->Diário de bordo Nordeste 10

Duas apresentações de “Pequenos Milagres” no teatro Dix-huit Rosado, o teatro municipal de Mossoró. O nome do teatro é uma homenagem ao décimo- oitavo filho da família dos Rosado, uma das conhecidas das oligarquias do Estado do Rio Grande do norte. O teatro é um brinco, muito bem cuidado e com dimensões muito boas, especialmente na relação do palco com a platéia. Deve ter uma capacidade para uns quinhentos espectadores e tudo é muito bem cuidado, dos camarins à técnica e a administração.
É incrível que Mossoró tenha três teatros funcionando e tanta gente envolvida em eventos cívico-culturais que são patrocinados pela prefeitura. A cidade parece ter uma vocação cultural muito desenvolvida. É uma pena que os grupos dependam tanto das iniciativas do poder público e que essas, por sua vez, fiquem amarradas numa postura paternalista, que muitas vezes impede que os grupos caminhem com suas próprias pernas. Durante o encontro com os artistas locais, um dos temas mais discutidos foi até que ponto as ações públicas não amarravam a autonomia e o desenvolvimento dos grupos locais. É claro que as pessoas têm de se livrar dessa postura nociva de auto-indulgência com a própria realidade local do fazer teatral, arregaçar as mangas e correr atrás de saídas e soluções. Aqui mesmo no Rio Grande do Norte, temos bons exemplos de experiências que estão dando bons frutos e encontrando alternativas de sobrevivência, como é o caso de grupos como “Clowns de Shakespeare”, “Estandarte” e “Tarará”, que agora mesmo está fazendo apresentações num teatro do Rio.
Nosas primeira apresentação da tarde contou com alunos de escolas, a maioria na faixa dos seus onze-doze anos. O teatro estava longe de ficar lotado. Foi uma apresentação beneficiente para escolas e instituições ligadas a projetos sociais da Petrobras em Mossoró. A cidade, além de produzir quase 95 por cento do sal do Brasil, é a segunda maior produtora na extração de petróleo em terra. Dá para sentir a ação da Petrobras na economia da cidade e sua dinamização da vida social e cultural.
A segunda sessão contou com um público excelente e uma platéia extremamente atenta e que, ao final,se mostrou emocionada. Muita gente veio de Natal para não perder a oportunidade de assistir ao “Pequenos Milagres”. Ao final, muitos grupos de teatro de Natal e de Mossoró vieram nos procurar e conversar um pouco. Tudo acaba ficando muito corrido porque precisamos fechar os baús e dar sequência à jornada, dessa feita em direção a Natal. Recebemos também o poeta e cordelista Antonio Francisco, que amavelmente nos presenciou com dois livros e um CD. É mais um material que recebo e que está na minha lista de coisas a serem lidas, como as peças do dramaturgo Fernando Lira, que conhecemos no festival de Guaramiranga.
Apesar do cansaço e da falta de tempo para dar a devida atenção às pessoas que nos procuram, temos podido atestar nesses encontros e conversas, a vitalidade da cultura popular, e particularmente dos grupos jovens de teatro, no Nordeste.É muita gente querendo produzir alguma coisa e, mesmo que aos trancos e barrancos, dando vazão à sua criatividade.

3 Respostas para “Diário de bordo Nordeste 10”

  1. Foi simplesmente impecavel,eu tive o prazer de ver as duas apresentações e fiquei maravilhada,e lendo o comentário fiquei mais feliz ainda por terem gostado da nossa cidade,e é bastante sério quando citou:”É uma pena que os grupos dependam tanto das iniciativas do poder público e que essas, por sua vez, fiquem amarradas numa postura paternalista, que muitas vezes impede que os grupos caminhem com suas próprias pernas”,é a pura verdade,existem muitos atores que com o passar dos anos se encontram acomodados,não buscam,não fazem laboratorios,só esperam o patrocinio de entidades,está surgindo um projeto o qual estou a frente com outros atores ,para a recuperação de um espaço teatral,que esta abandonado,e muitos grupos de teatros estam dando as costas para nós,dizem que não vai dar certo,quando deveriam lutar junto,e esse espaço foi feito para eles “os atores mais antigos da cidade” e agora a nova classe artística jovem,estamos tentando trasforma em um espaço cultural,para dança,música,teatro,cinema…e iremos em frente!
    Espero que voltem em breve,e passando por Minas iremos por ai.
    ah gostaria de deixar um abraço para a Lydia,uma pessoa muito gentil,que converçei um pouco sobre o oficío de atriz onde me ajudou muito,para a formações de algumas decisões.

  2. Eu nunca tinha tido oportunidade de assistir um grande espetáculo, como o “Pequenos Milagres”, e em seguida o “Moliére Imaginário”, simplesmente me apaixonei. Eu faço teatro desde os sete anos de idade aqui no Rio Grande do Norte, e devido à uma falta de interesse até mesmo intelectual da população, algumas coisas que nos pertecem estão sendo perdidas. Tenho 18 anos, e decidi que vai ser teatro que vou fazer pelo resto da vida, uma decisão difícil quando vive-se aqui, não tenho apoio (pelo menos moral) nenhum de familiares. Queria muito saber como a família de cada um de vocês enxergou essa decisão no começo.

  3. Mais de um ano depois que postei um comentário aqui, volto e me espanto com tamanha diferença em senso crítico depois de pouco tempo. As respostas que eu pedia acima me foram apresentadas aos poucos, e ainda ri da gafe gramatical: “Eu nunca tinha tido oportunidade”… (morrendo de vergonha lendo isso, risos.) Me pergunto até se alguém já leu isso (e imagino).
    Num dá pra apagar mesmo e
    hahahahaha

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