->Diário de Filmagem

Vai aí um breve diário dos dezoito dias de filmagens do documentário do Eduardo Coutinho, com direção teatral do Henrique Dias. Desculpem qualquer tropeço, uma vez que foi escrito no meio das insônias matinais do período, sem grandes revisões.

DIÁRIO DE FILMAGEM: 

Certo dia de julho, 

            Marcamos encontro no Galpão para um bate-papo com ninguém menos que João Moreira Salles e Eduardo Coutinho. Bela visita! O porta-voz do anúncio é o Arildo, que é amigo da Raquel, que trabalha na Videofilmes e na Revista Piauí, e que está sempre com o João e o Coutinho.

            Na velha mesa de reuniões do Galpão estamos sentados com os dois, que trazem a maravilhosa e surpreendente notícia de que o Coutinho quer documentar um processo de criação de uma peça de teatro. E que ele gostaria de fazer isso com os atores de um grupo como o Galpão. João, com sua simpatia de gentleman Moreira Salles, diz que Coutinho já não tem mais o que inventar e que seu próximo projeto de documentário só pode ser sobre o Homem Aranha ou algo similar

O simpático João tem que se retirar porque vai fazer uma palestra no lançamento do seu novo documentário – “Santiago”, sobre um mordomo que trabalhou por muitos anos na casa dos Moreira Salles, na Gávea.

A conversa prossegue com Coutinho que conta detalhe sobre o Edifício Máster. Perguntado se o que ele pretende é fazer um documentário sobre o processo de criação do Galpão, ele responde que isso seria um making-of, e que o que ele mais detesta na vida são os tais making-ofs, que são sempre falsos e auto celebratitivos.

Ele adianta que pretende fazer a primeira cena com o diretor entregando um texto para os atores. Só que nem o diretor nem os atores têm a menor idéia do que se trata o texto. Essa terá de ser a primeira regra do jogo. Ele, em seguida explica que hoje tem interesse em pesquisar o limite entre a ficção e a realidade, e que depois do advento do “Big Brother” é impossível fazer documentário. É essa distorção do que é real e do que é ficção, que o conduz de volta ao teatro, arte que ele há um longo tempo não acompanha e que conhece muito pouco do que se faz hoje.

Despedimo-nos com a promessa de nos encontrarmos na temporada do nosso espetáculo “Pequenos Milagres”, em setembro, no Rio. Será a oportunidade ideal não só para aprofundar um pouco as discussões, e também para que ele conheça melhor o nosso trabalho. Ele leva de presente alguns livros.

Setembro, no Rio 

Encontro na sede da Videofilmes, na Glória. João faz as honras da casa e retoma o assunto do documentário. A sala em que estamos reunidos é elegante e tem várias fotos do Garrincha. Dá para notar que a família Moreira Salles é botafoguense. Ninguém é perfeito!

 A discussão segue com a questão da direção. É a nossa vez de nos apresentarmos e nos colocarmos como um grupo de atores que trabalha com diferentes diretores. Não se fecha a questão de cara sobre uma opção por um convite a um diretor externo, mas fica combinado que vamos pensar em nomes e que na próxima reunião bateremos o martelo sobre quem convidar, e de que forma decidir a questão da direção. Mineiramente não se fala explicitamente em nome algum e nem mesmo se a possibilidade de uma direção interna está descartada.

Novo encontro na Videofilmes

            Apresentamos uma lista para o Coutinho. A lista é resultado de uma eleição em que cada um dos treze atores escolheu três candidatos. O campeão foi Henrique Dias, seguido pelo Aderbal Freire Filho e em terceiro lugar, o Paulo de Moraes. Alguns outros nomes também foram cogitados como Paulo José, Gabriel Villela, e o nome de uma mulher diretora, que teve a preferência dada à Maria Thays.

            Todo o processo de eleição foi feito ainda em Belo Horizonte, antes da vinda para o Rio. Coutinho escuta e fica matreiramente refletindo, sem emitir nenhuma opinião definitiva. Ficamos de pensar melhor, e tentar decidir o mais rapidamente o possível.

Outro dia de setembro, no Rio 

            Coutinho vai à estréia de “Pequenos Milagres”, no SESC Ginástico. Ele fuma dentro do teatro e logo chega um funcionário desesperado para apagar o possível incêndio. Impossível conversar. Muitos amigos, conhecidos, patrocinadores…

Copacabana, mais um encontro 

            Marcamos mais um encontro para um domingo, dia de espetáculo. Temos que nos reunir as três e terminar umas cinco, porque o espetáculo é às sete.

            Coutinho apresenta a idéia de chamar a Bia Lessa. A justificativa é que ele tem um conhecimento um pouco melhor do seu trabalho e da sua pessoa. O grupo aceita, como, aliás, não poderia deixar de ser. Alguns depois relutam, mas a maioria está mesmo a fim de viver uma experiência nova e reveladora, e não há motivos para desconfiar que Bia Lessa não vá permitir-nos isso. A impressão que temos é que ela está um pouco afastada do teatro, mas é uma diretora que já fez coisas importantes e tem se destacado na área de exposições e instalações. Ficamos combinados de promover um novo encontro, dessa vez com a própria Bia e o Coutinho para nos acertarmos.

