->DIÁRIO DE BORDO DE UM BREVE ENCONTRO:GRUPOS ARMAZÉM E GALPÃO

A idéia do encontro foi lançada numa conversa de botequim,entre Patrícia Selonk,Lydia e Chico e,acho eu,também Paulo de Moraes que,apesar de ótimo ator,se recusava de antemão e terminantemente a participar de um encontro exclusivamente de atores.Acho que o temor se devia a uma percepção de logo ele começaria a querer criar cenas e dirigi-las.

Durante nossa temporada conjunta em comemoração aos vinte anos do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil),no Rio,os dois elencos se reuniram no teatro 1 e fecharam as datas e a combinação de que se abriria um blog em que os participantes lançariam idéias e discutiriam proposta que ajudariam a chegar ao encontro com algo mais elaborado e refletido coletivamente.

Os afazeres do dia a dia simplesmente impediram que a idéia do blog evoluísse. Da parte do Galpão, as viagens, a preguiça do período das férias e o encavalamento com as atividades da oficina de dramaturgia feita com o Newton Moreno, acabaram fazendo que,exceto por algumas poucas idéias que foram lançadas por Inês e Paulo André, o debate não frutificou.Mesmo a lista de projetos dramatúrgicos apontados pelo encontro com Moreno acabaram ficando de fora.

A solução foi optar por uma obra de interesse mútuo, sugerida pelo Armazém,que é o “Fragmentos de um discurso amoroso”de Roland Barthes.Ficaram no limbo dois outros textos:Ö rádio enorme”do escritor americano John Cheever (cujo universo de contos vem sendo objeto de exercícios do Armazém visando sua próxima montagem) e “Sensine”,outro conto do escritor chileno Roberto Bolãno.O caráter fragmentário da obra de Barthes acabou pesando na decisão final.

Segunda-feira, dia 05 de abril está marcada a data para o início do encontro que inaugura um novo formato para o projeto “Galpão convida” do espaço cultural Galpão Cine Horto.Definido no susto o objeto de nosso encontro de atores,descansamos alguns dias de semana santa, lendo e relendo os verbetes do livro de Barthes,que foi uma espécie de moda no final da década de setenta e que inclusive,ganhou uma montagem bem conhecida encabeçada pelo ator Antonio Fagundes.

SEGUNDA-FEIRA, O PRIMEIRO ENCONTRO

Encontramos às 14:30 no salão do Galpão.O “Armazém” está desfalcado de Patrícia,que teve que apresentar a entrega do prêmio Shell,no Rio e do Tales,que está com dengue.Simone Vianna está em Londrina porque acabou de perder a mãe. Galpão também pela metade,com alguns impossibilitados e outros desinteressados.

A pouca combinação que conseguimos estabelecer é que o aquecimento e os jogos do primeiro dia serão conduzidos pelos anfitriões. Um dos propósitos do encontro será,além de trocar formas e processos de criação,mostrar um pouco os exercícios de aquecimento e os jogos desenvolvidos pelos dois grupos.Acho que é uma boa oportunidade de esquematizarmos e praticarmos um pouco nossa forma de aplicar oficinas.

O trabalho começa com um alongamento e uma sessão de massagem conduzidos pela Lydia. De cara, sente-se a diferença de qualidade que aparece na sala pela simples presença de novas pessoas. A possibilidade de estar com outros atores para criar alguma coisa que não sabemos o que será,sem nenhum tipo de compromisso que não seja um ensaio aberto ao público ao final de uma semana, cria uma sensação de liberdade associada a um compromisso de exercício do ofício que é muito rica.

Terminado o aquecimento, apresentamos o exercício dos quadrados em que quadrados são desenhados no chão em quatro, três, dois e um passos, primeiro para a direita e depois para a esquerda. A esta coreografia coletiva vão sendo agregados elementos como uma escala musical, batida de palmas,movimentos de braços,etc.O objetivo é de se criar uma polifonia  de elementos a serem executados coletivamente.Trata-se de um exercício recorrente na trajetória do Galpão,que nos  foi introduzido pela Monica Medeiros,durante seu trabalho de preparação corporal no espetáculo “Um homem é um homem”.

