->DIÁRIO DE BORDO: PIRANDELLO CHEGA AO TOCANTINS

Coerente com sua trajetória de apresentações e de turnês que sempre buscam atender regiões alijadas dos chamados “circuitos culturais” do país, o Galpão acaba de retornar de uma temporada, com apresentações de seu último espetáculo, “Os gigantes da montanha”, pela região da bacia do rio Tocantins, abarcando cinco cidades dos Estados de Tocantins, Maranhão e Pará. Em 11 dias de viagem, o Galpão celebrou o encontro da última obra de Pirandello com espectadores ávidos e que, em sua grande maioria, jamais haviam assistido a um espetáculo de teatro, nas cidades de Palmas, Araguaína, Imperatriz, Açailândia e Belém.

18/09

O Brasil é um país onde tudo fica centralizado. Estou a bordo de um voo que saiu de Aracaju. Preciso ir para Palmas, em Tocantins, primeiro destino de nossa turnê. A rota possível de cumprir o percurso é ter que descer até o Rio de Janeiro, daí viajar até Brasília e, só então, pegar um terceiro avião para a capital de Tocantins. Mais de cinco horas de voo num percurso que poderia ser feito em duas horas.

Viajei a Aracaju para assistir a estreia do espetáculo “Assim nasce um santo…” do grupo “Boca de Cena”. O grupo está promovendo um festival que é todo desenvolvido no bairro do Bugio, uma zona periférica da cidade, onde o “Boca de cena” tem sua sede. Eu escrevi o texto para eles, numa mistura de automedieval, Gil Vicente, e literatura de cordel. O grupo consegue uma comunicação muito efetiva com o público. As pessoas simples do bairro se divertem com as idiossincrasias e trejeitos do personagem do Diabo em disputa com o Anjo Gabriel, acerca da posse da alma do líder religioso João de Camargos, negro ex-escravo, que criou uma igreja e uma seita religiosa no século XIX, na região de Sorocaba, interior de São Paulo.

O “Boca de Cena” é cria dos nossos queridos amigos do grupo “Imbuaça”. Completa nove anos de existência este ano e consegue mostrar uma articulação muito forte com a comunidade do bairro onde estão sediados. O festival, intitulado “Blitz cultural” tem uma divulgação muito expressiva, inclusive com chamadas na principal emissora de TV da cidade. Além de assistir ao espetáculo, ministrei uma oficina de três horas para atores de diferentes grupos da cidade. O encontro me possibilitou trabalhar com os atores do “Boca” e também de outros artistas da cidade. Alguns atores de outro grupo da cidade – o “Stultifera navis” – também estavam presentes. O grupo possui uma sede própria, no centro da cidade e vem desenvolvendo um programa de encontros e festivais. Certamente é mais um dos legados do importante trabalho de 37 anos desenvolvido pelos Imbuaças.

E, por falar em “Imbuaça”, o grupo também tem uma bela sede aqui em Aracaju e realiza uma oficina com jovens atores, dirigida por Lindolfo. Cenas dos principais autores do teatro são estudadas e representadas pelos jovens atores. Atualmente eles estão encarando as falas de Hamlet de Shakespeare. O “Imbuaça” é um dos grupos que esteve junto ao Galpão na criação do Movimento de teatro de grupo, que foi um marco da organização de grupos de teatro no Brasil, na década de oitenta.

Assim, apesar de todas as dificuldades, o teatro se move e sobrevive na cidade. Grupos se articulam e desenvolvem projetos de intercâmbio e de atividades junto às comunidades. Fim do trabalho, visitei o belo “Museu da gente sergipana” à beira do rio Sergipe, no centro da cidade e, em seguida, almoço no simpático restaurante “Arcabouço”, no mercado de Aracaju.

 

19/09

Chegada a Tocantins. O Estado nasceu da divisão de Goiás. Palmas é uma cidade planejada, criada em 1989. As distâncias são bem grandes e o caminho do aeroporto ao hotel está cheio de largas avenidas. Construída nos moldes de Brasília, com amplos lugares vazios, a cidade obedece à lógica pragmática das construções de caixote. Fico pensando no dinheiro que se empenhou para construir uma cidade tão espalhada e tão pouco ocupada. De dia, o sol é tão inclemente, que fica difícil percorrer suas longas distâncias. Ontem foi impossível encontrar uma única farmácia.