Uma quinta-feira na Videofilmes, 

            Um mal entendido faz com que Bia Lessa e Coutinho, que estavam na sede da Videofilmes, na Glória, peguem um táxi para Copacabana, em direção ao SESC, onde estamos hospedados. O pior de tudo é que Julio ainda viu os dois entrando no táxi, porque nós, que tínhamos ido assistir à estréia do “Crime da atriz”, no cine Odeon, no centro, e por isso, chegamos bem mais cedo ao encontro, fazendo uma hora na pracinha da estátua do São Sebastião.

            O resultado é que perdemos uma hora e o nosso tempo de reunião será ínfimo. Formalidades sociais cumpridas, depois de uns doze anos, quando nos encontramos pela última vez, num festival de teatro para a infância e a adolescência, em Campinas, voltamos a  conversar com Bia Lessa. O ponto de partida é falar sobre o desafio do trabalho. Bia expõe sua crise com o teatro e o seu conceito de representação. O discurso é pertinente, ainda que seja meio batido. Ela sublinha que, ainda que pareça, ela nunca se distanciou do teatro e está o tempo todo pensando no em como abordá-lo. Já de cara, ela aponta para a necessidade de se chamar outros atores, com diferentes formações, para conseguir quebrar com as resistências e as defesas que ela sempre detecta em grupos que trabalham há muitos anos juntos.

            O discurso provoca reações negativas em algumas pessoas como Simone, que quer que o caráter de um documentário sobre a forma de trabalhar do Galpão fique resguardado. A conversa chega a ter certos momentos de tensão. Ao final, fica combinado que irá assistir-nos no teatro, para relembrar um pouco sua memória e conhecer melhor o trabalho do Galpão, que ele teria assistido pela última vez em “Romeu e Julieta” e na “Rua da Amargura”.

            A baixinha parece um foguete e, certamente, vai nos deixar completamente loucos. Bom, é esperar para ver.

Sede do Galpão, com Coutinho e Bia Lessa, 

            Novo encontro com a diretora, que não foi ver o espetáculo no Rio. Indagada de cara e cobrada pelo desinteresse em ver o trabalho dos atores com quem trabalhará, Bia responde na lata, que não quer ter nenhum tipo de conhecimento ou visão pré-concebida dos atores e suas formas de trabalhar. O tempo esquenta de novo. Simone confessa seu mau estar com a última reunião. Perguntamos claramente a Bia se ela, de fato, tem interesse em desenvolver um trabalho com o Galpão. Ela afirma que sim, e devolve a pergunta: nós temos interesse em trabalhar com ela¿ À reunião termina com um lanche. O pão de queijo acalma os ânimos.

Uma visita para checar a viabilidade do espaço, 

            Coutinho volta a Belo Horizonte, dessa vez acompanhada pela Valéria, técnica de som que trabalha com ele. Ele reafirma que não sabe direito que filme quer fazer, mas tem certeza de que um espaço vazio, que possa estar livre de uma platéia convencional seria fundamental. Ele acha que as dependências do Galpão Cine Horto seriam perfeitas para o projeto. A única dúvida que paira no ar é a questão da viabilidade acústica do local. Discutimos a execução de um projeto de isolamento de toda a área, inclusive com a construção de uma parede de tijolos, fechando a porta de trás do espaço. A preocupação é com a abertura de uma nova avenida que está sendo construída e que fará a ligação da Andradas com o Horto e adjacências. O fato é que não há como saber o nível de ruído que a nova avenida produzirá sobre o espaço, e isso preocupa bastante o Coutinho.

            Simone e eu ainda levamos Valéria e Coutinho para conhecer o Marzagão, o espaço do grupo Andante, onde filmamos o “Tricoteios”. Coutinho mal presta atenção no espaço onde, além de ser inviável qualquer tipo de obra, existe uma enormidade de ruídos e barulhos, que se sobressaem no meio do silêncio.

Vil metal, um detalhe importante. 

            Depois de uma primeira reunião em que estivemos Beto, Arildo e eu, na sede da Videofilmes, no Rio, quando se chega a uma apresentação de desejos e números projetados; voltamos a nos reunir no Galpão, para selar o acordo financeiro do projeto. Estamos na mesa, os mesmos do Galpão e o Maurício, produtor da Videofilmes e o Coutinho. Na hora de falar da bufunfa, aproveito o ensejo do Coutinho em não presenciar a discussão da matéria, e saio com ele para tomar um cafezinho e falar abobrinhas culturais. Ao final de uns quarenta minutos, saem da sala Beto e Maurício e tudo está devidamente acordado. Nada como tratar com gente decente e cordata como esse pessoal da Videofilmes. Fruto de um refinamento da família Moreira Salles.

Telefonema de Coutinho, no meio das férias, 

            Estou em Rio das Ostras, curtindo o balneário com programas infantis, quando recebo uma ligação da Beth Pessoa, produtora que acompanhará o projeto do filme, dizendo que o Coutinho precisa falar comigo. É uma terça-feira e Coutinho me conta que na sexta passada ficou pensando que o projeto iria por água abaixo. Motivo: impossível fechar com Bia Lessa que, pelo visto, fez exigências exageradas à produção. Além de mais atores, ela queria contratar um físico que acompanhasse o processo.

