->25 anos de encontros 7: o ator-diretor Cacá Carvalho

Uma das boas guinadas de percurso na trajetória do Galpão foi a criação do espetáculo “Partido”, em 1999 , que teve a direção de Cacá Carvalho.Sem dúvida uma lista  dos vinte e cinco encontros mais marcantes da carreira do grupo certamente contaria com a presença do Cacá. Na época, vinhamos da montagem de ” Um Molière Imaginário”, que tinha sido um momento de retomada das rédeas de condução do trabalho artístico do Galpão pelo próprio grupo, o que foi importante, mas, ao mesmo tempo, extremamente desgastante e cheio de pressões pela necessidade de dar uma virada na linguagem do grupo ( depois de dois sucessos retumbantes como “Romeu e Julieta” e “A Rua da Amargura, dirigidos pelo Gabriel Villela)e manter o padrão de aceitação por parte do público que o Galpão havia alcançado. A verdade é que estávamos um pouco cansados, sentindo o nosso trabalho de atores meio desgastado por uma prática que se repetia e não nos satisfazia completamente.A característica camaleônica do Galpão gritava e era preciso dar o pulo do gato. Foi quando Toninho e eu vimos um anúncio de uma oficina que seria ministrada pelo Cacá Carvalho no Centro Cultural da UFMG. As informações eram meio truncadas e só conseguimos ser aceitos na última hora. A oficina tinha como pré-requisito a leitura de “A Peste” do escritor francês Albert Camus, o que foi feito às pressas. Nossa admiração pelo trabalho de ator do Cacá vem de longe. Precisamente do ano de 1979, quando assisti, no Cine-teatro de Ouro Preto, uma apresentação de ” Macunaíma” do Mario de Andrade, dirigida pelo Antunes Filho e que tinha no papel principal o Cacá. O espetáculo foi uma espécie de reviravolta no marasmo do teatro brasileiro, atolado em monólogos comerciais e na dispersão geral, reflexo dos anos de chumbo da censura e da ditadura militar. O trabalho causou em todos nós uma espécie de deslumbramento e víamos ali uma nova maneira de encarar o fazer teatral e a encenação. Ainda chegamos a ver o Cacá em cena mais duas outras ocasiões, ambas em monólogos: ” 25 homens” e a impressionante encenação de um homem transformado em onça que ele fazia em ” Meu tio Iauaretê”.do Guimarães Rosa. Talvez pressionado por questões financeiras,ou  inconformado com a pressão da insuportalidade da convivência humana, o fato é que o Cacá passou a ser um ator essencialmente monologal. O que era chato, mas não impedia de forma alguma que ele mostrasse seu histrionismo e sua excelência de ator. A oficina foi um primeiro contato com o estilo de trabalho do Cacá e era baseada na construção de uma série de ações físicas que misturavam a visita a uma “casa” ancestral tendo como pano de fundo a peste na cidade. Como em outros trabalhos, havia uma mescla entre algo intrinsecamente pessoal com o unverso de uma obra, no caso a peste de Camus. Passada a oficina, seguimos com nossa rotina de intermináveis reuniões para discutir qual seria o melhor caminho para uma próxima montagem. Como a unanimidade, além de burra, é impossível num grupo de treze atores, uma maioria achou que o momento exigia um trabalho que nos permitisse um mergulho maior numa vivência  da criação do ator. E que o melhor nome para encaminhar um trabalho desse tipo era o Cacá Carvalho.Ainda teríamos um novo encontro com o Cacá na participação do filme “Primeiras Histórias”, dirigido pelo Pedro Bial e que tinha o trabalho de ator desenvolvido pelo Cacá. Lembro-me que tivemos um dia de ensaio no Galpão com a Giulia Gam. Tratava-se da cena de um pesadelo da sua personagem em que apareciam criaturas fantasmagóricas, que eram interpretados pelo pessoal do Galpão.Foi mais uma participação desastrada nossa no cinema nacional. No resultado final, apareciam apenas sombras no escuro que assustavam a moça que produzia farinha. Depois de uma série de entendimentos e adaptações de agendas, começamos o trabalho.O momento não era dos mais propícios, uma vez que o Cacá estava impossibilitado de recusar uma proposta da TV Globo para fazer uma novela.Era a época em que o Jamanta estava na boca do povo. Como era impossível que o Cacá ficasse direto em Belo Horizonte, ficou acordado que faríamos trabalhos para serem apresentados para ele numa média de quinze em quinze dias e que esses trabalhos seriam uma maneira dele conhecer nossa forma de trabalhar e também de nós conhecermos sua forma de dirigir.

