->DIÁRIO DA TURNÊ ESPÍRITO SANTO-BAHIA

Todas as observações e opiniões aqui emitidas são de inteira responsabilidade desse escrivinhador, sem nenhuma  relação com o Grupo Galpão ou qualquer um de seus membros.

 

31/08

Chegada a São Mateus,

Últimos preparativos para mais uma viagem. Depois de uma rápida parada em Presidente Prudente, noroeste do estado de São Paulo, para uma única apresentação de “Os Gigantes da Montanha” no festival da cidade, passamos menos de um dia em Belo Horizonte, e já estamos de partida para a turnê pelo Espírito Santo e Bahia.

Já não sei muito bem o que é ter casa depois de oito dias rodando por cidades de Minas, oito dias na França por conta do festival de Avignon, dez dias de filmagens em Diamantina, cinco fins de semana de temporada no SESC Santana, em São Paulo. Sinto-me como um caramujo que leva sua casa própria nas costas. A falta de lugar ou a minha casa é o mundo.

Pegamos um carro no Galpão em direção ao aeroporto da Pampulha. A mudança para um aeroporto mais próximo, pequeno e caseiro é, de certa forma, um alívio. Talvez por causa da novidade, uma vez que a viagem para Confins já se tornou uma repetição tediosa. Viajamos Jimena, Carol, Fábio e eu. Não sei por que cargas d’água, nosso voo saiu separado do resto do grupo. De toda a forma, sair da Pampulha já deu um outro tom para nossa partida. Bom sinal.

Jimena está entrando no oitavo mês de gravidez. O pequeno Caetano certamente vai estranhar tanta agitação. Espero que goste. Sendo da estirpe dos mambembes, certamente vai se divertir. O atendente da companhia aérea pede o atestado médico. O teatro é uma atividade em que sempre é preciso um tanto de coragem, ainda mais com uma barriga de quase oito meses, dormindo cada dia num hotel, numa cidade diferente, enfrentando viagens de avião, vans, ônibus e horas infindáveis de ensaios, passagens de som, aquecimentos e apresentações para milhares de pessoas. Parabéns para a intrépida Jimena!

Chegamos ao acanhado aeroporto de Vitória e estamos à espera do resto da trupe. O grupo chega uma hora depois e seguimos de ônibus, por mais de quatro horas, em direção ao norte do Espírito Santo, na cidade de São Mateus. A rota é a famosa BR101, que sai do sul do país e chega até o norte. Uma movimentadíssima estrada de integração nacional. Nossa parada se dá numa cadeia de alimentação chamada “101”. Deve ser algum tipo de concessão para o grupo que controla a rodovia. A estrada é a metáfora acabada dessa profissão transitória e efêmera que é o teatro. Como Mercúrio, estamos o tempo todo circulando de um canto para o outro. Volto ao tema da falta de pouso.

Chegamos a São Mateus um pouco depois da meia-noite. O hotel já é um velho conhecido. Estivemos aqui há uns dez anos, circulando com o espetáculo “Um homem é um homem”. As dependências do hotel, situado numa galeria, bem no centro da cidade, me trazem lembranças das brincadeiras com minha filha, Bárbara, na época  entre os dois e três anos. A piscina do hotel me traz esse lampejo de lembrança que estava guardada em algum lugar do meu passado. Saudades da infância da minha filha, de um outro tempo, de algo que não volta mais.

Novos ares que trazem ansiedade noturna e insônia.

 

Primeiro de setembro,

Dois terços de 2015 já se foram. O tempo caminha a compassos cada vez mais largos. Vou cedo, com os técnicos, escolher o lugar no porto de São Mateus, onde começaremos nossas apresentações, com “Os Gigantes da Montanha”. A praça do porto, às margens do rio Cricaré, é um lugar muito charmoso e de proporções bem aconchegantes. É uma pena que algumas construções da cidade alta manchem a paisagem do se vê da perspectiva do rio. O rio passando suavemente ao largo da praça, as casas antigas, o sítio histórico que foi preservado pelas prostitutas. O preconceito que separa a cidade alta (moderna e habitada pelo comércio e pelos mais ricos) da baixa (antiga e ocupada pelos marginais e alternativos), me faz lembrar um pouco Salvador e tantas outras cidades brasileiras, sempre marcadas pelo preconceito e a segregação.

São Mateus é de 1.544 e foi chamada originalmente de povoado de “Cricaré”, em homenagem ao rio. Foi o ponto de maior entrada de escravos no norte do Espírito Santo e tem hoje uma das maiores populações negras do estado. Dá um pouco de aflição perceber que a parte baixa da cidade, que é tão bonita e cheia de significado, esteja relegada ao esquecimento, enquanto a parte alta, árida e desprovida de qualquer poesia e beleza, seja onde a cidade pulsa. Justiça seja feita, até existe um mercado interessante numa das principais avenidas da parte alta, mas o conjunto da obra é de uma feiura que salta aos olhos. Triste queda do ser humano que desbanca a nossa falsa crença de que a história anda para a frente.

