->Crítica “De Tempo Somos” por Gustavo Fioratti (Folha de São Paulo)

Não é surpresa que o Grupo Galpão fique tão à vontade para apresentar sobre o palco um show puramente musical em vez de uma peça de teatro.

Em “De Tempo Somos” –dirigido por Lydia Del Picchia e Simone Ordones que fará mais três sessões até domingo no Sesc Santana­– os atores da companhia mineira demonstram no gogó que seus trinta e poucos anos de trajetória carregam muito rigor, suor e aprendizado musical.

Tecnicamente impecável, o sarau traz 25 das inúmeras canções acumuladas nessa curva de estrada traçada desde os anos 1980, quando o Galpão se lançou sob a proposta de ocupar ruas e palcos com um teatro de veia popular, empenhado em falar para crianças e velhos, pobres e ricos etc e tal.

Essa identidade resultou em um repertório voltado às tradições orais. O cardápio de agora lista desde a folclórica “Maninha”, entoada em “Romeu e Julieta” (1992), um Shakespeare de rua, até “Yo Vengo a Ofrecer Mi Corazón”, do argentino Fito Páez, canção interposta entre os diálogos de “Tio Vânia “” aos que Vierem Depois de Nós” (2011), um Tchekhov comportado.Para entender o Galpão, é necessário saber que o grupo pensa suas peças como obras para serem colocadas dentro da mala, transportadas em viagens pelo país, destinadas às praças do sertão e aos teatros dos centros urbanos.

Por trás do conjunto de canções reside ainda a intenção elementar de criar uma atmosfera idílica. Sobre o palco, além de violões, instrumentos de sopro, acordeões, ouve-se um par de sons da natureza.

Com apitos que imitam pios de pássaros, com a luz que sobe e depois cai lentamente, o grupo cria imagens, muito belas, de auroras e crepúsculos. Faz “cantoria à beira-rio, em noite de lua cheia”, como diz o texto de apresentação.

É interessante notar que esse mesmo repertório também condense um conflito: como olhar para as tradições (do cancioneiro, do folclore, do mambembe) sem abrir mão do desejo de ser visto como legítimo exemplar contemporâneo.

Os solos também rendem momentos agradáveis, como em “O Sole Mio”, a canção napolitana. A plateia de sábado passado respondeu efusivamente ao fim. Belo show.

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