Nossa agenda está bem cheia. O dia começa com entrevistas para as televisões locais. Nossa divulgadora pede desculpas pelo fato dos repórteres não conhecerem bem o trabalho do Galpão. Nada mais natural. Na seqüência, umas 30 pessoas estão presentes para ouvirem falarmos sobre a história do grupo. É incrível como muitas delas dizem que o Galpão foi e é uma referência. Algumas já assistiram a espetáculos do grupo em Brasília, Goiânia e Rio de Janeiro. Os vídeos sobre teatro de rua, distribuídos pelo INACEN, ao longo da década de oitenta, foram amplamente mostrados e discutidos entre os grupos do interior mais profundo do Brasil. Por incrível que pareça, acho que isso contribui muito para a referência que as pessoas têm do trabalho do Galpão. Na carência absoluta de informações e de contatos em que vivem grande parte dos grupos, ações educativas como distribuição de vídeos desse tipo, acabam sendo vitais para que os artistas possam, aos trancos e barrancos, ter acesso a uma cultura e uma prática teatral.

As contínuas viagens do grupo, privilegiando regiões que estão fora do circuito cultural, também são um fator para estimular a empatia que nasce entre as pessoas e o trabalho do Galpão. A plateia, em sua grande maioria, composta por professores e alunos de teatro, mostra-se agradecida pelo fato de estarmos aqui, circulando por uma região normalmente tão esquecida.

A apresentação está marcada para o centro cultural, no meio da praça do Jacaré, que tem uma enorme escultura de pedra, com um formato do réptil. O camarim está montado num estranho vão metálico erguido, no meio de uma paisagem um tanto desoladora. No horizonte, desponta uma esdrúxula réplica verde da estátua da Liberdade, revelando nossa macaquice diante de um símbolo que não tem nada a ver conosco e com nossa cultura. Alguns pés de jambu – árvore também conhecida como azeitona do norte -, situados no fundo do cenário, ajudam a amenizar a fúria do sol. A passagem do som se arrasta sonolentamente. A temperatura elevada nos impõe um ritmo mais lento. Mil cadeiras estão espalhadas pelo espaço da plateia, fazendo com que algumas fileiras fiquem muito distantes do cenário. Será que teremos tanto público? Para nossa primeira visita, fica a dúvida, ainda que a receptividade ao encontro da manhã tenha sido superior às nossas expectativas.

Oito e meia da noite. Os últimos detalhes de maquiagem e de figurinos vão sendo arranjados e chega Helvécio anunciado que as cadeiras já estão quase todas tomadas. A notícia nos deixa mais aliviados. Acho que vamos passar no teste de Palmas. Talvez a parceria e a divulgação junto à universidade do Tocantins tenham dado bons frutos. Nove e dez. Toninho esquece de colocar o microfone e somos obrigados a atrasar mais um pouco o início. Já na primeira música, aplausos entusiasmados. Toda a apresentação transcorre na mais absoluta atenção do público, que acompanha o espetáculo com inteligência e no mais absoluto silêncio. O resultado é surpreendente sob todos os aspectos. Pirandello chega ao Tocantins.

 

20/09

Oficina e ensaio aberto para alunos e professores de Artes Cênicas da UFT (Universidade Federal do Tocantins). Experimentamos pela primeira vez abrir um processo de ensaio para que interessados possam testemunhar. Lydia, Julio e Toninho dão alguns jogos e exercícios para os alunos na primeira parte do trabalho. Na última hora e meia do encontro, os oito atores do “Pocket musical” chegam e começamos fazendo um aquecimento vocal.  Quase 50 pessoas assistem. Na sequência, ensaiamos uma fusão de músicas numa passagem do espetáculo, em palmas rítmicas, fazendo a transição entre as canções. O ritmo, além de muito básico, continua frouxo. O ensaio ainda poderia se arrastar por um bom tempo, mas as horas avançam e só nos resta pararmos e apresentarmos a primeira parte da peça. A apresentação sai dentro do esperado, com algumas correções e comentários que ajudam a caracterizar o espírito de um mero ensaio. Ao final, aplausos entusiasmados e generosos. Um rápido debate e é hora de correr para arrumar as malas no hotel, comer e partir para Araguaina, ainda em Tocantins.