            Coutinho diz que foi rápido e direto no primeiro nome indicado na nossa lista. Resultado: o trabalho vai ser dirigido pelo Henrique Dias, que foi o nome mais votado na lista tríplice dos treze atores. Se Deus existisse, dir-se-ia que ele escreveu certo por linhas tortas.

Alguns telefonemas… Bem vindo Henrique! 

            Dou as boas vindas ao novo diretor. Ele está assustadíssimo. É pai pela segunda vez há apenas uma semana. Disse que só foi possível aceitar porque a Mariana, sua mulher e também atriz, insistiu para que ele fizesse o projeto de qualquer maneira. Fica combinado que a família toda virá para ficar em Belo Horizonte a partir da segunda semana. Corrida atrás de João Bosco, meu corretor, para arrumar uma casa de campo para a família.

14 de fevereiro. Chega à equipe do Rio. 

            Além do Henrique e Coutinho, vem seus assistentes a Bel Garcia da Cia dos atores e o Ernesto Picolo, que já acompanha o Coutinho pelo menos desde que ele fez o “Jogo de Cena”. Parece que ele é um assessor para assuntos de atuação junto ao Coutinho. Além deles, está na equipe como diretor de fotografia o Jacques Cheuiche, que trabalhou na gravação dos depoimentos do documentário da Kika, que foram feitos no Galpão, a Valéria Ferro, que é a técnica de som, o que, segundo dizem, são a obsessão do Coutinho, e mais uma série de pessoas ligadas à técnica de câmera como Albertinho, e mais uns dois ou três, que ainda não sei o nome direito, apesar de ter recebido uma lista com todos os componentes da equipe.

15 de fevereiro. Cine Horto em obras. 

            Chegamos Inês e eu, por volta das onze, no Cine Horto. As varas de luz estão abaixadas. Há uma grande confusão entre os técnicos. Coutinho está esparramado numa cadeira, pajeado por Ernesto Picolo, seu assistente, que traz um copo d’água e diz que ele não pode deixar de beber pelo menos três litros por dia. Beth está atrás de um aparelho respiratório. Ligo para o meu pai, para saber quem pode alugar o tal aparelho. Doenças respiratórias são bem familiares.

            Encontro com o velho Henrique Dias. Ele parece estar farejando o espaço e com a cabeça fazendo projetos a torto e à direita. Está conversando aqui, e seu olhar se desloca para o espaço lotado de fios, refletores, varas e gente trançando sem parar.  

Izabel Garcia, atriz da Companhia dos Atores também circula de um lado para o outro, tentando delimitar minimante um território por onde o trabalho deva começar. Encontro também com alguns velhos conhecidos do cinema, Juliano, Ronaldo. Vamos usar, além do material da Quanta, as câmeras do Juliano e do Marcão. Tudo será registrado em HD digital, o que significa que não teremos economia de material filmado. Melhor assim e não poderia ser de outra maneira, já que se trata de um projeto em que ao menos sabemos o nome da peça.

            A tarde está reservada para uma conversa com o elenco. Algumas instruções são passadas: Não usar roupa branca ou com listras, horário de trabalho, o que vai ser minimamente conversado no primeiro dia. Ficamos sabendo também que será impossível começar, com acreditávamos, amanhã, sábado, 16. Ajustes técnicos em geral, que vão desde o som até a adequação das reformas e da preparação da luz, impedem que o começo seja amanhã. O próprio horário de trabalho ainda fica na dependência de uma aprovação do nível de ruído do espaço. Teremos um fim-de-semana de descanso e de muita ansiedade.

18 de fevereiro, finalmente começamos! 

            É o grande momento de expectativa. A equipe técnica arma os detalhes de câmera, luz e cenário. Coutinho está sentado à mesa, conversando com Henrique Dias. Rodolfo e Chico chegam meio desconfiados, como se ainda não fizessem parte dessa equipe. Os atores chegando e se concentrando no camarim. Neco está alegre e animado. Está louco para ver o circo pegando fogo. A combinação é seguinte, talvez na única cena realmente marcada desse filme: Cotinho, Kike e Bel estão sentados na mesa e chamam os atores. É o momento em que ficaremos sabendo da peça com a qual trabalharemos.

            Pois bem, a cena é feita, e descobrimos que a peça escolhida é a velha “Três Irmãs” de Anton Tchekov. Ela é bastante conhecida pelo nosso diretor, que a montou num trabalho com Maria Padilha, Julia Lemmertz e outros atores. Acho que com um elenco de fora da Cia dos Atores. 

            Passado o susto, Coutinho fala um pouco do projeto e pede que cada um exponha sua opinião sobre o que foi proposto. Kike abre os trabalhos, abordando a questão do confronto que vai existir ao longo dessas três semanas. Confronto de ele – diretor com nós – atores, Confronto dele com o Cotinho, Confronto de todos nós com o universo e a obra de Tchekov. È um universo familiar ao diretor, e bastante distante para nós. O teatro do Galpão está a léguas e milhas de distância de um Tchekov. Ótimo! Vamos apanhar, e estamos aqui para isso mesmo.