São Mateus já teve um festival de teatro que se estendeu ao longo das décadas de setenta e oitenta. O próprio Galpão chegou a apresentar aqui, “Corra enquanto é tempo” e “A comédia da esposa muda”. Já nesse século, as edições se tornaram mais escassas e o festival acabou minguando. Hoje, o que vemos funcionar na área do porto, a duras penas, é uma oficina de máscaras para crianças, uma creche e uma secretaria de cultura, que funciona num belo casarão caindo aos pedaços e com precárias condições de funcionamento. Isso num lugar que deveria estar amplamente ocupado pelo turismo, educação e cultura. No centro da praça está um monumento às prostitutas que conseguiram preservar aquele local histórico.

Passamos à tarde no porto fazendo aquecimento vocal com a gravação dos exercícios na voz de Francesca e equalizando o som dos microfones. A comunidade vai chegando aos poucos, com certa desconfiança, que logo vai sendo quebrada, especialmente, pelas crianças. Bagre está estacionado com seu caminhão nas proximidades e já prepara uma peixada para à noite, comemoração da estreia da temporada. Os ciganos chegaram e estão ocupando a praça. A vida do porto se agita e se transforma. O espetáculo é um sucesso e as pessoas, ao final, vêm nos agradecer pelo fato de estarmos ali, de termos escolhido a cidade para apresentar o espetáculo. Um grupo de capoeiristas abre as portas de sua sede e começa a esquentar os tambores. Um churrasco começa a ser feito ao ar livre. No outro extremo do largo, instala-se uma vendedora de pastéis, com uma enorme vasilha de óleo fervente. Sete horas, e as trezentas cadeiras já estão ocupadas. Algumas crianças assustam-se com a entrada dos fantasmas na cena inicial. Os cachorros ficam alvoroçados com o movimento, mas nem tudo é caos e agitação no mundo canino: na cena, já no final da peça, em que Cotrone, dirigindo-se à Spizzi, diz que “muitas vezes falamos em vão, como um cachorro noturno que, depois de ter latido para uma sombra, volta para o seu canto”, um cachorro com alma teatral, entra em cena, solta um latido melancólico e deixa a ribalta com o rabo entre as pernas. Foi aplaudido em cena aberta.

 

02/09

Hora de tentar colocar o corpo no lugar. Tantas viagens de ônibus, decolagens e aterrissagens, tantas camas e travesseiros estranhos e diferentes, deslocamentos de vans, o cotidiano em permanente transitoriedade, deixa o corpo fora de lugar. Fazemos um alongamento no chão, conduzido pela Fernanda.  Estamos na sede da secretaria de Cultura de São Mateus, que tem um belo salão no seu segundo andar. Existe ali um arcabouço de teatro. A dedicada secretária nos diz que saiu uma verba do IPHAN para reformar o casarão. Deitado no chão, percebo uma grande quantidade de furos nas telhas do teto.

Passamos as músicas no tablado montado para “De Tempo Somos”, que será encenado no mesmo lugar onde representamos “Gigantes”. É uma forma de simplificar o trabalho de montagem para os técnicos e de também marcar um território. Hoje as pessoas já se aproximam com muito mais naturalidade e soltura, perguntando a que horas será o espetáculo e se amanhã vai ter mais. Alguns meninos ficam curiosos e indagam sobre a sexualidade de Paulo André e seu personagem do dia anterior, Batalha. Afinal, é homem ou mulher? Hoje os bares no entorno do porto estão cheios e tudo transparece um clima bem mais festivo.

Noite de futebol no Brasil. O Espírito Santo torce pelos times do Rio. A TV, por conveniência comercial, torce pelo “Curintians”. Completamos nossa quarta vinda à cidade de São Mateus. Algumas pessoas falam da nossa apresentação com um “Um homem é um homem”. A cidade adormece. Os casarões resistem e o silêncio noturno parece encarnar o banzo dos milhares de escravos que aportaram à força pela entrada do porto do rio Cricaré.

 

03/09

Sete da manhã e já estamos de partida junto com os técnicos para a cidade de Linhares. A montagem dos “Gigantes” é mais trabalhosa e exige mais força por parte da técnica. Rumamos em direção ao sul do estado. Linhares é um polo econômico importante, centro de empresas como a Petrobras e a Aracruz.  Cortada ao meio pela BR101, a cidade cresceu e se modernizou bastante. Nosso hotel fica bem em frente ao campo de futebol do “América Futebol Clube”, com as cores e o escudo idênticos ao velho América carioca, segundo time de todos os torcedores do Rio.

