->A polêmica das biografias e o direito de se adaptar para o teatro certas obras

Pegando carona na polêmica sobre o direito de se fazer biografias não oficiais, fico pensando sobre a questão com que, muitas vezes, nos defrontamos no teatro, sobre o direito de fazer releituras, obras inspiradas e adaptações de determinadas peças, romances ou contos. A utilização de determinadas traduções também costuma causar certas celeumas, uma vez que os tradutores muitas vezes esquecem de que o teatro foi feito para ser falado mais do que ser um gênero meramente literário.

Na controvérsia entre direito `a privacidade e liberdade de expressão, não há como não optar pela segunda. Tem muita gente séria tentando escarafunchar a vida e a história de personalidades importantes do Brasil e me parece um descalabro que não possamos ter acesso a esse precioso material, simplesmente porque determinadas pessoas ou famílias se sintam devassadas em sua privacidade ou na imagem idealizada que erigiram para si mesmos ou para os seus próximos. Assim é se lhe parece, como diria o nosso Pirandello. E o mais trágico de tudo isso é que tenhamos que acreditar numa única identidade, quando somos tantos. Um,nenhum,cem mil.

As inúmeras discussões sobre a possibilidade de veto a biografias de determinadas personalidades e a preservação apenas de relatos assumidamente chapa-branca, me levou a pensar sobre a dificuldade que existe para nós, artistas, de fazermos releituras e reinterpretações de determinadas obras. Por que impedir que criadores se debrucem sobre um determinado romance, conto ou peça teatral, dando-lhe outros significados, rompendo sentidos estabelecidos e criando novas interpretações?

Acho que deveríamos reler a obra de Machado de Assis e de Guimarães Rosa a cada dez anos. Isso porque são obras tão profundas que precisam ser redescobertas por cada idade por que passamos. Assim também as grandes obras precisam relidas por uma nova época, por outra geração. O que significa montar uma peça como “Entre quatro paredes” de Sartre depois da queda do muro de Berlim? Que outros e novos significados pode ter uma obra como “Os gigantes da montanha” de Pirandello em pleno século XXI?

Fiquemos no exemplo de dois “gigantes” da nossa cultura no século XX _ Nelson Rodrigues e Guimarães Rosa.

É curioso que o centenário de nascimento do primeiro (Nelson Rodrigues nasceu em 1912) que é considerado o maior dramaturgo do país em todos os tempos, tenha passado simplesmente em brancas nuvens. Com exceção de uma “programação oficial” (meio mixuruca, por sinal!), que se estendeu pálidamente pelo Rio e São Paulo, pouco ou nada se viu de montagens provocativas e que pudessem lançar luz sobre novos olhares e interpretações. Sem entrar no mérito da qualidade dos espetáculos, o que se via eram montagens que pareciam da década de oitenta. Algo pré Antunes Filho. Uma espécie de visão padronizada e oficial do que se convencionou como “estética” da obra”. Como se estivéssemos assistindo a um Moliere encenado pela vertente mais conservadora da “Comédie française”.

Não que eu seja adepto dessa ânsia de “novismos” que volta e meia assola o teatro, mas não vimos nenhum tipo de atrevimento, deslize, busca pelo risco. Uma oficialização completa de uma obra que, como toda a arte maior, sempre possibilita novas leituras e diferentes horizontes de interpretação. E chama a atenção como foram poucas as montagens dedicadas ao autor, num ano que teria tudo para ser uma explosão de leituras as mais variadas, que traduzissem a sua grandeza.

E não é preciso grandes esforços de investigação para saber quem é o responsável por essa escassez. É claro que isso é consequência de uma política restritiva de cessão de direitos por parte daqueles que os detêm. Tal atitude, no meu ponto de vista, não favorece nem um pouco a divulgação de uma obra tão importante. Mais do isso, seria fundamental que a nossa visão da obra também se renovasse com novos olhares, por mais que equívocos acontecessem e seriam inevitáveis.

Outro exemplo que sempre me vem `a mente (até porque  acho seu universo extraordinário para o teatro) é o de Guimarães Rosa. Um dos maiores autores da literatura brasileira ( daqueles que precisa ser relido de dez em dez anos!), criador de um universo calcado no sertão de Minas Gerais, ele tem sido um autor cujo acesso tem sido sistemáticamente vedado a possíveis leituras e releituras para encenações teatrais. Os exemplos de interdições, cobranças extorsivas e impedimentos burocráticos, visando claramente a inviabilidade dos projetos artísticos, são inúmeros. Exerce-se assim, um tipo de sufocamento econômico, que é uma das formas mais veladas de censura nos nossos tempos.

O direito de simplesmente proibir e recolher biografias está vedando o acesso a informações valiosas sobre a história e a cultura brasileiras. Assim como estamos impedidos de conhecer a vida e a obra de figuras fundamentais de nossa cultura, como Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Garrincha e tantos outros, a visão míope de alguns detentores de direitos, vem cerceando e impedindo o livre acesso do teatro a determinadas obras que são instigantes para o próprio teatro.

Tenho certeza que o mergulho de grupos teatrais dos mais diferentes lugares e culturas do país sobre essas obras, ajudaria em muito não apenas a divulgá-las e fazê-las mais conhecidas, como também abriria novas possibilidades de leituras e de interpretações. E o que não prestar, os equívocos, esses, certamente, terão o julgamento do senso crítico do tempo.

 

PS: Enquanto escrevia essa breve opinião, leio no jornal “O Globo” de domingo, dia 17/11, a estarrecedora matéria sobre o lançamento do documentário do Silvio Tendler sobre a viagem feita por Guimarães Rosa, em 1952, por dez fazendas da região de Três Marias. A viagem, feita a cavalo, junto com um grupo de boiadeiros, foi fundamental para o recolhimento de notas feitas pelo autor, para a elaboração de “Grande sertão veredas”. A família simplesmente vetou a aparição da imagem do autor no documentário. Numa atitude corajosa de denúncia, Silvio Tendler acaba de lançar o documentário, num festival em Fortaleza. Nas imagens, a figura de Guimarães aparece apagada. Ao contrário da foto em que Stálin simplesmente elimina a presença de Trótski junto com Lênin, no documentário vemos um contorno em branco. Percebemos a estranha figura humana que se destaca pelo seu desaparecimento. Trata-se da figura de um dos maiores escritores do Brasil e do mundo.

2 Respostas para “A polêmica das biografias e o direito de se adaptar para o teatro certas obras”

  1. A educação e a expressão artística-cultural do – e para o – cidadão comum, por convidarem ao pensar e consequentemente ao questionar, nunca foram e jamais serão do interesse das elites, sempre e incondicionalmente conservadoras, quando não impiedosamente repressoras. Ainda bem que artistas como vocês e seus irmãos de sonho e de estrada nos dizem sempre – ei, você! Não se aliene do mundo!!!

  2. Muito boa a reflexão, aliás,como em tudo o que vocês fazem. Agora, se para vocês que por méritos de uma história de trabalho e estudos são conhecidos como uma referencia no país, relatam este tipo de dificuldade. Imagina a gente que está aqui em baixo tentando construir a nossa história? Quando estive em Cabo Verde – África um dos trabalhos que montei foi ‘Quando as Maquinas Param” de Plinio Marcos, me senti refém dessa coisa de direitos autorais e depois de muita conversa com o filho do autor, autorizou duas apresentações, desde então, nunca mais montei nada dos nossos autores porque aprendi que foi colocada uma grife nesses autores de forma que não é para grupos de teatro como os que eu tenho trabalhado. Pena.

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