            Feita essa primeira conversa, enfrentamos um primeiro longo intervalo. A técnica e a direção decidem que é preciso cortar nossa mesa de reuniões no centro para que as câmeras filmem a roda a partir do centro. Aproveitamos a longa pausa para dar uma rápida lida no primeiro ato da peça e algumas cartas trocadas entre Tchekov e membros do Teatro de Arte de Moscou, que estão no livro “Cotidiano de uma lenda”.

A proposta seguinte é de fazermos uma leitura do primeiro ato. A leitura, para variar sai truncada e sem as nuances de humor, melancolia, mediocridade da vida humana, que em seguida vão sendo levantadas pelo Kike. Como diz ele, uma leitura sem semitons, semínimas, sem diferentes pontos de vista e sem modos de discurso. Eu leio o personagem de Verchinin, o comandante militar que conheceu as três irmãs quando elas eram crianças, quando serviu o pai delas, o coronel Prosorov. Logo nas primeiras falas, Kike me interrompe, pedindo para que eu interprete menos. O personagem está muito cheio, é preciso esvaziá-lo um pouco. Ele fala o tempo todo de um discurso multi-temporal que perpassa os personagens. Uma hora está no passado, há treze anos, logo em seguida estão no presente, num discurso que é uma espécie de avalanche. O ator precisa estar atento para não fazer das palavras do autor uma coisa monocórdia, levada sempre pela toada da melancolia. Ele fala da difícil herança deixada pela interpretação dada pelo Stanislawski sobre peças do autor, que acabou por fixar uma leitura sempre vinculada à melancolia e aos sons da natureza. Restaria encontrar um Tchekov mais próximo de nós, nosso contemporâneo.

            O discurso precisa ter semitons, pausas, semininas, apresentar pontos de vista opostos ou diferenciados. É preciso quebrar com uma única visão de personagem e buscar uma fala, um discurso que é feito na hora, com o esforço da busca pelas palavras. Não é um discurso de enunciação, de frases prontas.

            A leitura deixa muito a desejar. Henrique fica incomodado em como falamos as palavras certas, o que faz com que a leitura fique formal, literária. Ainda na mesa, ele propõe que Inês, Simone e Fernanda releiam a cena inicial entre Olga, Irina e Masha. A proposta é buscar um discurso que seja polifônico, jazzístico, que flutue entre o passado e o presente, entre o lírico, o banal, o dramático, que permita simplesmente “jogar fora” certas coisas. A qualidade da compreensão já melhora bastante. Em seguida, Henrique pede a Arildo, Paulo e Rodolfo que improvisem o texto inicial das três irmãs, dando as falas de maneira bem corriqueira, quase banal. Sem grandiloqüência ou tristeza porque estejam, por exemplo, se referindo ao enterro do pai. O último exercício pedido é para Chico, Toninho e eu relatarmos uma situação  real e comum do passado. Como o tema da morte está presente logo na primeira fala, resolvemos tocar no assunto da morte da Wanda. Henrique pede que façamos pequenas ações banais durante a conversa com a “experiência comum”. O resultado deixa o diretor mais aliviado e ilustra para ele o caminho que talvez o trabalho possa tomar, com a apropriação mais familiar e concreta e menos literária e formal, do complexo universo proposto por Tchekov. E assim, terminamos nosso primeiro e fatigante dia. São onze e quarenta e cinco da noite.

19 de fevereiro, terça-feira, 

            Henrique passa alguns deveres de casa. Cada tripla de atores deve trabalhar sobre as três formas de apresentação que acontecem no primeiro ato da peça. São elas: a aprentação que Tuzenbach faz de Verchinin para as três irmãs; as três irmãs se apresentando para Verchinin quando ele aparece na casa delas; e as três apresentando para o ilustre convidado, o irmão Andrei. São três modalidades diferentes de apresentação. Para os quatro atores que ficaram de fora, são sorteados verbos para que se faça alguma cena relacionada com eles. Se eu entendi direito, relacionar o verbo com a peça ou algo assim. De todo o jeito, a proposta é muito aberta e tudo é possível. Estamos mesmo naquele ponto em que é preciso dar tiro para tudo quanto é lado. Meu verbo sorteado é “desculpar-se”. Desconheço quais são os outros três.

            O trabalho começa com exercício prático. Lydia puxa um rápido aquecimento e partimos para jogos de integração. O primeiro é o grupo andando e uma pessoa bate nas costas de outra. A pessoa que recebeu o tapa deve dizer o nome de uma terceira, que será a próxima a distribuir o safanão. O exercício gera uma porção de erros. A combinação é que dois erros fazem com que a pessoa saia do jogo. O seguinte é o grupo em círculo e cada um mandar com a mão um disparo em forma de “zip” ( para quem está ao lado), “zap” ( para qualquer outro da roda) e um “boing” ( que faz com que o disparo volte para quem mandou). O exercício é divertido e causa uma série de confusões, que faz com que as pessoas vão saindo do jogo.

            Feitos os primeiros jogos de integração, Henrique propõe jogos no espaço na técnica que ele chama de “view point”. O grupo anda pelo espaço e vai variando a velocidade da caminhada conjuntamente. Em seguida, o grupo ocupa o espaço como se fossem raias e as pessoas começam a criar jogos a partir de ações muito simples como andar, correr, pular, olhar, sentar, deitar. O jogo é conduzido por uma música. O resultado é interessante, e é incrível como gestos extras ou expressões de rosto sobram, ficando excessivas e desnecessárias. Outro exercício proposto é de um ator entrar no espaço e ocupá-lo, simplesmente. Coisa difícil para um ator ocupar um espaço e não querer preenchê-lo com alguma coisa, normalmente a interpretação. Depois que o primeiro ator se locomove para outro espaço, entra um segundo, e eles fazem um jogo que é simplesmente “estar no espaço”.

