->25 anos de encontros 3: os festivais

Dentro das comemorações dos quarenta anos do Festival de Inverno da UFMG, fui convidado a fazer um depoimento em nome do Galpão. Como já disse, tenho uma enorme afeição por esse Festival, que é um verdadeiro marco dos movimentos culturais da cidade, do estado e do país.

Bom, o fato é que o depoimento levou-me a pensar na importância que tiveram para a formação do Galpão , não só o Festival da UFMG, mas todos os vários e diferentes festivais de que participamos ao longo desses vinte e cinco anos. Sendo assim, pensei que um dos possíveis vinte e cinco encontros mais significativos do Galpão deveria constar o capítulo do encontro com os festivais.

A verdade é que o Galpão nasceu de uma oficina com os dois diretores do ” Teatro Livre de Munique”, George Froscher e Kurt Bildstein ( já repeti tantas vezes essa informação ao longo da minha carreira , que ela sempre me soa como uma espécie de disco arranhado).Os dois fizeram uma primeira experiência de duas semanas de exercícios fatigantes, no teatro Marília, a convite do atuante Goethe Institut, na figura do saudoso Roland Schaffer. Depois disso, eles selecionaram uns nove sobreviventes e ministraram uma oficina de um mês , em Diamantina, no Festival de Inverno.O trabalho era bem grotowskiano, no sentido de que era fundamental chegar no estado de fadiga para poder criar. Durante o festival, chegamos a montar uma espécie de auto medieval, que retratava uma circense disputa entre o Bem e o Mal. O trabalho serviu também como um aquecimento para a posterior estréia de ” A Alma boa de Setsuan” de Brecht, que faria uma curtíssima temporada de duas semanas, no teatro Francisco Nunes.

Nesse período foi forjada a gênese do Galpão. Uma gênese moldada pela experimentação típica dos festivais. Experimentação entendida como uma preocupação em criar processos que possibilitem um crescimento, não só individual, mas também coletivo. De maneira muito genérica, podemos dizer que a idéia do Galpão sustentava-se num tripé: trabalho de grupo, pesquisa e a necessidade de sobreviver só de teatro, sem depender de outras atividades.

Depois que os alemães se foram e a alma boa de Setsuan escafedeu-se, fundamos o Galpão e caimos na vida com a filosofia de que temos que fazer teatro de qualquer maneira. Como ninguém nos conhecia e jamais ganharíamos espaço nas poucas casas de espetáculo da cidade, a solução seria a rua. E lá fomos nós, na cara e na coragem.

No começo, as pessoas nos olhavam e comentavam, lá vem o bando de porra loucas.Juntar mais de quinhentas pessoas em plena praça Sete para ver um bando de atores em pernas de pau e tocando bumbo era mesmo uma espécie de loucura.Como bons brasileiros nós éramos pura intuição e partíamos para a ação antes de pensar naquilo que fazíamos.

Nesse sentido, a participação em festivais e a possibilidade de perceber as semelhanças e as diferenças entre o nosso trabalho e de outros grupos foi uma referência fundamental.Nos primeiros tempos heróicos, que vão da fundação até à montagem do Arlequim do Goldoni, lembro-me de dois festivais, além do da UFMG, que foram marcantes: o Festival de teatro de rua de Paraty e o Festival Cante-conte de Baependi.

Em Paraty, tivemos pela primeira vez, a oportunidade de estar num festival com grupos de teatro de rua do Rio e de São Paulo. Era o tempo em que viajávamos em duas brasílias ( uma do Chico e a outra minha) e mambembávamos da maneira mais despudorada para onde nos convidadssem e nas condições mais precárias possíveis. O espetáculo era “Ó prô cê vê na ponta do pé” e a apresentação no festival renderia nossa primeira ida a São Paulo, no centro cultural do Vergueiro. Foi também nossa primeira articulação com outros grupos como o “Manhas e Manias”e o “Tá na Rua”do Rio e o grupo “Treta “do sindicato dos bancários de São Paulo.

