->25 anos de encontros 6: a música

A música é um elementos mais marcantes da linguagem do Galpão ao longo desses vinte e cinco anos de história.Ela foi a ponte também para uma série de encontros muito importantes.

 Tudo começou quando, ainda no primeiro espetáculo, chamamos dois músicos para pontuarem todas as cenas do espetáculo “E a noiva não quer casar…”. Eram eles José Arthur Aguiar ( hoje, ortopedista, que cuida das mazelas e das contusões do elenco do Galpão) e Beto Franco, que depois viria a ser um dos alicerces da estrutura do grupo e que sempre esteve à frente do trabalho musical e também da cobrança ao elenco pelos estudos e por um possível aprimoramento técnico da parte musical. Os dois haviam participado de um daqueles típicos grupos de rock de garagem da década de setenta, que se chamava “Sagrado coração da terra”.Na “Noiva” as pontuações das cenas eram todas percussivas e feitas ao vivo pelos dois músicos. 

O Galpão só voltaria a atuar com música ao vivo, em 1988, seis anos depois, com o espetáculo ” Corra enquanto é tempo”, dirigido pelo Eid Ribeiro. Apesar da música ter um apelo fundamental nos espetáculos deste período ( Além da Noiva, “De Olhos fechados”, “Ó prô cê vê na ponta do pé”,”Arlequim servidor de tantos Amores”, “A comédia da Esposa muda”) , nenhum deles apresentava a  música ao vivo. 

Aqui vale o registro da importância do nosso saudoso e querido Serginho, mais conhecido internamente pelo codinome de “velho maconheiro”, menos pelo consumo da canabis e mais pela maneira arrastada e cheia de gírias de falar bem ao estilo dos velhos hippies do final da década de sessenta.Sergio fez a bela trilha do espetáculo “De Olhos fechados”( que até hoje deixamos de cedecizar, talvez pelo tempo reduzido que as seis músicas teriam para compor um CD).Serginho adorava tocar nos bares e nós, do Galpão, adorávamos acompanhá-lo pelos bares. Sem nenhum aquecimento vocal e regado a copos e mais copos de cerveja, passávamos um bom repertório de sambas e canções de MPB, em meio ao ambiente enfumaçado e pouco saudável dos bares de Belo Horizonte.  Foram nossas primeiras aulas de técnica vocal na marra. Ainda me lembro do doce Sérgio dedilhando seu violão com seus óculos de fundo de garrafa e sempre com um cigarro entre os dedos misturado às cordas do violão. 

 A idéia da música ao vivo começou a nascer no Galpão a partir do encontro com grupos internacionais como os italianos Potlach e Tascabile e o dinamarques Farfa. Víamos e travávamos contato pela primeira vez com atores que manipulavam cênicamente a música, o que dava um colorido e um poder de comunicação extraordinário aos espetáculos e à presença dos atores em cena. A vantagem de se trabalhar em grupo é que você pode acalentar projetos coletivos a longo prazo, que nâo precisam estar presente já na próxima produção. Foi o que aconteceu com nosso projeto de desenvolver a música no teatro. O primeiro passo foi fazer aulas de teoria musical, uma vez que a nossa formação ( exceto pelo Beto) era quase nula. Lá fomos atrás de Berenice Menegale, a incansável pianista, que criou e desenvolveu a Fundação Artística, que é o maior centro de formação e divulgação da música de vanguarda e de qualidade de Bhz. Berenice nos encaminhou para fazer aulas com a Edna Lobão, que além da simpatia baiana, se desdobrava, sempre carinhosamante, lutando  contra a nossa crueza, em exercícios de ritmo, leitura e teoria musical.

Depois das viagens internacionais, já em 1988, fizemos um pacto de que cada um compraria um instrumento e se viraria como pudesse para arranjar aulas e desenvolver mínimamente a técnica do instrumento para que daqui a um pouco, pudéssemos, quem sabe, juntar os instrumentos e tocarmos juntos. Wanda comprou uma clarineta em Módena, na Itália. Da mesma Itália, eu trouxe um acordeon de 48 baixos; Chico escolheu um sax; Toninho, um flauta; Teuda, um trompete e Beto seguiu no violão e dando conselhos aos iniciantes. 

Nessa mesma época começam as aulas de voz e de canto com a Babaya, que já despontava na cidade como uma excelente preparadora vocal e que acabara de montar sua escola. Babaya, além do reconhecimento, estava cada vez mais interessada em potencializar o seu trabalho menos para a voz cantada e mais para a voz falada.Nosso primeiro trabalho  foi em “Corra enquanto é tempo”, com a direção do Eid. Alí, além do sax e do violão e de uma percussão básica, cantávamos músicas de Roberto Carlos ao vivo. Nunca mais largamos a Babaya e ela sempre foi fundamental, mesmo nos espetáculos em que não fez a preparação, como o “Partido” “e o “Homem é um homem”, fazendo observações e trabalhos individuais para que os atores pudessem encontrar timbres de voz mais apropriados para determinados personagens ou situações.

Outra parceria marcante na área de trilhas para espetáculos foi a que tivemos Eduardo Alvarez Guimarães, que fez a trilha de “Álbum de Família”, direção do Eid Ribeiro.As músicas acentuavam o tom dramático e expressionista de determinadas cenas, fazendo uma mistura de músicas de Mozart , Vivaldi e Vicente Celestino com temas acentuadamente contemporâneos.O Galpão ainda teve rápidas parcerias com Eduardo Guimarães em alguns festivais de Música contemporânea que aconteciam na mesma Fundação Artística,em BHZ. Lembro-me de uma peça cênico-musical que representamos que era uma espécie de número farsesco, inspirado no filme “Ensaio de Orquestra” do Fellini.

