->DIÁRIO DE BORDO: O ator e diretor Eduardo Moreira descreve o dia a dia da turnê do Galpão por cidades do interior de Minas e, a estreia, em São Paulo, do espetáculo “De Tempos Somos”.

08/06

Viagem na noite de domingo para Barbacena. O trecho percorrido está em obras. O que mais chama a atenção é a construção de áreas de cobrança de pedágio. Nossa última incursão pela Zona da Mata foi com “Um homem é um homem” que percorreu cidades como Carandaí, Barbacena e Viçosa.

Nosso hotel fica bem na praça central. A primeira coisa que chama a atenção na cidade é o traçado de suas ruas que parecem amontoadas com construções que se acumulam sem planejamento. A cidade ainda conserva belos casarões que se espremem diante de uma sucessão de imóveis, aparentemente abandonados, mal construídos e sem a menor preocupação estética. A beleza, nos dias de hoje, perdeu definitivamente espaço para o utilitarismo.

A “Cidade das Rosas” transformou-se em um verdadeiro deserto de árvores. Com exceção de umas poucas árvores frondosas, que resistem na praça central, as ruas não têm sequer uma árvore plantada. Triste realidade de várias outras cidades, como também é o caso de Uberlândia. Caminhando em direção ao espaço onde nos apresentaremos, a estação “Ponto de Partida”, a paisagem se altera radicalmente. Um simpático bairro de casas e uma vila militar despontam. Em volta, uma mata vistosa resiste e nos acalenta um pouco as vistas. Aos poucos, a cidade se humaniza e percebemos o cuidado com as propriedades privadas, ao contrário dos logradouros públicos, que sempre dão a impressão de uma terra de ninguém, onde não se zela por nada, como em tantas outras cidades.

O espaço do grupo “Ponto de Partida” é maravilhoso. Antiga fábrica de seda, o centro cultural ocupa uma Alameda com três casarões vistosos e bem cuidados. No primeiro fica a escola de música, “Bituca”, que é um centro de referência do ensino e da difusão musical em Minas. O segundo casarão é a sede do grupo, com três salões no andar de baixo e uma grande sala de ensaio no segundo andar. Na entrada, vemos uma exposição dos figurinos e dos objetos de cena do espetáculo “Grande Sertão Veredas”, criados pelo Álvaro Apocalypse. A estação ainda tem um terceiro casarão, quase já todo reformado e que será ocupado pelo projeto da “Casa do Saber”, com uma biblioteca e um café abertos ao público e à comunidade.

O trabalho do “Ponto de Partida” é um modelo a ser seguido pelo poder de mobilização que o grupo exerce junto à comunidade de Barbacena. A escola está cheia de alunos jovens e a reforma do espaço é feita através de doações e permutas com empresários da região. As pedras que compõem o piso da Alameda central e os mármores que revestem os banheiros vêm dos restos que sobraram de uma fábrica da cidade vizinha de Barroso. Chama a atenção o mobiliário mineiro requintado que decora os cômodos. Tudo aqui é um brinco. Dá gosto trabalhar numa sala com piso de madeira e com um enorme janelão com vista para uma linda mata. Os jardins foram projetados pelo Instituto Inhotim e são cuidadosamente mantidos pelo Renato, um dos atores do “Ponto”. O café é servido numa grande mesa de madeira. Tudo é tão caprichado que não dá vontade de sair mais dali.

Enquanto Lydia e os técnicos ajustam o palco na área exterior do jardim, onde nos apresentaremos à noite, Júlio, Toninho e eu ministramos uma oficina para os atores do grupo. É bonito ver pessoas que amadureceram e que convivem com uma geração mais nova de atores, que renovam as energias do grupo.

Os quinhentos ingressos da apresentação se esgotam em menos de quatro horas. Existe uma lista de espera de mais de duzentas pessoas. Os números atestam o prestígio do Galpão e, especialmente, a capacidade de mobilização do “Ponto de Partida” na cidade. O frio é grande e o sereno da noite intenso. Testemunhar a construção de um espaço cultural desse porte e intensidade, levado a cabo por um grupo de teatro, nos enche de esperanças e expectativas.

