->A questão dos espaços públicos

Depois da estreia de um novo espetáculo, o Galpão sempre se dedica à turnês, com as apresentações do novo trabalho. É o que vem acontecendo nesse segundo semestre de 2013. Depois de algumas incursões por festivais no Nordeste e Centro-oeste e pelas cidades do interior de Minas, nossa atenção  tem se voltado para a chegada de “Os Gigantes da Montanha” nas duas maiores cidades do país, Rio de Janeiro e São Paulo.

As duas metrópoles sempre recebem nossos trabalhos com muita curiosidade e expectativa. O Galpão cultivou, ao longo de mais de duas décadas de apresentações contínuas, um público fiel que, não apenas acompanha o nosso trabalho, mas também conhece boa parte da história dos nossos espetáculos. Enfim , mais do que um público comum, espectadores curiosos e interessados, especialmente na linguagem desenvolvida na rua pelo grupo.

Qual não foi minha surpresa ao constatar uma incrível dificuldade em conseguir liberações para possíveis logradouros públicos para a apresentação de “Os Gigantes da Montanha” na cidade do Rio de Janeiro.

Que a ocupação de espaços públicos tem se tornado uma odisséia, cada vez mais penosa para a nossa produção, não é novidade. Foi, por exemplo, o que aconteceu em Belo Horizonte, quando carregamos multidões para assistirem ao espetáculo na praça do Papa e no Parque Ecológico da Pampulha. A começar pela absurda exigência produzida por um acordo da prefeitura com a FIFA (sempre ela!) de proibição de qualquer evento público num raio de distância, de não sei quantos quilômetros dos estádios, que receberiam os jogos das copas das Confederações. Depois de muitas negociações e contornada a absurda exigência, entra-se num périplo de autorizações, ofícios, permissões, salvo-condutos, etc, etc. A novela kafkiana da burocracia e seus empecilhos, em que alguns espertalhões sempre tiram uma “boquinha”, se arrasta, para desespero da produção, que precisa cumprir prazos e metas.

Agora, no Rio, chegamos a uma situação absurda de um grupo como o Galpão, cujos espetáculos sempre são recebidos de braços abertos pelos cariocas, não conseguir liberação nenhuma para todos os espaços solicitados para a apresentação de “Os Gigantes da Montanha”. Façamos um breve histórico. No ano passado, nas comemorações dos 30 anos do grupo, com a remontagem de “Romeu e Julieta”, havíamos privilegiado para as apresentações, áreas do subúrbio como a Pavuna (região do complexo da Igreja da Penha) e o Parque Madureira, ficando apenas uma apresentação para a área central da cidade (realizada no Aterro do Flamengo, em frente ao MAM, Museu de Arte Moderna). Agora era a vez de focar o público da Zona Sul, especialmente por se tratar de um novo espetáculo.

Nesse sentido, nossa primeira opção era o Parque dos Patins, no entorno da lagoa Rodrigo de Freitas. Como segundas opções, listamos a praia do Leme e a Praça XV. Tudo feito com uma antecedência de três meses para se evitar qualquer tipo de atropelo. Depois de um mês de embromação e empurra-empurra, recebemos a notícia que nenhum dos espaços solicitados estavam disponíveis. O Parque dos Patins teria um evento marcado (ninguém sabia dizer qual) e o Leme estaria com uma solicitação ao Ministério Público de proibição de eventos, em função da lei do silêncio.

No mesmo período, começaram a pipocar nos grandes centros urbanos brasileiros, as primeiras manifestações de protesto contra o custo e as péssimas condições do transporte público de massa. A coisa que, a princípio, parecia um movimento restrito e localizado, ganhou contornos absolutos, angariando a indignação da sociedade como um todo contra um quadro de corrupção generalizada, em que os políticos e o poder em geral, sentiam-se confortáveis para cometer os maiores descalabros diante dos olhos impassíveis de uma sociedade mansa e bovina. As obras dos estádios para a copa do mundo de futebol eram o retrato acabado disso.

