->Quem viver, verá

Estamos entrando em 2012, ano em que o Galpão completa seu trigésimo ano de atividade ininterrupta. A data nos fez pensar numa série de eventos comemorativos e, antes de mais nada, na criação de uma marca, que funcione como um emblema desse momento tão significativo. Quando completamos vinte anos, o lema comemorativo veio com os dizeres – “Grupo Galpão, 20 anos de teatro”. Os vinte e cinco anos falavam de “um teatro de encontros”, celebrando o fato do Galpão ser um grupo de atores que, ao longo de toda a sua existência, trabalhou com diferentes diretores, cenógrafos, figurinistas, dramaturgos, atores e artistas em geral, numa permanente troca de experiências, que acabou por ser fundamental na moldura daquilo que chamamos a linguagem do grupo. E agora, os trinta anos? Que universos e novas perspectivas se abrem no horizonte do grupo? A idéia de uma marca precisa partir de um conceito que nos ajude a pensar no lugar do grupo dentro do contexto atual e também do significado da existência de uma companhia de atores que consolidou uma proposta artística ao longo de trinta anos, numa cidade como Belo Horizonte.

O que teria acontecido nos últimos cinco anos de singular em relação aos 25 anos anteriores que celebraram a arte dos encontros? Sem dúvida que a passagem do tempo e uma certa urgência com relação ao mesmo. Acho que as características mais marcantes que seguem acompanhando a trajetória do Galpão são o trabalho coletivo, baseado num esforço de grupo; o fato de sermos um grupo de atores que continua trabalhando com diferentes diretores convidados, o que dá `a sua linguagem uma qualidade bastante diversa ( o “Eclipse” é, certamente, um dos exemplos mais radicais dessa multiplicidade de linguagens) e uma busca pelo risco e pelo desconhecido que também está intimamente ligado a uma prática teatral muito mais próxima da diversidade do que da especialização. Lembro que quando chegamos `a finalização do livro dos 15 anos do Galpão, eu e Cacá Brandão, chegamos, sem pestanejar, ao título – “Grupo Galpão, 15 anos de risco e rito” . A busca do risco sempre foi, em alguns momentos mais outros menos, outro objetivo primordial. Tentando responder `a pergunta que abre esse parágrafo, acho que o grupo começa, pouco a pouco, a se abrir `a reflexão sobre o possível legado que o Galpão poderia ou deveria deixar para as gerações futuras.

É claro que essa não é uma propriamente uma novidade. A própria fundação do Galpão Cine Horto, quase quinze anos atrás, é uma prova irrefutável desse desejo de transmissão de uma forma de fazer teatro característica do grupo. Além disso, as dezenas de encontros e de breves oficinas que fazemos todos os anos por nossas viagens pelo Brasil são também testemunhos dessa preocupação. O curioso é que os muitos artistas e grupos que se formaram ou se reciclaram dentro do Cine Horto, apesar de se organizarem teatralmente em características bem próximas `as do Galpão, acabaram por praticarem uma linguagem muitas vezes diametralmente oposta `a do grupo, especialmente quando pensamos na questão do público. A tendência mais forte que nasceu e floresceu no centro cultural do Galpão foi de um teatro colaborativo, que frequentemente privilegia menos a comunicação com o público e mais um processo de produção interna do grupo. Nisso não vai nenhum tipo de crítica ao trabalho desses coletivos e desses artistas, mas apenas a percepção de os universos são bem distintos. O grupo não criou uma nova de geração de atores que esteja presente dentro dos espetáculos do próprio grupo. Isso não propriamente por uma incapacidade, mas mais por uma opção.Talvez fosse o momento de repensar esse tipo de opção. Quando nos preparamos para fazer uma remontagem comemorativa da nossa versão de “Romeu e Julieta”, dirigida pelo Gabriel Villela, fico pensando com meus botões, se essa nova versão não poderia contar com uma nova geração de atores, que certamente ajudariam na renovação do grupo.