A crise está gritando por aqui. A primeira coisa que gosto de fazer, no saguão dos hotéis por onde chegamos, é folhear as páginas dos jornais locais. Por aqui, as manchetes estampam a demissão de funcionários contratados pela prefeitura, que já não sabe como pode pagar suas contas e saldar seus compromissos. O macro reflete no micro e já não sabemos mais onde começa e onde termina essa crise. O certo é que os mais afetados serão, mais uma vez, os mais necessitados.

Nosso espetáculo está instalado na recém-construída Praça 22 de Agosto. O que teria acontecido na referida data? Consulto o todo poderoso Google e ele me ensina que 22 de agosto é o dia do folclore. A praça é simpática, bem cuidada, mas já foi atacada pelos pichadores. Os mesmos que deixaram suas marcas em vários casarões do centro antigo de São Mateus. Tudo o que é público no Brasil vira terra de ninguém. O que impera é o desleixo e o importante é dar vazão à frustração e à falta de oportunidade de uma imensa massa. Ninguém é dono de nada e existe sempre um sentimento de vingança a tudo que é público.

O Brasil é a terra do caixote e do puxadinho. As construções têm sempre aquele feitio pragmático dos caixotes de Brasília e vão se estendendo com apêndices improvisados. Não existe a menor possibilidade de planejamento. A favela é a nossa grande cara. Em Linhares, motos com alto-falantes estridentes percorrem as ruas anunciando forrós e bailes sertanejos. Do jeito que a cultura no Brasil está encurralada e na míngua, só vai restar o sertanejo universitário, o Lobão e as novelas da televisão. E, talvez, a OSESP, para o deleite do PSDB paulistano, ao ter a sensação de que a região dos Jardins é Nova York ou Paris e Londres. O mundo gira dramaticamente e vendo as cenas dos naufrágios dos refugiados sírios, que tentam chegar à Europa, fico pensando em qual é o sentido de se fazer teatro em Linhares.

Apresentação dos “Gigantes” na praça. Muitas crianças concentram-se no chão, em frente à plateia. A dispersão é grande e fica difícil manter o jogo e a concentração. O teatro de rua tem um mecanismo delicado entre o dentro e o fora da cena. É preciso estar sempre bem conectado com o público e com a sua vibração, mas quando a coisa tende a degringolar, é preciso reforçar o jogo interno entre os atores. Fortalecer a comunicação entre os que estão dentro dos limites da encenação. Se a dispersão do público te consome, fica muito complicado manter a conexão com a história que está sendo contada. Essa apresentação foi bem emblemática quanto a esse tipo de dilema. Aliás, o teatro não dá tréguas. Cada encontro com o público, cada nova função é um percurso novo, por mais que as falas e as marcas sejam as mesmas.

 

04/09 Sexta-feira

Entrevista para o jornal “A Gazeta” de Vitória. As pautas e as perguntas seguem sempre um padrão, independente do jornal. Nada escapa ao previsível e ao clichê. A pergunta já pressupõe uma resposta, assim o sistema segue dentro dos seus formatos. Tudo muito pasteurizado, seguindo um padrão, que é quase sempre ditado pela Rede Globo de televisão. Incrível como um país enorme e tão diverso como o Brasil, se rendeu a uma unidade domesticada, à mercê de um circo de horrores, em que monstros, com as expressões paralisadas pelo excesso de esticamentos e enchimentos, propagam o medo, a mesquinharia, a vulgaridade, sempre com uma visão simplista, adocicada e moralista da vida e seus percalços. Não posso deixar de pensar em Baudelaire, em seu extraordinário “Meu coração a nu”, um dos textos que eu havia separado como um dos possíveis selecionados para a composição do “De Tempos Somos:

“É impossível percorrer um jornal qualquer, seja qual for o dia, o mês ou o ano, sem deparar quase linha a linha com os sinais da perversidade humana mais detestável, quase sempre acompanhados pelas mais inverossímeis proclamações de honestidade, de bons sentimentos e de caridade, ou por manifestações da maior confiança em relação ao progresso e à civilização. Da primeira à última linha todos os jornais não passam de um amontoado de horrores. Guerras, crimes, atentados ao pudor e crimes particulares, enfim, o delírio da crueldade universal. E é com esse repugnante aperitivo que o homem civilizado toma todos os dias o seu café da manhã. Tudo neste mundo transpira a crime: o jornal, a muralha e a face do homem. Custa-me acreditar que se possa de mão limpa tocar num jornal sem sentir um vômito de repulsa”.

