->25 anos de encontros 9: os clássicos

Ao longo desses 25 anos um fato recorrente foi o encontro do Galpão com os textos clássicos. Náo só a dramaturgia, mas também os textos teóricos, que foram importante fonte de inspiração e discussão. Talvez pelo fato de ser um grupo sem um diretor fixo, o  coletivo do Galpão sempre deu tiros para tudo quanto é lado, e no meio dessas tantas tentativas, acabou encontrando com os grandes mestres do teatro como Stanislavski, Meyerhold, Brecht, Artaud, Piscator,Brook, Mnouchkine, Barba, Grotowski, Dario Fo, Eugenio Kusnet e tantos outros.

O grupo começa na rua, com um texto de criação própria ( “E a noiva não quer casar…”), processo que vai se repetir na montagem seguinte na rua (“Ó procê vê na ponta do pé”), mas vai pouco a pouco percebendo a necessidade de aprofundar uma dramaturgia mais completa e que exija do ator um desafio mais profundo. A dramaturgia criada por nós mesmos adaptava-se aos atores que nós éramos. E como queríamos um risco maior de interpretação e de trabalho de elaboração de personagem pelo ator, a busca por uma dramaturgia mais elaborada, externa foi a opção. Estava aberto o caminho para o encontro com os clássicos.

O começo foi bastante conturbado. Havia uma confusão muito grande de propósitos, com uma enorme imaturidade em termos de construção de personagem, isso desde a leitura de mesa até a eleboração de um corpo para um personagem que, ainda que fosse um tipo, precisava ter uma vida e não ser um simples estereótipo. A primeira montagem de um clássico, o “Arlequim” do Carlo Goldoni foi o tempo todo marcada pela dicotomia entre uma adaptação e uma montagem que fosse fiel ao original. O resultado foi uma experiência no meio do caminho, que acabou gerando um resultado final insatisfatório. Ao final, as cenas produzidas durante os ensaios nos pareciam bem melhores do que as do espetáculo em si.

O fracasso foi importante para que entendessemos a necessidade de se estudar mais o teatro. Nesse sentido,uma prática que passou a fazer parte do nosso cotidiano foram os ciclos de leitura de textos. Produzidos especialmente nos momentos de entressafra, em que passamos o tempo matutando sobre o que, como e com quem fazer uma peça nova, os ciclos de leitura buscavam sempre a diversidade mais ampla o possível, abarcando desde o teatro grego até as experiências mais contemporâneas. Creio também que eles se tornaram um importante instrumento de aprendizado para um grupo, que no começo tinha bem pouco traquejo com a palavra e priorizava sempre em suas montagens um teatro calcado no corpo e na construção de imagens.Ler peças em conjunto nos proporcionou não só uma clareza sobre nossas deficiências, mas uma capacidade de compreender a construção e a evolução de uma tessitura dramatúrgica, com o desenvolvimento dos personagens e dos conflitos, além de uma série de outros elementos como estilos e gêneros de dramaturgias que, sem sombra de dúvidas, ajudaram em muito para que tivéssemos um entendimento mais amplo do que é o teatro. 

No contexto dessa busca e pesquisa, é curioso como textos como “Romeu e Julieta”, “O Inspetor Geral”, “Arlequim servidor de dois amos”, a obra inteira de Nelson Rodrigues sempre nos perseguiram, como fantasmas a nos atormentar, muito antes mesmo de nos decidirmos a montá-los. A nossa relação com o texto de  “Romeu e Julieta” é um exemplo. Se a montagem, com direção e concepção de Gabriel Villela aconteceu em 1992, já em 85 estávamos às voltas com a possibilidade de montar o texto, entrando na ocasião num projeto de financiamento na Secretaria Estadual de Cultura para encenar a peça de Shakespeare na rua.  Quando, em 1992, Gabriel chega em Belo Horizonte, sem saber exatamente o que queria montar, sugerindo algumas peças, imediatamente pedimos a ele que incluisse no rol de possibilidades o “Romeu e Julieta”.Isso mostra a necessidade de um grupo ter sempre a mão um repertório de textos preferidos e sempre possíveis de serem montados.

O segundo encontro com um chamado clássico da dramaturgia ( em 1990, portanto antes do “Romeu e Julieta”)se deu através das mãos já bem mais calejadas de um diretor como Eid Ribeiro. Lembro-me que nós estávamos num navio viajando para a ilha da Sardenha, quando ele anunciou que devíamos levar adiante nosso projeto de brasilidade no teatro fazendo um Nelson Rodrigues. E a proposta era de nos debruçarmos no texto mais desagradável de sua dramaturgia na fase metafísica – o “Álbum de Família”. Foi um trabalho intensíssimo em que lemos toda a obra teatral e boa parte das crônicas do Nélson. Misturamos várias peças, frases lapidares do autor, improvisamos muito e chegamos a um resultado que, creio, podia não agradar unanimimente, mas que era bastante consistente e fiel ao espírito do autor. Foi nossa primeira incursão profunda num universo de um autor.O mesmo modelo de trabalho se repetiria, com suas variações, em processos como o de “Romeu e Julieta” e ” Um Molière Imaginário”.

Nas três abordagens desses clássicos, usamos o subterfugio de colocar o próprio autor em cena. Era uma forma de falar sobre a  função e a gênese do próprio teatro. Esses textos, com sua complexidade, nos permitiram um mergulho num universo histórico, humano e pessoal tão amplo, que foram fundamentais para ampliar nossa percepção do teatro e da vida. Sem contar com uma preocupação de fazer conexões com o universo da cultura brasileira, o que nos levou, por exemplo, a misturar Shakespeare com Guimarães Rosa e Molière com Machado de Assis.