            Ao final dos exercícios, Coutinho aparece e diz que é muito bonito assistir ao jogo, mas que coisas bonitas não são as mais interessantes. Vamos para a mesa, e Henrique pede a cada ator, um depoimento de um minuto em que cada um deve falar de uma imagem do passado, uma imagem do futuro e uma questão com a qual esteja se debatendo no momento. Em seguida, ele pede que cada um “roube” as imagens que foram ditas pelos outros e faça um depoimento a partir dos outros. É engraçado perceber como o depoimento pessoal verdadeiro sai muito mais tranqüilo, e o “roubado” sai meio melodramático, com uma carga excessiva de “teatralidade”, um verniz de vida criada ou aumentada. Kike e Bel, sua assistente, realçam a importância de se criar uma imagem precisa e também em se pensar sempre numa ação.

            O próximo passo é cada um assumir o ponto de vista de um determinado personagem e relatar, sempre com o filtro titubeante da memória, o dia da chegada de Verchinin na casa das três irmãs. Voltamos à indicação de se evitar as frases dissertativas. Bel levanta a possibilidade de outros sentidos que não só a imagem, mas também os barulhos, os cheiros, etc.

            Durante o trabalho é gostoso ver Coutinho fazendo depoimento e, como um menino travesso e interessado, participando do processo de descoberta e de investigação dos atores, que passa muito pelo crivo da história pessoal de cada um.

            Hora de jantar. Vamos ao Chef Túlio. A interrupção muitas vezes é fatal, mas como não estamos só  nós em jogo, é preciso ver também o lado dos técnicos, que ralam o dia inteiro e tem estômagos de gente que carrega peso.

            Retornamos quase às nove, e aí só sobra tempo para a leitura do segundo ato, que é muito picado, com muitas entradas e saídas de personagens, situações que variam muito, num dia de carnaval, no inverno. Apesar da leitura muito irregular e apagada de alguns, Kike acha que ela sai com mais frescor e menos formal. Jacques diz para Coutinho que está filmando uma média de nove horas por dia, e que se ele quiser, já tem um filme pronto nas mãos.

20 de fevereiro, quarta-feira, 

            Começamos bem atrasados, com um rápido aquecimento puxado pala Lydia. Correndo contra o tempo, começamos a fazer exercícios de ocupação do espaço a partir de um ator, dois, até cinco atores. Com música, os atores têm de propor possíveis ocupações do espaço. Explorar linhas, agrupamentos, focos. “Aparece constantemente “o ser cristão”, “estar aderido a um grupo, ou” ser demoníaco”, quebrar a fidelidade ao coletivo, ser indivíduo. Figuras de linguagem bastante atuais e que mexem com o imaginário de qualquer grupo.

            Em seguida, Henrique pede que cada um de nós, individualmente, crie diferentes gestos, das mais diversas naturezas. As pessoas buscam gestos associados a situações do passado ou da memória. São contusões, machucados, acidentes, marcas no corpo. A reminiscência e a busca pessoal de um material do passado prosseguem fortes, ligadas não só ao material tratado na peça, mas também pelas matérias de que tratam os filmes de Coutinho. Encontrados alguns gestos, que são apresentados numa seqüência, em forma de uma partitura, Henrique pede que cinco atores ocupem o espaço cênico e comecem a apresentar seus gestos, ocupando as raias ou retas que cada um ocupa. Num determinado momento, aparece o texto, e cada um começa a aderir tanto ao gesto como à fala do outro. Cria-se uma espécie de situação comum, uma intersubjetividade, e começamos logo a “ler” uma história a partir daquilo.

            O passo seguinte é a apresentação dos “workshops” com as fotos que cada um trouxe de casa. Confesso que sou surpreendido. Achei que seria só para trazer as fotos, e não seria necessário preparar nada a priori. Com exceção de algumas pessoas, como Inês, Paulo, Julio, que conseguem fazer uma articulação mais eficiente com um outro nível de compreensão que não seja o meramente pessoal, todos nós outros caímos num clima de confissão e um certo lamento nostálgico pela aproximação com a velhice e uma certa melancolia pelo que “não fui ou deixei de ser”. O pior de tudo é uma espécie de autocomiseração cheia de indulgência, que é bem lembrada por Coutinho, como a pior coisa que pode acontecer com um homem. Henrique também não deixa de fazer um  comentário preciso de como esse pessoal tem necessariamente de estar concatenado com algo que o transforme em articulação, em arte. Fica patente ainda na audiência dos exercícios certa aprovação coletiva, como se estivéssemos dizendo: como é bonitinho ele se expor dessa forma, escancarando coisas de sua vida pessoal! O problema é que quando isso não se articula com outra coisa vira uma espécie de psicodrama vazio. Não é o teatro que vai servir à resolução dos nossos problemas, mas são nossos problemas que devem servir, enquanto material mutável, ao que queremos dizer com o teatro.