Esse tipo de renovação acontece muito quando os atores do grupo trabalham com outros grupos mais jovens ou no seio do Cine Horto, mas ainda não penetrou no seio do próprio grupo, que se mantem fechado. Não tenho certeza sobre que tipo  de transformação está sendo gestada no limiar desses nossos trinta anos, mas creio que mudanças grandes virão. Alguns indícios claros disso são  a divisão do grupo em dois elencos distintos no projeto “Viagem a Tchékhov” e a arriscada empreitada de uma nova sede que reuniria o Grupo Galpão e o Cine Horto na avenida dos Andradas. Quem viver, verá.

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->O Galpão em Porangatu

Chegamos à nossa última apresentação de “Tio Vânia” no anos de 2011 e ela terá um sabor especial de aventura, pois será a abertura do décimo TENPO ( festival Nacional de teatro de Porangatu). Cidade situada a quase horas de ônibus de Brasília, Porangatu está bem no norte de Goiás, uns poucos quilômetros da fronteira com Tocantins. A beira da Belém-Brasília, a cidade será cortada pela ferrovia Norte-Sul que vai transportar grande parte da produção de cereais da região Centro-Oeste para o litoral. A paisagem vai pouco a pouco sendo ocupada pelas enormes culturas de soja e a invasão do agronegócio. O centro de porangatu tem uma simpática lagoa artifial em cujas árvores se aboletam milhares de maritacas barulhentas que se preparam para passar a noite em suas copas.

O espetáculo está programado para ser apreentado numa enorme lona levantada à beira da lagoa que, por isso mesmo, recebeu o nome de “Tenda da lagoa”. Pelas condições apresentadas, seremos obrigados a usar pela primeira vez, microfones sem fio. O público será provavelmente uma ruidosa platéia, desacostumada com o teatro e que vai logo de cara, bater de frente com um “Tio Vânia” de Tchékhov. É uma experiência difícil mas,por isso mesmo, estimulante. Ao contrário de muitos, que continuam proferindo sentenças cheias de sabedoria e arrogância de seus gabinetes teatrais financiados pelas benesses das instituições de saber, nós continuamos dando a cara a tapa.Ainda bem!

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->Uma perda irreparável

Chegando a São Paulo para a estreia de “Tio Vânia” numa curta temporada no teatro SESC Vila Mariana, fui surpreendido pela notícia do falecimento de Marcelo Castilho Avellar.A notícia caiu como uma bomba entre todos nós do Galpão. Marcelo foi, sem sombra de dúvidas, um dos mais brilhantes expoentes da nossa geração. Dono de uma erudição e de um conhecimento fora do comum, era um dos críticos mais lúcidos e inteligentes e que escrevia com uma clareza que hoje nenhum outro representante da imprensa escrita na área de artes cênicas no Brasil ostenta da mesma forma. Num momento em que vemos o jornalismo crítico e debatedor de idéias perder mais e mais espaço na mídia escrita. Num momento em que a crítica cultural se exime cada vez mais em aprofundar questões e temas inerentes às artes, restringindo-se a indicar, com estrelinhas ou bolinhas, um espetáculo ao gosto do espectador-consumidor, a perda de uma figura como Marcelo Castilho, é mais um vazio, é uma verdadeira tragédia.
As melhores críticas feitas ao trabalho do Galpão foram escritas pelo Marcelo. E não pelo elogio, mas pelo capacidade de fazer conexões que iam muito além do espetáculo em si. Marcelo era um desses observadores privilegiados que, com embasamento, era capaz de fazer essas conexões, que nos ligam a um passado e nos projetam a um possível futuro. Sua escrita fluida, cristalina e inquieta não deixa substitutos. Uma perda irreparável.