Em seguida, fazemos um trabalho de ocupação coletiva do espaço,com variações de ritmos,tipos de caminhadas,procurando sempre estar atento a uma percepção e consciência do espaço cênico coletivo.Depois,em duplas,propomos o jogo do “Plano inclinado”,em que os atores, equilibrando o espaço, criam relações a partir do olhar e da respiração.Em seguida, introduz-se  no jogo de improvisação um objeto,que pode ser um bastão,uma cadeira ou um pedaço de pano.

Começar algo é sempre o mais difícil. Não sabemos ainda o que fazer com a matéria proposta para o encontro, o livro de Roland Barthes,mas já deu para perceber que vamos nos entender bem,através de nossos corpos e da disponibilidade de nos expressarmos conjuntamente ao longo da semana.

Cumprida esta primeira sessão, que dura mais ou menos umas três horas,fazemos um breve intervalo e sentamos para conversar um pouco sobre o como abordar os fragmentos amorosos. O primeiro passo é ler o índice de todos os verbetes e escolher os que cada um considera mais instigantes. É uma escolha intuitiva,muitas vezes feitas ao acaso.

A primeira abordagem  que nos vêm à mente é uma das dinâmicas propostas na oficina com o dramaturgo Newton Moreno, com quem nós, do Galpão , desenvolvemos um trabalho de uma semana no começo do mês de março deste mesmo 2010. Cada ator tem dois minutos para escrever uma cena, frase ou imagem a partir de cada um dos verbetes. Lemos dez verbetes – Louco, Constrangimento, Demônios,Angústia,Fofoca,Magia,Abismar-se,Mutismo,Obsceno,Ciúmes.

Depois de todos escreverem sobre cada um dos dez verbetes propostos,lemos coletivamente todas as imagens sugeridas.É curioso perceber como no ato de escrever aleatoriamente sobre temas  tão amplos e soltos,  já aparecem as características pessoais e modos de enxergar o mundo de cada um.O exercício nos serve como um instrumento de conhecimento mútuo e nos ajuda a criar e suscitar imagens pessoais  ligadas ao universo dos fragmentos,desvinculado do que foi escrito por Roland Barthes.
Fechamos assim o primeiro dia de trabalho.

TERÇA-FEIRA, COMEÇAMOS A MÚSICA E TENTAMOS LEVANTAR CENAS

Começamos a todo o vapor com o maestro Ernani Maletta.Ele já chega distribuindo partituras de uma canção de Emir Kusturica,o músico e cineasta sérvio,que serviu de inspiração para quase todos os temas musicais do “Till”,nosso último espetáculo. Trata-se do tema “Was Romeo really a jerk¿”

A proposta é que consigamos em dois encontros de duas horas,executarmos a música com os instrumentos e num coro para quatro vozes.O desafio parece intransponível,mas em se tratando do Ernani,nós sabemos que vai se operar algum tipo de milagre.

Começamos com um aquecimento vocal e a apresentação de alguns exercícios em que o maestro aplica suas técnicas polifônicas de utilização da música para atores.Passamos escalas musicais entremeadas com coreografias de passos em círculo,troca de bolas de tênis e todos os artifícios possíveis de confundir os neurônos. O primeiro resultado é titubeante. Mais do que o resultado final, o mais importante é o estado de atenção e de presença que os exercícios suscitam. Repetimos os exercícios com a troca de bolinhas e o coletivo se sai um pouco melhor. O grupo parece estar esquentando.

Como o tempo é muito curto, não sobra oportunidade para insistir mais. Deixamos os exercícios de lado e partimos para os instrumentos.Ernani pede que cada ator do Armazém assuma um instrumento com que tenha algum tipo de intimidade.Tales assume o violão,Patrícia,o acordeon,Simone e Verônica,a percussão,Ricardo, a lira e Marcelo,a gaita. Da parte do Galpão, eu fico com a clarineta,Toninho com a flauta,Inês,o acodeon,Lydia, o teclado,Paulo André,a escaleta,Chico,o sax e Simone,o trombone.