 Baependi é a terra do Chico e lá, na organização do festival Cante-conte, ele fazia uma espécie de jardim de infância como organizador de eventos e de articulações culturais futuras como o Festin, que depois virou FIT e o próprio Galpão Cine Horto. Lembro-me que o Galpão passou uma semana na cidade promovendo recreações em bairros da periferia e apresentando espetáculos. Foi uma experiência marcante de um trabalho teatral junto à comunidade.

Alguns anos depois, outro festival de Inverno da UFMG foi determinante nos rumos que o Galpão tomaria. Estávamos saindo da experiência traumatizante da montagem do Arlequim do Goldoni. O grupo, que até então tinha oito integrantes, sofria uma grande debandada. Ficamos Wanda, Teuda, Toninho e eu, sem a menor idéia do que fazer e como retomar os rumos do grupo. Decidimos então dar um tempo, fazendo uma oficina com um diretor paulista, que trabalhava com o Grupo Boi Voador e que fazia um espetáculo que havia encantado a todos nós, ” Os velhos Marinheiros”. Ulysses Cruz era seu nome. Ele tinha sido assistente do Antunes, o que aumentava ainda mais  nossa curiosidade.

Passamos o mês inteiro de julho, criando cenas a partir de uma série de contos de autores mineiros como Drummond, Murilo Rubião, Guimarães Rosa, etc. Veio dessa experiência o nosso processo de workshops, criação de idéias cênicas relâmpago, que nos acompanha até hoje na criação dos espetáculos.

O Galpão ainda teria uma participação importante dentro de um festival de inverno da UFMG, com uma oficina ministrada pelo próprio grupo, durante todo o mês, em Belo Horizonte. Trabalhando com vários atores, desenvolvemos projetos de montagens semanais de cenas que visavam explorar o espaço da rua. Saíram daí intervenções como a manifestação “Queremos praia”em que vários atores ocuparam o espaço do marco zero de Bhz, exigindo a construção de uma praia.

Esse período foi pródigo em festivais e encontros com grupos que foram de grande valia não só para os rumos artísticos do Galpão, como também para sua organização e sua maneira de produzir  e divulgar o trabalho.É o momento em que o grupo começa a ser convidado para festivais internacionais. Não satisfeito em participar dos festivais como convidado, o Galpão começa a perceber a importância de organizar seu próprio festival e convidar grupos para apresentações e intercâmbios em Belo Horizonte.

São dessa fase os festivais de teatro no Perú, França ( na cidade de Aurillac) e na Itália. Outra importante experiência no âmbito de festivais é a oficina que fizemos de três semanas com integrantes do grupo dinamarquês Farfa, no Rio. Era uma época em que os festivais eram mais pobres, mas também mais generosos com os participantes, possibilitando um encontro maior entre as pessoas e os grupos.

Preocupados em discutir os rumos dos diferentes trabalhos, vários grupos de todo o Brasil começam a se articular em festivais e encontros que se sucedem em cidades como Petrópolis, Belo Horizonte, Ribeirão Preto, Campinas, Aracaju,etc. É quando, no começo da década de 90, o Galpão organiza seu primeiro festival de teatro de Belo Horizonte, o Festin. O projeto, ainda que modesto, é um grande sucesso e entusiama vários grupos. Em 1992, o grupo, quase sem nenhum apoio, consegue a duras penas, fazer uma segunda edição de resistência, em que uma das principais atrações, além do grupo novaiorquino Bond Street, é a estréia de Romeu e Julieta, na praça do Papa, para uma platéia de mais de três mil espectadores.Em 1994, o Galpão ainda organiza junto com a Secretaria Municipal, uma edição histórica do Fit, fazendo com que o teatro invadisse literalmente todos os espaços da cidade. A organização de festivais próprios tem uma importância profunda na organização do grupo e sua política de troca e de encontros. Depois de abandonar o FIT, por questões de desentendimentos políticos, o Galpão arregaça as mangas e dá início ao projeto do Galpão Cine Horto, que terá continuamente a tarefa de intercâmbio com a comunidade e com os grupos locais e nacionais em projetos como Oficinão, Galpão convida,Festival de Cenas curtas,etc.