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->Teatro Grande Otelo em Uberlãndia

Nada mais triste que o fechamento de um teatro. Um lugar de sonhos de uma cidade, um oásis no deserto de edificações tenebrosas sem nenhum critério que viraram nossas cidades.Um território de imaginação no lugar de ninguém em que vão se transformando nossas ruas. Lembro-me bem, quando na década de 80, a população e especialmente a classe artística de Belo Horizonte se mobilizou contra a derrubada do Cine Metrópole, no centro de Belo Horizonte. O prédio, que tinha sido o teatro Municipal da cidade, carregava em suas paredes a história dos sonhos desta cidade chamada Belo Horizonte e seus habitantes. Não adiantou de nada. Com o assentimento do então governador Tancredo Neves, o prédio foi demolido e em seu lugar, o banco Bradesco, construiu um dos prédios mais horripilantes do maltratado centro de BHz.
Agora somos surpreendidos com o abandono total e absoluto por parte dos poderes públicos do teatro Grande Otelo, na cidade de Uberlândia. Para quem não sabe, Uberlândia foi provavelmente a cidade do interior de Minas mais visitada pelo Galpão, no período de sua consolidação e afirmação, nos ido de 1984 até 87. Durante esses anos, fizemos várias atividades como apresentação de espetáculos, oficinas, criação de trabalhos de rua junto com atores da cidade. Criou-se ali, naquele momento, uma fagulha de sonhos que irradiava pelas ruas da cidade. Os dois pólos desse movimento eram a praça Tubal Vilela, bem no centro da cidade e o teatro Grande Otelo, onde apresentamos pela primeira vez fora de Belo Horizonte, nossos espetáculos de palco “De olhos fechados” e “Arlequim, servidor de tantos amores”. No mesmo palco do teatro, ministramos várias oficinas e fizemos inúmeros encontros com grupos e artistas da cidade. Ainda no “Grande Otelo”, já na década de 90, apresentamos “A rua da amargura”, um dos principais sucessos da trajetória do Galpão, dirigido por Gabriel Villela. O espetáculo tinha uma primeira parte ( uma folia de reis) , apresentada na praça em frente ao teatro e a segunda (a paixão de Cristo) que ocupava o palco do teatro.
Há anos assisto, com enorme tristeza, o fechamento de longa data desse “abrigo de sonhos” em Uberlândia, que leva o nome de seu artista maior e um dos maiores artistas populares de todos os tempos. Acho realmente muito estranho que os poderes públicos tenham dinheiro para construir um teatro como o do projeto de Oscar Niemeyer e não tenha a sensibilidade de manter um espaço que pertence à história da cidade e que, cuja manutenção, ´é sem sombra de dúvidas, imensamente inferior em termos de custos do que o primeiro. Sem entrar em picuinhas e detalhes políticos ( que certamente serão muitos e bem intrincados), peço, que todos as pessoas de bem, artistas e não artistas, políticos e não políticos, pessoas que amam e lutam pela cultura de Uberlândia, de Minas e do Brasil, juntem as mãos e lutem pela preservação e o reerguimento desse teatro que, na minha memória, está intimamente ligado à esperança e ao sonho de fazer dos homens pessoas melhores.