Com seu método de associar a melodia a uma série de frases, partimos para criá-las.O que sai é: “Eu vou comprar uma fruta bem madura,pois mixirica eu tenho que chupar.As várias melodias que se cruzam são aprendidas separadamente,cada uma associada a uma palavra ou frase.Eu,na clarineta, pontuo toda a melodia com uma estrutura rítmica que é memorizada a partir da palavra “mexirica”.

Ao final de quase três horas de trabalho incansável, a música sai tocada pelo conjunto de instrumentos e passamos algumas vezes também o arranjo vocal a quatro vozes.A concretização da tarefa deixa todos bastante estimulados.É difícil parar de tocar e de cantar.Mas temos que fazer uma breve pausa e preparar os três grupos que vão se dividir para a realização de cenas inspiradas nos verbetes do fragmentos amorosos. Os três grupos são divididos e cada grupo busca um canto para começar a elaborar uma cena rápida que traduza uma idéia de um ou mais dos verbetes.

O meu grupo que conta também com Inês, Paulo André e Marcelo pensa de início no verbete “ciúmes”.Pouco a pouco outros itens como ressentimento , constrangimento,magia e fofoca vão sendo pensados e inseridos.Surge elementos trabalhados nos jogos como andar na forma dos quadrados no chão ou com os atores usando uma espécie de raia que lembra o trabalho dos “viewpoints”,que fizemos com Enrique Dias.

O dia termina com algumas idéias discutidas como quatro personagens numa espécie de repartição, onde os desejos se cruzam e se misturam.O personagem de Inês gosta do personagem do Lelo que,por sua vez,é apaixonado pelo do Paulo André que,por sua vez está competindo com o meu pelo da Inês.No meio de algumas ações,os personagens saem e desenvolvem ações de magia amorosa como fazer vodu num boneco,coar café numa calcinha,etc. A cena parece bem maluca,mas a falta de tempo não nos dá muitas alternativas a não ser seguir em frente.

O dia termina com a definição da programação da quarta que terá o fechamento do trabalho musical com o Ernani e mais um tempo para que os grupos estruturem minimamente as cenas, para apresentá-las no dia seguinte.

QUARTA-FEIRA, DIA DE APRESENTAÇÕES

O dia começa cheio de entrevistas: a primeira com Mariana Peixoto do jornal “Estado de Minas” e Soraia Belusi do jornal “O Tempo”,que acompanha o trabalho ao longo do dia.

Ernani chega e repassa alguns exercícios que conjugam aquecimento com jogos de polifonia,misturando coreografias,escalas musicais e jogos com bolinhas.Tudo tem que ser muito rápido.Não há muito tempo para se pensar.O maestro fala na qualidade alcançada pelo coletivo que faz com que,mesmo que um ou outro errem individualmente, a força coletiva consiga sustentar a estrutura proposta.Ele realça também o poder estimulador para o espírito da improvisação que a execução da música traz..Se você erra ou perde uma determinada nota ou tempo,você não tem como parar e pensar.

Depois do trabalho musical que,como quase sempre,se estende mais do que devia,retomamos a construção das cenas. Como o grupo de Patrícia, Simone,Lydia e Chico precisam do teclado,eles ocupam o espaço do Galpão.Os outros dois grupos ocupam salas do Cine Horto.

Pressionados pelo tempo,passamos a estrutura proposta no dia anterior,umas três vezes,repensando alguns elementos e introduzindo outros.É um tipo de aproximação de um determinado que fica obrigatoriamente muito na casca, na superficialidade.O fundamental é estar consciente disso e se entregar de corpo e alma ao exercício.

Por volta de quase sete horas,nos reunimos no Galpão e apresentamos os resultados para o coletivo. O sentido do que é apresentado é confuso e muito anárquico. O bom é que ninguém sofre com a necessidade de se chegar a um resultado. É bom ver as pessoas batendo cabeça e tentando criar a partir de um verbete sobre o amor e quase mais nada.

O tempo se esgota e decidimos que a discussão sobre o material apresentado ficará para o dia seguinte. O trabalho corporal e os exercícios vão ser ministrados pelo Armazem.

