->25 anos de encontros 10: Teatro Livre de Munique

O encontro com o “Teatro Livre de Munique” aconteceu num momento  pré-Galpão, que acabou sendo a origem da fundação do grupo. Acho que um grupo, um coletivo de teatro se constitui a partir do momento que consegue estabelecer uma experiência comum. Algo que faz com que aquelas pessoas dividam uma história , por menor e mais precária que seja. Por isso que  é tão difícil simplesmente “criar” um grupo, como uma mágica que dependesse da boa vontade ou das boas intenções entre as pessoas.

O Galpão, nesse sentido, teve a sorte de se ver quase forçado a criar uma organização, que desse continuidade àquela experiência vivida por nove atores, e que foi, sem dúvida nenhuma, uma escola de formação para todos nós.

O ano era o mesmo 1982, em que posteriormente o Grupo Galpão seria oficialmente criado. A palavra “oficial” talvez seja um pouco pomposa e distante da realidade, uma vez que o registro e o nome da Associação Galpão já existiam e o que   aqueles cinco atores simplesmente fizeram foi  tomar de empréstimo um nome e um estatuto que já existiam, sacramentando, com um brinde de copos “lagoinha” de cerveja,  sua fundação num barzinho pé sujo, bem ali no centro de Belo Horizonte, na rua Guajajaras, quase esquina de rua Goiás. 

Bem, vamos aos fatos. Em março, o então atuante e saudoso Goethe Institut, dirigido por Rolland Schafner, anuncia uma oficina de duas semanas com dois diretores do “Teatro Livre de Munique”, George Froscher e Kurt Bildstein. Cabe aqui observar que os “teatros livres” foram uma espécie de febre que se alastrou pela Alemanha, durante o período da contra-cultura, e que fez com que não só o teatro, mas a cultura em geral se movimentasse no sentido de se libertar dos grilhões das instituições  e do peso das entidades. Era uma formação e uma organização teatral que buscava o teatro não-convencional, e que brigava para tirar o teatro das casas de espetáculo e do julgamento  dos padrões do público burguês tradicional.Por isso, o predicado livre, que se propunha a sair de uma prisão, o peso institucional. Se conseguiu é outra história, mas pelo menos tentou, bem dentro do espírito da época dos hippies, que utópicamente sonhavam com uma sociedade anárquica de paz e amor, que não poderia mesmo nunca dar certo.

Não é à toa que o pessoal de Munique não  fazia só espetáculos de rua pela Alemanha, mas também buscava travar experiências teatrais de encontro com outros países e culturas. Antes do Brasil, eles tinham visitado e  montado espetáculos em países como Israel, França, Venezuela, países do leste europeu. Eram andarilhos que estavam cada vez mais interessados em estabelecer pontes com outras culturas.

O que parecia uma atitude de rebeldia contra o “status quo”, estava bem inserido dentro de uma política da então chamada Alemanha Ocidental que, através de seus institutos de cultura, promoviam um importante intercâmbio cultural entre o seu país e vários outros. Não eram nada bobos os alemães, que viam na cultura o campo privilegiado para estender sua influência no mundo. A experiência se viu minguada quando o Muro de Berlim se tornou alvo de vorazes picaretas conduzidas por pessoas exaustas pela picaretagem do chamado mundo socialista, e o destruíram, estabelecendo a unificação das Alemanhas. O resultado foi que  os ocidentais tiveram de aplicar todas as suas finanças no soerguimento do lado oriental, combalido por décadas de economia comunista decadente. Resultado:não sobrou mais nada para as bandas de cá.

 Com relação à atuação de institutos culturais como o Goethe, a geração que começou a fazer teatro em Belo Horizonte, entre o final da década de 70 e  o começo da década de 80, sabe bem da importância deles  no fomento, principalmente do teatro e da música. Eles não só traziam seus patrícios para ministrarem oficinas e palestras, como também produziam com gente daqui eventos ligados à cultura do seu país.

