->O reencontro com Gabriel Villela

O reencontro com o Gabriel Villela
Depois de quase dez anos, voltamos a tocar em “Romeu e Julieta”, a peça que é a mais conhecida montagem do Galpão. Suas últimas apresentações aconteceram em janeiro de 2003, no grande teatro do palácio das Artes, em Belo Horizonte.
Confesso que estava com muito mêdo, principalmente do desgaste físico ocasionado por um espetáculo que foi criado quando eu tinha 31 anos e que me exige um enorme esforço de trabalho, no papel de um Romeu aéreo, que anda o tempo todo em pernas-de-pau e não para um só minuto entre muitas cenas. São nesses momentos que nos lembramos da cruel passagem do tempo. Refazer o percurso do mesmo personagem com vinte anos a mais nas costas não me parece uma tarefa fácil e sim bastante arriscada. E se o meu Romeu se tornasse uma espécie de caricatura daquele criado na década de noventa? A preocupação ganhava contornos quase dramáticos quando eu pensava que não tinha mais andado de pernas-de-pau desde março de 2006, depois de ter sofrido uma violenta torção no joelho direito, durante a última apresentação do espetáculo “Um homem é um homem” de Brecht, no festival de Curitiba. O acidente me fez passar a fazer o papel do soldado Uria Shelley numa cadeira de rodas. De um soldado em pernas-de-pau passei a fazer um soldado que era uma espécie de mutilado de guerra. A mudança funcionou muito bem para o enredo da peça, mas o temor de ter de voltar a trajar pernas-de-pau se manteve.
As comemorações dos 30 anos do Galpão e o convite para a nossa versão de “Romeu e Julieta” participar do projeto “Globe to Globe” do Shakespeare´s Globe Theater no âmbito das Olimpíadas de Londres, foram a gota d´água para decidirmos remontar o espetáculo. O projeto do Globe contemplará a montagem das 37 peças escritas por Shakespeare com montagens de todas as partes do mundo. Por uma exigência unanime dos funcionários do Globe, a versão de “Romeu e Julieta” teria de ser necessariamente a do Galpão, do Brasil. É a única das 37 versões que será apresentada pela segunda vez no teatro.
Arregaçamos as mangas e começamos a retomar o texto e a música do espetáculo. Conduzidos pelo Arildo, o assistente do Gabriel, a Babaya, preparadora vocal e o Fernando Muzzi, arranjador das músicas, começamos a levantar o material do espetáculo. Durante duas semanas, retomamos os arranjos instrumentais, o jogo das cenas, os timbres das vozes, as intenções e algumas marcações de cena. Tudo isso, para esperarmos a chegada do Gabriel Villela com um material já suficientemente preparado a ser reelaborado pelas suas mãos.

Foi quando chegou Gabriel. De imediato nos conduziu num trabalho de mesa que, milagrosamente, nos trazia de volta a atmosfera precipitada e plena de energia da montagem original. Conduzidos pelas mãos do diretor, fomos pouco a pouco recuperando o espírito da montagem em que a tragédia dos amantes de Verona é contada como uma brincadeira mambembe em que o jogo dos atores faz um tributo `a  alegria e deslumbramento do teatro popular. Atendo-se menos `a construção das cenas e mais `a retomada do “pathos” original dos personagens e das situações da peça, o diretor nos colocou encima de uma trave a quase dois metros do chão, para cantar músicas e dizer textos. Era a chave para que o espírito do risco da precipitação e da queda iminente se concretizasse plenamente nos corpos e nas vozes dos atores. A memória era reativada pelos corpos colocados em situação de perigo e o espírito da peça aflorava como uma espécie de milagre operado pelas mãos mágicas do nosso diretor. Com sucessivos trabalhos vocais, conduzidos pela Babaya e a Francesca dela Mona, as vozes dos atores retomavam o tônus vigoroso exigido pela vertigem do enredo da peça.

Nessas quase duas semanas de intenso trabalho, sentimos como se um milagre fosse operado e o espírito da poesia do Bardo brotasse através de nossos corpos. Como se algo adormecido durante quase dez anos, voltasse `a tona de maneira transbordante e visceral. Os adjetivos podem soar grandiloquentes e vazios, mas foi, sem sombra de dúvidas, um momento de força teatral que vamos carregar sempre conosco. O temor de remontar “Romeu e Julieta” vinte anos depois de sua estreia simplesmente desapareceu. Em seu lugar, brotou um grande prazer pela chance que o destino nos deu de sermos atores. Valeu Gabriel!

10 Respostas para “O reencontro com Gabriel Villela”

  1. Lindo texto, Eduardo.
    Nos coloca como espectadores de toda a emoção que estão vivendo.
    E, que bom, a volta de Romeu e Julieta, tão significativa em nosa vidas.
    Na torcida fiel, sempre.

  2. Nós, aqui no Brasil, poderemos (re)ver? É o espetáculo mais lindo que assisti na vida. 🙂

  3. Mais uma vez emocionado com o relato desse grande do nosso teatro. Obrigado Eduardo!!!

  4. LINDO EDUARDO. QUANDO CANSADA SENTEI E IA RECLAMAR, OLHEI E VI CADA UM NUM CANTO COM
    UMA DE SUAS POSSIVEIS DIFICULDADES. E TINHA MUITAS QUE SO APARECERAM QUANDO FIZEMOS AS CENAS.
    ACABOU O MEDO.

  5. Que notícia boa! Longa vida, vida longa!!!
    Abraços,
    Adeilton Lima
    Brasília

  6. Para você ver, Eduardo, o que o teatro faz…
    Assisti a Romeu e Julieta em Salvador, 2002, numa sucessão de felizes circunstâncias que me levaram duas noites seguidas à praça. Quando soube que a peça seria remontada, nem me passou pela cabeça que os atores estariam 10 (ou 20) anos mais velhos. Para a platéia, vocês são eternos. Estou esperando Romeu e Julieta estacionar a veraneio nas praças de Florianópolis neste ano. Obrigada pelo texto!

  7. Queridos, que emoção…
    como ator, como aprendiz de diretor e, principalmente, como amigo, fico muito feliz de ver vocês correndo esse risco… vai ficar muito lindo.
    Estou de olho em vocês… como sempre.
    abraço forte em cada um em cima dessa trave
    Marco

  8. Parabéns…

  9. hahaha que interessante, acabo de comentar no último post, e vim andando para trás lendo os posts antigos. Que coisa engraçada, a questão da passagem do tempo não teve efeito negativo nenhum nos espetáculos de ontem e anteontem, pelo menos quem estava assistindo… Ao contrário, como o espetáculo e os atores são queridos de muitos anos, foi legal reencontrá-los e até surpreendente como todo mundo estava novinho em folha! Digo que foi até mais bonito.

  10. Querido Gabriel, eu também sou de Carmo do Rio Claro, primo Imaculada Cardoso -moro em Botafogo RJ, e admiro
    muito o seu trabalho . Grato.

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