            Termino o terceiro dia meio em crise com o fracasso do exercício. Fico de fora da leitura do terceiro, que me parece meio insossa, com exceção de uma ou outra passagem.

Dia 21, quinta-feira 

            Começamos pontualmente às duas. Alongamentos individuais, e em seguida o velho e animado Neco propõe um rápido jogo de atenção e concentração que é de cada um ter um número e cantando-se uma música cada pessoa cujo número foi dito deve falar outro número. Quem erra, sai. É uma boa maneira de descontrair o ambiente, principalmente com as situações engraçadas que aparecem. É o momento do jogo lúdico e infantil.

            Retomamos o trabalho dos “view point”. Ocupação de espaços, agrupamentos, trabalha com os gestos, e um novo exercício bem interessante que é o grupo em círculo tentar pular, correr para a esquerda ou a direita e parar sempre rigorosamente junto. Henrique lembra que o exercício cria nos momentos em que todos estão parados um corpo tão “pronto”, tão potencializado a fazer a ação, que é parecido com a situação dos personagens da peça de Tchekov, onde os personagens, apesar de parados, estão permanentemente “prontos” a rumar em outra direção (o passado, a utopia de um futuro, etc.)

            Partimos para mais uma batelada de apresentações de workshops. Dessa vez o resultado é mais satisfatório. Primeiro são as apresentações dos verbos. Eu apresento o “desculpar-se” e para isso lanço mão de textos de André, o quarto irmão da família. I. Procuro assim, evitar o perigoso caminho da confissão pessoal. Escrevo nas paredes do teatro, fazendo desenhos que contrapõe Moscou à casa dos Prosorov. É uma pena que eu não saiba desenhar! Acho que as pessoas gostam (É incrível como estamos sempre atados a essa terrível necessidade das pessoas gostarem!) e pode servir de alguma maneira a alguma proposta de encenação. Os outros exercícios de verbos também saem interessantes, principalmente o do Beto (apresentar) e o de Arildo, que é muito pessoal ( ele chega a terminar pelado), mas tem uma articulação com um sentimento de uma herança de ‘uma Moscou hipotética que não abandona aquele Arildo, que é surpreendente. Surpreendente! Essa foi uma palavra bem usada pelo diretor. Todo o exercício deve ter a capacidade de em algum momento surpreender a quem assiste. O texto tem um quê drummondiano, que também estava bem marcado no exercício das fotos do Paulo.

            Em seguida, vêm os exercícios das formas de apresentação – as irmãs se apresentando para um imaginário Verchinin. O exercício, feito por Inês, Lydia e Fernanda é muito interessante. Elas contracenam com a câmera do Jacques e fazem movimentos de ansiedade e satisfação que remetem aos exercícios propostos pelo Kike. A segunda apresentação é como as irmãs apresentam Andrei (o gênio da família!) para os convidados. O exercício, feito por Teuda, Julio e Simone sai disperso e pouco concentrado. Teuda fica agindo o tempo todo. Não escuta nada. É boa a idéia de colocar comidinha na boca do Andrei-Julio, mas o resultado não convence. Parece que não conseguimos acreditar naquilo. O terceiro grupo mostra uma situação de dois no ócio e um terceiro trabalhando. Tudo isso é entremeado com a narração de um acidente de trânsito provocado por um hipotético suicida. O exercício fica longuíssimo e bastante entediante. Talvez o irrequieto Coutinho esteja cochilando defronte ao visor.

            Henrique comenta os exercícios e partimos para ler o último ato. A leitura é interrompida uma série de vezes pelo diretor, porque nós, atores, parecemos não estar entendendo as circunstâncias. Fim do dia será o encontro de Henrique e Coutinho, que provavelmente discutirão temas filosóficos – Quem é, para onde vamos e de onde viemos¿ Estamos na corda bamba. Amanhã será dia de folga e terei de ir ao Rio, discutir o contrato com a Petrobras.

23 de fevereiro, sábado, o retorno 

            “Marcamos às dez e meia da manhã para tentar esquematizar a apresentação do nosso” workshop” sobre o segundo ato da peça.Meu grupo somos Lydia, Beto e Toninho e eu. Partimos da idéia de fazer um grande resumo de alguns eventos importantes do ato como a relação de Masha com Verchinin, a paixão de Tuzenbach por Irina, a solidão e o deslocamento social de Andrei; mas o ponto que nos pareceu central foi a relação de Natasha que vai pouco a pouco impondo seu poder sobre as três irmãs. O exercício é pensado com a participação de mais seis atores, o que certamente dificulta a sua realização. A proposta passa mais por um improviso do que uma cena propriamente dita. Usar os gestos do “view point” e fazer uma composição simultânea de todos os personagens em cena.Como uma grande fotografia. A costura é feita por uma cantiga de ninar, que vai pouco a pouco se transformando numa balalaika, quando a cena se torna mais frenética. Em suma, muitas idéias e informações para um tempo muito exíguo de realização.

            Começamos o trabalho com um exercício de sentir o corpo, os pés aderindo ao chão,

a cabeça projetando-se verticalmente. Em duplas ou em triplas, os atores são manipulados como se fossem bonecos. Primeiro de olhos abertos, depois fechando os olhos.Kike diz que para fazer esses personagens tão complexos é melhor confiar em algo concreto, advindo do corpo, do que apoiar-se na emoção. O exercício vem nesse sentido. Depois, um breve aquecimento recreativo, com dois suportes de mesa servindo de gols e um jogo de handebol.

