->25 anos de encontros 2: o diretor Eid Ribeiro

Dentro da série de 25 encontros que mais marcaram a trajetória dos 25 anos do Galpão, gostaria de dar um breve relato sobre o nosso encontro com o Eid, que continua em plena forma, como pode ser atestado na recente estréia do espetáculo “O cobertor e a bicicleta”.

A primeira imagem que me vem à mente quando penso no Eid , é uma apresentação de “Viva Olegário”no Diretório Acadêmico das Ciências exatas, no campus da Pampulha. Era final da década de setenta. Deus dos Exércitos, como somos antigos! Lembro da Teuda, nua numa banheira. Era um teatro que oxigenava um pouco a rigidez da política e da militância estudantil. Misturando sacanagem, crítica social e política e uma boa dose de humor e ironia, a peça era uma verdadeiro oásis no deserto de clichês e palavras de ordem do movimento estudantil.Aplaudidíssimo no dia em que vi, o teatro representava um alívio momentâneo para aqueles estudantes tão ocupados pela missão de derrubar a ditadura militar e salvar o país. Quanta ilusão!

Bom, mas voltando ao Eid, seu nome era sinônimo de bom teatro e irreverência. Um marco na minha formação teatral foi a montagem de ” As Criadas “do Jean Genet, assim como “A noite dos Assassinos”, dirigido pelo Paulo César Bicalho, “O Bravo soldado Schweik “do Pedro Paulo Cava e alguns trabalhos do D’Angelo.

Alguns anos mais tarde, já na labuta teatral, acompanhei o trabalho do Eid em trabalhos como “Bicho de pé, pé de moleque” e “O despertar da primavera”.    Aqui Eid já trabalhava com uma geração que era  da nossa mesma idade, que, muito influenciada por ele mesmo, queria fazer um teatro mais próximo das pessoas, menos careta e que rompesse com uma superficialidade reinante. Ele já havia assistido os primeiros trabalhos do Galpão e já guardávamos um sonho secreto de um dia poder convidá-lo para nos dirigir num espetáculo.

A incrível confusão que constituiu-se o processo de nossos ensaios do espetáculo “Arlequim servidor de dois Amos “do Goldoni, levou-nos, num  momento de supremo desespero, a implorar ao Eid que nos ajudasse a sair do buraco. Na verdade, a coisa não veio assim de uma decisão tomada conscientemente. Estávamos com um borrão do trabalho levantado a duras penas, com um misto de direção coletiva e uma supervisão minha, que atuava e tinha um certo peso maior na condução do espetáculo. O nosso propósito era fazer uma leitura própria do clássico da commédia dellárte, adapatando o texto a partir de infindáveis improvisações, que já duravam mais de nove meses. Nesse tempo, ainda alimentávamos a doce ilusão de que uma direção coletiva seria possível. Nosso modelo era o “Asdrúbal trouxe o trombone”. Não tínhamos um dramaturgo e acreditávamos que seria possível desmontar o texto do Goldoni e reestruturá-lo com a nossa cara.

Como também não nos faltava uma boa insegurança e uma certa dose de autocrítica, começamos a desconfiar de que o que estava sendo levantado não tinha lá muito valor. Com a pulga atrás da orelha, convidamos o Eid para assistir a um geral, que foi apresentado na sala do balé, no quarto andar do Palácio das Artes.Estávamos, salvo engano, há umas quatro semanas da estréia. O resultado foi avassalador. No final, Eid estava com a cabeça baixa aparentando desespero. ( depois de alguns anos, percebi que era um tique típico seu de diretor insatisfeito com a performance de seus atores). Com grande espírito de generosidade e honestidade teatral, sua avaliação foi aterradora: o que tínhamos apresentado não tinha pé nem cabeça, era tão confuso que a trama do Goldoni se perdia completamente. O diagnóstico de Eid foi implacável. Era uma bosta e era melhor que recomeçássemos tudo de novo. Foi o que tentamos. Além de chamar Fernando Linares para ser um olhar de fora e organizar esse material amorfo que tínhamos, fizemos durante dez dias um trabalho de mesa com Eid, que foi de uma utilidade profunda. Começamos a entender melhor o Arlequim do Goldoni e percebemos que era muito melhor do que aquilo em que queríamos transformá-lo. 

