->25 anos de encontros 4: o encontro com Gabriel Villela

Num desses finais de semana de julho enfrentei seis horas de Fernão Dias e fui assistir ao novo espetáculo dirigido pelo Gabriel em São Paulo, com participação do Rodolfo no elenco.Apesar da correria e do cansaço, o esforço valeu a pena e fiquei muito feliz com o resultado. Um espetáculo seco, preciso, com os atores encarnando com muita propriedade as palavras e as ações.Bom ver o Gabriel fazer um teatro direto e sem maneirismos. Sob este estado de júbilo teatral ( nada nos deixa mais arrasado do que um mau espetáculo e nada nos entusiasma mais do que um bom teatro), pensei que um dos encontros fundamentais do Galpão ao longo desses vinte e cinco anos seria, óbviamente, com o Gabriel Villela.

Bom, nosso primeiro encontro já foi marcado pelo acaso e por uma aura de incrível coincidência. O ano era 1986 e vivíamos uma crise sem precedentes dentro do grupo. Tínhamos acabado de montar o espetáculo ” Arlequim servidor de tantos Amores”que, além de ter sido recebido com certa frieza pelo nosso público, também entre nós,atores-criadores não parecia corresponder às expectativas. O espetáculo acabou se arrastando por três meses de temporada, no teatro Marília, onde era frequente ter mais gente no palco do que na platéia. Os integrantes do grupo passaram de nove para quatro, com uma debandada que refletia bem o buraco em que estávamos metidos.

Instalada a crise e a falta de perspectiva sobre o que montar e para onde ir, resolvemos de comum acordo que a melhor saída momentânea seria nos inscrevermos numa oficina do  Festival de Inverno da UFMG que, para nossa grata surprêsa, contaria com a participação do Ulysses Cruz, diretor de teatro, paulista, por quem sempre tivemos muita admiração, principalmente pelo seu trabalho na época à frente do grupo Boi Voador da mesma cidade.

E lá fomos nós de mala e cuia passar o mes de julho na fria cidade de São João del Rey. O trabalho da oficina era todo centrado na montagem de workshops( cenas montadas num período de tempo muito curto) de contos curtos de autores mineiros. Nossa empatia com Ulysses foi imediata e , por conta disso, sempre expúnhamos nossa situação de incerteza e precariedade, procurando sempre encontrar no paciente diretor uma espécie de tábua de salvação. Já na última semana do Festival, quando nos preparávamos para apresentar as últimas cenas, saímos para jantar com o Ulysses e ele, en passant, comentou que tinha pensado numa figura interessante, que talvez pudesse ser um nome para dirigir um próximo trabalho do Galpão. A idéia passou como um relâmpago e ele nem disse o nome da pessoa e nós também nem perguntamos. No dia seguinte, quando nos preparávamos para entrar em cena para a apresentação dos workshops, Ulysses começa a gritar como um doido e a apontar para um homem grande, e com estilo meio country de ser, que se apresentava meio tímido na entrada da sala. E Ulysses ria e gritava apontando para o tipo,que já se mostrava um pouco acanhado: “É ele!É ele!” O pensamento relâmpago que havia passado pela cabeça de Ulysses chamava-se Gabriel Villela, na época um jovem e promissor diretor que acabava  de se formar na Escola de Arte Dramática da USP, e que não entendeu nada do que estava acontecendo alí, naquela sala. Ele estava passeando de férias pelas cidades históricas de Minas e deve ter pensado que aquela deveria ser um brincadeira qualquer do seu amigo Ulysses.

O Festival acabou. O Galpão ( ou o que tinha sobrado dele) continuou junto, chamamos Maria Gastelois e Beto Franco para entrar no elenco e montamos ” A Comédia da Esposa Muda” e “Triunfo, um delírio barroco”( produção da fundação Clóvis Salgado) ao mesmo tempo.Sim, é verdade, ensaiávamos um de manhã e o outro, à noite.

A Esposa Muda acabou por curar um pouco as feridas produzidas pelo Arlequim e seguimos tocando a vida, agora bastante interessados em buscar um teatro que falasse mais diretamente do Brasil. Em 1987, estivemos no Festival de Teatro Amador de São José do Rio Preto  e foi lá que encontramos pela segunda vez com o Gabriel, agora já um diretor meio cultuado por uma certa parcela cult do teatro paulistano. Ele chegou a assistir nossa apresentação de ” A Comédia da Esposa Muda” na rua, foi simpático, mas não fez maiores considerações nem sobre o espetáculo nem sobre possíveis projetos conjuntos.