 

Fazemos uma tele reunião com nosso gerente para falar de assuntos urgentes do Galpão. Adorei. Agora só quero fazer tele reuniões!

Almoço num hipermercado à beira da rodovia. São tantas televisões expostas no enorme salão da praça de alimentação, que me dá a impressão de que não somos nós que as assistimos, mas que são elas que nos vigiam. Não existe alternativa. Assim como não existe a menor possibilidade de silêncio. O tempo todo é preciso estar com algum estímulo sonoro e visual. Algo que preencha o vazio insondável que nos ronda e nos ameaça. É a mesma sina com a presença divina. Somos martirizados pela permanente presença de Deus. Aquele carro foi presente de Deus, aquele outro é guiado por Jesus. Tudo tem que vir acompanhado de uma saudação divina.

Hoje fizemos aquecimento corporal e vocal acompanhados pelo grupo de teatro “Shalom”, que montou a peça católica “Filho de Deus menino meu”. São jovens simpáticos, com olhares esperançosos e cheios de boas intenções. A Igreja sempre foi um lugar de iniciação teatral, especialmente no interior. Fico me lembrando do grupo “Fratelo” de Araxá, que está sendo dirigido pelo Júlio e que também teve sua iniciação dentro de uma igreja.

 

05/09, Sábado

Trânsito parado na BR101. Um acidente com uma carreta e dois carros de passeio. As rodovias no Brasil seguem com sua rotina de carnificina. Ficamos uma hora e meia parados nas proximidades do município da Serra, quase chegando a Vitória. Bexigas cheias, urinas sendo aliviadas na beira da estrada. Mais um pretexto para fotos a serem colocadas na “rede”. Essa incomensurável rede de tolices, vulgaridades, perversidades e matérias de absoluta falta de sentido e inutilidades. Um lixo total usado em prol de uma distraçãozinha nesse tédio absoluto que é a vida moderna.

Jimena não passou bem esta noite, sentiu várias contrações e dores. Ligamos o sinal de alerta. Ela nos diz que se sente bem quando faz o espetáculo. Talvez seja muito complicado e arriscado ir com ela até o final desta turnê. Colocamos as barbas de molho.

Estamos hospedados na praia do Boi, num antigo hotel do SENAC. Temos uma bela vista da baía de Vitória. A região é muito bonita. A ocupação da orla é feia. Como o Rio, em que a paisagem é deslumbrante, mas a ocupação humana deixa muito a desejar. O ser humano acaba sempre atrapalhando tudo. O hotel tem cara de colônia de férias. Os mineiros não podem sentir o cheiro da maresia que logo colocam bermudas, chinelos e bonés, por mais nublado que esteja o tempo. A falta atávica do mar mexe com seus sentimentos profundos.

Dia de conversa com os grupos de teatro de Vitória, na sede do “Folgazões”. O grupo ocupa uma sede própria, situada bem ao lado do palácio do Governo. Está bem em frente à praça onde José de Anchieta fazia suas pregações aos índios e aos gentios. Levo todo o material de registro da história do Galpão, entre livros, CDs, DVDs, para ilustrar um pouco o grande esforço de preservação da memória desenvolvido pelo grupo. No debate, estão presentes mais de cinquenta pessoas, com destaque para um grupo de pesquisadores que está desenvolvendo um projeto piloto para a implantação da graduação em artes cênicas na UFES. Muitas vezes o diálogo descamba para o tom de lamentação pela penúria do teatro. Isso é um tanto tedioso, mas, no geral, a conversa é positiva e dá para sentir que as pessoas consideram o encontro algo importante e como o trabalho do Galpão serve como referência para os atores e os grupos.

 

06/09 , domingo

Chove em Vitória e vivemos, mais uma vez, a agonia de fazer ou não fazer o espetáculo. Não existe a possibilidade de um lugar alternativo no parque da Pedra da Cebola. Vou cedo ver o espaço. Uma pelada com péssimos jogadores de futebol de domingo se desenrola, com gritos e entusiasmo excessivos. A manhã de domingo traz uma breve pausa na agitação das cidades. Bagre, nosso motorista, ao ter que atravessar um campo de grama com a carreta, para aproximá-la ao local do espetáculo, diz, parafraseando o personagem de Batalha dos “Gigantes”: “Eu tenho mêdo!” As frases mais marcantes de cada espetáculo acabam permanecendo e suplantando o tempo do próprio espetáculo, sendo sempre repetidas pelo elenco e pela equipe técnica como um bordão.

Ensaio com Fernanda fazendo Ilse numa sala do hotel. É uma daquelas estranhas salas de encontro de convenções. Todos estão cansados, mas o trabalho sai concentrado. Ao final, lágrimas nos olhos de Jimena, que parece mais aliviada. Fernanda está preparada para assumir o desafio de fazer Ilse em Ilhéus. Cumprimentos e aplausos gerais para as duas.