Pegamos o retão da Belém – Brasília. A estrada é quase que exclusivamente ocupada por caminhões. O rastro das queimadas está por toda a parte e a secura junto à claridade do sol castigam as vistas. Quase 400 quilômetros precisam ser percorridos e a estrada não permite grandes velocidades. Nessas viagens pelo país tenho sempre a sensação de um desperdício desenfreado de nossas fontes naturais. A região de Palmas é cercada de lagos (chamados de “praias”) que se originaram do represamento do rio Tocantins. A cidade tem árvores que ainda não cresceram suficientemente. Ao final do espetáculo, um rastro triste de lixo foi deixado para trás pelo público. Ainda temos um longo caminho de educação e de conscientização para atingirmos um grau mínimo de civilidade. Isso se reflete na nossa relação com a natureza, as matas, as águas, todos os recursos naturais. A impressão nítida que temos percorrido a vastidão da rodovia é que a terra está secando drasticamente e logo, logo os recursos tenderão a escassear. E, pior ainda, ninguém parece efetivamente se preocupar muito com esse estado. Enquanto isso, carros de som com jingles assustadores fazem propaganda de políticos nem um pouco confiáveis. Será que o teatro pode contribuir, ainda que de forma ínfima, para lutar contra esse estado de insensatez que parece entorpecer a humanidade? Queremos acreditar que sim. Ou, talvez, não nos reste outra alternativa a não ser acreditar que sim, podemos e devemos fazer algo. Agir em prol de uma sensibilização das pessoas, fruto do contato com a poesia e a imaginação da ficção. Lutar contra o estado de brutalidade do ser humano que apenas sobrevive e não consegue enxergar um palmo além da escravizante necessidade de sobreviver.

 

21/09

Estamos em Araguaína. A cidade é compacta, meio decadente, sem árvores e com ruas estreitas. Fundada há 45 anos, tem o aspecto de uma terra de ninguém, como se aqueles que aqui vivem não pertencessem a esse lugar. Pela manhã fazemos um encontro com estudantes da Universidade Federal de Tocantins. Eles nos dizem que a população daqui foi formada por gente que migrou principalmente do Piauí, Maranhão e Pará. Os retirantes da esperança, numa espécie de Eldorado numa das fronteiras do Brasil. Aqui não existe escola de artes cênicas e nosso público é composto de jovens de seus 20 anos, estudantes de turismo, literatura e engenheiaria. A qualidade das perguntas e das questões levantadas é interessante, fugindo das especificidades    das plateias iniciadas.

Como a companhia de Ilse dos “Gigantes” de Pirandello, dormimos nas estrebarias. O hotel é da fundação de Araguaína e sua construção lembra um presídio. O que incomoda num hotel ruim é, especialmente, a sujeira. A cidade é quente de um calor que tira todas as nossas forças. Não há outra saída a não ser ficar entocado num quarto com ar condicionado. Os restaurantes que frequentamos parecem pouco asseados. Há uma miscigenação de tipos humanos, que é estranha e bela, numa mistura de negros, mulatos, cafuzos, mamelucos, brancos. O Brasil nos assusta e encanta. Um calor avassalador, uma sujeira que se espalha por todos os cantos, uma exuberância de árvores e frutas, um povo simpático, curioso e acolhedor e alheio a toda essa falta de organização e de estrutura.

Nossa apresentação está marcada para a praça São luiz Orione, às 21h, de domingo. O horário não parece muito apropriado, mas vem de uma exigência da igreja, para que o espetáculo não interfira na dinâmica das missas. O padre não se mostra muito simpático à arte. As precárias condições de nossa hospedagem criam um misto de sentimento de revolta e de chacota entre os atores. Todos fazem piadas e alguns ficam sinceramente deprimidos. A precariedade torna-se inevitável e é impossível controlar a qualidade do apoio que vai surgir das prefeituras e das secretarias dessas cidades do interior de Tocantins. Hotéis e restaurantes de permuta quase sempre se tornam inevitáveis e armadilhas necessárias.

Vinte e uma horas e a praça está apinhada de gente. As mil cadeiras estão ocupadas e as laterais estão tomadas de pessoas de pé. Na música de abertura a plateia fica coberta por flashes de celulares. J, o colunista social da cidade, atraído por nossas atrizes globais, está com seu I-phone na primeira fila, enviando torpedos. Um grupo de teatro da cidade, com seus componentes uniformizados, trouxeram uma câmera e coletam depoimentos da nossa equipe. A hora avançada e a complexidade da trama da peça acabam dispersando uma boa parte da plateia. As pessoas parecem reagir com um misto de encantamento e de apatia.

