->25 anos de encontros 14: Sergio Pena e o cinema instântaneo

          Sergio Pena é diretor de teatro e se tornou um dos mais conhecidos preparadores de elenco do cinema brasileiro, depois de sua retomada. Trabalhou com direção de elenco de filmes como “Bicho de sete cabeças”e “Chega de saudades” ( ambos dirigidos pela Laís Bodanski),”Carandiru”(Hector Babenco), “Batismo de sangue” ( Helvécio Ratton), “Não por acaso ( Philipe Barcinski), “Contra Todos” ( ), entre outros.
          Mas seu trabalho está muito além do cinema, desenvolvendo projetos de teatro junto com pacientes psiquiátricos e com portadores de necessidades especiais. Eu conheci o Sergio Penna no trabalho de preparação do “Batismo de sangue”, quando participei de duas sessões de ensaios para o pequeno papel que fiz de um preso político, no presídio Tiradentes, que divide a cela com os frades beneditinos. Ali, de cara, vi a seriedade do trabalho e me encantei com a maneira com que ele provocava e estimulava a imaginação dos atores para aquela situação limite de repressão e tortura, que era a recriação do clima de terror que viveu-se começo da década de setenta, no governo Médici. Foram duas sessões de ensaios: na primeira, trabalhava-se o quotidiano da prisão, as regras de convivência, as maneiras com que as pessoas buscavam se apoiar umas nas outras e, acima de tudo, sobreviver. A segunda era o encontro com os agentes da repressão que, sem que soubéssemos, apareciam no meio de um jogo proposto para o pátio da cadeia e aterrorizavam a todos,com humilhações, insultos e torturas. A entrega e a precisão com as regras do jogo estavam tão introjetados nos atores,, que eu confesso que tive um sentimento de mêdo e de desamparo infantis, durante toda a presença dos agentes do exército.
          Naquele momento aconteceram as primeiras sondagens de uma possível colaboração do Cine Horto e do Galpão com o trabalho desenvolvido pelo Sergio. O Chico, que também participou do filme, convidou-o para ministrar uma oficina que, na época acabou sendo inviável para a nossa participação, em vista dos compromissos de agenda do Galpão.Como as discussões internas do Galpão sempre traziam a possibilidade e a vontade coletiva de fazermos alguma experiência comum em cinema, acabamos por criar um projeto chamado cinema do ator, que consistiria na produção de uns quatro curtas de uns quatro a cinco minutos cada, onde pudéssemos investigar a produção de um filme a partir da criação do ator, independente de um roteiro préviamente fixado.O projeto havia sido estruturado a partir de discussões do Chico com o Sergio, e seria uma forma de ter um contato mais estreito com a proposta do seu método de trabalho, associado com a produção de um material. O ponto de partida foi formatar um projeto, e entrar em algum canal de financiamento, que desse as minimíssimas condições para que tocássemos o empreendimento. Acabamos contemplados na área de novos formatos do programa “Filme em Minas”, e com o dinheiro, sem ninguém receber nada, exceto o Sergio pela oficina e a parte técnica, partimos para a execução de quatro curtas.
          Aliás, cabe aqui abrir um breve parêntesis sobre a relação pitoresca e tumultuada que o Galpão como coletivo teve com alguns filmes. Nós costumávamos brincar que sempre que alguém nos chamava para fazer algo no cinema, ou aparecíamos como fantasmas ou sombras ( foi o caso de uma cena nossa com a Julia Gam em “Outras Histórias”) ou então nossas cenas eram simplesmente cortadas, como foi o caso de “O Viajante” do Sarraceni e ( ) do Rafael Conde. O grupo até que tentou convencer o Paulo José a dirigir algumas histórias curtas ou contos para o cinema, mas o Paulo sempre quis mesmo era fazer teatro, e no máximo filmar com muito esmero, nossas montagens. Ele nos dizia que tinha presenciado muito intensamente o sofrimento e a luta insana de grandes amigos para conseguir realizar um filme, e que ele estava se dispensando de ter de passar por isso.
É claro que individualmente as experiências aconteceram e continuam a acontecer, mas coletivamente, foi uma das primeiras propostas pensadas e executadas para serem desenvolvidas no seio do Galpão. Esperemos que seja a primeira de muitas.
          Mas, voltando ao encontro com o Sergio Penna, fizemos uma reunião prévia quando ficou combinado os traços gerais da oficina e foi tirada a tarefa de escolhermos os quatro diretores que seriam convidados. Todos teriam necessáriamente que topar entrar no projeto sem receber um tostão. Exatamente como os atores. Fizemos uma lista recheada de nomes e acabamos ficando com o Helvécio Marins da Teia, o André Amparo, que dirigiu com a Kika Lopes, o documentário do Galpão, o Rodrigo Campos, diretor de teatro e colaborador do Cine Horto e Cris Zago e Rodolfo Magalhães, que haviam dirigido comigo o “Tricoteios”. Além deles, Chico faria parceria com Rodrigo , e eu novamente dirigiria com a Cris e o Rodolfo. Algumas reuniões e encontros ainda levantaram questões como se os curtas teriam uma linha temática comum e qual seria. Acabou-se chegando à conclusão que seria impossível predeterminar qualquer coisa e que o melhor seria mesmo esperar pelo encontro com o Penna.
          A oficina foi programada para quatro dias e seu objetivo final seria o de levantar as cenas que viriam a formar o embrião dos futuros quatro curtas. No domingo à noite, fizemos uma reunião com os diretores, quando Penna explicou as diretrizes gerais do trabalho. Os diretores mostraram-se bastante receptivos à proposta de criar a partir de um material nascido de um jogo estabelecido pelos atores na oficina, e ficou combinado que na segunda e na terça, só os atores trabalhariam com o Sergio, e que, a partir de quarta e quinta, os diretores veriam o resultado e começariam a trabalhar, interferindo na proposta.

