurar o peso da cabeça? A ação dos músculos dos olhos se faz fundamental, especialmente pelo fato de que eles se irradiam até a parte posterior da cabeça, agindo sobre as vértebras da cervical. Fazemos alguns exercícios procurando conduzir os movimentos de cabeça a partir da interferência dos olhos.

Em seguida, Irene foca nossa atenção sobre o “sorriso da clavícula”, que faz com que o encaixe do braço no úmero (assim como o da perna no Trocanter) seja feito para a face exterior. Se os ombros se fecham, criam automaticamente uma zona de tensão e de desequilíbrio. Fazemos alguns movimentos de braços em roda buscando sempre manter a abertura da clavícula e o consequente posicionamento mais dos braços. Ela nos pede que façamos a rotação dos braços, mostrando no esqueleto como a posição dos ossos ( una e rádio) se invertem. Caminhamos com os braços em posição de “segurar uma maçã” com o intuito de abrir sempre a articulação da clavícula com o braço.

A continuação das avaliações ficam para o próximo encontro.

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->Encontro com Irene Ziviane

Aconselhado pelo ortopedista e amigo José Arthur Aguiar a fazer uma consulta sobre um pequeno desvio na cervical provavelmente causado pelo acidente que sofri no bonde de Santa Teresa, no Rio, resolvo juntar a fome com a vontade de comer. O nome indicado era da Irene Ziviane, uma estudiosa do corpo e seus mecanismos de postura, de quem sempre ouvi falar muito e com quem sempre tive uma enorme vontade de trabalhar junto com o Galpão. Toda uma gama de amigos ( de médicos, a atores e bailarinos) sempre falavam maravilhas sobre o seu trabalho. E realmente o trabalho da Irene é iluminado. Como disse o Paulo André, o ideal seria que pudéssemos nascer de novo, a partir das noções e percepções que a Irene nos passou nesses seis encontros ( de 02 horas cada) para podermos aproveitar melhor a vida e o bem estar dos nossos corpos.

Pedindo desculpas pelo meu atrevimento em relatar assuntos que estou longe de dominar, não resisti a fazer um breve relato desse encontro, que lanço aqui, nesse espaço, em capítulos.

ENCONTRO COM IRENE ZIVIANE – 1

Depois de uma série de telefonemas e combinações, finalmente chegou a hora de nos encontrarmos. Irene mora no bairro da Serra e vamos buscá-la, Inês, Paulo e eu. Como é de praxe numa pessoa que trabalha com o corpo, sua postura é centrada e seus olhos são atentos.  Ela traz duas malas com o material necessário para a aula. No percurso da sua casa até a sede do Galpão, ela faz algumas perguntas sobre a constituição física dos componentes do grupo e me pergunta se seria interessante que ela fizesse uma avaliação física individual de cada um.

Ao chegar no Galpão, montamos o piso com as estruturas de borracha, bebemos água e ficamos esperando os retardatários. A cidade está enfrentando uma greve de transportes. Irene não aparenta nenhum tipo de ansiedade com o tempo. Pergunta o nome da ceda um,com exceção de Lydia e Fernanda, que já são suas velhas conhecidas. Ela é da turma do Klaus e da Angel Vianna. Sentamos em roda e Irene diz que está felia em poder trabalhar com um grupo de artistas maduro, que já atingiu um grau de excelência e que tem uma trajetória. Ela tira da mala um pequeno esqueleto inteiro de um ser humano eos ossos de uma perna em tamanho natural composta pelo pé, a tibia, o fêmur e a bacia direita. Com o esqueleto inteiro, mostra as diferenças necessárias a que nos transformássemos em bípedes, as transformações e o esforço que precisamos fazer para nos mantermos de pé sobre duas pernas.

Mostrando o peuqeno esqueleto de pé, ela sublinha como é importante pensar na musculatura anterior (a da frente) do corpo nos alçando sempre para cima e a posterior (de trás), puxando para baixo. Fazemos alguns movimentos bem simples, como levantar uma perna, assentar-se ou deitar, pensando sempre em puxar a musculatura anterior para cima. Ela saca da sacola um esqueleto da bacia e, com a ajuda de um elástico e de um pedaço de espuma, nos mostra a importância do trabalho do músculo PSSOAS, que faz a ligação profunda en tre a musculatura das pernas  e as seis primeiras vértebras de baixo da coluna vertebral. Como uma espécie de suspensório, nosso trabalho precisa ser o de sempre alçar o PSSOAS para cima. Ela mostra como, em todos os movimentos mais quotidianos e simples, devemos sempre pensar em alçar o suspensório do PSSOAS e também do músculo coxo-femural.