Nesse percurso, os riscos de se cair em algo pretensioso e grandiloquente foram enormes. Estivemos sempre caminhando no fio da navalha entre a fidelidade e a transgressão. O respeito ao universo dos autores e a necessidade de relê-los, fazendo uma ponte com o mundo e o público de hoje, constituíram uma fonte de tensão constante.Para o sucesso de tal empreendimento de decifrar e devorar os clássicos foi, sem sombra de dúvidas, fundamental a colaboração de um dramaturgo e teórico do quilate de um Cacá Brandão, que além de trabalhar os cortes e os diálogos dos textos originais, foi um verdadeiro titã na hora de elaborar estudos e pontos de aproximação com universos tão amplos e díspares como o teatro elizabetano e a obra de Guimarães Rosa ou as comédias de Molière e o universo de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis.

Dois outros clássicos estivaram no rol de nossa montagens sob a batuta de Paulo José. O primeiro foi “O Inspetor Geral” de Nicolai Gógol e o outro ” Um Homem é um homem” de Bertolt Brecht. O russo escrito em 1836 e o alemão, noventa anos mais tarde, 1926.

Na montagem do “Inspetor Geral” não chegamos a fazer uma adaptação. Passamos por um profundo processo de estudo de texto, onde cada frase e cada palavra eram exaustivamente experimentadas. Como dizia o nosso Paulo José, ” uma palavra mau colocada  entope uma frase”. Assim, cada palavra era mastigada e digerida diversas vezes até se chegar ao sentido e a sonoridade pretendida.Trabalhamos com, além das três traduções brasileiras,  as  traduções francesa, a inglesa, a espanhola, além de traduzir e estudar a adaptação feita e encenada nos Estados Unidos pelo diretor russo Michael Tchekov ( sobrinho do escritor Anton) e a famosa montagem de Meyerhold para a peça. A versão final era um amálgama das várias traduções e algumas adaptações que surgiram na boca dos próprios atores ao apropriarem-se do texto final. Foi certamente a montagem de um clássico mais fiel ao original, o que também nos possibilitou um apurado trabalho focado na palavra e no estudo de texto. A opção por manter o contexto da peça na velha Rússia dos tempos do Czar também foi importante para criar um distanciamento que, paradoxalmente, só reforçava a crítica aos nossos tempos de Brasil atual atolado na malversação do dinheiro público e nos “pecadilhos” recorrentes pelos maus hábitos de nossos políticos e nossa classe dominante. Seguindo os preceitos do velho Brecht, mantemos a história na fábula, o que só reforçou ainda mais a crítica aos tempos de hoje. 

A segunda abordagem de um clássico com Paulo José deu-se com “Um Homem é um homem” de Bertolt Brecht. Dessa feita, Paulo propôs a montagem sobre um estudo e uma adaptação do original que ele já havia pensado e repensado inúmeras vezes desde o final da década de sessenta. O curioso é que no começo do processo de ensaio, a adaptação era muito mais livre e desvinculada do original. Pouco a pouco, ela foi incorporando elementos do original e a experiência foi uma bela oportunidade de compreendermos o universo do teatro dialético de Brecht, com seu fascinante mundo de contradições e movimentos, que oscilam todo o tempo entre a reflexão e o divertimento, a poesia  e a secura das palavras, o épico e o dramático, o jogo de palavras que variam entre os mais diferentes estilos,  desde a linguagem cartorial, a bíblica, o épico, o poético, o dramático,etc. O fascinante desse texto, que teve sua primeira versão em 1926, e ganhou quase dez outras versões ao longo da vida do dramaturgo, é que ele se situa numa fase de transição da elaboração do chamado teatro épico, sendo por isso mesmo bastante sujo e irregular como estilo, misturando  poesia com narrativa épica, teatro de rua, cabaré .

Os clássicos são clássicos porque dizem algo de profundo e permanente sobre a condição humana. Nunca nos preocupamos em ser um grupo que aborda textos clássicos por qualquer tipo de princípio estético ou de conduta e muito menos por uma questão de aceitação num mercado mais amplo, como o internacional. Fizemos alguns textos clássicos e continuamos “perseguidos” por uma série deles, simplesmente porque eles nos dizem muito, tanto como artistas como enquanto seres humanos. E nada mais fascinante do que contar histórias que nos arrebetam e nos fazem pensar nessa grande aventura humana, que é nossa vida na terra.

3 Respostas para “25 anos de encontros 9: os clássicos”

  1. “Clássico, clássico é isso que vocês querem?”
    Bem é um colírio ver e rever o galpão, acompanho vocês desde “O Inspetor geral” e dai por diante achei lindo o trabalho e a forma com que voces trabalham.

    Mais uma vez Parabens amados do Grupo Galpão.

  2. parabens!!!!!!! pela linda historia de amor de romeu e julieta no galpao adorei !!!d mais mesmo!!!!!!!!!!
    BEIJOS E ABRAÇOS PARA TODOS!!!!!!!!!!!!

  3. Olá Galpão!!!!

    Sou fã de vcs, e já vi peças como: o trem chamado desejo, pequenos milagres em bh e agora vcs vão vir em minha cidade estou super contente e gostaria de conhecê-los pessoalmente se pudesse. Tenho um grupo de teatro amador aqui em Lavras e eles estão super empolgados com a vinda de vcs.

    Eh isso!!!!!!!!!

    Sucesso!!!!!!!!!!!
    Viva o teatro!!!!!!!!!

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