Passamos o som no parque da Pedra da Cebola. Nuvens negras e enormes aviões passam bem rente ao nosso cenário. O parque está colado ao aeroporto de Vitória. Existe uma tensão no ar. A partir das cinco horas começam a chegar alguns atores dos grupos da cidade, que acompanham o aquecimento e os ajustes de música. Aproveitamos algumas passagens, para firmar as marcações com a Fernanda. A manipulação de alguns objetos de cena é feita pela primeira vez.

Seis e meia. O apertado camarim está abarrotado. Fernanda testa a maquiagem de Ilse. As cadeiras e o chão já estão apinhados de gente. Temos entre setecentas e mil pessoas que aguardam pelo espetáculo. Gilson, o menino portador da síndrome de Down, que participou do nosso workshop sobre “Os persas”, no festival de Inverno da UFMG, em Ouro Preto, está presente. Veio acompanhado de sua mãe.  Ele já está com uma barba grisalha. É melhor nem pensar quantos anos já se passaram, desde que fizemos aquele trabalho sobre a peça de Ésquilo, com supervisão de Adyr Assumpção.

 

07/09, segunda

Programas de entrevistas para a televisão. Somos forçados a acordar de madrugada e a nos expormos com roupas escuras ao sol escaldante à beira da praia de Camburi. O jornalismo televisivo investe numa máscara de descontração e improviso que só revela sua cartela de programação previsível.

Aliás, é inacreditável como os colunistas se repetem nos jornais. O maior diário de Vitória, “A Gazeta” é uma filial de “O Globo” e lá estão os mesmo articulistas de sempre, que também martelam as pessoas maciçamente na imposição televisiva. A verdade é que vivemos uma uniformização brutal da informação no Brasil. Um verdadeiro pensamento único onde falta polêmica, discordância e abertura de opiniões. Muita manipulação e quase nenhum espírito crítico. E quando se aponta para o problema, logo te jogam na cara que você está fazendo o jogo do outro lado, nesse Fla-Flu, cheio de rancor e preconceito que tomou conta de qualquer debate no Brasil. Mas é só dar uma olhada em quem controla as filiais da TV Globo no Nordeste e os grandes jornais da imprensa escrita, para perceber a concentração e controle da mídia que, pretensamente, estaria defendendo a pluralidade de pensamento no país. O fato é que o jornalismo exercido por aqui está às léguas de qualquer tipo de “imparcialidade”.

Mas, voltemos ao teatro. Uma fila gigantesca se forma em torno do teatro Carlos Gomes para que as pessoas consigam retirar seus ingressos para assistir ao “De Tempos Somos”. É um reflexo da nossa apresentação de “Gigantes”. Os dois espetáculos fazem uma bela dobradinha, em que um acrescenta e complementa o outro. São dois espetáculos de muita qualidade e tão diferentes entre si, que explicitam de forma muito clara a excelência e a diversidade do trabalho do Galpão. O teatro Carlos Gomes fica lotado e mais de cem pessoas não conseguem entrar. A apresentação estabelece uma comunhão única com os presentes. A primeira música já coloca o público dentro do espetáculo. Ao final, há um estado de êxtase. Todos os grupos que estavam no debate estão presentes. Nossa presença em Vitória consegue promover um movimento de mobilização entre os artistas da cidade. Ao final, comemoramos com uma cerveja moderada –(afinal, saímos amanhã às 5h30, para Ilhéus, na Bahia) com amigos do grupo Boyasha.

 

08/09, terça-feira

O dia começa com o cancelamento do voo da TAM. Nossa rota seria Vitória-Brasília-Ilhéus. Um percurso meio estranho: viajar uma hora e dez minutos até o Distrito Federal e depois mais uma hora e vinte até o sul da Bahia. Se tivesse um voo direto, não levaríamos mais que quarenta minutos. As rotas de voo no Brasil são muito concentradas, vide a ligação de Belo Horizonte com o Nordeste que é quase sempre feita via São Paulo ou Brasília.

O aeroporto de Brasília está enorme. Hoje só é superado em movimento pelo de Cumbica. Caminhamos mais de dois quilômetros (segundo o aplicativo de passos dados!) para encontrar o desembarque, desembarcar, embarcar de novo, e achar o novo portão de embarque. É impressionante a quantidade de “duty- frees” por onde passamos mesmo no embarque nacional.

