->Diário de bordo Nordeste 12

João Pessoa, última parada da nossa turnê. Chegamos à cidade na tarde de sexta. Ficamos hospedados na simpática praia do Tambaú, que tem uma brisa consoladora e um contorno livre dos arranha-céus. A cidade foi palco de uma das apresentações mais desastrosas do Galpão há uns cinco anos atrás.Viemos para uma feira de manifestações artísticas populares, no enorme galpão do centro de Arte e Cultura. O espaço é exatamente o mesmo que abriga o teatro Paulo Pontes, onde apresentaremos “Pequenos Milagres”. Na ocasião, fomos vítimas daqueles eventos em que acontecem milhares de coisas ao mesmo tempo e que ninguém presta atenção em nada. São eventos em que os shows musicais acabam sempre levando a melhor sobre as apresentações teatrais. Foi um dos grandes “micos” por que passou o Galpão. Comparáveis a esse, que me lembro, só uma apresentação de “Romeu e Julieta” para funcionários da Cenibra, em que o público simplesmente abandonou a apresentação no meio quando da chegada dos ônibus da empresa que transportavam os funcionários para suas casas. Outro estrondoso fiasco que me recordo, foi a apresentação de “Molière” para um congresso de médicos,no hotel Ourominas.A apresentação foi marcada no mesmo horário da recepção. Resultado:acho que umas quinze pessoas se dignaram a assistir ao espetáculo.
Bom, mas deixando de lado os fiascos a que sempre estamos sujeitos, fiquei um pouco preocupado ao entrar no teatro Paulo Pontes. O espaço reservado ao público é estranho. As cadeiras da platéia parecem mais espreguiçadeiras de praia. O teatro é enorme , com mais de 800 lugares e uma disposição de lugares em que as filas da metade para o final ficam muito distantes do palco. O teatro também não está muito bem preservado. Fomos abrir os baús de figurinos e panos de cenário do “Molière”, molhados no dia anterior, pela chuva que desabou sobre Natal ao final da nossa apresentação, e além de encontrar os figurinos começando a exalar um cheiro de môfo, tivemos que enfrentar o mesmo cheiro nas dependências do teatro.E, pior, uma das ameaças mais terríveis desses locais públicos com pouco manutenção – um ar condicionado com um cheiro típico de coisa guardada e proliferadora de ácaros e outras substâncias pouco recomendáveis à saúde.
À noite, encontro com os artistas e grupos da cidade para um bate-papo. Compareceram os velhos amigos do grupo “Piolin”, além de uma moçada mais nova da cidade, como o “Alphenins” e o Grupo “Sertão”. A discussão mostrou-se madura e girou mais sobre processos artísticos do que sobre lamentações de más políticas culturais e dificuldades estruturais. Oque é ótimo e bem mais estimulante.
No dia seguinte, nos esmeramos para vencer os desafios do espaço do teatro. Paulo de Moraes já havia nos alertado sobre a necessidade de usar microfones suspensos. Além disso, procuramos puxar o cenário mais para frente e ao mesmo tempo reduzir o espaço da encenação para não perder as varas de luz. A cena ficou mais concentrada, o que ajudou no jogo entre os atores. A voz também chegou bem e a reação da paltéia foi muito estimulante. Tivemos mais de 500 pessoas em cada um dos dois espetáculos.Superamos bem as adversidades do espaço e saímos aliviados pelo resultado que, de certa maneira, nos redimia um pouco da a apresentação de cinco anos atrás.
No sábado, tentei visitar o museu dedicado a José Lins do Rêgo, paraibano e um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, que teve sua obra de certa forma diminuida por uma certa crítica que insiste em classificá-lo como regionalista.. Como toda a classificação, reducionista e quase sempre injusta. Na minha modesta opinião, com pelo menos dois gigantes do romance brasileiro que são Zé Lins e Graciliano Ramos. Um paraibano e outro, alagoano. Não pude deixar de lembrar também do velho Zé Lins do Rêgo, torcedor fanático do Flamengo, ao passear pelas ruas de João Pessoa coalhadas de torcedores com a camisa do clube, depois de sua vitória contra o Sport de Recife.Como diria o Ruy Castro, o Flamengo é de fato um elemento de integração nacional, com torcedores que se espalham pelos cinco cantos do Brasil. Mas, voltando ao museu, ele estava simplesmente fechado, e isso em pleno sábado à tarde, dia perfeito para se visitar um museu.
Domingo aproveitamos para passear na mata do Buraquinho, um dos pulmões de João Pessoa. A cidade, aliás, conta com uma área verde muito surpreendente, além de uma política de proteção das falésias e um certo controle da verticalização de construções, especialmente na beira-mar.Outra visita que nos surpreendeu foi o teatro e o espaço cultural do grupo Piolin. Eles ocuparam três casarões de um velho engenho, que na época funcionava como oficina mecânica. A área é vizinha a um parque zoobotânico, com uma bela mata e os rugidos de um leão, que cria uma sonoplastia bastante sugestiva para o espaço.Quando o grupo começou as escavações na casa do engenho para construir a área cênica do teatro, acabou encontrando uma série de objetos como louças inglêsas, pratarias, ossos, etc., que hoje fazem parte de uma exposição no foyer de entrada do pequeno auditório da casa de cima. O espaço é belíssimo, mas conta com problemas estruturais como falta de tratamento acústico, acesso, um problema de segurança e também uma grande quantidade de muriçocas que infestam o lugar ao final da tarde. Esperemos que eles consigam firmar o lugar como uma referência da cultura da cidade. Além das apresentações, o pessoal do “Piolin ” desenvolve ali, oficinas ligadas a teatro e a circo. No domingo, uma turma da escola foi ao teatro nos assistir.

Uma Resposta para “Diário de bordo Nordeste 12”

  1. olá, pessoas do galpão! sou aquela garotinha furtiva de montes claros, “aquela” que tirou fotos e queria subir com vocês pra viver o resto da vida fazendo teatro. “aquela”, dentre tantas e tantas outras milhares de fãs.
    fiquei sabendo hoje que estão aqui em montes claros, e espero poder vê-los novamente. mas se não for o caso [já que sou extremamente ocupada], sinto-me feliz apenas por saber que vocês têm um blog [adoro. não sabia]. e virei sempre, sempre que puder, claro, deixar um “alô”. parabéns.

    manuh

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