Meia noite e meia e a filha de onze anos de um dos carregadores diz que quer ir embora com Inês e com Teuda. Diz que queria ter um “celular de maçãzinha” (I-phone) e quem sabe está sonhando com uma carreira na rede Globo.

 

22/09

O café da manhã do hotel não foi suficiente para a quantidade de hóspedes. É hora de partirmos para Imperatriz e começar a etapa do Maranhão da nossa viagem. São mais trezentos quilômetros em direção ao norte. Na fronteira de Tocantins com o novo Estado, uma enorme represa gera energia hidrelétrica das águas do rio Tapajós. A cidade se divide entre Arturnópolis, do lado de Tocantins e Esteio, no lado do Maranhão. A estrada é rodeada de torres de linha de transmissão de energia e de queimadas. Algumas vilas mais antigas à beira da estrada ainda guardam uma  certa graça, com barracas de frutas e árvores já crescidas e cadeiras dispostas do lado de fora das casas. Já os centros maiores são de uma feiura apavorante, com casas e galpões que se empilham uns sobre os outros, sem o menor critério de planejamento e de bem estar.

Das barracas improvisadas voltamos para os palácios de mármore. Chegamos a Imperatriz e nosso hotel é bastante chique. Ele pertence a um shopping que foi inaugurado há dois anos na cidade e que está apoiando a nossa apresentação. O espetáculo acontecerá no estacionamento externo da enorme construção. Estamos em Imperatriz, na divisa dos Estados de Tocantins e do Maranhão, na cidade em cuja entrada existe um portal anunciando que aqui é a entrada da Amazônia. Só que andar num shopping center é como estar em qualquer lugar do mundo. As pessoas insistem em se enquadrar num clichê como se tivessem vergonha de si mesmas, de suas identidades.

Noite dedicada ao encontro com grupos e artistas da cidade. O bate-papo acontece numa sala de cinema que acaba de ser aberta como centro cultural. Também está localizada num outro shopping center. Depois de uma breve exposição sobre a história e as principais características da trajetória do Galpão e a exposição do vídeo com cenas dos espetáculos, abrimos a conversa para o público. A pequena sala está lotada, com mais de 80 pessoas. Vários grupos da cidade estão representados. A primeira fala começa com um queixa de uma professora e diretora de teatro, que lamenta que aquele encontro aconteça naquela sala e não no teatro Ferreira Gullar, o único que existe na cidade. A segunda queixa é o fato da nossa apresentação acontecer num shopping center e não na região da beira do rio, onde nasceu a cidade de Imperatriz e onde há um simpático templo dedicado a Santa Tereza de Ávila, que é a padroeira da cidade. Os sete grupos da cidade parecem viver rixas inconciliáveis. É impressionante como a classe teatral consegue viver e se alimentar de pequenas picuinhas e veleidades inúteis. Vivemos olhando para o nosso próprio rabo enquanto a vida nos atropela. Percebe-se claramente uma facção alfinetando a outra em determinadas falas. Guardando as devidas proporções, não creio que haja grandes diferenças num encontro da classe teatral em Belo Horizonte, Rio, São Paulo ou Nova York.

O dia termina com festa no caminhão do Bagre, que está estacionado na área externa do shopping.

 

23/09

Acordamos cedo para poder dar um mergulho no rio Tocantins. As praias começam a ficar alagadas pela enchente do rio. A represa de Esteio, quando aberta, faz com que o nível das águas suba de uma hora para a outra. Os ribeirinhos estão em fase de desmonte das barracas que ficam na beirada do rio. Terminado o período da seca, tudo será alagado, num ciclo de eterno retorno da natureza. Na área em que pegamos o barco, existe um bairro extremamente pobre que, praticamente todos os verões, é alagado pelo Tocantins na época das chuvas. A cena assim se repete todos os anos: as pessoas deixam suas casas miseráveis, recebem uma indenização miserável do poder público e logo, em seguida, voltam para o mesmo local. E assim segue a vida do brasileiro, sem maiores ambições, vivendo de um biscate daqui, um bolsa família dali e uma indenização de acolá.