Em seguida, ela volta ao pequeno esqueleto,  apontando como as vísceras da barriga são envolvidas pelo PSSOAS e a musculatura vertical e transversa da barriga. Ela nos alerta para a importância de fazer com que o movimento parta sempre da bacia, tirando a força de músculos sobrecarregados, como o trapézio, o pescoço e a cabeça. Fazemos movimentos de subir e abaixar, rotação e torção, procurando sempre ativar o movimento a partir da bacia.

O trabalho é sutil e exige senso de observação e muita sensibilidade. O passo seguinte é fazermos a observação das estruturas corporais e seus desvios e compensações em cada um individualmente. A proposta da Irene é ver umas três pessoas hoje e ir pegando o resto do grupo ao longo do trabalho. O foco é sempre a posição da bacia. Irene diz que o encaixe da perna com a bacia, na altura do osso representado pelo triângulo do TROCANTER deveria ser feito sempre para fora. Segundo ela, grande parte de todas as anomalias acontecem em função do fechamento nesse encaixe das pernas com a bacia, seja de um lado, seja do outro. Isso acaba fazendo com que a bacia fique torta ou desbalanceada. Isso, por sua vez, acaba criando tensões tanto nos pés, nos joelhos como na musculatura superior, do tronco, pescoço e da cabeça.

Três pessoas são analisadas – Teuda, Arildo e eu. Irene pede que cada um caminhe de frente e de costas. O fechamento do encaixe da perna com a bacia é mais evidente no quadril de Teuda. Seus passos parecem sobrecarregar mais uma perna que outra. O peso está desequilibrado. Os músculos anteriores do corpo parecem ter dificuldade de se alçarem para cima. A percepção do desequilíbrio é menos simples nas caminhadas de Arildo e na minha. No meu caso, ela diz que minha perna esquerda está fechando para frente na articulação com a bacia. É preciso pensar em abrí-la para trás. O movimento, é claro, precisa ser sutil e com cuidado. Ela diz que, frequentemente, depois de acertar o encaixe de uma perna , é preciso voltar o foco para o encaixe da outra, que caba sempre por também sofrer alterações.

Ao final do trabalho, as imagens e observações ficam reverberando em nossas cabeças, como se precisassem ser melhor digeridas e compreendidas. Um tempo mais dilatado que precisa ser assimilado pelos corpos. As observações, sempre feitas no Pilates, de segurar o centro do corpo, a partir de colocar o umbigo para dentro, parecem fazer um no vo sentido, especialmente a partir da imagem do PSSOAS como um suspensório que alça nossos músculos e estrutura óssea anterior, para cima.

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->O reencontro com Gabriel Villela

O reencontro com o Gabriel Villela
Depois de quase dez anos, voltamos a tocar em “Romeu e Julieta”, a peça que é a mais conhecida montagem do Galpão. Suas últimas apresentações aconteceram em janeiro de 2003, no grande teatro do palácio das Artes, em Belo Horizonte.
Confesso que estava com muito mêdo, principalmente do desgaste físico ocasionado por um espetáculo que foi criado quando eu tinha 31 anos e que me exige um enorme esforço de trabalho, no papel de um Romeu aéreo, que anda o tempo todo em pernas-de-pau e não para um só minuto entre muitas cenas. São nesses momentos que nos lembramos da cruel passagem do tempo. Refazer o percurso do mesmo personagem com vinte anos a mais nas costas não me parece uma tarefa fácil e sim bastante arriscada. E se o meu Romeu se tornasse uma espécie de caricatura daquele criado na década de noventa? A preocupação ganhava contornos quase dramáticos quando eu pensava que não tinha mais andado de pernas-de-pau desde março de 2006, depois de ter sofrido uma violenta torção no joelho direito, durante a última apresentação do espetáculo “Um homem é um homem” de Brecht, no festival de Curitiba. O acidente me fez passar a fazer o papel do soldado Uria Shelley numa cadeira de rodas. De um soldado em pernas-de-pau passei a fazer um soldado que era uma espécie de mutilado de guerra. A mudança funcionou muito bem para o enredo da peça, mas o temor de ter de voltar a trajar pernas-de-pau se manteve.
As comemorações dos 30 anos do Galpão e o convite para a nossa versão de “Romeu e Julieta” participar do projeto “Globe to Globe” do Shakespeare´s Globe Theater no âmbito das Olimpíadas de Londres, foram a gota d´água para decidirmos remontar o espetáculo. O projeto do Globe contemplará a montagem das 37 peças escritas por Shakespeare com montagens de todas as partes do mundo. Por uma exigência unanime dos funcionários do Globe, a versão de “Romeu e Julieta” teria de ser necessariamente a do Galpão, do Brasil. É a única das 37 versões que será apresentada pela segunda vez no teatro.
Arregaçamos as mangas e começamos a retomar o texto e a música do espetáculo. Conduzidos pelo Arildo, o assistente do Gabriel, a Babaya, preparadora vocal e o Fernando Muzzi, arranjador das músicas, começamos a levantar o material do espetáculo. Durante duas semanas, retomamos os arranjos instrumentais, o jogo das cenas, os timbres das vozes, as intenções e algumas marcações de cena. Tudo isso, para esperarmos a chegada do Gabriel Villela com um material já suficientemente preparado a ser reelaborado pelas suas mãos.