Chegamos a Ilhéus. A pista do aeroporto é pequena. Dizem que ele fecha com certa frequência, especialmente, quando aparecem rajadas de ventos. O centro da cidade fica numa ilha. Estamos no hotel Ilhéus, que fica em frente à catedral de São Sebastião. A igreja tem uma escadaria e “Os Gigantes” será apresentado lá. Comemos uma moqueca baiana no restaurante “Vesúvio”, que ficou famoso pelo romance “Gabriela cravo e canela”, de Jorge Amado. Era a bodega do Nacib, o amante de Gabriela. Com a pança cheia, a solução é fazer a digestão caminhando pelas ruas do centro da cidade. Visitamos a casa onde morou Jorge Amado. A guia nos diz que seu pai chegou a ganhar na loteria e ter bastante dinheiro, mas que perdeu tudo por ser um “mão aberta”, que emprestava para os outros e não sabia cobrar de volta. A Bahia tende sempre para uma folclórica auto-exaltação. Tudo aqui parece mais pitoresco, típico e engraçado. É um lugar simpático, mas dá a impressão de muito improviso. Improviso demais.

O centro de Ilhéus tem prédios muito interessantes, mas é tão desleixado e mal cuidado. Uma pena! As construções se misturam e se acumulam. Prevalece a lógica do caixote e do puxadinho e belos casarões se misturam com horrendas construções, sem o menor critério estético. O alto da cidade é dominado pela bonita igreja da Nossa Senhora da Piedade, um convento fundado pelas Irmãs Ursulinas. Ao lado do convento fica a majestosa casa do Bispo, hoje em ruínas. Fomos conhecer também o teatro municipal da cidade, que está em obras e fechado há quase dois anos. Foi, segundo o simpático e falante vigia, interditado depois do acidente da boite Kiss no sul do Brasil.

 

09/09, quarta

Visita ao terreiro de Mãe Ilza Mukalê, um dos mais tradicionais no culto da nação angola. O ipê foi fundado em 1.885 e D. Ilza é a quarta geração do candomblé. Ela é filha de Matamba Tombenci Neto, que é quem dá o nome ao terreiro. Jogo de búzios e recomendação de banhos de limpeza e de descarrego. O que mais me atrai nas religiões africanas é a conexão íntima com os elementos da natureza. Existe uma leveza e uma soltura que contrasta com a tristeza e a sisudez das religiões monoteístas, sempre acusatórias e punitivas. Mãe Ilza é um doce de pessoa, cheia de vitalidade.

Almoço com Rogério Matos, nosso produtor e membro do “Teatro Popular de Ilhéus”. No restaurante, encontramos com uma amiga sua que é delegada. A polícia local acaba de fazer uma apreensão de uma tonelada de maconha. A moça, bastante falante, diz que é totalmente favorável à  liberação para o consumo próprio do usuário. Ela nos diz que está cansada de ter que fazer expediente para prender e autuar gente que foi presa com um baseado no bolso. Como em todos os lugares do Brasil, das grandes, passando pelas médias e chegando às pequenas cidades, o grande flagelo é o consumo de crack. Em Ilhéus não é diferente. O centro está cheio de gente esmolambada, com uma magreza de Biafra, os corpos destruídos, os olhares sulcados, a expressão de alucinados. Nossa amiga delegada nos diz que foi o crack que transformou, de fato, a questão da droga num problema de segurança pública no país. Acompanhando a montagem está uma mulher que tem vinte e poucos anos e uma aparência de sessenta. Vinte anos, cinco filhos e devastada pelo crack. As perspectivas são sombrias.

Longuíssimo ensaio de som no simpático circo do “Teatro Popular de Ilhéus”. A lona está montada na beira da praia. O grupo já teve sua sede num casarão no centro da cidade. Acabaram despejados do lugar, onde hoje funciona uma loja de roupas. A manutenção do espaço é feita a duríssimas penas. Falta estrutura de banheiros, os livros estão dispostos numa biblioteca improvisada, mas o espaço tem alma.

Após a apresentação do “De Tempo Somos”, faço um rápido debate com o público. Um ônibus com estudantes de teatro veio da universidade de Jequié. Duas professoras trazem um grupo de trinta alunos. Existe brilho nos olhos desses jovens. Um brilho que se apagou definitivamente dos olhares dos desesperados que perambulam pelas ruas, devastados pelo crack.

 

 

10/09, quinta

Carros de som, inclusive um com a propaganda das peças do Galpão, circulam incessantemente pela cidade, criando uma insuportável poluição sonora. O volume é de deixar qualquer cristão alucinado.

Mais ensaios pela manhã para deixarmos Fernanda um pouco mais tranquila para assumir o posto de Ilse. O processo de substituição foi muito fácil, especialmente, pelo empenho e a disciplina da nossa atriz.