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->Sobre acidentes

Recentemente estivemos na abertura do festival “Floripa”, também chamado de Isnard Azevedo, que chegou à sua décima-oitava edição. O tempo na cidade estava chuvoso e todos nós, do elenco, sentimo-nos aliviados pelo fato de que o espetáculo “Till, a saga de um herói torto” seria extraordinariamente apresentado no palco do moderno teatro “Pedro Ivo”. Ainda que o espetáculo tenha sido criado para as apresentações de rua, ele seria encenado no palco do teatro, a fim de incluir na cerimônia os discursos e as efemérides da abertura do festival. Pensamos com nossos botões: estamos salvos. O alívio foi maior ainda, diante das lembranças do terrível aperto que passamos recentemente na pequena cidade baiana de Laura de Freitas, quando depois de um dia inteiro de chuvas e ventos, São Pedro resolveu negociar com os deuses do teatro e nos deu duas horas e meia de intervalo para que pudéssemos apresentar o mesmo “Till” na praça central da pequena cidade, vizinha a Salvador.
Mas voltando ao agradável balneário do sul do Brasil, após uma série de discursos previstos na solenidade de abertura, começamos o espetáculo. A platéia era composta em sua grande maioria por artistas e uns poucos burocratas da cultura. As primeiras cenas já indicavam que o espetáculo seria quente, com uma viva participação do público no jogo do espetáculo. Depois da cena vibrante e cheia de risadas do nascimento do nosso protagonista Till Eullenspiegel , quando o mesmo se preparava para roubar uma refeição na budega do portuga, para logo em seguida ser prêso e condenado à forca, inexplicavelmente a luz do moderno teatro se apagou. Enquanto Inês e Beto improvisavam, esperando que a energia fosse prontamente reestabelecida, alguém adentrou na platéia anunciando em altos brados que uma picape havia perdido o controle e derrubado um poste bem em frente ao teatro. Resultado: havia uma pane elétrica em toda a rua e não havia previsão para que a mesma fosse restabelecida. No meio de uma sequência de boatos que davam conta que o motorista havia atropelado pessoas que esperavam um ônibus num ponto, nos vimos diante do dilema do que fazer diante de quase quatrocentas pessoas dentro de um teatro escuro que não queriam sair e permaneciam ávidas pela continuação do espetáculo. A primeira esperança de que o teatro dispusesse de um gerador foi logo abandonada. Apesar de moderno e recentemente inaugurado, o teatro não dispunha de gerador. Enquanto novas versões do acidente chegavam, dando conta da morte de até seis pedestres que aguardavam o coletivo no ponto, atores, equipe técnica, produtores e público discutiam acaloradamente sobre o que fazer. Diante da impossibilidade de contarmos com um possível gerador e a remota possibilidade do restabelecimento da energia, decidimos por nossa conta e risco, tentar fazer o espetáculo até o fim com uma luz de emergência e com as tochas do cenário acesas. Sabíamos que aquelas luzes teriam no máximo mais uma hora de sobrevida e que ainda havia mais tempo de cena a ser mostrada. Mesmo assim, seguimos em frente. A vontade do público de que aquela empreitada conseguisse chegar ao fim fez com que os quase quatrocentos espectadores entrassem de tal maneira dentro do espetáculo, que começamos a viver ali uma experiência única de celebração e comunhão com uma platéia, como só o teatro é capaz de possibilitar. Ao final de um espetáculo em que os improvisos entre os atores tiveram de ser constantes, com a entrada em cena dos técnicos para ajudar na iluminação mínima das cenas, ausência completa dos efeitos musicais tocados no piano e na guitarra elétrica, inexistência da amplificação dos microfones, o que se via era um público interagindo de tal maneira com a representação como se estivéssemos num tempo primordial do teatro. Um espetáculo medieval, feito à luz de tochas, dentro de um teatro moderno, na abertura de um festival nacional dentro de um moderno teatro na cidade de Florianópolis. Os deuses do teatro se faziam presentes mais uma vez, fazendo com que fôssemos seus porta-vozes de uma celebração dionisíaca como só o teatro é capaz de proporcionar. Um alimento para nossas almas de artistas. Ah,e mais um detalhe de alívio: apesar da imprudência assasina, dessa vez a condutora do veículo não fez nenhuma vítima fatal.

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->Outono em Berlim

por Chico Pelúcio

Há dezoito anos não fazia um tempo tão quente no outono de Berlim. Mesmo assim o clima é dos mais agradáveis. O Sol e uma temperatura que varia entre 15 e 25 graus centígrados tiram todos de dentro de casa e os convidam às ruas, praças, parques e bares na calçada. Cidade deliciosa onde todos se respeitam. Cidade que traz uma vida pulsante nos seus mais diversos lugares.