 

09/06

Sete da manhã e já estamos na estrada rumo à Juiz de Fora. Nossas apresentações estão agendadas para acontecerem no “Centro Cultural Bernardo Mascarenhas”, antiga fábrica de tecidos, incrustada bem no centro da cidade. Juiz de Fora, a Manchester mineira. Lembro-me dos anos de 1970, quando passávamos por dentro da cidade em direção ao Rio ou à Belo Horizonte. A viagem durava oito horas e, naquele tempo, a passagem por Juiz de Fora ainda era uma interminável sucessão de quebra-molas.

Caminhar pelo centro de Juiz de Fora, por meio de suas antigas galerias foi como voltar ao passado. Alguns comércios mais antigos ainda resistem ao tempo: lojas de costureiras, relojoeiros, cafés e sapateiros. O tradicional restaurante “Faisão de Ouro” fechou as portas. É triste saber também que, há anos, o teatro Central está fechado. Aqui também vamos nos apresentar em uma pequena sala, com capacidade para duzentos espectadores. Se o fechamento da livraria “Mineriana”, em Belo Horizonte, foi um baque terrível, o recente anúncio do final da “Leonardo da Vinci”, no centro do Rio, foi um golpe mortal. Não consigo achar uma livraria pelas ruas do centro de Juiz de Fora.

A sensação que tenho é que o espírito das trevas avança. Em meio às montanhas de blockbusters, best-sellers, bancas de revistas, apinhadas de matérias de fofocas sobre celebridades e, jornais pingando sangue, que alimentam diariamente um estranho sentimento de pânico e de prazer mórbido nas pessoas. Seguimos… Hoje o jornal “Tribuna da Imprensa” traz uma matéria grande, de capa, sobre a estreia do Galpão. Ontem aconteceu um crime bárbaro de um adolescente que foi morto no centro, numa briga entre gangues. O fato virou um alvoroço e os jornais venderam feito água. Foi impossível adquirir um exemplar nas bancas para ver a nossa matéria. A violência, a morbidez da crueldade e as notícias ruins vendem jornal.

Tomo um café num balcão de uma das galerias incrustradas bem ao lado do teatro Central, quando sou cumprimentado por um senhor com brinco na orelha. Ele me pergunta se está tudo pronto no teatro. Digo que sim e pergunto se ele vai nos assistir. Com o avanço da conversa, fico sabendo que ele é o Paulo Arbelaz, responsável pelo figurino do espetáculo “De Olhos fechados”, a segunda peça do grupo, que estreou em 1983. Ele foi amigo e companheiro de FAFICH do Marcão que, nos primórdios do grupo, nos ajudou na produção dos espetáculos.

Arbelaz comenta que a irmã da Teuda é quem costurava as roupas para nós e como era precária a estrutura de produção do grupo. Ele escreveu um trabalho de doutorado sobre o figurino de “A rua da amargura”. Atualmente, trabalha no centro cultural Murilo Mendes. Eu adoraria visitá-lo, mas não foi possível porque um setor administrativo da Universidade está em greve. Coincidências e acasos da vida: um fortuito café e um encontro com alguém que trabalhou com o Galpão, há 32 anos.

Teatro apinhado de gente. Pouca presença de atores e artistas. O movimento teatral parece meio adormecido na cidade. Tenho notícias de que o teatro “Divulgação”, do Zé Luís está com um espetáculo infantil em cartaz nos finais de semana. A companhia completará cinquenta anos em 2016. Fico pensando no Galpão com cinquenta anos e não consigo me afastar de uma sensação de pavor. Não há saída: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Vamos em frente.

 

10/06

Bate-papo com alunos, professores e educadores. Falamos sobre a história do Galpão. Sinto falta de encontrar com atores que estejam em atividade na cidade. A plateia é simpática, mas pouco participativa. Aproveito para divagar em histórias sobre a vida de Molière, Tchékhov e Shakespeare. Boas histórias do mundo do teatro.