 O tema proposto foi o romance “O Cavaleiro Inexistente” do escritor italiano Italo Calvino.Nada fácil porque tratava-se da história de um cavaleiro que simplesmente não existia, era só uma armadura e que lutava nas cruzadas. O romance fazia parte de uma trilogia, em que Calvino revisitava os nossos antepassados. Os primeiros workshops não foram muito a contento e levamos um tempo para entender o que o Cacá queria de nós.Aos poucos, fomos compreendendo seu processo de trabalho, que consistia num incansável garimpagem de ações físicas associada a uma imersão num universo pessoal de cada um. A sequência de trabalhos fez com que nos conhecêssemos melhor e que mudássemos o romance do Calvino a ser encenado. Ao invés do “Cavaleiro Inexistente”, mergulhamos de cabeça no ” Visconde partido ao meio”, que contava as desventuras de um cavaleiro que parte para as mesmas cruzadas e acaba levando um balaço de canhão e se vê partido ao meio, sendo que uma metade é boa e a outra má. O romance narra a volta das duas metades do visconde à sua cidade natal e as transformações causadas por esta volta nas diferentes comunidades do lugar como a família do visconde, os huguenotes, os leprosos e os camponeses. O tema que interessava a Cacá era o do homem partido, o homem que já não se reconhece como algo inteiro. A presença do objeto livro também era bastante marcante e pontuava bem claramente a transposição de uma narrativa literária para outra dramática. O cenário do Marcinho era um dos pontos altos, com as páginas escritas que trançavam pelo palco, como as páginas viradas de um livro. Outro elemento fundamental eram as malas trazidas pelos personagens, que eram verdadeiros nichos em que cada ator trazia para a cena sua própria ascendência, com fotos e objetos dos antepassados e que constituíam numa espécie de tesouro e fardo pessoal que cada um carregava durante todo o espetáculo.Entre as várias cenas criadas, a maior dor de cabeça ficou por conta de traduzir cênicamente um homem partido ao meio. Vários recursos foram tentados desde de próteses de gesso, a utilização de dois conhecidos  gêmeos, um triciclo com um elmo, visitas a um circo e seu mágico argentino e sabe-se lá Deus o que mais. Depois de já estarmos quase perdendo as esperanças, Cacá achou a chave do código do espetáculo. Na verdade o único que seria inteiro na história, além do menino que é o narrador, seria o próprio Visconde, isso porque ele era o único que se reconhecia partido. A contrapartida para esta solução foi fazer todos os outros personagens partidos, o que ficou convencionado pela divisão do corpo de todos os atores em lado direito com um personagem e o esquerdo com um outro. Para que o truque funcionasse, Mona Magalhães, nossa maquiadora e visagista, teve um bruto trabalho, dividindo o rosto dos atores ao meio e utilizando os mais diversos recursos como meia perucas, meio bigodes e pedaços de próteses, que visavam sempre diferenciar ao máximo um lado do outro. Também os figurinos de Marcinho Medina foram todos partidos ao meio, com um lado servindo de vestimenta para um personagem e o outro para um outro diferente.Não nos restava outra solução senão representar o tempo todo de perfil, falando com a bôca direcionada para as coxias a fim de que o jogo desse resultado. Como não poderia deixar de ser, “Partido” foi um espetáculo que dividiu opiniões, com alguns amando de paixão e, por outro lado, fazendo com que um bom grupo de pessoas do nosso público ficasse ainda mais morrendo de saudades de “Romeu e Julieta” e “A Rua da Amargura”.   Acho que a experiência com o Cacá fez com que perdêssemos um pouco da nossa ingenuidade teatral. Ele, de certa forma, nos ensinou que nada mais existe no teatro além de nós mesmos. Nossa experiência de vida, nossas vivências.O personagem não passa de uma folha de papel e,o que dá vida a ele somos nós mesmos através de um trabalho insano. Ao final do período de ensaios, alguns queriam passar um bom tempo sem ouvir as expressões “garimpar ações físicas” ou “imersão no pessoal”.Exagero. Cacá nos provou que o teatro é feito sempre de coisas concretas e que não adianta “interpretar” coisas como a bondade, é preciso concretizar a bondade a partir de uma ação.Como toda a experiência de valor, a ficha demorou algum tempo para cair e, vendo a montagem com os dias de hoje, acho que o “Partido” nos ajudou a ser mais simples nas coisas, a querer interpretar menos e ser mais.A própria dramaturgia, muitas vezes confusa e cheia de metalinguagens obscuras, poderia ter sido melhor apropriada pelos atores, o que foi acontecendo com o passar do tempo e com as apresentações. A retomada do trabalho em 2002, para a comemoração dos vinte anos do Galpão,já nos permitiu um entendimento maior. Foi uma pena o “Partido” não ter vivido mais tempo o que, certamente, nos teria permitido um olhar mais distanciado,apurado e crítico, de todo o material levantado.Infelizmente a estrutura de montagem, excessivamente complicada, foi fatal e incompatível para um grupo de atores que tem  como forma de ganha pão a circulação permanente do trabalho, o que definitivamente não possibilitou que o espetáculo tivesse continuidade.Mas ficou a experiência de um encontro com uma criatura que pensa o teatro de maneira radical e sem concessões.Cacá nos ajudou a desconfiar das emoções e a ruir com uma certa idealização romântica do mundo do teatro.   