E foi em consequência desta política, que aportaram por aqui os dois diretores, para a já mencionada oficina de duas semanas, em março de 82, no velho teatro Marília. É curioso que no primeiro dia práticamente não havia espaço para o número de pessoas que chegaram e se propuseram a participar do trabalho. Em princípio, não havia qualquer tipo de seleção, e quem estivesse lá, disposto a entrar, podia participar. Se a imaginação da memória não me faz exagerar um pouco, a lembrança que eu tenho é de mais ou menos cento e quase vinte atores se apertando e se empurrando no minúsculo palco do Marília. Só que os exercícios eram absolutamente fatigantes, com todos obrigados a pular,correr, grunhir e cantar sem uma pausa. Acho que depois de uma hora e meia, a audiência já estava reduzida a uns dois terços, e no fim do primeiro dia, mais da metade já havia debandado, vociferando contra “as feras nazistas  saídas de um campo de concentração”. O trabalho era uma verdadeira maratona, e os dois não queriam nem saber de alguém sentar, beber uma água ou fazer um xixi. O regime era militar mesmo e puxado. Era a encarnação total do princípio de se criar a partir da fadiga. Não me perguntem se concordo ou não, mas o fato é que a vontade de encarar o desafio e a energia da juventude, fez com que ultrapassássemos aquele primeiro limite de exasperação e chegássemos até o final.

 Com alguns quilos a menos e uma vaga noção de uma série de exercícios que misturavam resistência vocal, trabalho de diafragma, articulação, acrobacia, manipulação de objetos que iam de panos e cadeiras até bambus e cabos de vassoura e muita, muita aeróbica, em intermináveis exercícios de improvisação com sons inarticulados  e movimentos de pélvis, cabeça, ombros, etc.; chegamos semi-vivos ou quase mortos ao final de duas semanas de trabalho. Os alemães fizeram as malas e partiram sem dizer uma única palavra e nós, sem entendermos direito para que tanto esforço.

Dois meses depois, Rolland chama algumas pessoas ( precisamente nove) para convidá-las para o que seria a continuação daquele processo de trabalho com os diretores do Teatro Livre de Munique. Nós teríamos bolsas com quase tudo pago para participar de uma oficina de um mês, na cidade de Diamantina, no âmbito do Festival de Inverno da UFMG. O tema seria o teatro de rua, e para a oficina seriam selecionadas mais pessoas, além das nove escolhidas do primeiro trabalho, num total de aproximadamente vinte oficineiros.

E lá fomos nós enfrentar o frio de julho em Diamantina, para um trabalho que era a continuação da primeira oficina, só que com um enfoque mais voltado para a prática do teatro de rua. O trabalho era desenvolvido em dois turnos e foi aí que fomos introduzidos  na técnica de andar em pernas-de-pau. Sem dó e piedade, no meio das ladeiras de Diamantina. Além da encenação de uma série de paradas de rua, onde se utilizava a música percussiva, as pernas-de-pau e elementos acrobáticos, numa procissão que circulava pelas ruas da cidade, o grupo da oficina ensaiou uma representação de uma espécie de auto medieval, em que elementos religiosos e profanos se confrontavam, numa encenação sem palavras.

Os alemães, que gostavam de uma boa provocação, se deliciaram  mesmo quando estivemos em Inaí, uma cidadezinha de interior, já quase no vale do Jequitinhonha, para fazer uma das mencionadas paradas com palhaços, pernas-de-pau e dessa feita, acompanhada pela banda local. Como o padre da cidade não admitia outro tipo de procissão que não fosse a religiosa, ficou indignado com a invasão do espaço público pela arte profana. O resultado foi que o padre ameçou a todos com a inquisição, e a parada, que tinha como ponto previsto para seu “grand finale” a praça da igreja, viu a banda local se retirar de fininho, simplesmente abandonando os atores. A população, é claro se dividiu entre os pró e os contra padre, e os alemães saíram exultantes com o resultado político da encenação. Ruim mesmo foram as consequências do almoço oferecido por uma liderança política local, que nos levou a uma indisposição intestinal generalizada, que atingiu especialmente os dois gringos, desacostumados com os efeitos da nossa carne de porco e do feijão preto. O resultado foi que tivemos a nossa única semana com uma folga dupla: George e Kurt passaram o dia seguinte na cama, provavelmente com cólicas exorbitantes.