O PRIMEIRO ENCONTRO…

          Encontramos às duas e meia no Galpão. Falamos um pouco das expectativas, que não eram exageradas, como convem aliás a pessoas com mais de quarenta anos nas costas. A minha era e é que a oficina nos propicie um instrumental de trabalho para fazer produtos cinematográficos de baixo custo, e que nos possibilite a expressão através do cinema, seja de maneira pura, seja vinculado a algum projeto teatral. Baixo custo é uma palavra pouco usual no universo do cinema, mas enfim, tudo pode ser uma questão de instrumental e de criatividade.
          Feitas as introduções de praxe e a exposição das expectativas, Penna nos mostrou alguns trechos de “Bicho de sete cabeças” da Laís Bodanski, como uma ilustração de um cinema em que o trabalho dos atores está em primeiro plano em relação aos outros diversos componentes da estrutura cinematográfica. Ele exibiu a cena em que o personagem do Rodrigo Santoro tenta fugir do manicômio, e explica como a cena acabou sofrendo uma série de alterações do que estava previsto no roteiro em função da locação e da preparação desenvolvida junto aos atores. A transformação da utilização da camisa de força, indicada no roteiro para capturar o fugitivo, foi mostrado como um exemplo da necessidade de se trabalhar com o frescor do momento em função de que seria impossível usá-la da maneira tradicional, tendo em vista a contundência que a cena pedia. Outro exemplo mostrado foi a cena em que Othon Bastos( personagem do pai) e Rodrigo Santoro ( o filho) estão sentados no meio fio da rua, sem dizer uma palavra, olhando no vazio. É a cena final. Estão alí dois atores extremamente concentrados na pulsação interna e na respiração, mesmo atuando num ambiente extremamente disperso como a rua.
          Assistimos ainda alguns trechos de “Contra Todos” que, segundo Penna, foi um filme que colocou bem em prática os preceitos de um cinema do ator, feito pelo instante, quando a presença e a pulsação impressa pelos atores é o elemento central.Foi um filme em que todas as falas eram ditas sem serem decoradas no intuito de buscar sempre o máximo de frescor.

          Ainda tentamos assistir a um depoimento do Caio Blat falando sobre o processo de preparação do filme “Brother”( que ainda não foi lançado) feito também com preparação do Sergio Penna, mas fomos impedidos pela revolta da tecnologia – o DVD travava. No dia seguinte, conseguimos assistir, e foi bastante elucidativo, ver o processo de aquecimento do Caio antes de entrar em cena para fazer a cena da morte do personagem, um rapper do bairro do Capão, na periferia de São Paulo.