Foi quando chegou Gabriel. De imediato nos conduziu num trabalho de mesa que, milagrosamente, nos trazia de volta a atmosfera precipitada e plena de energia da montagem original. Conduzidos pelas mãos do diretor, fomos pouco a pouco recuperando o espírito da montagem em que a tragédia dos amantes de Verona é contada como uma brincadeira mambembe em que o jogo dos atores faz um tributo `a  alegria e deslumbramento do teatro popular. Atendo-se menos `a construção das cenas e mais `a retomada do “pathos” original dos personagens e das situações da peça, o diretor nos colocou encima de uma trave a quase dois metros do chão, para cantar músicas e dizer textos. Era a chave para que o espírito do risco da precipitação e da queda iminente se concretizasse plenamente nos corpos e nas vozes dos atores. A memória era reativada pelos corpos colocados em situação de perigo e o espírito da peça aflorava como uma espécie de milagre operado pelas mãos mágicas do nosso diretor. Com sucessivos trabalhos vocais, conduzidos pela Babaya e a Francesca dela Mona, as vozes dos atores retomavam o tônus vigoroso exigido pela vertigem do enredo da peça.

Nessas quase duas semanas de intenso trabalho, sentimos como se um milagre fosse operado e o espírito da poesia do Bardo brotasse através de nossos corpos. Como se algo adormecido durante quase dez anos, voltasse `a tona de maneira transbordante e visceral. Os adjetivos podem soar grandiloquentes e vazios, mas foi, sem sombra de dúvidas, um momento de força teatral que vamos carregar sempre conosco. O temor de remontar “Romeu e Julieta” vinte anos depois de sua estreia simplesmente desapareceu. Em seu lugar, brotou um grande prazer pela chance que o destino nos deu de sermos atores. Valeu Gabriel!

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->Quem viver, verá

Estamos entrando em 2012, ano em que o Galpão completa seu trigésimo ano de atividade ininterrupta. A data nos fez pensar numa série de eventos comemorativos e, antes de mais nada, na criação de uma marca, que funcione como um emblema desse momento tão significativo. Quando completamos vinte anos, o lema comemorativo veio com os dizeres – “Grupo Galpão, 20 anos de teatro”. Os vinte e cinco anos falavam de “um teatro de encontros”, celebrando o fato do Galpão ser um grupo de atores que, ao longo de toda a sua existência, trabalhou com diferentes diretores, cenógrafos, figurinistas, dramaturgos, atores e artistas em geral, numa permanente troca de experiências, que acabou por ser fundamental na moldura daquilo que chamamos a linguagem do grupo. E agora, os trinta anos? Que universos e novas perspectivas se abrem no horizonte do grupo? A idéia de uma marca precisa partir de um conceito que nos ajude a pensar no lugar do grupo dentro do contexto atual e também do significado da existência de uma companhia de atores que consolidou uma proposta artística ao longo de trinta anos, numa cidade como Belo Horizonte.

