->A volta de Romeu e Julieta a BHZ

Passei o final de semana com azia. Uma estranha sensação de comer apenas refeições leves e frugais e sentir uma queimação no estômago. Era evidente que se tratava do efeito chamado de “a praça da Papa”. Na ocasião em que estreamos “Tio Vânia” no Rio, Yara me perguntou que público e que praça me incutia mais nervosismo e apreensão. Achei que era o público do Rio. Talvez pelo fato de ser o berço da infância, das primeiras sensações do mundo, da formação.Além, é claro, da paixão que guardo pela cidade. É claro que Belo Horizonte é ainda mais especial. Acho que o Galpão só conseguiu seguir sua estrada ao longo desses trinta anos porque o público de Belo Horizonte abraçou o grupo e se considera parte dele. Quando começamos o espetáculo diante de cinco ou seis mil pessoas ( seria bom fazer uma média entre o cálculo dos organizadores e o da polícia militar, como nos bons e tristes tempos das manifestações estudantis contra a ditadura militar!), senti a força de uma massa que se considerava parte daquilo tudo, daquela história. No domingo, vivi uma das cenas mais emocionantes como ator quando, durante a cena do casamento, meu personagem entoando a canção “Amo-te muito” foi acompanhado por um coro suave e delicado de dez mil (vá perguntar à polícia militar!) vozes.Uma coisa estrondosamnte emocionante! Perceber como aquelas cenas, aquela história, o cenário, os personagens fazem parte da memória de vida de uma geração, de uma cidade.
No sábedo seguinte fomos para o Parque Estrela Dalva e mais uma vez uma multidão encantada seguiu vidrada o espetáculo. Com direito até a cantar um “Parabéns para você…” no final da apresentação. Nosso querido Marcio Medina, que foi assistir com Cacá Carvalho, dizia que nnunca tinha visto uma manifestação tão forte de pertencimento de uma peça a uma comunidade inteira. Como uma lembrança de infância que guardamos com especial carinho.
Mas, mudando de assunto, lavou minha alma, o esclarecedor artigo do João Paulo no caderno “Pensar” do jornal “Estado de Minas” falando das apresentações do Galpão na praça do Papa, com o título “Galpão e a cidade”. Isso poruqe ganhou destaque nas páginas do mesmo jornal a manifestação de protesto da associção de moradores do bairro Mangabeiras contra as desordens causadas ao trânsito da região pelo afluxo de dez mil pessoas. Por mais que transtornos possam acontecer ( e na praça, eles definitivamente não aconteceram) é preciso entender e respeitar essa celebração de uma memória coletiva que se manifestou e extravasou numa noite de sábado e num entardecer estonteante de domingo.
Na verdade, tudo isso é muito sintomático de um país onde os ricos encastelados em suas mansões e condomínios, se afastaram de tal forma do espaço público e do bem comum, que só se interessam pelo seu próprio bem estar e consumo.Isso só me faz ter a certeza de que a retomada do espaço público como celebração da convivência e do projeto de bem estar de uma comunidade é um projeto fundamental que está intrinsecamente ligado com a educação, a saúde, a cidadania das pessoas, a conscientização dos direitos e deveres de cada um, o fim dos abusos e da corrupção. Temos um longo caminho pela frente. Que os filhos dos filhos dessa nova geração que conseguiu assitir a “Romeu e Julieta” cheguem lá. E que nós façamos também a nossa parte, no pouco tempo que ainda nos resta.

11 Respostas para “A volta de Romeu e Julieta a BHZ”

  1. Muito obrigada por compartilhar a alegria e dedicação de todos vcs! Todas as vezes que eu os assisto, sinto um imenso orgulho, como se fizéssemos parte de uma mesma família, uma grande família sonhadora. Ontem passei uma tarde inesquecível com pipas colorindo o céu e com vcs colorindo nossos olhos mais uma vez!
    Vida longa ao Galpão! Vida longa aos sonhos!
    Um grande abraço à todos!

  2. Sensacional os relatos deste blog!
    Sobre este post especificamente, assiti ao espetáculo no domingo na Praça do Papa e só tenho elogios, foi encantador e super emocionante.

  3. Caro Eduardo!
    Paz e Bem!

    Fui um dos privilegiados “bárbaros” invasores do Parque Estrela Dalva. Há muito queria curtir o Galpão ao vivo, mas a correria da vida “muderna” sempre adiava esse sonho. No sábado, 16, mesmo convidado para um casamento, às 19h, decidi arriscar, já torcendo pelo atraso da noiva.
    Foi muito prazeroso caminhar em meio à multidão rumo ao local do evento. Em todos os rostos, um sorriso alegre e despreocupado, com aquele semblante típico de uma criança quando espera por um carinho ou presente. É curioso e mágico ao mesmo tempo. Mas assim como você descreve a sensação de interagir com a platéia, às vezes, cada um de nós em meio à multidão tem a impressão de estar sendo alvo de um “olá, como vai, bem-vindo ao espetáculo…” E assim, crianças dos 2 aos mais de 80 anos ficamos hipnotizados por quase duas horas de magia e encantamento, uma simbiose capaz de embasbacar gregos, troianos, seja na Oropa, França ou Bahia. As músicas são um capítulo á parte e ajudam a dar leveza ao texto. A mistureba de Shakespeare/Beatles/Clube da Esquina/cancioneiro popular produz um resultado muito legal, harmonioso, e atemporal.
    Vocês louvaram um amor platônico. Pouco depois, assisti ao coroamento de uma comovente história de amor. O Romeu tem os pais com a saúde debilitada. A Julieta aceitou o desafio de ajudar a cuidar deles após o casamento.
    No resumo da ópera, parabéns. E continuem com essa mesma alegria pelas praças do Brasil afora, até mesmo para evitar que pretensos “donos” do pedaço e prováveis adeptos da Telorização da burrice consigam impedir espetáculos em espaços públicos.