QUINTA-FEIRA, O TRABALHO AVANÇA COM O ARMAZEM

Começamos o dia com Simone Mazzer dando uma sessão de aquecimento vocal.Aprendemos uma letra com uma melodia bem simples e cantamos em cânone. Trabalhamos também um aquecimento vocal.

Em seguida passamos por uma sessão de massagem dois a dois e jogos para despertar a atenção e o espírito coletivo. Um deles é de jogar uma e depois mais bolas de um para o outro numa roda. A atenção e a comunicação são fundamentais para que o jogo se estabeleça. Outro jogo bem interessante é um pega-pega com nomes.Sempre que um pegador vai pegar alguém,esta pessoa pode falar o nome de uma outra,que passa a ser o novo pegador. O jogo exige muita atenção e estabelece automáticamente um espírito infantil de brincadeira entre todos. Além desse,ainda jogamos um vôlei com uma bola em que tentamos conseguir chegar pelo menos aos cinqüenta toques sem que a bola caia no chão.

Depois dessas dinâmicas de aquecimento, partimos para exercícios mais focados na criação. O primeiro exercício é o que os atores do Armazém chamam de fragmentação. Cada ator,individualmente, selecione seis movimentos corporais,que são repetidos numa sequência.Cada ator mostra seus seis movimentos  e depois a sequência é feita numa edição em que se pede para cada um fazer primeiro todos os movimentos e depois os movimentos ímpares (1,3 e 5) e os movimentos pares (2,4 e 6).Ao final,cada um faz a sequência ligada aos movimentos ímpares e depois os pares.

Em seguida,partimos para a criação de um movimento ou de uma ação em duplas inspirados em quatro verbetes escolhidos do livro.Os verbetes são: Abismar-se, Culpa, Obsceno e Ausência. As duplas se formam aleatoriamente e são Patrícia e Paulo, Inês e Simone Mazzer, Chico e Tales, Verônica e Toninho, Lelo e Simone e Ricardo e eu . Depois de um tempo em que os atores improvisam, os resultados são apresentados. Chegamos a resultados bem proveitosos em que apesar da indefinição de sentidos,aparecem um jogo cênico bem delimitado e claro.

e que,ao sair de minha boca,minha alma repasse em ti” Sem pensar nada,os grupos começam a improvisar tentando encontrar códigos e situações que norteiem a improvisação. O resultado também é animador e vamos sentindo que o jogo teatral e a presença aparecem co mais consistência.

O último exercício é um ator ir para o centro da roda e a cada batida de palma de mãos, ele se vira e olha para uma determinada pessoa da roda. Pegamos o texto da letra da música do Kusturica criada em conjunto com o Ernani e o ator que está no centro vai falando o texto. A cada mudança estimulada pela batida das mãos, o ator deve mudar seu estado e sua intenção. É um jogo difícil e que exige de cada um que vai ao centro da roda, uma entrega e uma exposição muito grandes. É um exercício cansativo em que muitas vezes o ator acaba por perder-se. O mais interessante começa a acontecer quando as pessoas são traídas em seu pensamento e conseguem se entregar a um impulso,que faz com que brote autenticidade que trai o controle raci onal.O tempo não nos permite investir muito tempo num jogo que é desafiador e estimulante.

Patrícia que conduz o exercício pede que os atores do Galpão que fizeram, comentem sobre como foi a experiência. Paulo chama a atenção para a possibilidade que o exercício dá de se encontrar diferentes ritmos internos ao se falar um texto ou se interpretar um personagem. Toninho e Inês lembram que pode ser um bom exercício para pesquisar nuances e outras intenções, especialmente em monólogos maiores,quando frequentemente nós,atores,caímos numa toada monocórdica.

Fazemos uma breve pausa e, como não nos resta mais muito tempo, conversamos sobre o que fazer no último dia antes da mostra de trabalho aberta ao público.A decisão coletiva é de que devemos pensar antes de mais nada em amanhã, deixando a apresentação de sábado para ser definida depois do que acontecer amanhã. Fica decidido que os dois grupos vão propor exercícios e tentaremos avançar mais. Terminamos o dia com a sensação que avançamos.