          Bom, partimos então para a prática. Os atores se aqueceram e se alongaram isolamente, e cada um foi buscando trabalhar movimentos variados em ritmo, intensidades, sempre procurando despertar a respiração. Criar uma pulsação, um estado de disposição do ator para o trabalho da cena a  partir da respiração.O primeiro momento foi absolutamente individual. Pouco a pouco foi proposto a busca do outro no espaço. No princípio, sem se tocar, só improvisando no espaço. A partir do toque, começaram a se formar grupos de dois e três atores. Como éramos dez, na sala, formaram-se dois grupos de dois ( Inês e Simone e Teuda e Toninho) e dois de três (Lydia, Paulo André e Chico e Fernanda, Arildo e eu).. As situações que surgiam eram bem pré-expressivas, no sentido que não tinham um sentido estabelecido, uma história. Por exemplo, a relação do meu grupo começou com um movimento da Fernanda sendo segurada por mim e pelo Arildo, com movimentos incessantes, que pareciam uma curra. Simone e Inês começaram deitadas no chão, pressionando as cabeças uma contra a outra. Paulo, Lydia e Chico começaram com um jogo de empurra-empurra, já Teuda e Toninho com uma relação (talvez mais cerebral) de uma corte amorosa.
Enquanto reagíamos aos mais distintos impulsos, Penna corria entre os grupos, acompanhado pelo bravo e intrépido Byron, nosso câmera, registrando tudo, enquanto nosso preparador pedia coisas como não deixar a respiração ir para a garganta. Quando a relação entre os atores parecia ter alcançado um grau de aquecimento favorável, ele nos indicava uma locação. Assim, o meu grupo foi para a cozinha do Galpão, Lydia, Chico e Paulo foram para a rua, Simone e Inês ficaram no Galpão, mas se imaginaram numa casa com quarto, sala e corredor.

          Foi muito interessante perceber os momentos em que se a relação parecia cair numa esfera muito abstrata, imediatamente Penna começava a pedir aos atores que se imbuíssem do quotidiano, se relacionassem com o ambiente com ações concretas, como tocar num poste ou beber um copo d`água. E como a quotidianeidade criava um jogo expressivo mais efetivo com a câmera, com o cinema.

         Depois de horas desenvolvendo minimamente esses jogos entre os atores, fizemos uma reunião de avaliação para saber se o material era de agrado de todos e definir se os grupos de atores poderia ficar assim definido. Exceto pelo trabalho de Teuda e Toninho, que ficou para ser revisto no dia seguinte, os grupos foram fechados e combinamos de desenvolver novas improvisações, agora inseridas nas locações. Nosso grupo se decidiu pela cozinha da casa da nossa vizinha, a Lidia e o Navarro, o grupo da nossa Lydia escolheu uma esquina  atrás do Galpão; Inês e Simone foram para o barracão de Gérman e Gyu, nossos vizinhos e atores da cia Malarrumada e o grupo Teuda-Toninho ficou de refazer uma proposta de jogo para o dia seguinte.

DIA SEGUINTE…

Começamos o trabalho com o jogo entre Toninho e Teuda. A improvisação começa com os dois tentando se encontrar e todos os outros atores evitando que eles conseguissem se tocar.A partir do momento em que Penna acredita que se chegou a um estado de pulsação e de respiração conveniente, ele pede que os dois se dirijam para a padaria em frente ao Cine Horto. Eles vão separados e quando se encontram na padaria, estabelece-se um diálogo sobre o sentido da vida e as perspectivas do futuro.É curioso perceber como o diálogo se apresenta de maneira natural, sem nenhum resquício de teatralidade.Os dois em seguida se dirigem de volta para o Galpão. Penna levanta a possibilidade de ser um casal que se encontra na padaria, fala de banalidades e do sentido da vida e, no final, a mulher pergunta se ele não vai pagar a pensão dos meninos.Seria um desfecho surpreendente para uma situação absolutamente banal.
O segundo grupo a mergulhar no improviso é o da cozinha( Fernanda, Arildo e eu). Fazemos uma improvisação de mais de quarenta minutos em que três pessoas estão numa cozinha, num estado de respiração alterado. Alguma coisa aconteceu, mas não se sabe oque. A situação é tensa. Os três parecem a ponto de se agredir. Até que num determinado momento, eles se abraçam e se precipitam num choro. O clima é mais uma vez quebrado, e a mulher começa a fazer um café. Ele é servido, fala-se algumas banalidades. A mulher resolve ir em embora, vai até à varanda, mas permanece sentada por alí. Os dois homens vão até ela, abraçam-na de novo. Eles voltam para a cozinha, a porta se fecha e termina-se o jogo. A avaliação final é de que tivemos bons momentos. Falta um pouco de poder de síntese.Discutimos bastante sobre a conveniência ou não de definir quem são aquelas pessoas e que tipo de relação existe entre elas. Fica temporáriamente decidido que vamos deixar em aberto, o que favoreceria um certo mistério sobre o que estaria por trás daquela cena.
Em seguida, é a vez de Inês e Simone desenvolverem a relação das duas. Em uma série de ações, elas desenvolvem o que parece ser um casal num processo de separação, que está sempre entre o desejo de ficar e de partir.
O dia termina com a improvisação do grupo da rua. No primeiro dia, eles parecem ter ficado muito à mercê do jogo de empurra-empurra do aquecimento. A situação ganha novos contornos quando Paulo André entra agredindo Lydia , o que faz com que Chico procure protegê-la. Enquanto as outras situações sugerem uma tensão latente, essa nova cena cai num explosão quase sem controle.
Fica acertado que o dia seguinte será reservado para o encontro com os diretores.As cenas são sorteadas entre os diretores, o que preserva o espírito de acaso do processo. Por questão de agenda, fica decidido que no primeiro dia trabalharão o meu grupo da cozinha, que será dirigido por Rodrigo Campos e o Chico, e o grupo explosivo da rua , que será dirigido pela Cris Zago, Rodolfo Magalhães e eu.