Outra contribuição marcante dos festivais na nossa trajetória foi ter-nos permitido encontrar e assistir a trabalhos de craques do teatro como Peter Brook, Robert Lepage, Eugenio Barba, Sankai Juku,El Galpon, La Candelaria, Yuchachkany, Vanessa Redgrave, La Abadia, Generik Vapeur, os Fofos , Beatriz Sayad, Tear, Felipe Hirsch, Cheek by jowl, Imbuaça, CPT, Teatro Sunil, Globe Theater, Tascabille, Potlach,Terreira da Tribo, Fora do Sério, etc,etc.. ( as listas são absurdas porque a memória é sempre falha e sempre alguns dos melhores ficam de fora). 

Depois do grande sucesso de Romeu e Julieta, a agenda do Galpão tornou-se mais apertada. Se os festivais tiveram de adapatar-se a uma estrutura mais comercial de funcionamento ( traduzindo: o grupo chega, apresenta-se e no dia seguinte cai fora), também a nossa vida ficou mais apertada, com uma extensa agenda de apresentações e de viagens. A relação com os festivais tornaram-se mais superficiais. Mas, mesmo assim, eles ainda representam uma importante via de acesso a públicos de diferentes cidades, que passaram a ser fiéis seguidores do trabalho do Galpão. São exemplos  que permitiram-nos criar esse tipo de vínculo  com um público, os festivais de Curitiba ( participamos de sete edições), Porto Alegre, Brasília, Florianópolis, Recife, Blumenau, entre outros.

Assim como não poderia deixar de mencionar nossa relação duradoura com festivais  como o FITEI do Porto,( Portugal), os Festivais de Caracas,  Bogotá, Montevidéu, além de participações em festivais marcantes como o de Toronto ( Canadá), Theater der Welt ( Alemanha), Kinderfestival ( Holanda) e nossa experiência internacional mais marcantes, que foram as duas semanas de apresentações de Romeu e Julieta no Globe Theater, em Londres.  

Enfim, para dar um ponto final, nessa já extensa digressão : vida longa aos festivais de teatro e que eles possam proliferar cada vez mais em todos os cantos do Brasil e do mundo!   

4 Respostas para “25 anos de encontros 3: os festivais”

  1. bandido,
    você está escrevendo cada dia melhor…
    quem diria… você se tornar um “blogueiro” !!!
    vamos combinar assim: você, com sua avançada idade, vai escrevendo suas memórias e nós vamos fazendo desse modo o roteiro pro livro dos 25 anos de encontros…embora com alguns desencontros…
    Semana que vem a gente se encontra em mais um festival. A velha Diamantina!
    abraço desse burro velho e atual “presidiário”.
    rodolfo

  2. Uma delícia seu texto, Eduardo. Parabéns por ambas as “histórias”: a escrita por “vocês” e esta, escrita por você. Muito inspiradora para mim e todos da nossa equipe de comunicação do Festival.

  3. Oi Eduardo, que delícia relembrar tantas histórias que compartilhei, acompanhei e torci com vocês e por vocês. Espero encontrá-los na temporada de São Paulo, eu e Tuca estamos garimpando uma idéia ou texto para uma nova montagem. Abraços com muitas saudades.

  4. Eduardo, estas memórias de festivais me fizeram lembrar minha primeira viagem com o Galpão. Vocês foram sensacionais comigo e com o Júlio. Nós estávamos iniciando o processo de montagem do Romeu e Julieta e o Galpão iria para um Encontro Nacional de Teatro de Rua em Ribeirão Preto. Então, eu e o Júlio fomos convidados para a viagem, para ficarmos por dentro do que estava acontecendo com o teatro de rua no Brasil. E foi inesquecível … de uma só vez, mergulhamos no mundo do Tá na Rua, Imbuaça, Fora do Sério ( que promoveu o encontro), Ói Nóis Aqui Tráveiz,enfim… tantas pessoas lindas…
    e uma coisa que me chamou especialmente a atenção, era o carinho que todos tinham pelo Galpão!
    Bonito momento …
    Inês Peixoto

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