SEXTA-FEIRA, FECHAMOS UM CICLO DENTRO DO POSSÍVEL.

O dia começa disperso. Alguns atores do Galpão acabaram de sair de uma reunião em que se optou pelo adiamento de uma turnê que faríamos pelo litoral dos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo. O clima está muito contaminado pelos afazeres quotidianos e parece estar difícil entrar na atmosfera de trabalho do nosso encontro.

Percebendo o clima, Patrícia e os Armazéns propõe um jogo bem interessante para se desligar do mundo exterior que nos dispersa do trabalho. Em duplas,os atores fazem uma breve massagem e depois um ator ( o que estava sendo massageado) fica de olhos fechados e vai sendo conduzido pelo colega através de toques.Um toque no ombro direito (sinal de desviar para a direita),toque no ombro esquerdo (virar para a esquerda), colocar a mão encima da cabeça (parar), encostar nas costas( andar para trás) e encostar no peito (andar para a frente). Depois de um tempo,as duplas trocam e quem conduzia,passa a ser conduzido. O exercício com os olhos fechados tem um bom efeito para que as pessoas entrem no trabalho.

Passamos em seguida ao exercício de montar uma história a partir de uma sequência de quadros vivos. Dividimos os atores em dois grupos de cinco.Cada um pega um número e monta-se um quadro.O ator que tem o número 1 entra e se posiciona numa atitude fixa.Em seguida,entra o número 2 e busca outra posição fixa que crie alguma relação com o que foi feito pelo ator 1. Sucessivamente vão entrando os atores 3, 4 e 5, até que o primeiro quadro fica estabelecido.Depois do primeiro quadro,monta-se um segundo e assim sucessivamente,tentando desenvolver uma história com começo,desenvolvimento e conclusão.

Num primeiro momento a improvisação dos quadros é totalmente livre. Depois sugerimos temas dos fragmentos amorosos como constrangimento, ódio e ciúme. O resultado não chega a ser dos melhores, com exceção de um dos exercícios em que se desenvolve razoavelmente de maneira clara a situação de um assalto e um crime.

O passo seguinte  é dividirmo-nos em três grupos e cada grupo criar, também a a partir de alguns verbetes escolhidos aleatoriamente, uma partitura sonora.Dessa vez os verbetes escolhidos são:ódio,constrangimento,ressentimento e ausência.Além dos verbetes, Patrícia propõe a utilização de uma frase: “Inclina teus lábios sobre os meus
e que,ao sair de minha boca,minha alma repasse em ti” Sem pensar nada,os grupos começam a improvisar tentando encontrar códigos e situações que norteiem a improvisação. O resultado é mais animador e vamos sentindo que o jogo teatral e a presença aparecem com mais consistência.

Ao final já não nos sobra tempo para muita coisa. Fazemos uma rápida avaliação dos jogos e dos exercícios e tentamos armar como seria o nosso encontro junto com o público. Surge questões como se devemos ou não repetir os exercícios que foram construídos ou de devemos simplesmente refazer tudo na hora. A opção acaba ficando por conta de cada ator. Decide-se também que ao entrar o público, nós já estaremos em ação em forma de aquecimento.

Escrevemos uma lista de exercícios  que começam com o aquecimento, passam por uma breve descrição da evolução do encontro,mostra alguns exercícios focados nos verbetes dos fragmentos amorosos e termina com a apresentação do trabalho musical feito com o Ernani. Aparentemente, a obrigação de mostrar alguma coisa para um público não nos deixa ansiosos.

SÁBADO, O ENCONTRO COM O PÚBLICO

Encontramos por volta das 15 horas num debate com o Paulo Flores e a Tânia do grupo “Oi nós aqui traveiz” de Porto Alegre, que se apresentam pelas praças de Belo Horizonte neste final de semana.