TERCEIRO DIA…

O trabalho recomeça com os diretores e os atores assistindo ao material que foi coletado no dia anterior. Rodrigo Campos aponta alguns problemas como uma certa repetição massante de algumas situações e uma indefinição nas relações que parece enfraquecer a trama.A verdade é que estamos sempre sujeitos à tentação de criar uma história. É quase inevitável que o olhar de quem assiste busque um significado. Mas resistimos bravamente, e decidimos manter um jogo de pulsações sem nenhuma definição, a não ser o fato de sermos tês pessoas ( uma mulher e dois homens) numa cozinha. Alguns objetos são introduzidos como utensílios de cozinha, um liquidificador, pão, manteiga, queijo,etc. A improvisação é registrada com duas câmeras conduzidas por Byron e Rodrigo.
Não sabemos exatamante quem somos nem o que fazemos alí. Estamos o tempo todo reagindo a impulsos e estímulos. A nova improvisação traz mais o elemento verbal. Temos uma certa dificuldade com a presença de dois câmeras e um técnico de som (o velho e querido Jorjão) que deixam o exíguo espaço da cozinha quase intransitável.Terminada a sessão, ficamos de reavaliar o material colhida e fazer uma novo improviso melhor planejado para o mês de agosto.
É chegada a hora do segundo grupo. Saio da posição de ator e vou para a direção junto com a Cris e o Rodolfo.O primeiro passo é ver o material, que nos surpreende pela qualidade e a dramaticidade apresentadas. A conclusão é que não falta muito para termos um material bruto que nos propicie uma bela edição. A situação é dramática, com uma luz precária que é bem condizente com a situação vivida pelos personagens. Salta aos olhos alguns momentos de forte intensidade interior dos atores.Nós diretores damos uma estudada na locação, e sugerimos algumas pequenas mudanças como por exemplo, o lugar em que o Paulo agride a Lydia. Propomos também um olhar da camera do alto de um prédio, o que faz com que a cena tenha que ser repetida sem as presenças do camera e do boom do som. A impressão que temos hoje é de que o material colhido já é suficiente.

QUARTO DIA…

O material desenvolvido por Teuda e Toninho é visto pelo Helvécio Marins e Inês e Simone vêem o resultado do seu improviso com Andre Amparo. Chego no meio da filmagem da cena e ainda pego o momento em que Toninho entra num ônibus e segue junto com Byron e o técnico de som ( desta vez o Lagartixa). O mais impressionante é que, vendo depois as cenas, salta aos olhos como os passageiros do ônibus se comportam com a maior naturalidade,como os mais perfeitos figurantes de um filme profissional.
Não acompanhei o resto das filmagens para não atrapalhar as respectivas equipes, que filmam em locais pequenos e absolutamente improvisados.Mas fico sabendo pelos colegas que todo o processo correu de maneira bastante proveitosa.
No dia seguinte, fazemos uma última avaliação, e o resultado nos pareceu tão estimulante, que agora não é apenas os quatro curtas de cinco minutos que estão sendo pensandos. Colocamos no rol de possibiliaddes também um documentário que mostre todo o processo de concepção das cenas a partir dessa idéia de cinema instantâneo e do ator até a montagem final, e também um outro documentário que mostraria atores do Galpão andando nas ruas da cidade de Belo Horizonte e relatando fatos da vida do grupo relacionados àquele lugar. A idéia surgiu do Sergio Penna, quando viu o material captado a partir do trabalho de Teuda e Toninho.Especificamente o momento em que eles sobem a rua Pitangui e falam naturalmente do passar do tempo e sua inexorável ação.

         Resta agora guardar o material por um tempo e revisitá-lo com um olhar mais distanciado.Acho que a cena que me cabe participar da direção nos permitiria pelo menos duas edições diferentes e complementares. Uma que privilegiasse o material mais bruto, produzido no momento da emoção dos atores e uma segunda edição que caminhasse mais no sentido de reelaboração através do olhar externo e mais distante de um diretor, que cria outros e novos significados.
Bom, outros capítulos ainda estão por vir.

Deixe um comentário