O que teria acontecido nos últimos cinco anos de singular em relação aos 25 anos anteriores que celebraram a arte dos encontros? Sem dúvida que a passagem do tempo e uma certa urgência com relação ao mesmo. Acho que as características mais marcantes que seguem acompanhando a trajetória do Galpão são o trabalho coletivo, baseado num esforço de grupo; o fato de sermos um grupo de atores que continua trabalhando com diferentes diretores convidados, o que dá `a sua linguagem uma qualidade bastante diversa ( o “Eclipse” é, certamente, um dos exemplos mais radicais dessa multiplicidade de linguagens) e uma busca pelo risco e pelo desconhecido que também está intimamente ligado a uma prática teatral muito mais próxima da diversidade do que da especialização. Lembro que quando chegamos `a finalização do livro dos 15 anos do Galpão, eu e Cacá Brandão, chegamos, sem pestanejar, ao título – “Grupo Galpão, 15 anos de risco e rito” . A busca do risco sempre foi, em alguns momentos mais outros menos, outro objetivo primordial. Tentando responder `a pergunta que abre esse parágrafo, acho que o grupo começa, pouco a pouco, a se abrir `a reflexão sobre o possível legado que o Galpão poderia ou deveria deixar para as gerações futuras.

É claro que essa não é uma propriamente uma novidade. A própria fundação do Galpão Cine Horto, quase quinze anos atrás, é uma prova irrefutável desse desejo de transmissão de uma forma de fazer teatro característica do grupo. Além disso, as dezenas de encontros e de breves oficinas que fazemos todos os anos por nossas viagens pelo Brasil são também testemunhos dessa preocupação. O curioso é que os muitos artistas e grupos que se formaram ou se reciclaram dentro do Cine Horto, apesar de se organizarem teatralmente em características bem próximas `as do Galpão, acabaram por praticarem uma linguagem muitas vezes diametralmente oposta `a do grupo, especialmente quando pensamos na questão do público. A tendência mais forte que nasceu e floresceu no centro cultural do Galpão foi de um teatro colaborativo, que frequentemente privilegia menos a comunicação com o público e mais um processo de produção interna do grupo. Nisso não vai nenhum tipo de crítica ao trabalho desses coletivos e desses artistas, mas apenas a percepção de os universos são bem distintos. O grupo não criou uma nova de geração de atores que esteja presente dentro dos espetáculos do próprio grupo. Isso não propriamente por uma incapacidade, mas mais por uma opção.Talvez fosse o momento de repensar esse tipo de opção. Quando nos preparamos para fazer uma remontagem comemorativa da nossa versão de “Romeu e Julieta”, dirigida pelo Gabriel Villela, fico pensando com meus botões, se essa nova versão não poderia contar com uma nova geração de atores, que certamente ajudariam na renovação do grupo.

Esse tipo de renovação acontece muito quando os atores do grupo trabalham com outros grupos mais jovens ou no seio do Cine Horto, mas ainda não penetrou no seio do próprio grupo, que se mantem fechado. Não tenho certeza sobre que tipo  de transformação está sendo gestada no limiar desses nossos trinta anos, mas creio que mudanças grandes virão. Alguns indícios claros disso são  a divisão do grupo em dois elencos distintos no projeto “Viagem a Tchékhov” e a arriscada empreitada de uma nova sede que reuniria o Grupo Galpão e o Cine Horto na avenida dos Andradas. Quem viver, verá.

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->O Galpão em Porangatu

Chegamos à nossa última apresentação de “Tio Vânia” no anos de 2011 e ela terá um sabor especial de aventura, pois será a abertura do décimo TENPO ( festival Nacional de teatro de Porangatu). Cidade situada a quase horas de ônibus de Brasília, Porangatu está bem no norte de Goiás, uns poucos quilômetros da fronteira com Tocantins. A beira da Belém-Brasília, a cidade será cortada pela ferrovia Norte-Sul que vai transportar grande parte da produção de cereais da região Centro-Oeste para o litoral. A paisagem vai pouco a pouco sendo ocupada pelas enormes culturas de soja e a invasão do agronegócio. O centro de porangatu tem uma simpática lagoa artifial em cujas árvores se aboletam milhares de maritacas barulhentas que se preparam para passar a noite em suas copas.

O espetáculo está programado para ser apreentado numa enorme lona levantada à beira da lagoa que, por isso mesmo, recebeu o nome de “Tenda da lagoa”. Pelas condições apresentadas, seremos obrigados a usar pela primeira vez, microfones sem fio. O público será provavelmente uma ruidosa platéia, desacostumada com o teatro e que vai logo de cara, bater de frente com um “Tio Vânia” de Tchékhov. É uma experiência difícil mas,por isso mesmo, estimulante. Ao contrário de muitos, que continuam proferindo sentenças cheias de sabedoria e arrogância de seus gabinetes teatrais financiados pelas benesses das instituições de saber, nós continuamos dando a cara a tapa.Ainda bem!

