->A epifania ou como o teatro superou o futebol

Finalmente estreamos nosso “Gigantes da montanha”. O cenário não poderia ter sido mais apropriado – a praça do Papa, diante da magnífica serra do Curral, no bairro das Mangabeiras, de onde se descortina uma bela vista da cidade ao fundo do nosso cenário. O lugar já se transformou num teatro ao ar livre permanente do Galpão. Foi lá que o grupo estreou a primeira e a segunda versões de “Romeu e Julieta” , as montagens de “Um Moliere imaginário” e “Till, a saga de um herói torto”. A praça foi também palco de nossas comemorações de vinte, vinte e cinco e trinta anos em BHZ . É triste e lamentável pensar que a mineradora MBR transformou aquele magnífico cenário num outdoor de montanha. Nosso único consolo é que fizemos o espetáculo de frente para a parte que ainda ficou de pé. E o cenário ainda é imponente, configurando-se uma verdadeira ágora grega.
O espetáculo foi abençoado por São Pedro, que nos deu uma providencial trégua aos quarenta e dois minutos do segundo tempo. Choveu na quinta, dia trinta, até quase `as 17 horas. O tempo só firmou mesmo nessas três horas antes do espetáculo, mantendo-se firme na sexta,sábado e domingo. Foram noites esplêndidas, com um agradável frio de outono, que nos fazia lembrar dos tempos em que Belo Horizonte ainda desfrutava de um clima frio e suas ruas tinham mais casas e menos asfalto e tantos automóveis. Na segunda voltou a chover forte na cidade.
Foi muito emocionante ver a praça apinhada de gente acompanhando, em silêncio atento e respeitoso, os oitenta minutos da peça. Sem dúvida, os encontros do Galpão com o público da cidade já se tornaram um acontecimento único nas artes cênicas mundiais. Em que outro lugar do mundo um grupo de teatro consegue reunir em quatro dias um público assim tão numeroso? Só para se ter uma ideia: uma peça apresentada no palco, com uma media de 250 espectadores por função, teria que fazer cem espetáculos para atingir aproximadamente essa marca de público. E tudo isso transcorreu sem nenhum incidente ou briga, nenhuma notificação policial. A única manifestação de desagravo se deu quando uma parcela do público que havia chegado quase duas horas antes do espetáculo e estava sentada no alto das escadarias, viu sua visão tampada por retardatários que se recusavam a se sentar.
Protegidos pelos santos e alojados nessa bela paisagem, recebemos com nossos Gigantes um público estimado entre 20.000 ( estimativas da polícia militar) e 26.000 ( estimativa dos organizadores). Um acontecimento que mexeu com a vida da cidade. A capa do jornal “O Estado de Minas” do dia 30 de maio foi mais uma prova disso. O Galpão e sua estreia ocupavam mais da metade do espaço da primeira pagina, superando de longe o espaço reservado a um jogo de futebol do representante mineiro e único ainda nacional na Copa das Libertadores da América, acontecido no mesmo dia.
E a recepção do público superou em muito nossas expectativas. As pessoas estavam vidradas ao final, exaltando principalmente o visual do cenário, dos figurinos, a direção e o trabalho dos atores. Muitos vivas foram dados `a nova parceria do grupo com a estética arrebatadora de Gabriel Villela.
Francesca della Monica, nossa fada/bruxa italiana, que durante esses meses de ensaio expandiu nossa vozes pelo espaço e nos contagiou ainda mais de Pirandello com sua paixão pelo autor siciliano e seus Gigantes, comemorava, extasiada, essa verdadeira epifania teatral nascida do encontro das palavras mágicas de Pirandello com o encantamento da encenação de Gabriel e a dedicação de nosotros, atores do Galpão. No dia seguinte `a estreia de quinta-feira, falávamos da satisfação que Pirandello teria sentido em assistir seu teatro e sua poesia reverberando intensamente para mais de cinco mil pessoas numa praça pública.
Momentos como esse, com toda a certeza, reafirmam a força avassaladora advinda do encontro entre o público e os atores no teatro e reacendem a esperança numa sociedade capaz de se integrar, se reunir, compartilhar sonhos e buscar soluções coletivas. Como na utopia defendida por Zé Celso Martinez de que o teatro voltasse a emergir como uma força coletiva comparável nos dias de hoje ao espetáculo do futebol, como acontecia nos tempos dos festivais de teatro da Pólis grega. A estreia dos “Gigantes ” na praça do Papa fica na nossa memória como mais um desses momentos mágicos de comunhão do teatro com o público tão pródigo na história de mais de trinta anos do Galpão. Momento febril, habitado por pirilampos encantados que logo se desaparecem na poeira do instante. Quem viu, viu. Quem não viu…

 

6 Respostas para “A epifania ou como o teatro superou o futebol”

  1. Adoraria estar aí! Pena que não pude ver isso…:(
    Deve ter sido incrível mesmo!
    Parabéns!
    bjs
    Paula

  2. Realmente fantástico! Parabéns a todos do Galpão! Por este espetáculo, meus dias, com certeza serão melhores!

  3. Muito lindo o espetáculo!
    O Grupo Galpão mais uma vez mostra porque é um dos mais importantes cias de teatro do país.
    Parabéns a toda produção!

    Abs,
    Maurício

  4. Parabéns Eduardo! Deve ter sido emocionante mesmo. Eu não pude ir desta vez, pois moro em SP, mas assisti muitas vezes ao Galpão em praça pública e é sem dúvida o seu melhor palco (praça da Liberdade, da Assembleia, UFMG, Diamantina e no ano passado Romeu e Julieta em São Paulo no Parque da Independência).

    Espero vocês em SP, irei com certeza viver essa experiência com vocês!
    beijos com saudades
    Monica

  5. De fato, a superação ao futebol é impressionante! Imagine, que ontem, no parque, muitas pessoas reunidas e nenhum (digo, nenhum) incidente, exceto a menininha, que se perdeu e foi encontrada pela mãe! Vocês estão de parabéns! O repertório desta peça é maravilhoso, o texto (desta e de outras) magnífico e apaixonante! De uma sensibilidade única e para poucos! A “invenção das verdades”, o “habitar num mundo dos impossíveis” e a magia entre o real e o imaginário (que por vezes me pregava peças!) só nos aperfeiçoa para cada espetáculo novo! É assim comigo: a cada espetáculo, me sinto mais preparada para compreender os textos, o cenário e o teatro!
    Parabéns a todos!

  6. Que maravilha!!!!

    Uberlândia aguarda ansiosa…..

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