Visito o Bataclan, o bordel que tinha uma conexão secreta com o bar Vesúvio. Dizem que, enquanto as esposas iam para a missa, os homens ficavam no bar e de lá, por uma passagem secreta, se divertiam no Bataclan. As más línguas informam que o padre sempre esticava as missas, para que os senhores pudessem ter mais tempo e tranquilidade para a diversão. Ilhéus é cheia de lojas que vendem chocolate. Não sei se virou tradição, mas hoje, quinta-feira, teve uma missa enorme, que foi das 11h às 13h30. Do meu quarto, fico escutando os cantos religiosos entoados pelos fiéis.

Não nos sobra alternativa senão fritar no sol, fazendo aquecimento de voz, equalização dos microfones e ensaiando algumas cenas com os objetos de cena. A brisa do mar traz um cheiro de mangue e de esgoto, que chega a embaralhar o estômago. Transeuntes param e tiram fotos. O espetáculo  está marcado  para as 18h, mas é certo que teremos que atrasar. É impossível afinar a luz com esse tempo exíguo de escuro. Dez para as seis e a escadaria da catedral e as cadeiras já estão tomadas. Um largo espaço de chão ainda está vazio. A imensa maioria da plateia é composta de jovens. Um grupo de atores da cidade de Serra Grande está montando “Romeu e Julieta”, baseado na versão do Galpão. Teuda encontra uma amiga de Santo Antonio do Leite, de Minas.

Estreias de Fernanda fazendo o papel de Ilse e Fabinho pilotando a mesa de som. É claro que o espetáculo apresenta alguns probleminhas de operação e passagens de cenas truncadas. Fernanda se sai muito bem. Temos um público de aproximadamente 800 pessoas que assiste ao espetáculo com muita atenção e em absoluto silêncio. Todos já demonstram cansaço e parecem exauridos  de tantas apresentações, ensaios, testes de som, entrevistas, chegadas e partidas, viagens de van, ônibus e aviões. Só em 2015 serão vinte e quatro cidades em 102 apresentações. A idade e a passagem do tempo vão apresentando a conta. Há alguns anos ainda fazíamos excursões de uma média de três semanas. Hoje acho difícil suportarmos mais de duas semanas direto. Os atores e os técnicos reclamam de dores e contusões. O encontro com grandes públicos, na média entre setecentas e mil pessoas, em lugares abertos, são experiências extenuantes. Ao final do espetáculo, a adrenalina só começa a baixar depois de um bom tempo.

 

Assisto, num bar pé sujo, a vitória do Flamengo sobre o Cruzeiro. Todos vibram com os dois gols. A Bahia é rubro negra.

 

11/09

Viagem para Salvador. Somos recebidos no aeroporto pela simpática Fernanda, nossa produtora local. No caminho do aeroporto até ao hotel, nota-se como a cidade está lotada de obras, especialmente, o horripilante trem de superfície, que parece mais um viaduto encaixotado, enfeando terrivelmente a paisagem. A construção já foi alvo de escândalos e muitos boatos.

Salvador está apinhada de favelas e de construções precárias que se avolumam numa organização caótica. Acho que, pela primeira vez nessa viagem terei, de fato, uma tarde de folga. Aproveito para caminhar pelo Campo Grande e ir, pela Sete de setembro, até a praça Castro Alves, onde fica o simpático cine Glauber Rocha. Na livraria do cinema, compro “Americanah”, livro da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. A indicação me foi dada pelo livreiro, enquanto eu lhe indagava sobre um livro de outra escritora, a sul-africana branca Nadine Gordimer e sua obra “O melhor tempo é o presente”.

Assisto ao filme “Quando será que ela volta”, de Anna Muylaert, que foi escolhido como candidato brasileiro para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro. O filme é bem feito e traz uma boa opção à encruzilhada do cinema nacional, dividido entre filmes muito conceituais e cabeças de um lado, e de outro, pelo comercial idiota e televisivo. A produção é dos Gullane e tem no elenco o Michael Joseas que fez o menino de “O ano em que meus pais saíram de férias”. O trabalho dos atores é muito bom, especialmente o da Regina Casé.

A noite ainda reserva a abertura do FILTE – Festival latino-americano de teatro de Salvador, com o espetáculo “Fishman”, dos amigos do teatro Bagaceira, de Fortaleza. Na entrada do teatro, baianas a caráter servem abarás para os espectadores. O festival se mantém na base da resistência e, infelizmente, por questões contratuais, nossos espetáculos não puderam ser inseridos dentro da sua programação.