Terminado o debate, nos reunimos no teatro e passamos a estrutura musical montada pelo Ernani, com as passagens da música instrumental para o arranjo vocal e voltando para o instrumental.Em seguida, sentamos em roda para dar uma recapitulada no roteiro de apresentação.Hora de entregarmos presentes para os atores do Armazém,que haviam nos dado um belo presente – uma frasqueira com alguns objetos muito especiais para o ator como alguns CDs com músicas que eles utilizam como aquecimento antes dos espetáculos,uma bolinha de massagem, um elástico para fazer alongamentos…Um mimo! É como se um pouco da história comum daqueles colegas do Armazém fizesse agora parte também da nossa. O nosso presente são saquinhos de bala delícia com um caderninho de diário de encontros dado a cada um dos atores do Armazem.

Chega a hora da apresentação.O teatro está lotadíssimo,com gente sentada até no chão.Fico pensando se as pessoas não teriam algo mais interessante para fazer em plena noite de sábado.Começamos com os aquecimentos e o exercício dos quadrados sai com muitos erros,o que acaba fazendo com que ele vire uma espécie de quadro cômico. O exercício do pega-pega também funciona bem, com a platéia se divertindo. O jogo das cadeiras é acompanhado com atenção.

Depois dessa primeira etapa, damos uma parada para explicar um pouco a idéia do novo formato do projeto “Galpão Convida”. Um encontro de atores entre dois grupos que se conhecem e se admiram de longa data. A possibilidade de abrir novos olhares e repensar nossos trabalhos. Algumas explicações e objetivos são expostos. Explica-se também o porquê da opção pelo livro do discurso amoroso de Barthes que,pelo seu caráter fragmentário,ajuda numa incursão mais sensitiva e superficial que o pouco tempo nos possibilita.

Partimos então para a segunda parte que é a dos exercícios focados nos verbetes do livro.Apresentamos o trabalho individual da fragmentação de movimentos, os movimentos criados em duplas para  exprimir alguns verbetes e a partitura sonora,que havia sido criado em grupos de quatro e que também era uma tentativa de exprimir determinados verbetes.

Depois disso, dou uma brevíssima explicação sobre o trabalho do Ernani, aplicando o ensino da música no teatro e executamos o  roteiro musical proposto pelo maestro.Fim da apresentação.Muitos aplausos.Abre-se uma pausa e convida-se as pessoas para uma conversa.Quem não quiser conversar,que fique à vontade de sair. Mais ou menos dois terços do público permanece.

As opiniões em geral não escapam muito do trivial, apesar de terem aparecido coisas curiosas, como gente que viajou do interior de Goiás para assistir ao encontro,um que achou o exercício muito pretensioso e metido a inteligente,etc. Em geral o que se viu foi um carinho e uma satisfação muito grande do público em testemunhar atores que sempre vão para a cena e para o encontro com o público com estruturas de espetáculo muito bem elaboradas, se exporem daquela forma tão frágil e muitas vezes com um sentido titubeante.

Terminado o debate, só nos resta tomar uma cerveja no bar montado no segundo andar do Cine Horto.Fica sempre a sensação do querer mais em todos os sentidos.Não só do trabalho,mas também de conhecer mais a intimidade daqueles atores e pessoas tão cheias de vida,como nossos queridos amigos e colegas do Armazém.

3 Respostas para “DIÁRIO DE BORDO DE UM BREVE ENCONTRO:GRUPOS ARMAZÉM E GALPÃO”

  1. Que bacana. Dois grupos com muitas histórias em épocas antigas da Mostra de Sertãozinho!
    O amazém, nas primeiras visitas, era chamado de Cia Bombom Prá Que Se Pirulito Tem Pauzinho Prá Se Chupar, na 8ª Mostra em 1992, com Alabastro e O Enigma de Cid.
    Em 1996 os dois grupos estiveram aqui: o já Armazém com Édipo (Dan Stulbach e Patricia Selonk) e o Galpão, com Romeu e Julieta.

  2. Imagino a riqueza da troca entre os dois grupos.

  3. Foi um prazer! Agradecemos pelos instantes teatrais e pela acolhida de todos no Galpão Cine Horto. Atenciosamente, Teatro Artionka, Rio Verde – Goiás.

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