            A etapa seguinte é uma conversa com Coutinho, que reafirma não saber do que o filme trata. Ele diz que há muita confissão pessoal, o que é bom. Ele cita o exercício feito pela Lydia com as fotos como um bom momento para a câmera. Surge a questão: como fazer teatro e cinema ao mesmo tempo¿ É possível ajuntar as duas coisas ao mesmo tempo¿ Coutinho afirma ainda que para abordar Tchekov é preciso que aflore também um lado mais escuro, e não seja simplesmente nostálgico.            Apresentamos os “workshops”, depois de mais ou menos uma hora de ensaios.O primeiro ato é mostrado no parapeito de cima, com as três irmãs comemorando o aniversário de Irina. O clima é bastante relaxado.Os atores se propõe a fugir de todas as maneiras do tom de melancolia. O problema é que fica um pouco aquele clima de conversa de amenidades. Falta uma articulação com um outro lugar, que fale mais próximo do desespero, da renúncia, de um certo sufocamento.            O segundo ato até que sai melhor que a encomenda. O ensaio é disperso, parece que nada vai se articular com nada. Na apresentação, os atores se concentram mais, e conseguimos passar pelo menos um rabisco da nossa idéia. Acho que existe principalmente a partir do elemento da música uma boa compreensão do clima geral do ato.            O terceiro ato mostra a cena do incêndio, com Olga atirando roupas do parapeito do teatro, Tchibutykin quebrando o relógio da casa, e dizendo que isso não tem a menor importância diante do fato de que Natasha sai com Protopopov. E, por fim, um desajeitado monólogo de Teuda com as falas de Irina. É o trabalho que mais explora o espaço, com a utilização de uma escada no centro, Simone como Masha descendo da escada de parede e falando que está apaixonada por Verchinin.            O quarto ato mostra Andrei ( Julio), Tuzenbach ( Rodolfo) e Kuligyn (Arildo) fazendo monólogos paralelos, que abordam a relação com o mundo e especialmente com as mulheres, tendo como pano de fundo a despedida da armada, que está deixando a cidade.Coutinho critica um certo tom melodramático que está presente na cena.Talvez falte algo que seja mais cruel, mais adulto, mais cheio de mistérios.            No fim , comentamos em roda os quatro trabalhos. Henrique se diz satisfeito com o resultado apresentado e propõe para amanhã, pensarmos pequenas cenas que possibilitem diferentes utilizações do espaço do teatro. A luta continua 

 

 

