->A travessia do deserto

Estamos naquele ponto dos ensaios de “Os Gigantes da Montanha” conhecido como “a travessia do deserto”.

Os personagens vão sendo esculpidos, as cenas levantadas, um espírito individual e coletivo vai sendo moldado.

Como diria nosso amigo Ulisses Cruz, “um cego tateando no escuro, buscando conduzir outros doze cegos numa sala escura”.

A criação é um permanente desencontro na busca de se encontrar algo.

Tentativa e erro na procura de tornar palpável algo de imponderável.

Alguma coisa chamada personagem que te persegue vinte e quatro horas por dia, que você vai conhecendo cada vez mais através de suas palavras, para quem vamos tentando moldar um corpo e uma voz, uma visão de mundo, um modo de se relacionar com os outros, mas que ainda nos é estranho.

Como um apêndice que muitas vezes destoa e nos desequilibra. A queda que nos faz levantar, quase sempre de forma diferente.

Algo que começa a te pertencer e fazer parte de seu corpo e do seu espírito, mas que subitamente te escapa.

Uma miragem no deserto. Um oásis que parece estar próximo e que, de uma hora para outra, se torna mais distante ou desaparece.

Uma inquietação que te arranca do tempo histórico e te lança num tempo mítico. Um tempo que te aparta de datas, fatos, jornais, encontros sociais, compromissos. O mergulho no universo da pura ficção.

Arrebatamento que necessita de silêncio e solidão para nos nutrir de forças suficientes para a travessia em seu ponto mais distante e ameaçador.

Como um náufrago disposto a se agarrar a qualquer coisa para não sucumbir ao fundo do mar. Aprendiz de mago que desenha maravilhas nos vãos das sombras.

Alquimista da incerteza mergulhado na inquietação de uma permanente embriaguez celeste. Desbravador de buracos negros em busca de fantasmas.

Andarilho da loucura desprovido de rumo e de direção

Ser atirado no olho do furacão.

O ator no meio da travessia do deserto.

Uma Resposta para “A travessia do deserto”

  1. O bonito do teatro (e da dança, e da acrobacia, e da orquestra, e da patinação no gelo e de outros mais) é isto: o espetáculo que o público contempla é fruto de muita dedicação, muito ensaio, muito esforço que ninguém vê. A gente só vê a perfeição, no momento da apresentação, e pensa que aquilo é tão simples de ser feito. Pena que poucos são aqueles que tem cultura e sensibilidade para ver beleza nesse tipo de arte. O restante é tudo massa, boiada que vai tocada sem saber por que e por onde ir. Que o grupo seja feliz na realização deste novo trabalho. Que as soluções cheguem no momento certo. Estamos esperando o espetáculo começar.

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