Pulamos então para 1991, no teatro Gláucio Gil, em Copacabana, no Rio, quando fazíamos uma temporada com “Álbum de Família” do Nelson Rodrigues. Quando estou no meu camarim, tirando a maquiagem, surge Teuda,toda espevitada, trazendo pela mão o Gabriel. A conversa foi rápida e amena, mas ficou a promessa de que ele ira assistir também o Corra, que estávamos apresentando pelas ruas do Rio, na mesma temporada. E, de fato, lá estava ele, uns três dias depois, sentado na platéia  no foyer do teatro Casa de Laura Alvim, em Ipanema. Depois do espetáculo, Gabriel ficou alí, como quem não queria nada, assistindo-nos  carregar a veraneio com os objetos do espetáculo e partirmos( elenco e cenário) para o teatro ,onde deixávamos nosso material no Rio.

Dois dias depois, combinamos de ir jantar numa cantina italiana ao lado do Copacabana Palace. Foi a vez de Gabriel nos propor um trabalho juntos. Seria um espetáculo de rua, provavelmente uma paixão de Cristo. Em princípio, tudo combinado, mas de concreto mesmo nada fechado, só  a nossa ida a São Paulo para assistir ao espetáculo  ” Vem buscar-me que ainda sou teu”, dirigido pelo Gabriel e que fazia um enorme sucesso na temporada paulistana. O espetáculo era mesmo deslumbrante, com um estética apurada, que trazia um sopro de renovação ao teatro brasileiro. Ficamos deslumbrados e prometemos a nós mesmos que faríamos tudo que estivesse ao nosso alcance para viabilizar a parceria com o Gabriel.

Dinheiro não tínhamos nenhum, exceto por um magro caixa extraído dos cachês de algumas apresentações vendidas. Projetos muitos enviados para secretarias e empresas, que quase sempre respondiam educadamente com um não. Independente disso, em janeiro de 1992, Gabriel desembarca em Belo Horizonte para uma série de conversas para esquematizarmos como seria o processo da montagem. Lembro-me que, na ocasião, num intervalo de ensaios, levamos Gabriel para almoçar no Bafo, um terrível cú sujo que existia bem na esquina de baixo do Galpão, em frente ao cinema de bairro abandonado, que no futuro se transformaria no Galpão Cine Horto. Fico especulando que pensamentos teriam passado na cabeça do diretor ao ser levado àquele lugar.

Bom, desse primeiro e breve encontro, ficaram duas certezas: o espetáculo teria como cenário a Veraneio que o Galpão usava em suas viagens e precisaríamos de uma atriz nova porque o elenco se encontrava desfalcado  de atrizes. A proposta de Gabriel foi fazermos cinco workshops, que seriam apresentados dali a um mes, e que teriam como temas o teatro musical brasileiro, as primeiras histórias do Guimarães Rosa, a peça ” O grande|Teatro do mundo” de Calderon de la Barca,” Morte e vida Severina” de João Cabral de Melo Neto e uma sugestão nossa que seria “Romeu e Julieta” de Shakespeare. Todas as cenas deveriam ser construídas tendo como cenário a Veraneio porque, como dizia o Gabriel, a primeira coisa era estabelecer o chão para os atores.

O mes de janeiro passou com uma enorme quantidade de mulheres se revezando nas cinco cenas. Depois das apresentações, saímos com o Gabriel ( dessa vez para uma pizzaria mais elegante) e alí mesmo ele nos disse que a peça que montaríamos seria  ” Romeu e Julieta” e a nova atriz do Galpão seria a Inês Peixoto, que já havia feito um trabalho de oficina com ele em São Paulo e que era uma atriz bem conhecida na cidade. Ótima escolha. Para a dramaturgia chamamos o professor de arquitetura e aspirante a filósofo, Cacá Brandão, com quem fizemos um tour pelo barroco de Ouro preto, que viria a ser referência direta para a montagem.Como a poesia de Shakespeare seria um desafio, Arildo de Barros, pela sua experiência com a palavra, foi chamado para ser assitente de direção.

Começamos os ensaios e Gabriel criava cenas aos borbotões e nos deixava loucos com os riscos propostos com as pernas de pau, as travas erguidas a dois metros do chão e a idéia chave da concepção do espetáculo que era a precipitação, ou seja, o risco iminente da queda. Para o papel de Mercucio agregou-se Rodolfo Vaz, que além de um velho amigo e companheiro de geração havia trabalhado conosco no Álbum e era nosso sócio na compra do espaço do Galpão.

Lembro-me que um dos lances mais inusitados e atrevidos do processo de ensaio de ” Romeu e Julieta” foi a transferência de todo o trabalho para a cidadezinha de Morro Vermelho, onde ensaiamos durante dez dias no meio da praçinha de chão batido assistido pela gente simples dos trabalhadores rurais. As casas de barro caiado do vilarejo mudaram completamente a concepção dos figurinos de Luciana Buarque e de Gabriel, as flores de plástico do cenário foram inspiradas nas decorações kitsch das casinhas de Morro Vermelho e o timing e a respiração das falas encontraram seu compasso nas reações da gente simples da cidade, que se aglomerava para assistir os ensaios gerais nos finais de tarde.