3 Respostas para “25 anos de encontros 7: o ator-diretor Cacá Carvalho”

  1. Eduardo,
    nosso encontro com o Caca foi de fato marcante. Acho que foi decisivo e vejo que muito do que fizemos depois trouxe a marca desse encontro.
    O filme do Bial se chama Outras Estórias (e não Primeiras Histórias) e também tem papel importante na nossa trajetória. Durante a minha participação no filme, na eterna espera que o cinema nos obriga, eu conheci a Kika que queria fazer um documentário sobre os nossos 15 anos. Foi ali que Paulo José, que também fazia o filme, começou a se interessar e aproximar mais do grupo. E vendo o Caca trabalhar com os atores do filme me encantei pelo seu jeito de olhar para a interpretação. Lembro de contar esse processo pro grupo e de sentir como estávamos todos a procura disso.
    Foi um encontro bonito.
    A trilha sonora toda à capela … Caca Brandão nas letras e Ernani arrasando nos arranjos. Uma jóia. Foi também a primeira peça que tentamos fazer toda em outro idioma e eu não saberia dizer que língua virou aquela…rsrsrsrs
    A peça não ficou muito tempo em cartaz é verdade. Estávamos acostumados a manter as peças muitos anos no repertório e depois do Partido alguns espetáculos começaram a ter vidas mais curtas.
    Não sei se isso é bom ou ruim…
    O Partido nos lançou novas perguntas!

    grande abraço
    rodolfo
    * nossos cenários não diminuíram, nem nossa força!!!

  2. Escrevam mais, por favor.

  3. Eu assisti “Partido” duas vezes. Uma, foi na estréia em São Paulo, no SESC Pompéia. Fiquei.. chocado. Foi um choque aquilo. Era bonito, mas distante para mim. Depois aprendi a ver melhor as coisas… A segunda foi quando vocês apresentaram várias peças no Sergio CArdoso… Bem, só posso dizer que chorei. Chorei a beça. Puta espetáculo lindo!

    Para mim é estranho, acompanho Galpão desde 92. E para mim vocês são tão próximos.. eu falo de vocês como falo de um primo. Discuto, faço fofoca, hehehehe

    Engraçado, a minha camiseta do “Partido” manchou ontem. estava inteirinha até então. PEna.

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