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Caminhar pelas ruas de Santiago é voltar a uma certa cordialidade e uma noção do tempo que parece meio desaparecida ou extinta no Brasil. Não existem restaurantes self-services. Aqui se cultiva o costume europeu de estar um bom tempo à mesa. Muitas lojas fecham para a “siesta”, um período de descanso depois do almoço. Os carros param nas esquinas sempre que o sinal para os pedestres está aberto. O mundo não está tão neuroticamente apressado.

Fomos assistir ao belo espetáculo “Buchettino”, uma co-produção de um grupo chileno com o grupo italiano Socirtá Rafaello Sanzio, que é um dos principais centros teatrais de pesquisa na Europa. O trabalho é estrelado pela Maria Izquierdo, que é uma atriz conhecidíssima no Chile, especialmente pelo seu trabalho na TV. No espetáculo, os espectadores são convidados a entrar numa sala escura, cheia de camas, enquanto Maria conta a estória do Pequeno Polegar e todos são convidados a voltar à infância e a sonhar. Outro espetáculo que ainda foi possível de ser visto foi o “El hombre que dava de beber a las mariposas”, uma criação que funde teatro e cinema, feita por uma parte do antigo grupo chileno “La Tropa”, que acabou se dividindo em dois núcleos. Apesar dos belos efeitos que fundem o cinema com a linguagem do teatro, o espetáculo decepciona, especialmente pelo roteiro, muito confuso e fraco.

Fizemos mais dois espetáculos em áreas distantes e para públicos pouco acostumados ao teatro. O primeiro foi numa comuna ao sul de Santiago chamada Las Cisternas e o segundo na cidade de Melipilla, distante uma hora e meia da capital. Em Las Cisternas encontramos com um público vibrante e com muitos brasileiros e brasileiras casados com chilenos e vivendo no país. Já em Melipilla, uma organização que nos premiou com um dos melhores lanches da história dos camarins já vividos pelo Galpão. Em Las Cisternas, o encontro emocionante com Margarita e Fresia, sua mãe, que assistiram encantadas ao espetáculo e fizeram questão de tocar e sentir cada um dos figurinos e objetos de cena do espetáculo. Margarita é cega de nascença e ficou comovida com o espetáculo. Mais interessante era ouvir Fresia, sua mãe, contando a peça em seus ínfimos detalhes, à filha. Em Melipilla, recebemos faixas e livros sobre a história da cidade por uma comitiva do poder local, que fez questão de subir ao palco no final do espetáculo, atrasando nosso anúncio da boutique e a passagem do chapéu, aqui chamado de “gorra”. Aliás o anúncio final da passagem do chapéu, por sugestão dos técnicos que nos acompanham e que já fizeram muito teatro de calle com o “Teatro del Silencio” ficou assim : ” E como es tradición en el teatro callejero, donde no se paga en la entrada per sí en la salida, vamos passar la gorra”. O a núncio é um sucesso estrondoso.

Impossível não se emocionar com a reação calorosa e cheia de carinho do público chileno com o espetáculo. As pessoas reagem de maneira sentimental como não tínhamos visto no Brasil. Só para dar um exemplo, na hora em que o padre entrega um osso para ser comido por Till, o público em uníssono, suspira de piedade do nosso herói sem caráter. É uma reação tão precisa que parece que foi ensaiada.

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