Após a queda do muro boa parte da Berlim oriental tomou contornos ocidentais , o que foi uma pena pois hoje o mundo está ficando igual. Nessa área encontramos um universo semelhante ao que vemos nos grandes shoppings, na Broadway, na Av. Paulista, na Champs Eliseé e provavelmente nos arredores da Praça Vermelha. Entretanto, é nessa área que se concentra a maioria dos museus e lá está o emocionante templo do teatro mundial onde o dramaturgo e diretor Bertolt Brecht construiu sua obra, o teatro Berliner Ensemble. Ainda lindo – e sempre lotado – esse teatro foi o único prédio da região que sobreviveu intacto aos bombardeios da segunda guerra. No segundo andar ainda está preservado um espelho com a marca do único estilhaço de granada que o atingiu. Dizem que foram os Deuses do teatro que o protegeram. Depois de assistir a uma por demais tradicional montagem do “Círculo de Giz Caucasiano” do mesmo Brecht, com 3 horas de duração, ao sair do teatro dou de cara com um enorme outdoor de uns 25 metros de altura, com a Gisele Bünchen me lembrando de que o século XX já passou e que agora, globalizado, o mundo é dela e de seus patrões. Ela está em todos os lugares e em todos os tamanhos por essas bandas.

Estou, junto com 5 companheiros do Grupo Galpão, no bairro Creuzberg, onde estamos ensaiando para o nosso próximo espetáculo com o diretor Jurij Alschitz, no Akt-Zent International Theatre Centre. Esse bairro, que fazia divisa com a antiga Berlim oriental, nos últimos anos começou a ser ocupado por uma população essencialmente jovem. Embora seja uma parte da cidade ocupada por muitos turcos, são os jovens artistas, profissionais liberais, donos de restaurantes e bares que hoje vivem aqui.

E é por essa Berlim pela qual eu me apaixonei.

A Berlim onde não vi um guarda na rua e nem mesmo nos metrôs onde não existem roletas de controle. Metrô que transporta gente, bicicletas e cachorros para qualquer parte da cidade, sem discriminação. Cidade que, por ter um transporte público eficiente, tem um trânsito tranquilo sem buzinas ou congestionamentos de automóveis. Convivem nos passeios, nos super mercados, em restaurantes e nas ruas, crianças, adultos, cachorros ( todos mansos, bem educados e com chipe de identificação) e bicicletas. As bicicletas têm pista própria nos passeios largos e nas ruas e são usadas até por crianças de dois, três anos acompanhadas dos seus pais também sobre duas rodas. Aliás, em Berlim, é mais fácil ser atropelado por uma bicicleta do que por um carro. Uma cidade que tolera com bom senso os fumantes e nem tanto quem não fala alemão. Há uma diversidade de restaurantes em cada quarteirão, com suas mesas nas calçadas. Mas não espere cardápio em inglês e qualquer tipo de cartão de crédito. Aqui se usa o dinheiro vivo retirado normalmente nos caixas de rua existentes em cada quarteirão. Caixas “leves, ao ar livre e soltos sem medo de bombas”.

Há uma objetividade germânica que impede “salamaleques” e hipocrisias.
Por exemplo, a visita do Papa há alguns dias, provocou uma onda de protestos da comunidade gay e de cidadãos que não concordavam com os gastos do Estado nos eventos da visita de sua Santidade, pois acreditam que Estado e religião são coisas distintas.

Mesmo com pouco tempo de folga, nos intervalos dos ensaios conseguimos ver outras peças de teatro – sempre lotadas e na sua maioria com, no mínimo, 2h30 de duração e “sem medo de ser feliz”. Algumas delas assistimos no Schaubühne um espaço que possui quatro salas de espetáculos que me lembraram o Galpão Cine Horto.

Nossa volta será em breve. Saudade de BH? Sim. Mas triste por saber que quando voltar não verei mais a mesas do Bolão nos passeios de Santa – Kreusberg – Tereza. E distante, vejo a nossa Belo Horizonte, cidade dos bares e botequins, cidade do teatro de rua e das praças de lazer perdendo “vida” e identidade. Em seus lugares, a burocracia “burra”, as leis estúpidas e os fiscais do poder.
Oxalá o B de BH fossem também de Berlim, de Belo, de Beauty e, por quê não também de Bunchen.