O rio é generoso. A temperatura de suas águas, temperada. Apesar de todo esse volume de águas, boa parte da cidade não tem água tratada e rede de saneamento básico. Algumas pessoas se referem ao Maranhão como a Sarneylândia. Pela manhã, vamos às entrevistas agendadas para as televisões locais. A Mirante da Globo pertence à família Sarney, a Difusora do SBT pertence à família de Édson Lobão. O ciclo se fecha e é difícil pensarmos em saídas mais diversas e críticas para a nossa precária democracia social. No almoço, vamos a uma tradicional peixaria da cidade para saborear uma moqueca do peixe conhecido como filhote, acompanhada com o delicioso arroz de cuchá.

À tarde, começa a chover. O calor alivia, mas a preocupação agora passa a ser a realização do espetáculo. Na enorme área do estacionamento, nosso cenário parece acanhado e triste diante da chuva que insiste em cair. Já bem próximo do horário previsto, o tempo firma e quinze minutos antes das oito, as 1.000 cadeiras já estão tomadas. Oito e cinco e nos dirigimos para o cenário, onde todas as laterais estão apinhadas de gente e a entrada do shopping tem um grupo grande de pessoas que assistem.

O público assiste com atenção e no mais absoluto silêncio a fábula de Pirandello. A nave de sonhos composta pelas mesas de nossa cenário parece suspender o tempo e criar um vácuo de delírio e de imaginação naquele templo árido de consumo. O mundo daquelas pessoas e de todos nós parece entrar num outro registro. A magia do teatro se instaura e logo desaparece num piscar de olhos. Hora de tirar fotos com as pessoas do público. Depois, limpar a maquiagem, recolher os figurinos, arrumar baús e colocá-los na carreta do Bagre que seguirá para nosso próximo destino, a cidade de Açailândia, segunda cidade do Maranhão de nossa turnê.

Como ninguém é de ferro, terminamos a noite na beira do rio Tocantins, tomando a cerveja Tijuca de Belém e comendo iscas de peixe.

 

24/09

Pausa para a reflexão numa manhã de folga no hotel. As mulheres se dedicam à academia de fitness. Os homens ficam mais recolhidos. O dia de hoje está reservado para uma viagem de 65 quilômetros e a apresentação em Açailândia, nossa segunda cidade maranhense da turnê. Estivemos na cidade em 2001, quando fizemos uma excursão por cidades que eram e são rota de atividade da Vale do Rio Doce. A viagem na época incluiu Carajás, Marabá, Açailândia e São Luis. O que mais nos impressionou nessa primeira visita foi o esgoto correndo livre pelas ruas. O quadro de miséria era assustador. Hoje, entrando na cidade, percebe-se que ela se modernizou. As ruas ganharam pavimentação. O comércio cresceu, tudo parece mais urbanizado. O centro continua bem feio, com uma profusão alucinante de anúncios e de propagandas. O barulho dos carros de som é ensurdecedor. Chegamos ao hotel que está a uma quadra do local da apresentação. A praça do Pioneiro foi o local escolhido, bem no centro da cidade. A praça tem uma decoração kitsch, com esculturas de árvores cortadas que formam canteiros, bancos e dão contorno a uma fonte, com a água horrivelmente suja.

Nosso camarim foi montado numa escola pública situada na rua paralela à praça. Cartazes sobre a corrupção e as drogas estão afixados nas paredes de nosso camarim improvisado. Percebe-se que existe um cuidado e um amor àquilo que é feito pelos professores e pela direção da escola. Com toda a falta de apoio, existe uma dignidade dos educadores e dos responsáveis pela educação no Brasil, que me comove. Há que ter idealismo para encarar a dura realidade das escolas e do magistério no Brasil. Enquanto toco clarinete na rua, um músico da igreja se aproxima e diz que toca clarim. Ele quer assistir ao espetáculo, mas vai chegar um pouco atrasado porque tem aula de inglês e precisa se aprimorar na língua para tentar um mestrado. Meninos uniformizados se aproximam de Inês para tirar fotos. A passagem de som cria um rebuliço na praça, fazendo uma espécie de divulgação “avant l’espectacle”. Lydia pede que refaçamos algumas partes dos diálogos que saíram um pouco ralentados na apresentação anterior. O trabalho do teatro é inacabável. Uma TV chega solicitando entrevistas. Há um clima de curiosidade no semblante das pessoas que passam pela praça.

