->Diário de bordo Nordeste 9

Estou adorando Mossoró. Mudei completamente a minha opinião sobre a cidade. Da primeira e última vez que estive aqui foi tão rápido que não tive a mínima oportunidade de conhecer a cidade. Minha única e frustrada tentativa de fazer turismo foi uma ida a um zoológico da cidade que estava fechada porque os bichos estavam infestados de piolhos.Estava com a Bárbara, minha filha, e foi uma enorme frustração, termos de voltar do nosso passeio debaixo de um sol escaldante que nos deixou vermelhos como pimentões.
Hoje decidi dar uma caminhada por Mossoró durante o breve tempo que me restava entre o almoço e a hora do debate com os artistas da cidade. Fiquei surprêso com a existência de três teatros bem razoáveis, um sebo e uma livraria bem simpáticos e casas e ruas razoavelmente bem cuidadas, além de um bulevar de bares e um parque para crianças. Esse mesmo bulevar, espécie de corredor cultural criado nos últimos anos, se tornou uma área de convivência social muito simpática, com bares, espaços para exposições, um museu na antiga estação da estrada de ferro e campos de futebol e áreas para a prática de esportes.
As atividades culturais da cidade estão bastante centradas em eventos organizados pela prefeitura local e que são representações de acontecimentos relevantes de Mossoró.São básicamente três eventos que acontecem a partir de junho. A comemoração da vitória da cidade sobre o bando de Lampião ( em 13 de junho), o auto de Santa Luzia e o Auto da Liberdade, que celebra além da vitória sobre o bando de cangaceiros de Lampião, a figura de Ana Joaquina, uma mulher que mobilizou um panelaço na cidade para impedir a ida dos soldados para a guerra do Paraguai (em 1875), a abolição da escravatura que teria acontecido antes em Mossoró ( 1883) e a luta de outra heroína local, Celina Guimarães, em 1934, pelo direito ao voto feminino.
Depois do debate, fico sabendo que quem está na cidade é João Marcelino, exatamente para dirigir o próximo Auto da liberdade, que estréia no próximo dia 28 de setembro. João é um velho conhecido, que tem trabalhado com o Paulo de Moraes e o Armazem desde a época de “A ratoeira é o Gato”, além de grupos como Imbuaça, Estandarte e outros. É uma pessoa queridíssima e um artista de primeira. Além de diretor, é cenógrafo e figurinista dos raros.
Vamos visitá-lo e acertamos de assistir a um ensaio geral da sua encenação do Auto. Assim que chegamos ao galpão do Colégio Nassau, temos uma idéia mais precisa da grandiosidade do evento. Em dois galpões enormes, estão espalhados diversos carros alegóricos. Num outro galpão, João e mais uns cinco ou seis assistentes vão orientando mais de quinhentas pessoas entre atores,bailarinos, adolescentes de bairros e comunidades distantes e crianças para as marcas do gigantesco espetáculo. O auto será apresentado numa enorme área, nesse mesmo bulevar aqui citado e onde estão construídas duas arquibancadas bem altas para disposição dos coros. O público esperado é de dez mil pessoas. E o mais bonito é perceber a alegria com que os jovens e as crianças se entregam ao trabalho. A história é toda musicada, com os atores e os coros dublando uma música gravada. A composição musical é Danilo Guanais, um músico e compositor muito bom de Natal, que tive a oportunidade de conhecer durante o processo de criação do “Muito Barulho por quase nada” com os “Clowns de Shakespeare”. E o texto ( talvez fosse mais conveniente chamar de libreto) é de autoria de Joaquim Crispiano Neto.
Foi ótimo conhecer um pouco essa grande festa cívica e teatral de Mossoró. E, claro, reencontrar nosso velho amigo de tantas jornadas, João Marcelino.

Uma Resposta para “Diário de bordo Nordeste 9”

  1. Só faltou uma ofícina para os atores!
    “adorei o comentário,curtil bem a cidade,e foi um preente para todos que estavam no encontro”

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