A terceira e última fase do trabalho com os diretores do “Teatro Livre de Munique” foi em Belo Horizonte, em ensaios que se dividiam entre a sede do Goethe, no Colégio Arnaldo, e o Palácio das Artes, e já eram específicamente voltados para a montagem de “A Alma boa de Setsuan” de Bertolt Brecht. O grupo, que contou com a saída de Fernando Linares, de saco cheio com o autoritarismo dos alemães, teve então as entradas de Helvécio Isabel, Adiel da Silva, e por último Geraldo Peninha. Estava completo o elenco de dez atores que, além dos três citados, contava ainda com os futuros fundadores do Galpão ( Wanda Fernandes, Teuda Bara, Antonio Edson e Eduardo Moreira) e Regina Andrade, Manuela Rebouças e o próprio Kurt Bildstein, que em cena fazia o papael do rico comerciante Chu Fu, com um sotaque com uma forte coloração ianque com acentos germânicos.

A peça teve uma duração meteórica, ficando em cartaz de 23 de setembro a 03 de outubro, no teatro Francisco Nunes. Ela não usava nenhum recurso além do jogo cênico entre os atores. O espaço ficava vazio todo o tempo, e não se lançava mão de qualquer adereço ou cenário. A única intervenção no espaço do Chico Nunes foi a construção de uma passarela no meio da platéia, por onde chegavam os três deuses em busca de uma alma boa na terra. Outra sacada digna de nota por parte dos alemães era a abertura da porta de trás do teatro, com uma maravilhosa visão dos jardins do parque Municipal se descortinando aos olhos da patéia, na cena em que a prostituta Chen Te se casava.

Vale a pena registrar aqui o ensaio crítico escrito por José Guilherme de Oliveira, no jornal ” Estado de Minas” de 03 de outubro de 1982 – “Ao entrar na sala de espetáculos, o espectador vê o palco aberto, sem pano ou elementos cenográficos; há luz na platéia. Aos poucos ouve-se  a voz de uma mulher que canta em alemão (…) Soam apitos. A platéia, curiosa,olha para todos os lados. Continuam os apitos até que os atores invadem a platéia e correm para o palco. Começa aí a diferença: é como se os personagens da fábula que está por vir fossem também personagens da platéia. O aguadeiro Wang anuncia  a chegada dos deuses. Ao som da música de John Williams, composta para o filme “Superman”, entram em cena os três deuses. A cena desperta um enorme fascíno na platéia; plásticamente é espetacular, majestosa. É inesquecível o início desta montagemde “A alma boa de Setsuan”, dirigida pelos alemães fundadores do Teatro Livre de Munique.”

Tentando olhar para trás com olhos isentos, acho que não compreendíamos exatamente o que significava aquele trabalho. Com exceção de um ou outro, todos éramos extremamente imaturos para elaborar uma viagem tão arrojada que misturava Brecht com uma enorme salada de influências culturais, problemas de comunicação com diretores que penavam com  o nosso linguajar brasileiro, e atores que não compreendiam as indicações germânicamente duras,  que frequentemente vinham com expressões estranhas como ” no como cagado” ou ” no como teatro de putas” ou ainda ” é melhor vender sorvete em Afonso Pena, hem”. Creio que construímos algo que foi sendo entendido  e digerido ao longo do tempo. E ainda que não de maneira consciente, o trabalho nos deu indicações muito precisas na prática de conceitos básicos e fundamentais no teatro como presença, energia, decisão, coragem, fé, superação e trabalho essencialmente coletivo. Não tenho dúvida de que aqueles estranhos alemães lançaram a semente que foi a luz para esta caminhada de vinte e cinco anos.

3 Respostas para “25 anos de encontros 10: Teatro Livre de Munique”

  1. Eduardo, que maravilha são os texto que você tem escrito. Espero que seja editado um livro. São registros preciosos.
    Grande Abraço.
    Adalberto Lima

  2. Vocês re-encontraram esses diretores, depois do Galpão já ter se consolidado?

  3. grupo de teatro e animação do Porto aceita parcerias e intercambios

    brionellas@gmail.com
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    recibo verde
    comédia musical

    ateliers de artes cénicas p infancia e juventude
    obrigado

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