À tarde, fazemos uma reunião por Skype com Kênia Dias, visando uma oficina dentro da próxima montagem, com o diretor Márcio Abreu. É difícil girar o disco. O cansaço das apresentações começa a aparecer e, colocar a cabeça em outro projeto, requer muita concentração e esforço.

A passagem de som dá lugar a um ensaio, em que algumas dinâmicas são pontuadas e melhor ensaiadas. A apresentação está com a lotação esgotada. A plateia está visivelmente mais quente. Há muita gente do teatro. Ao final, aplausos entusiasmados e um bis. Terminada a apresentação, desmontagem junto com mais um debate para falar do Galpão (é o terceiro, em Juiz de Fora!).

Dez e meia da noite. Como um salgado meio requentado num boteco pé sujo próximo ao hotel e termino o dia com uma cerveja na solidão do quarto 1101, do hotel César Park. Amanhã, partimos para São Paulo. A van vem nos apanhar no hotel às quatro e meia da manhã.

 

11/06

Périplo de doze horas para irmos de Juiz de Fora para São Paulo. Talvez tivesse sido melhor usar como transporte, uma boa bicicleta ou uma charrete. Aeroporto fechado por conta da neblina. Atraso de uma hora e meia no voo para Belo Horizonte. Quando estávamos apertando os cintos de segurança e travando as mesinhas para a decolagem em direção à Congonhas, o computador detectou uma falha no sistema elétrico. Espera de mais quarenta minutos dentro do avião. Em seguida, retorno para o saguão do aeroporto. Duas horas de espera e, finalmente, o voo para Congonhas. Saímos às quatro e meia da manhã de Juiz de Fora e chegamos às cinco da tarde no nosso hotel, no bairro do Paraíso (SP). Isso sem nenhum tipo de justificativa, lanche ou gentileza por parte da companhia aérea.

Caminho pelas ruas da grande metrópole. As pessoas correm apressadas. Como em Londres, o lado esquerdo das escadas rolantes, deve ficar liberado para os que caminham com o tempo marcado. Não há espaço para os flâneurs. Ninguém olha para ninguém. Todos estão entocados em seus fones de ouvido e digitam, furiosamente, suas telinhas de celulares. Estamos no centro financeiro do mundo, do consumismo, da pressa, dos murais, das tribos contemporâneas, esteiras rolantes correm diante dos anúncios estampados em outdoors animados à la Blade Runner e, acima de tudo, atestamos uma grande solidão. Ninguém presta atenção em ninguém. Cada um vive encastelado em seu próprio mundo digitalizado.

 

12/06

Dia de estreia. Os jornais da cidade dão destaque a estreias de outras produções. Exceto pelos anúncios contratados pela programação do SESC, não existe nada sobre nosso espetáculo. Fico pensando se o Galpão se transformou numa coisa sem grandes atrativos para uma mídia que se alimenta de uma constante quimera chamada “novidade”. A cidade parece tão acumulada de atrações culturais, que ninguém mais presta atenção em nada. Os cadernos com roteiros culturais dos finais de semanas são gordos e cheios de anúncios e a cidade está apinhada de stand-ups e musicais importados. São as peças que parecem ter mais patrocínio e público porque têm espaços de anúncios maiores. A indústria cultural do entretenimento domina.

O teatro em Santana é distante, o que acaba por afastar um pouco o público, mas a estrutura do SESC se impõe e é impecável. A estreia nos permite encontrar com velhos amigos da cidade, além de muitos mineiros que vivem por aqui e vêm matar as saudades. Ao final do espetáculo, muitos falam da cronologia das próprias vidas, a partir de algumas canções de trabalhos do Galpão, que marcaram momentos de suas vidas. É inevitável encontrar um ou outro que começou a fazer teatro por ter assistido a determinado espetáculo do grupo.

Madrugada de sexta para sábado. A metrópole não para nunca. Nas ruas próximas ao hotel, no bairro do Vergueiro (SP), o trânsito de veículos é incessante. Hora de começar mais uma temporada na cidade, que me traz lembranças tão marcantes. A Paulicéia Desvairada pulsa e encanta. Hora de dormir que ninguém é de ferro. E, amanhã, tem mais!

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