    Abração,
    João S. Reis

  4. Há alguns anos, assiti a esse espetáculo em Taguatinga/DF junto com meu irmão, então adolescente. Desta vez, ele que mora em Guanhães/MG foi rever a maravilha na maravilhosa Praça do Papa e levou duas filhas uma de 11 outra de 13 anos. Eu estava junto deles, não consegui conter as lágrimas ao vê-lo sem fala diante da alegria e fascinação das filhas. Ele fotografou toda a peça, desesperadamente, parecia querer garantir que toda sua geração possa saber dessa montagem, extremamente poética, inigualável. Viva Galpão, viva Gabriel de todas as Vilelas teatrais de Minas, viva o povo, viva a vontade de inundar todos os espaços públicos com teatro e vida!

  5. Como bem diz André Carreira :

    “A tomada dos espaços da cidade por intervenções artísticas, produzidas por formas organizativas baseadas ou não em coletivos enfrentados com o estableshment sempre implica na criação de “estados de ruptura” do cotidiano.”

    E continua:

    “As linguagens artísticas que não estão diretamente relacionadas com o universo da publicidade ou dos mass media, criam espaços de estranhamento com as rotinas das cidades, ainda que mais não seja,
    porque não reafirmam diretamente a lógica instrumental do capital.”

    As manifestações dos moradores deveria ser para que outras cidades pudessem comportam grupos, que a exemplo do Galpão, trabalhem levando arte para pessoas e espaços que nem sempre tem acesso facilitado.

    Luís Carlos Firmato.

  6. … Os netos e bisnetos e tantas outras gerações irão assistir como público cativo íntimo do espaço coletivo que é de todos e para todos, como o teatro.

  7. Eduardo, rever vocês na Praça do Papa foi muito emocionante. E realmente, nós de Belo Horizonte fazemos parte do Galpão, de cada peça, de cada cena, de cada canção… É um orgulho tão forte que sentimos de vê-los atuando e criando cada vez mais, que vocês não imaginam!!!
    BH ama o Galpão!!!! Simplesmente isso!!!

  8. Que pena. . . não estava em BH para apreciar este momento épico de “Romeu e Julieta”, arte de ver e ouvir, mineiramente brasileira.
    Assisti este espetáculo na UFMG perto à reitoria e minha memória afetiva, graças ao bom Deus, não me deixa esquecer. Gostaria de poder apresentar esta obra prima à minha filha, de 12 anos. Aguardarei o retorno de vocês. Paz e Luz a todos.

  9. Sou do interior de Minas e não perco um espetáculo desse Grupo espetacular em todos os sentidos. Acompanho a história de vocês(filhos meus foran colegas de alguns no Loyola) e fiquei siderada com, A Rua da Amargura encenada no circo no alto das Mangabeiras. Tenho o DVD de Romeu e Julieta realizado no Globe Theatre e não cansamos de assistir. Quero pedir que apresentem esse Romeu e Julieta no Palacio Das Artes, pois minha idade (76 anos) me impossibilita assistir na Praça Pública. Por favor, poir favor! Abrs,

  10. Oi, Eduardo! Queria muito estar em BH pra ver esta apresentação! Fico muito feliz por poder ao menos ler seu lindo e emocionado texto, obrigada!
    Abraço grande, Rita De Blasiis

  11. Felicidades:
    estive em todos esses momentos citados, e em cada um deles levando pessoas diferentes para saborear desta tão sublime arte. Me encantou muito a apresentação de domingo na pampulha, nunca vi o grupo tao humano, tão grande, tao pertubardor de criação de energia e vida… sei la nem sei como dizer. sei a penas que pela primeira vez de dezenas de outras estava bem na frente da apresentação de romeu e julieta…. foi fantastico.. os rostos, a pele dos atores, sob aquele sol brando e a quela luz da tarde….. me diverti muito mas desta vez foi mesmo emoção por saber que aquela poderia ser a ultima apresentação da temporada… que eu iriacompanhar. as pessoas que estavam comigo iam pela primeira vez ao “teatro’, E NÃO SE DEPARAM COM UM ESPAÇO FECHADO, SERIO E DE MODOS ARTIFICIAIS MAS COM UMA VERDADEIRA CELEBRAÇÃO DA VIDA.
    mais uma vez obrigado galpão por estas e outras experiencias grandiosas.

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