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->Uma perda irreparável

Chegando a São Paulo para a estreia de “Tio Vânia” numa curta temporada no teatro SESC Vila Mariana, fui surpreendido pela notícia do falecimento de Marcelo Castilho Avellar.A notícia caiu como uma bomba entre todos nós do Galpão. Marcelo foi, sem sombra de dúvidas, um dos mais brilhantes expoentes da nossa geração. Dono de uma erudição e de um conhecimento fora do comum, era um dos críticos mais lúcidos e inteligentes e que escrevia com uma clareza que hoje nenhum outro representante da imprensa escrita na área de artes cênicas no Brasil ostenta da mesma forma. Num momento em que vemos o jornalismo crítico e debatedor de idéias perder mais e mais espaço na mídia escrita. Num momento em que a crítica cultural se exime cada vez mais em aprofundar questões e temas inerentes às artes, restringindo-se a indicar, com estrelinhas ou bolinhas, um espetáculo ao gosto do espectador-consumidor, a perda de uma figura como Marcelo Castilho, é mais um vazio, é uma verdadeira tragédia.
As melhores críticas feitas ao trabalho do Galpão foram escritas pelo Marcelo. E não pelo elogio, mas pelo capacidade de fazer conexões que iam muito além do espetáculo em si. Marcelo era um desses observadores privilegiados que, com embasamento, era capaz de fazer essas conexões, que nos ligam a um passado e nos projetam a um possível futuro. Sua escrita fluida, cristalina e inquieta não deixa substitutos. Uma perda irreparável.

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->Teatro Grande Otelo em Uberlãndia

Nada mais triste que o fechamento de um teatro. Um lugar de sonhos de uma cidade, um oásis no deserto de edificações tenebrosas sem nenhum critério que viraram nossas cidades.Um território de imaginação no lugar de ninguém em que vão se transformando nossas ruas. Lembro-me bem, quando na década de 80, a população e especialmente a classe artística de Belo Horizonte se mobilizou contra a derrubada do Cine Metrópole, no centro de Belo Horizonte. O prédio, que tinha sido o teatro Municipal da cidade, carregava em suas paredes a história dos sonhos desta cidade chamada Belo Horizonte e seus habitantes. Não adiantou de nada. Com o assentimento do então governador Tancredo Neves, o prédio foi demolido e em seu lugar, o banco Bradesco, construiu um dos prédios mais horripilantes do maltratado centro de BHz.
Agora somos surpreendidos com o abandono total e absoluto por parte dos poderes públicos do teatro Grande Otelo, na cidade de Uberlândia. Para quem não sabe, Uberlândia foi provavelmente a cidade do interior de Minas mais visitada pelo Galpão, no período de sua consolidação e afirmação, nos ido de 1984 até 87. Durante esses anos, fizemos várias atividades como apresentação de espetáculos, oficinas, criação de trabalhos de rua junto com atores da cidade. Criou-se ali, naquele momento, uma fagulha de sonhos que irradiava pelas ruas da cidade. Os dois pólos desse movimento eram a praça Tubal Vilela, bem no centro da cidade e o teatro Grande Otelo, onde apresentamos pela primeira vez fora de Belo Horizonte, nossos espetáculos de palco “De olhos fechados” e “Arlequim, servidor de tantos amores”. No mesmo palco do teatro, ministramos várias oficinas e fizemos inúmeros encontros com grupos e artistas da cidade. Ainda no “Grande Otelo”, já na década de 90, apresentamos “A rua da amargura”, um dos principais sucessos da trajetória do Galpão, dirigido por Gabriel Villela. O espetáculo tinha uma primeira parte ( uma folia de reis) , apresentada na praça em frente ao teatro e a segunda (a paixão de Cristo) que ocupava o palco do teatro.
Há anos assisto, com enorme tristeza, o fechamento de longa data desse “abrigo de sonhos” em Uberlândia, que leva o nome de seu artista maior e um dos maiores artistas populares de todos os tempos. Acho realmente muito estranho que os poderes públicos tenham dinheiro para construir um teatro como o do projeto de Oscar Niemeyer e não tenha a sensibilidade de manter um espaço que pertence à história da cidade e que, cuja manutenção, ´é sem sombra de dúvidas, imensamente inferior em termos de custos do que o primeiro. Sem entrar em picuinhas e detalhes políticos ( que certamente serão muitos e bem intrincados), peço, que todos as pessoas de bem, artistas e não artistas, políticos e não políticos, pessoas que amam e lutam pela cultura de Uberlândia, de Minas e do Brasil, juntem as mãos e lutem pela preservação e o reerguimento desse teatro que, na minha memória, está intimamente ligado à esperança e ao sonho de fazer dos homens pessoas melhores.