Vinte horas. A praça está lotada e as imediações do cenário e das cadeiras reservadas ao público estão cercadas de barracas que vendem cervejas, sanduíches, cachorro quente e pipoca. O espaço transformou-se numa verdadeira quermesse. Calculamos em aproximadamente três mil as pessoas que estão em volta do espetáculo, uma multidão ruidosa que fala alto e bebe. O centro da plateia está bem atento, mas o ruído da periferia interfere. É preciso segurar a ansiedade e não cair na armadilha de querer falar mais alto e acabar gritando. O calor é intenso e estamos no limite das nossas forças. Ao final, muitas fotos e o sorriso agradecido das pessoas que parecem não estar acreditando que foram contempladas com aquele teatro.

Desmontagem ao som de uma dupla sertaneja que canta num bar da praça e de jogo do Flamengo, no quiosque de cerveja. No meio de rubro negros e poucos vascaínos torcendo contra, assistimos ao empate com o São Paulo.

 

25/09

Encontro e bate-papo com atores e alguns interessados em Açailândia. O local é a escola pública “Carrosel”. Estamos na cidade com menor população da turnê e o número de participantes é pequeno. Estão presentes grupos de dança e de folclore. Eles nos relatam sua realidade e falam que a cidade está com muitos casos de doenças pulmonares causadas pela poluição das siderúrgicas da região. Aqui vivem cerca de 35 mil habitantes. Ao contrário de Imperatriz, não existe um sentido de comunidade entre as pessoas. Parece uma cidade de forasteiros que vieram ganhar a vida e não reconhecem no lugar sua identidade. Por aqui passa a ferrovia Norte-sul que escoa a produção de minério da Vale até o porto próximo a São Luis. Todos dizem que ficaram emocionados em ver a cidade toda mobilizada pela apresentação. É uma espécie de vitória também para eles que são os representantes do teatro junto à comunidade. Açailândia não tem teatro e as perspectivas de um dia chegar a ter, parecem remotas. Sua fundação foi feita a menos de quarenta anos e deixou um rastro de destruição das madeireiras.

À tarde vamos tomar um banho de rio numa espécie de balneário com uma construção árida, tomada de cimento e com um telhado de zinco pavoroso. No meio da área represada e cimentada do rio, mesas e cadeiras são dispostas. Como não poderia deixar de ser, uma enorme televisão domina o lugar central do galpão de zinco onde funciona o restaurante. Tudo ali parece atentar contra o desfrute e o contato com a natureza.

No caminho de volta, vemos enormes siderurgias rodeadas por casebres miseráveis. A atividade extrativista no Brasil gera um entorno de pobreza assustadora. Crianças sem camisa e descalças exibem seus corpos esquálidos e suas barrigas estufadas. Um triste contraponto às escolas públicas simples e bem cuidadas que encontramos em nossa breve estadia na cidade.

Hora de deixar Açailândia e rumar em direção ao aeroporto de Imperatriz, onde pegaremos o voo para Belém, última etapa do nosso périplo. Antes de entrar na van que nos levará ao nosso destino, respondo um questionário de onze perguntas de um jornal do Pará. Ao entrarmos no avião somos surpreendidos com uma pane no APU, um sistema que aciona o funcionamento da aeronave. Somos obrigados a sair do avião e, diante de um relato um tanto titubeante do comandante, algumas pessoas começam a ficar apavoradas e desistem de viajar. Alguns atores reforçam a dose de gotas de Rivotril. O clima fica tenso e alguns passageiros começam a brigar com a tripulação. Depois de uma espera sobressaltada no saguão, somos novamente chamados a ocupar o avião. Quando parece que, finalmente, a aeronave vai decolar, o comandante avisa que a tripulação já excedeu sua carga de trabalho diário e que se qualquer imprevisto acontecer, ele pode ser até preso. Uma passageira atrás do nosso banco, jura que vai partir a cara do piloto. Agora não existe mais alternativa e a perspectiva é de pegarmos um ônibus fretado pela Azul que, provavelmente, levará no mínimo dez horas de viagem até Belém. Mais de 700 quilômetros terão que ser percorridos. Outras possibilidades são levantadas: alugar um carro até Marabá, no Pará e de lá, tentar um outro voo para Belém. Cancelar o espetáculo do dia seguinte, trocando por uma apresentação extra no domingo. Um passageiro que fez um transplante, uma mulher com um cachorro e um bebê e alguns velhos cansados pelo peso da idade, nos fazem pensar que nossa situação ainda é branda. Mesmo assim, Arildo está amuado e, certamente, deve estar rezando um terço em latim. Depois de muita briga, atropelos, discussões, a empresa comunica que uma outra tripulação será deslocada para a cidade e que eles abrirão um voo às 7h45 da manhã do dia seguinte. O desfecho é comunicado depois das três da manhã e não nos resta outra alternativa senão esticar cangas e travesseiros e dormir no chão do aeroporto. O quadro é desolador e enquanto escrevo essas mal traçadas linhas, estamos na expectativa de conseguir ou não fazer a primeira apresentação em Belém, que está programada para essa sexta, dia 26.