O espetáculo passou depois de mais ou menos um ano de duração. Oque não passou foi nosso desejo de trabalhar com o Eid. Isso só viria a acontecer em 1988, três anos depois, quando o Galpão lançou-se num desejo teatral de criar cenas brasileiras, que estivessem mais conectadas com nossa realidade. Nada melhor que o Eid, com sua linguagem que mescla Becket com circo mambembe do interior, e que tem na raiz um linguagem teatral legítimamente brasileira. O projeto foi o “Corra enquanto é tempo”. Já que nosso propósito era tocar na realidade, nada melhor do que cair de sola na proliferação das seitas pentecostais e evangélicas, que inundavam o país.

Fomos direto para a praça da Rodoviária, no centro de Belo Horizonte, onde seu José, um mirabolante pastor, pregava a palavra de Cristo no meio dos vagabundos, ladrões e prostitutas. O texto do Eid foi baseado diretamente no discurso do pastor. Enquanto improvisávamos, Eid reescrevia o texto. Tudo isso, no velho coleginho da FAFICH, onde ensaiávamos. A única coisa que nos faltava era o antagonista da família de crentes, que deveria aparecer na praça para criar o conflito com os pregadores charlatães. A primeira versão era uma mulher grávida do pastor. O problema é que o único ator disponível para o papel era eu. Mesmo com o incoveniente, passei umas boas semanas fazendo o papel da grávida. Constatada  a falta de verossimilhança, a solução encontrada foi criar o personagem de um aleijado, que seria curado pelo pastor, num final apoteótico e catártico, que deixava a platéia meio confusa quanto a mensagem que a peça propunha. Nossa estréia foi com o aleijado, no bar Drosófila. Lembro-me que o Eid saiu dali agoniado, descontente com o desfecho. No dia seguinte, ele me telefona e dia que precisávamos mudar o final. No dia seguinte, estávamos correndo os brechós de BHZ atrás de uma saia, um sapato alto número 41 e um bustiê de paetê, que ajudassem a compor um travesti, que seria o personagem que estabeleceria o conflito com a família de crentes pelo espaço da rua.

Com o Corra e com o Eid deixamos um pouco de ser tão ingênuos e começamos a ser impregnados da necessidade de refletir mais radicalmente sobre a dramaturgia no teatro. Eid é essencialmente um autor, que reescreve seu texto permanentemente, dialogando com seu lado diretor e junto com seus atores.

Dando sequência ao desejo de falar do Brasil e encontrar um teatro brasileiro, veio a proposta da montagem do “Álbum de Família”do Nelson Rodrigues. A idéia foi lançada numa viagem de barco em direção à Sardenha, na Itália.

Foi o primeiro espetáculo montado na sede do Galpão , na rua Pitangui,3413. Durante dez meses, lançamo-nos ávidamente em improvisações que traduzissem a dramaturgia do Nelson numa linguagem essencialmente corporal. Na época, trabalhávamos com uma espécie de alfabeto de ações físicas ( bem ao estilo de Barba e sua turma), que eram introduzidas e mescladas na trama da peça e nas cenas. Lembro-me das horas intermináveis em que debruçamo-nos na cena do delírio de Jonas, que tinha visões dos filhos enforcando-o e seviciando |Glorinha, sua filha e sua obsessão. A cena acbou não entrando no espetáculo final, assim como uma série de outras que foram criadas e recriadas, bem ao estilo de um processo de ensaios do Eid, em que a dramaturgia eram feita num dia e refeita no dia seguinte.

A sucessão de obsessões e loucuras eram narradas por um autor que proclamava algumas pérolas nelsianas no decorrer do espetáculo. Eid e nós outros propunhamos uma leitura expressionista da peça. O cenário reproduzia um teatro de marionetes gigante, dando a exata impressão de personagens como joguetes do desejo irrefreável. A montagem chocou certo público acostumado a ver o Galpão com narizes de palhaço e roupas coloridas. Mais uma vez Eid dava um chega prá lá na nossa alegria. A família Rodrigues, como era de se esperar, odiou. Achavam de tínhamos tomado muitas liberdades e que qualquer ” adaptação” da obra de papai era uma heresia. Bom sinal. É um indício promissor de que o espetáculo era bom.

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