Impulsionados pelas redes sociais, manifestações de rua brotavam a rodo diariamente, deixando governadores, prefeitos e suas polícias atônitas diante da indignação popular, que se voltava contra seus desmandos e sua empáfia de decisões e de decretos inflados, sem sombra de dúvidas, pelos resultados de reeleições folgadas nas últimas eleições. O gigante despertou, era o que se dizia, com um certo exagero de otimismo. Grupos de mascarados começaram a promover quebra-quebras, tendo como alvos prioritários os símbolos do capitalismo e da expansão brasileira, os bancos e as concessionárias de automóveis. Como personagens de um vídeo game, os chamados “black blocks” partiam para a vingança contra os grandes beneficiados do sistema político e econômico, os banqueiros e a indústria automobilística. O automóvel, esse grande fetiche da nossa sociedade, cuja expansão tem arruinado nosso dia a dia, compromete irremediavelmente a chamada mobilidade urbana. Estamos condenados a perder horas e horas em inimagináveis engarrafamentos, enquanto o transporte público é vergonhosamente comandado por uns poucos cartéis familiares coadunados com o poder público.

Os jovens mascarados parecem querer movimentar os políticos a golpes de botinadas. Tomara que os embotinados que nos impingiram um regime de exceção pavoroso ao longo de mais de duas décadas, também não resolvam entrar em ação. A violência de algumas dessas manifestações fez com que a massa se dispersasse e o movimento continuasse restrito agora a grupos. Esses continuam cercando Assembleias Legislativas, Câmaras Municipais e também prédios onde vivem governadores.

O fato é que, além do desgaste que a população vem sofrendo com constantes eventos que paralisam o dia a dia das pessoas (a visita do papa parou o Rio durante uma semana), as autoridades parecem evitar qualquer tipo de evento público que possa gerar aglomeração de pessoas nas ruas. Essa é a sensação exata que temos e que gera toda essa dificuldade para conseguirmos liberações para as apresentações. Existe um claro receio de que as aglomerações sejam detonadores de mais protestos.

Na verdade, o que temos assistido é um progressivo impedimento de qualquer manifestação cultural nos espaços públicos.  As administrações, ao invés de incentivarem e estimularem os grupos a levar seus espetáculos para os espaços públicos, democratizando assim a cultura e estimulando a convivência social, não têm feito outra coisa, a não ser criar empecilhos e taxas, que só oneram e dificultam a prática do teatro na rua.

O espaço público vem sendo domesticado por uma racionalidade capitalista em que os grandes vencedores, que ditam as regras, são os especuladores imobiliários e as máfias de transporte. Grupos aliás, sempre muito bem representados em nossas Câmaras e Assembleias. Não é à toa que, no Rio,  a CPI do transporte público não decola, controlada pelas  mãos dos aliados do prefeito e do governador.

Depois de muitas idas e vindas, negociações e pedidos de autorizações postergados e negados, finalmente, conseguimos fechar nossas apresentações nas duas cidades. Em São Paulo, no parque do Ipiranga, nos dias 20 e 21 de setembro e o Rio de Janeiro, nos dias 10,11,12 e 13 de outubro, em frente ao monumento dos pracinhas mortos na segunda Guerra Mundial, no aterro do Flamengo.

Uma Resposta para “A questão dos espaços públicos”

  1. Caro Eduardo e caros todos,

    Vcs são o mâximo (MÂXIMO). Esta inscenação dos Giganti della Montagna, com o final em grammelot é soberba, incríivel, um verdadeiro arraso. é uma inscenação para sentar, conversar, debater, aprofundar, repensar, refletir e… tudo. Eu disse para a Francesca (eu sou italiano tb), que conheci ontem mesmo, que eu deixaria de fazer aquilo que faç (ensino literatura italiana na UFRJ) para ir com Vcs. Além do mais sou clarinetista ! Só me decepcionei, quando vi que já tinha unm clarinetista ! (mas era Vc o mieniro que estava com a Francesca?)
    A acústica estava um arraso e a utilização dessas músicas italianas (que eu geralmente odiava, na época) ficou maravilhosa (até a Bella Ciao).
    Talvez a parte do grammelot pode ainda ser repensada, ter uma sua própria autonomia (me pareceu um pouco demais contextual e temática), sua garra, sua vocação rebelde e iconoclasta (pelo menos: é uma interpretação possível). Sonhei logo com uma apresentação na UFRJ (seria um sucesso total). Mas as universidades tem orçamento (e pénsamento) engessado…
    Sucessos para Vcs e, quem sabe, podemos ficar em contato !

    Andrea Lombardi

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