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->Sol em Berlim

Por: Inês Peixoto
Chegamos em Berlim, com o sol e a temperatura agradáveis de final de verão, acompanhados por uma sensação diferente. Não estamos aqui para apresentar um espetáculo e sim para dar continuidade ao processo de treinamento para o nosso trabalho, com direção de Jurij Alschitz. Estamos tomados por uma euforia juvenil. Este intercâmbio, com o AKT-ZENT, nos traz novos ventos. Viajamos para o outro lado do mundo para estudar, entender nossa dramaturgia, construída a partir dos contos de Tchékhov, e beber, sedentos, as técnicas de trabalho e de texto desenvolvidas pelo Jurij.

O AKT-ZENT está situado num bairro chamado Kreuzberg, muito agradável, residencial, repleto de restaurantes, cafés, pessoas andando de bicicleta, crianças e um lindo rio. No primeiro dia nos encontramos com Olga Lapina e, depois de um aquecimento corporal e energização do nosso novo espaço de trabalho, partimos para um aquecimento da memória, relembrando o treinamento que ela desenvolveu, em Belo Horizonte. Então, iniciamos nosso trabalho de mesa.

Olga nos passou alguns comandos do Jurij, que estava finalizando um treinamento com atores na China. Nosso super internacional diretor chegou dois dias antes e nos pegou de surpresa! Então, sentamos com a equipe completa (Chico e Lydia, Beto e Simone, Inês, Júlio, Diego e Toninho) e iniciamos nosso mergulho na filosofia de Tchékhov.

Nossos encontros estão sendo preciosos. De um caos filosófico construído a partir de pensamentos escolhidos de vários contos de Tchékhov, estamos assistindo, extasiados, ao nascimento de uma dramaturgia que nos envolve cada dia mais. Com o Jurij praticamos o entendimento das três linhas que devemos perseguir em cena: as linhas do ator, do personagem e do texto. Caminhamos, com coragem e honestidade, de encontro aos temas propostos e esperamos que estas linhas se encontrem bastante no palco! Até nossa volta!!!!

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->Galpão em Berlim

Dando continuidade ao processo da segunda montagem dedicada à Tchékhov, os atores do Grupo Galpão estão em Berlim para três semanas de trabalho com Jurij Alschitz, que assina a direção do novo espetáculo.

Baseado principalmente nos contos do autor russo, o trabalho tem estreia prevista para dezembro deste ano.

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->Crise no Teatro Italiano

Por: Eduardo Moreira

Estive dois dias na programação da ocupação do teatro Vale, aqui de Roma. O teatro, uma bela construção clássica, seria fechado pela municipalidade e a classe artística de Roma que decidiu arregaçar as mangas e ocupá-lo à força.

No primeiro dia, tive a sorte grande de assistir a uma palestra e demonstração de trabalho com o diretor alemão, radicado em Turim, na Itália, Peter Stein. Ele é um dos grandes nomes do teatro europeu atual e falou sobre teatro e política cultural com uma simplicidade e franqueza muito boas. Foram três horas de encontro que teve uma fala inicial de uma hora e meia, um estudo de texto de um monólogo da “Medeia” com a participação de uma atriz italiana e um debate. Peter Stein é muito conhecido por suas montagens das tragédias gregas. Ele dirigiu uma famosa montagem que circulou pelos principais festivais do mundo chamada “Oréstia”. Seu último espetáculo, uma adaptação de “Casa dos mortos” de Dostoievski, tem 09 horas de duração e todos por aqui na Itália dizem que é muito forte. Na sua fala, ele sublinhou muito a necessidade do teatro se colocar em oposição à dispersão do mundo moderno, transformando-se assim, num lugar de encontro e de verdadeira troca entre as pessoas. Seu trabalho de texto sobre o monólogo da Medeia foi muito calcado no aspecto argumentativo e político da tragédia grega, onde o ator fala diretamente para o público. Ele insistiu muito também na importância do trabalho filológico, na tradução e na montagem das tragédias gregas nos dias de hoje. Saber o porquê e como dizer aquelas palavras proferidas pelos personagens, seu sentido profundo para a polis grega e sua correlação com os dias de hoje. Deu vontade de montar uma tragédia grega.