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->Sobre acidentes

Recentemente estivemos na abertura do festival “Floripa”, também chamado de Isnard Azevedo, que chegou à sua décima-oitava edição. O tempo na cidade estava chuvoso e todos nós, do elenco, sentimo-nos aliviados pelo fato de que o espetáculo “Till, a saga de um herói torto” seria extraordinariamente apresentado no palco do moderno teatro “Pedro Ivo”. Ainda que o espetáculo tenha sido criado para as apresentações de rua, ele seria encenado no palco do teatro, a fim de incluir na cerimônia os discursos e as efemérides da abertura do festival. Pensamos com nossos botões: estamos salvos. O alívio foi maior ainda, diante das lembranças do terrível aperto que passamos recentemente na pequena cidade baiana de Laura de Freitas, quando depois de um dia inteiro de chuvas e ventos, São Pedro resolveu negociar com os deuses do teatro e nos deu duas horas e meia de intervalo para que pudéssemos apresentar o mesmo “Till” na praça central da pequena cidade, vizinha a Salvador.
Mas voltando ao agradável balneário do sul do Brasil, após uma série de discursos previstos na solenidade de abertura, começamos o espetáculo. A platéia era composta em sua grande maioria por artistas e uns poucos burocratas da cultura. As primeiras cenas já indicavam que o espetáculo seria quente, com uma viva participação do público no jogo do espetáculo. Depois da cena vibrante e cheia de risadas do nascimento do nosso protagonista Till Eullenspiegel , quando o mesmo se preparava para roubar uma refeição na budega do portuga, para logo em seguida ser prêso e condenado à forca, inexplicavelmente a luz do moderno teatro se apagou. Enquanto Inês e Beto improvisavam, esperando que a energia fosse prontamente reestabelecida, alguém adentrou na platéia anunciando em altos brados que uma picape havia perdido o controle e derrubado um poste bem em frente ao teatro. Resultado: havia uma pane elétrica em toda a rua e não havia previsão para que a mesma fosse restabelecida. No meio de uma sequência de boatos que davam conta que o motorista havia atropelado pessoas que esperavam um ônibus num ponto, nos vimos diante do dilema do que fazer diante de quase quatrocentas pessoas dentro de um teatro escuro que não queriam sair e permaneciam ávidas pela continuação do espetáculo. A primeira esperança de que o teatro dispusesse de um gerador foi logo abandonada. Apesar de moderno e recentemente inaugurado, o teatro não dispunha de gerador. Enquanto novas versões do acidente chegavam, dando conta da morte de até seis pedestres que aguardavam o coletivo no ponto, atores, equipe técnica, produtores e público discutiam acaloradamente sobre o que fazer. Diante da impossibilidade de contarmos com um possível gerador e a remota possibilidade do restabelecimento da energia, decidimos por nossa conta e risco, tentar fazer o espetáculo até o fim com uma luz de emergência e com as tochas do cenário acesas. Sabíamos que aquelas luzes teriam no máximo mais uma hora de sobrevida e que ainda havia mais tempo de cena a ser mostrada. Mesmo assim, seguimos em frente. A vontade do público de que aquela empreitada conseguisse chegar ao fim fez com que os quase quatrocentos espectadores entrassem de tal maneira dentro do espetáculo, que começamos a viver ali uma experiência única de celebração e comunhão com uma platéia, como só o teatro é capaz de possibilitar. Ao final de um espetáculo em que os improvisos entre os atores tiveram de ser constantes, com a entrada em cena dos técnicos para ajudar na iluminação mínima das cenas, ausência completa dos efeitos musicais tocados no piano e na guitarra elétrica, inexistência da amplificação dos microfones, o que se via era um público interagindo de tal maneira com a representação como se estivéssemos num tempo primordial do teatro. Um espetáculo medieval, feito à luz de tochas, dentro de um teatro moderno, na abertura de um festival nacional dentro de um moderno teatro na cidade de Florianópolis. Os deuses do teatro se faziam presentes mais uma vez, fazendo com que fôssemos seus porta-vozes de uma celebração dionisíaca como só o teatro é capaz de proporcionar. Um alimento para nossas almas de artistas. Ah,e mais um detalhe de alívio: apesar da imprudência assasina, dessa vez a condutora do veículo não fez nenhuma vítima fatal.

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