  O primeiro espetáculo do Galpão que traz um peso maior de instrumentos melódicos com música tocada ao vivo é “Romeu e Julieta”.É a primeira vez que consigo tocar o acordeon em cena, o que até então, parecia uma missão impossível.Apesar das vaciladas, principalmente nas primeiras apresentações, o conjunto musical vai se afinando  e temos já aí, um acordeon, um trio de violões, uma clarineta, uma flauta, percussão e um trompete da Teuda e o sax do Chico. “Romeu e Julieta” vai marcar também o nosso encontro com o talento de arranjador do Feranndo Muzzi, que foi outro que nunca mais largamos, mesmo nos espetáculos em que não utilizamos diretamente seu trabalho.

 O passo seguinte vai ser o encontro com o canto coral e a polifonia da música, que está presente nos arranjos a quatro vozes feitos pelo maestro Ernani Malleta para o espetáculo “A Rua da Amargura”.O que também nos parecia impossível, vai sendo pouco a pouco conquistado. Tudo com a ajuda da paciência e uma certa genialidade pedagógica do Ernani para chegar aos objetivos propostos com aquele naipe de vozes e de timbres disponíveis no conjunto de atores do Galpão. 

A trinca Babaya- Fernando Muzzi- Ernani é, até hoje, o chão, que dá a base para todas as nossas aventuras na música dedicada ao teatro.Fernado Muzzi fez uma trilha brilhante para “Um Molière Imaginário”, ajudou-nos a executar os arranjos de Tim Rescala em “Um trem chamado desejo” e escreveu temas para “O Inspetor Geral” e “Um Homem é um Homem”

.Ernani Malleta fez os arranjos a quatro vozes para o que muitos consideram a melhor trilha ao vivo já executada pelo Galpão, que é o canto à capela de uma série de temas orientais, que compôs para o espetáculo “Partido”. Além disso, compôs e ensaiou todos os cantos corais de “Um Trem chamado Desejo”, “O Inspetor Geral” e “Um Homem é um homem”.É até hoje o responsável pelas aulas em que buscamos aperfeiçoar um pouco mais nosso restrito conhecimento musical.

Babaya é a preparadora que dá suporte à nossa saúde vocal e que foi de fundamental importância para o trabalho de sustentação e de resistência da voz, que Paulo de Moraes pedia para a execução de “Pequenos Milagres”

.Outra parceria de luxo do Galpão em suas trilhas foi com o músico carioca Tim Rescala, que fez as músicas de “Um trem chamado desejo”. Parceiro de Chico Pelúcio,que dirigiu o espetáculo, em trabalhos da Cia Burlantins, Tim compôs uma série deliciosa de músicas, que passeiam com primor pelo espírito da Belle-èpoque brasileira, indo do maxixe à valsa.

Para coroar o casamento do nosso teatro com a música, tivemos a felicidade de trabalhar com Paulo José, que além de um mestre da palavra falada, é um diretor que pensa o tempo todo em termos de música.Lembro-me da analogia que ele fazia entre a direção de uma peça de teatro e a condução de uma peça sinfônica, com seus movimentos.A própria fala do ator é pensada como música. Daí a necessidade de estar sempre experimentando diferentes timbres, ritmos, pausas, variações de tônicas,etc. Eu consegui entender a função da música como elemento de distanciamento no teatro de Brecht com Paulo José. Ele sempre pedia que a música fosse cortada antes, num ponto alto, sem o fechamento

.Paulo de Moraes, nossa última parceria com “Pequenos Milagres”, é outro que usa a música com grande maestria. Basta ver a importância que a trilha, que é sempre concebida por ele, tem em seus espetáculos.A música não está só no resultado final das cenas, mas na sua própria gênese. Quando começávamos a montar as quatro histórias que compõe o espetáculo, Paulo sempre trazia uma música que dava o clima que ele imaginava para a situação. Imbuídos dessa atmosfera partíamos para a construção das cenas e o jogo entre os atores.É curioso que os únicos temas tocados ao vivo foram em instrumentos que os atores não conheciam e que tinham contato pela primeira vez (Paulo André com a gaita e eu tocando o trompete).

 Enfim, a música está tão associada ao nosso fazer teatral que, frequentemente, quando não sabemos como começar um novo projeto, começamos a cantar e a tocar alguma coisa juntos, para ajudar a percebermos que ventos estão soprando e para onde eles podem nos levar. Ela foi, é, e, provavelmente, continuará sendo um elo fundamental do nosso teatro, que nos ajuda como ninguém na comunicação com o nosso fiel público.

2 Respostas para “25 anos de encontros 6: a música”

  1. Faz uns 5 anos que saí de BH para o RS e desde então não contato com o Galpão e seus espetáculos (no sentido mais puro da palavra). Mas lembro-me que dentre muitas peças que ví do gupo, a música que fechava “Rua da Amargura” era a que mais me comovia. E o figurino. Ah! o figurino!

  2. gostaria muito de ter as musicas do grupo galpão, mas aqui em fortaleza, nada nos chega, tive o prazer de assistilos aqui com dois espetaculos, a trup tem vcs como referencia, obrigado por existirem, nossos contatos são , (85) 32333200 ou 86 27 31 80, carlos alves !!!

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