 

26/09

Chegamos a Belém!!! Ninguém teve muita disposição para ficar tenso no voo. Acho que todos passaram os quarenta minutos dormindo. Chegamos e vamos direto para o hotel, que está situado na presidente Vargas, quase em frente à praça da República, bem no centro da cidade. Agora é correr contra o tempo e dormir algumas horas para estar pronto para o espetáculo da noite. Acordo por volta do meio dia e corro para um programa de entrevista na TV Cultura. Esperando a hora de entrar no estúdio, assisto a vinte minutos de um programa ótimo sobre a cidade de Bragança, que produz uma farinha famosa no Pará. A TV pública do Pará dá de dez na de Minas. Aqui parece que realmente existe uma Tv pública preocupada em divulgar a cultura local, coisa que nunca se concretizou em Minas e que, nos últimos anos, foi definitivamente enterrada. Uma pena! O programa, chamado “Sem censura”, tem os mesmos moldes da TV Brasil, apresentado pela Leda Nagle e é ótimo. Promove um encontro com jornalistas bem informados e te dá tempo de responder questões inteligentes, sem aquela pressa neurótica das televisões comerciais. Um dos temas do programa, além do Galpão e dos “Gigantes” é o festival de Ópera que está se encerrando na cidade e que vai fechar com um concerto ao ar livre, em frente ao Teatro da Paz.

Saio do programa e o tempo fica apertado para almoçar e caminhar até a praça da Bandeira, onde apresentaremos. Como em todas as grandes cidades brasileiras, em Belém, as pessoas não recomendam caminhadas. Dizem que o risco de assaltos é muito grande. Os jornais da cidade ostentam manchetes dizendo que a população está sitiada pela violência. Logo fico entendendo que o jornal é do dono do candidato da oposição. Não que a miséria e a violência não estejam estampadas em cada esquina dos meus dez quarteirões percorridos, mas a imprensa gosta de pintar a realidade segundo os interesses de seus patrões. Aqui em Belém, ler os dois jornais principais é ver dois mundos absolutamente distintos. Como os canais de televisão, os maiores jornais estão nas mãos dos clãs políticos que se perpetuam no poder.

Final da tarde e o tempo muda. Começa a chover e as pessoas dizem que é melhor que caia logo um forte temporal para que a chuva passe. Ela estia e às 19h30, a praça já está com todas as cadeiras tomadas. Existe um clima de expectativa pela estreia do Galpão na cidade. É a primeira vez que o grupo vai se apresentar aqui. Quando estamos maquiados, aquecidos e fazendo os últimos ajustes de contrarregragem, a chuva despenca forte de novo. O público se dispersa, abrigando-se nas marquises em volta da praça. É preciso proteger principalmente a aparelhagem de som e os figurinos, instrumentos e objetos de cena. A correria de técnicos, atores e produção se alastra pelo espaço. A chuva vai e volta. O público volta, seca as cadeiras, logo em seguida, sai correndo de novo, fugindo de outra pancada d’água. Ficamos nessa labuta até às 21:45, quando nos demos por vencidos pelo temporal. Fica adiada nossa estreia em Belém.

A noite termina meio amuada com cerveja e farinha com pirarucu seco nos bares das docas, à beira da baía de Guama.