 

 

12/09, sábado

Os técnicos penam para entrar com a carga no labiríntico espaço do SESC Pelourinho. São muitas escadas e o caminhão tem dificuldades para entrar na área protegida pelo patrimônio histórico. Nas ladeiras, em frente ao Espaço cultural Jorge Amado, soam os tambores numa cantilena turística, que parece meio superficial. Um totem de Michael Jackson pendurado na sacada de um casarão nos indica o lugar onde o ídolo pop regeu o batuque do Olodum. A axé music, as roupas coloridas, a malemolência e os sorrisos estampados parecem querer te lembrar o tempo todo: “Sorria, você está na Bahia!”

Em contraponto a isso, se o turista quiser conhecer o Centro cultural da casa do Benin, no Pelourinho, ele não pode, porque o espaço está fechado em pleno sábado. Todos dizem que o espaço dedicado ao Benin é um dos pontos altos da cultura afro na Bahia. A maioria dos escravos que vieram para a Bahia era do Benin. É uma pena que não me sobre tempo para visitar o ipê de Mãe Estela, assim como o museu de Pierre Verger. A Bahia é um lugar incrível, mas prefere sempre ficar exaltando a superficialidade de sua cultura.

Antes do aquecimento e da preparação para o espetáculo, faço uma visita técnica com a produção, até o parque dos Namorados, na praia da Pituba, onde faremos os “Gigantes”. A viagem é longa e percorremos um longo trecho pela costa da cidade, do mercado Modelo, passando pelo Farol, a Ondina, o Rio Vermelho, até chegar à Pituba. A natureza é de uma beleza de tirar o fôlego, mas a ocupação humana é desleixada e algumas construções e prédios nos fazem morrer de raiva.

Teatro lotado e público vibrando com “De Tempo Somos”. A fórmula do espetáculo é infalível e conquista as pessoas desde as primeiras canções. Ao final, aplausos entusiasmados e pessoas fazendo fila para nos cumprimentar. Esperando a van que vai nos levar ao hotel, acabo entrando num bar pé sujo em pleno Pelourinho. O quadro é apavorantemente assustador – um cantor banguela e desafinado toca um violão rachado, acompanhado por um gaitista bêbado e fora do ritmo e da melodia. Rastafaris na iminência da mendigagem riem e aplaudem. No interior do bar, pessoas gordas com shorts curtos deixam suas enormes panças à mostra, enquanto tomam cerveja. Um carro de polícia monta guarda com suas luzes piscantes. Parecem tentar controlar um barril de pólvora social, que está prestes a explodir a qualquer momento.

 

13/09, domingo

Domingo de parada gay em Salvador. O desfile e a concentração vão sair do Campo Grande. O dia é de sol escaldante. Notícia ruim para os nossos técnicos que passarão o dia torrando na montagem ao ar livre. O espetáculo será à beira da praia, numa área bastante devassada, numa praça desprovida de árvores. Fico me perguntando até que ponto essas paradas só não reforçam o preconceito contra os que fizeram determinada opção sexual ou de gênero, tachando-os de alegres e/ou extravagantes. Mas esse é um assunto tão envolto em radicalismos e posições exacerbadas, que é melhor passar ao largo. O certo é que Malafaia devia mesmo é sentar na rôla, como diria Batalha, para não ficar enchendo o saco. E também se tantos enrustidos se assumissem de uma vez, o mundo poderia ser um pouco menos careta, aborrecido e intransigente. E, certamente, com menos pregação divina.

Nossa montagem acabou perturbando o dia dos skatistas que passam o dia fazendo manobras no parque dos Namorados. Mesmo assim, eles permanecem, fazendo seus saltos e piruetas arriscadas, na lateral do cenário. Cinco e meia, faz um pôr de sol deslumbrante na praia da Pituba e as arquibancadas e cadeiras da arena já estão completamente tomadas. A classe teatral de Salvador está presente em peso. Começamos o espetáculo e o público acompanha cada cena em silêncio e com atenção. A mesa de som enlouquece e a programação das cenas se perde. Fábio é obrigado a deixar um dispositivo padrão e operar na mão todas as entradas de instrumentos e de detalhes de cena a cena. Os atrasos são inevitáveis, especialmente, porque a mesa não é analógica.

A tensão do espetáculo cresce e é preciso bastante calma e respiração para manter o jogo e a atmosfera das cenas. A cada nova cena surge uma suspensão que possibilita os ajustes de instrumentos e de intensidades vocais. A tecnologia  é boa, mas só quando funciona. Quando destrambelha, é uma encrenca só. Ficamos à mercê, como os pilotos de avião que, hoje, são comandados pela máquina e seus dispositivos.

 

14/09

Saímos cedo do hotel em direção ao aeroporto. Trânsito intenso, agitação de começo de semana. As pessoas caminham como autômatos nas ruas e se aboletam em ônibus, apinhados de gente. Fim da turnê, hora de passar alguns dias em casa.

 

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