“Romeu e Julieta” estreiou, foi aquele sucesso que todos já sabem. O entusiasmo das pessoas era tão grande que o Galpão passou a ser chamado do grupo do Gabriel Villela e o Gabriel o diretor do Galpão. Já no primeiro ano, fizemos apresentações antológicas como a turnê por São Paulo, a estréia no Rio, no Centro cultural dos correios, a estréia em Ouro Preto ( debaixo de uam chuva avassaladora) e o sucesso nâo parou mais como atestam a turnê pelo interior da Venezuela, a temporada da Plaza Mayor em Madri, as viagens pela Alemanha, Holanda , Inglaterra, até chegar à consagração em 2000, com a temporada no Globe Theater de Londres.

Era a hora de montarmos um novo trabalho. Dessa vez seria a velha paixão de Cristo que havia sido mencionada naquele encontro da trattoria em Copacabana. O primeiro passo foi trazer a D. Bila, mãe do Fernando Neves, que era de uma família de circo-teatro e que tinha apresentado o texto para o Gabriel. Os encontros foram incríveis e ela sabia de cor e salteado as falas de todos os personagens, dizendo com uma destreza impressionante aquelas frases mirabolantes do Eduardo Garrido do “Mártir do Calvário”.

O processo tinha tudo para ser um mergulho profundo e delirante na cultura popular brasileira, via o melodrama e o circo-teatro, mas foi amputado pela tragédia da perda da Wandinha, exatamente no último dia da oficina com a D. Bila. Dali a coisa desmoronou e o grupo só não se desestruturou mais profundamente pela intervenção da mão forte do Gabriel, que comandou a ferro e fogo o trabalho, e conseguiu que, quatro meses após a perda da Wanda, estivéssemos estreiando no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio.

A atmosfera dentro do Galpão era tão desoladora que a solução encontrada pelo Gabriel foi chamar gente nova. A solução foi inteligente porque as pessoas que entravam traziam um sopro de renovação e de esperança. Era preciso renovar os ares da rua Pitangui. Gabriel é o maior responsável pela atual formação do Galpão, trazendo um time de craques como Inês e Arildo ( no Romeu e Julieta), Simone e Paulo André ( na Rua da Amargura) e finalmente Fernanda e Lydia ( na remontagem do Romeu e Julieta, que reestrearia em 1996 para uma série de viagens internacionais). Todos convidados pelo Gabriel com a concordância do grupo.

A Rua da Amargura foi um processo de montagem muito vertical. Tudo saia das determinações do Gabriel e o grupo viu sua capacidade criativa muito limitada naquele momento crítico. Eu mesmo passei um mes desorientado, fazendo piqueniques nas montanhas do Escorial com meu filho João e visitando o Prado e outros museus de Madri.Pouco a pouco  nós conseguimos digerir a tragédia, a encenação proposta e passamos, creio eu, a nos divertir bastante com o espetáculo,que era uma releitura muito saborosa e inteligente do universo do circo-teatro e  que foi também um grande sucesso da carreira do Galpão.

Quando todos esperavam e clamavam por um terceiro espetáculo da dobradinha Galpão- Gabriel Villela, nós decidimos , de comum acordo, que era hora de buscar novos rumos. Como toda a separação, teve momentos difíceis, cenas de ciúmes, brigas,esperneios, mas seguimos em frente, sempre buscando trilhar um teatro que fosse um desafio e que não estabelecesse uma forma. O sucesso não nos bastava. E assim, lá fomos nós para um lado e Gabriel para outro. Buscando novas aventuras teatrais e novos riscos. E , ao assistir esse Salmo do Carandiru, que ele acaba de estreiar no SESC, posso ter certeza de que valeu a pena porque a vida não se fez pequena.  

3 Respostas para “25 anos de encontros 4: o encontro com Gabriel Villela”

  1. Ainda bem que tive o privilégio de assistir ” Romeu e Julieta” , na praça de Carmo do Rio Claro, e ficar encantada como tantos. Bom saber fatos do encontro de Gabriel Villela e o Grupo Galpão, narrados aqui. Bela história e bons frutos.

  2. Lindo!

  3. Olá Eduardo !!!!

    Eu me lembro quando vocês ensaiavam nas tardezinhas na praça do morro, naquele cascalho, vermelhão, com a igreja de cenario ao fundo….bons tempos aquele….eu não perdia um ensaio de vocês, todos com aquelas pernas de pau, rsrsrsrsr você fazia o Romeu, a sua esposa era a Julieta, lembro que seu filho tambem estava lá, se n~~ao meengano seu nome era João Pedro ????? a cor da Veraneio era marron, nossa que gostoso relembrar daqueles dias, as imagens estão na minha cabeça como se tivessem acontecido ontem, foi muito bom relembrar aqueles dias……

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