 

27/09

As docas é o projeto urbanístico que mais impulsionou o turismo em Belém. Os galpões do antigo porto da cidade, que fica ao lado do mercado do Ver o peso, foram transformadas em um enorme complexo de restaurantes e de lojas de artesanato e roupas. O lugar é muito simpático e faz parte de um esforço de abrir a cidade para o rio. Por mais estranho que pareça, Belém sempre deu as costas para o rio. Só mais recentemente, projetos como o das Docas e a abertura de uma avenida larga com pistas de corrida e aparelhos de ginástica chamada “portal da Amazônia” tem voltado a cidade para a baía. O projeto das docas, considerado muito chique, acabou criticado por uma esquerda da cidade, que o considera elitista e o denomina pejorativamente de “dondocas”, uma vez que ele é cercado e freqüentado exclusivamente pela elite da cidade e por turistas. A crítica me parece exagerada, ainda que seja mesmo estranha a separação que existe entre o Ver o peso (o mercado popular dos pobres) e as lojas e restaurantes das alamedas das docas. O aceso é vedado pelas grades de um sólido portão de grades. Coisas do nosso “apartheid” brasileiro, em que as elites fazem questão de estar o mais distante possível do povo.

A manhã está dedicada ao encontro com a classe teatral da cidade no teatro Waldermar Henrique, um tradicional reduto do teatro de Belém. Mais de cinquenta atores estão presentes. Fazemos um bate-papo, uma seqüência de exercícios teatrais e mostramos parte do nosso ensaio do novo trabalho. O encontro termina com a exibição do vídeo do Galpão e muitas fotos. Ciceroneados pelo simpático Marton Emaus, professor e diretor do grupo “Palhaços ambulantes”, fazemos uma visita ao teatro da Paz e à sede do grupo, próximos à praça da Republica. Daí seguimos para uma caldeirada de filhote (um dos peixes mais típicos da região) nas Docas e um rápido tour por alguns pontos turísticos do centro histórico de Belém. A cidade é uma joia que, como outras tantas no Brasil, o centro do Rio, Salvador e Recife, está com o casario caindo aos pedaços. É uma pena!

Chegamos um pouco mais cedo para fazer uma revisão nos figurinos e objetos de cena e os possíveis estragos causados pela chuva. Quatro da tarde e as nuvens ficam carregadas no céu. Começa a chover. É a famosa chuva diária de Belém. Os paraenses dizem que aqui chove todo o dia no verão e o dia todo no inverno. Ficamos na torcida de que a chuva caia de uma vez e vá embora. Os aplicativos de clima são controversos, mas em geral, apontam que a chuva deve durar até às dezoito horas. Dezessete e quinze e cai um forte temporal. O cenário está alagado. A tempestade é a senha para que o céu abra e uma lua do sorriso do gato de Alice desponte timidamente no horizonte. Corremos contra o tempo para arrumar os microfones, ajeitar os objetos de cena e tentar secar as mesas e o piso de cimento em volta do cenário. Finalmente sentimos que vai dar para estrear em Belém. O público começa a chegar timidamente. A praça da Bandeira, que é uma zona militar rodeada de prostíbulos e casas noturnas de má reputação, se enche de pessoas jovens e alternativas. Umas mil e quinhentas pessoas se espalham em frente e ao redor do cenário.

A apresentação se transforma num encontro pacífico e encantado de pessoas que esqueceram suas diferenças e ressentimentos por um breve período de tempo. Todos ali tornam-se iguais, na instauração de uma utopia em que se misturam estudantes, jovens de classe média, prostitutas, trabalhadores, gente simples e intelectuais e artistas, numa vibração que só a arte é capaz de promover. A cidade parece concretizar a sua verdadeira vocação de reunir as pessoas no espaço público e não de separá-las com muros, cercas e interdições. Lavamos a alma, ainda que por um tênue momento de uma única apresentação. A brisa sopra sobre a cidade e as pessoas parecem flanar mais leves entre as mangueiras da praça. Para nós também sopra uma lufada de alívio e de sensação do dever cumprido. Finalmente conseguimos realizar o sonho de nos apresentarmos em Belém, cidade que nunca havia sido visitada pelo Galpão, em seus 32 anos de existência.

 

28/09

Dia de descanso e de lazer. Visitamos a ilha do Combú, onde temos uma reserva no aprazível restaurante “Saldosa maloca”. Ainda temos tempo de assistir a um documentário sobre Marguerite Duras, a escritora e cineasta francesa, no famoso cinema Olympia, fundado em 1912. Ele é hoje o cinema de rua mais antigo do Brasil em funcionamento.

 

29/09

Compras de última hora no mercado do Ver o peso. O mercado é uma pérola da cultura popular brasileira e paraense, com uma enorme quantidade de barracas de comidas, artesanato, plantas e óleos medicinais, numa apoteose do nosso sincretismo cultural brasileiro, síntese do encontro da cultura indígena da Amazônia com nossas raízes africanas e europeias.

 

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