O segundo dia no teatro Vale foi dedicado ao dramaturgo, teórico e diretor norte americano, David Mamet. Mesmo sem entender muito bem (e mesmo assim, adorando), vi uma leitura feita por ótimos atores italianos do texto “Glengary Glen Ross”, com o qual Mamet ganhou o prêmio Pulitzer. Depois de um debate passaram um vídeo de uma montagem “Perversão Sexual em Chicago”, outro texto do ator.

Os atores italianos parecem estar numa encruzilhada. Dizem por aqui que os grupos simplesmente desapareceram e que, ou existem as grandes estrelas da encenação como Ronconi e Peter Stein, ou então um bando de atores desesperados, dando tiro para tudo quanto é lado, para tentar sobreviver. O fechamento do Teatro Vale, um dos mais tradicionais de Roma, seria um claro indício disso. A crise econômica é iminente e todos esperam a queda da Itália e nunca do Berlusconi, que continua escapando de todos os processos penais que tentam lhe imputar.

Quanto à vinda do Galpão, acho que a repercussão foi muito boa e esperamos voltar o mais rapidamente possível. Auguri a tutti!

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->Galpão no Teatro Vascello

Por: Eduardo Moreira

Cumprindo uma rapidíssima turnê em Roma, no Teatro Vascello, o Galpão voltou a estabelecer laços com a Itália, onde se apresentou nas ruas, numa longa temporada por 15 cidades, no ano de 1989. Foi, aliás, essa temporada que possibilitou ao grupo, no retorno ao Brasil, comprar a sede atual na Rua Pitangui, 3413.

Apesar da passagem meteórica, o espetáculo “Zio Vanja” foi assistido por uma seleta platéia de diretores e atores de teatro e de cinema, além de muitos estudantes. O entusiasmo entre alguns estudantes da Escola de Teatro da Universidade de Roma foi tamanho que alguns deles procuraram a diretora Yara de Novaes para um possível workshop sobre Tchékhov.

As apresentações exigiram ensaios exaustivos para que pudéssemos acertar e precisar as legendas em italiano que foram projetadas durante o espetáculo no cenário. As dúvidas iam desde a necessidade de se traduzir todo o texto, sem cortes, até o lugar onde os textos seriam projetados. Ao final, chegou-se a conclusão de que o melhor seria mesmo projetar as legendas em italiano dentro do cenário, para que os espectadores pudessem desfrutá-las sem grandes esforços.

Na platéia, além dos vários diretores e atores, estavam grupos como o Potlach e o Centro de Pesquisa de Pontedera (onde Grotowski trabalhou até seu falecimento) representados por Roberto Bacci e Carla Polastreli. A primeira apresentação foi na verdade um ensaio aberto, especialmente aberto, para a classe teatral da cidade. O segundo, aberto para o público em geral, contou com a presença do embaixador brasileiro, o Sr. José Viegas, o adido cultural da embaixada, Acir Madeira e uma extensa equipe da embaixada.

Nosso aquecimento vocal da segunda apresentação foi conduzido por Francesca dela Monica, que é italiana e muitíssimo conhecida por seu trabalho vocal, não só na Itália e na Europa, mas em boa parte do mundo. Ela vem desenvolvendo uma parceria com o nosso Ernani Maletta, na preparação vocal de vários espetáculos. A próxima parceria dos dois (junto com a Babaya) será no espetáculo “Hécuba”, com direção de Gabriel Villela.

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