24 de fevereiro, dia de criseDia de chuva e dos atores chegando cansados e ansiosos para resolver mais um dever de casa – a construção de uma cena em que se utilize de alguma forma o espaço do cine horto. A ansiedade é grande e todos trocam textos, idéias, marcações, um verdadeiro inferno de excitação e correria, fora o trança-trança habitual da técnica.Henrique começa o aquecimento com o ótimo exercício de se bater palmas num determinado ritmo, em roda e inicialmente de maneira individual. Quando as palmas dão uma volta completa os dois primeiros batem juntos. Depois de outra volta, os três primeiros batem juntos e assim sucessivamente, até que todo o grupo acaba batendo palmas juntos. O exercício seguinte é também em roda e envolve vários objetos como caneta, telefone, barbante,etc. Cada um passa um objeto para o colega que está à direita, que por sua vez pergunta “O que¿.sendo que o primeiro reafirma o nome do objeto. Novamente o que recebeu pergunta “O que¿ Só na terceira vez ele responde:”Ah, uma caneta”. O que recebeu continua, fazendo o mesmo jogo com o colega que está na seqüência. Só que correm na roda cinco objetos juntos, o que obriga as pessoas  a afirmarem o nome do objeto para um colega de um lado e perguntar “O que” para o colega do outro lado. A confusão é grande, mas o exercício é um bom aquecimento para os neurônios.Começamos com um jogo que usa as raias e onde dois ou três atores disputam o foco de dizer um texto para o público. O tema versa sobre algum tipo de relação  ou uma história com um irmão. Pode ser real ou simplesmente inventada. Algumas vezes a disputa se faz de maneira violenta, outras com suavidade. Kike participa e parece querer imprimir uma relação um pouco mais demoníaca e menos cristã nos moldes do Galpão. Para isso, ele joga um copo de água e esfarela um biscoito na cabeça de Paulo André que, em resposta, despeja uma jarra de água encima dele.Terminada essa fase de aquecimento, Kike e Bel sugerem um jogo entre três atores, que estão numa sala com uma janela. Um fuma um cigarro, o outro lê jornal e o terceiro olha pela janela. A idéia é criar situações de espera e de falta do que fazer, com assuntos muitas vezes desconexos, que criam relações semelhantes com o tédio da espera da peça de Tchekov. Eles sugerem comentários sobre notícias de jornal, o tempo, alguma situação que esteja acontecendo do lado de fora. Algo relacionado com o “Eu Quero”, ou um conflito que se deflagra entre as pessoas. É difícil não ficar  refém da criação de uma cena, com um enredo e personagens. O primeiro grupo foi Simone, Chico e eu, e o segundo, Paulo, Inês e Julio.As situações tem alguns momentos interessantes, mas frequentemente caem num vazio. Vamos tentando tocar nessa coisa que eu intuo ser uma construção polifônica das palavras nos personagens do Tchekov. Por trás das palavras ditas, existe sempre alguma outra coisa, que pode ser o simplesmente “jogar fora”, o casual, a sem importância.O exercício, mesmo não tendo chegado a bom tento, dá uma boa pista daquilo que estamos buscando. Kike fala muito dos filmes de Tarantino, onde, segundo ele, as coisa que acontecem muitas vezes não tem um sentido, mas se manifestam de maneira concreta.Passamos então a execução dos exercícios de ocupação do espaço. A lista é longa e os intervalos para a adaptação técnica entre um e outro é ainda mais longo. O trabalho se estende até o final do dia, que traz uma avaliação bastante negativa do diretor. Segundo ele, nos rendemos à tentação de montar cenas espalhafatosas, com uma luz que não diz nada, e que tem quase nenhuma relação com uma aproximação mais pessoal com os personagens da peça.De fato, seria difícil encontrar um mínimo de consistência e verdade. Querer construir essas cenas, como que pretendendo dar conta da peça e algumas situações me parece realmente um erro.Mas vamos às cenas: a primeira, eu e Inês fazendo um jogo por trás de uma cortina do encontro de Masha e Verchinin, a segunda; Teuda,  quase dormindo, deitada num sofá, dando o texto de Tuzenbach sobre a vontade de trabalhar;  duas cenas ( uma minha e a outra de Toninho) versando sobre o duelo de Tuzenbach e Solioni;  uma cena da despedida de Masha e Verchinin e Tuzenbach e Irina;  a cena de Kuligyn tomando banho enquanto Masha trepa no banheiro com Verchinin,; Natasha discorrendo sobre a sua fúria com Anfissa e seu jogo de poder com Olga, enquanto um vídeo mostra imagens de algo pegando fogo, ao mesmo tempo em que um filtro pinga água durante toda a cena;  uma apresentação de todos os personagens do primeiro ato enquanto as três irmãs estão no palco, o desespero de Irina, que é abraçada por Masha e a situação do primeiro ato, lida e com a utilização do recurso de objetos desenhados em cartelas de papel.;  duas versões da cena em que  Natasha sai da mesa de jantar com vergonha e que Andrei corre atrás dela, declarando seu amor..O material apresentado é vasto, mas exceto por algumas coisas pontuais , nada entusiasma o diretor, que declara em alto e bom som que tomamos uma direção errada, abandonando um caminho de trazer um Tchekov para algo mais próximo de nós, fagocitando-o, de forma a podermos nos apropriar das suas palavras, em prol de um jogo excessivo de encenação, que acaba sendo falso, careta e sem fé. O diretor chama a atenção para a questão da auto complacência e comiseração sobre o drama humano. 

 

Dia 25, segunda-feira 

            Mudança de planos por parte da direção. O trabalho começa atrasado em vista da adaptação de Helena, filha do Henrique e Mariana, que vai freqüentar o “Despertar”, escola da Bárbara, por pelo menos uma semana de nossos ensaios. Agarrada às pernas do nosso diretor, a pequena Helena olhava com certa desconfiança para  a nova escola, o que levou-nos a um atraso de , pelo menos, meia hora.            Começamos com uma coreografia para a música “Os escravos de Jô” proposta pelo nosso lépido e simpático Neco Picolo. Logo em seguida apresentamos para Kike e Bel o jogo das palmas e dos números de Gurdieff. O diretor e a assistente estão um pouco ansiosos e passam imediatamente para a apresentação de uma proposta de roteiro e de ocupação de espaço para uma encenação do primeiro ato da peça. A peça abriria com as três irmãs, no camarim, em meio a muitas fotos, descrevendo e revivendo o enterro do pai, a infância em Moscou e todo o contexto da primeira cena da peça. Os homens elaboram uma seqüência d diálogos meio desconexos,debaixo do palco, até que Tuzenbach( Chico) entra no camarim para ir ao banheiro, e anuncia que o novo comandante da brigada,Verchinin, acaba de chegar à cidade e que pretende fazer uma visita às meninas. Logo em seguida entram Tibutchykin e Solioni, que comentam sobre a necessidade do trabalho, até que Masha se irrita com toda aquela conversa e decide se retirar.É quando as irmãs abandonam o espaço do camarim e tomam o espaço central do teatro. É curioso sentir a mudança de dimensão de um espaço apertado ( o camarim) e um amplo ( o teatro).            Os textos são selecionados pela direção e rapidamente decorados e “ditos com as próprias palavras“pelos atores. A tentativa de dizer com as próprias palavras nem sempre sai satisfatoriamente. Algumas passagens soam literárias e meio decoradas. Persiste o tom assertivo ou declamativo, e continua meio difícil chegar ao tom indireto de Tchekov, que escapa frequentemente da relação de pergunta e resposta de uma dramaturgia tradicional..            A cena corre até a saída contrariada de Masha, a entrada de Anfissa trazendo um bolo, que é representado por um desenho de bolo num pedaço de papel e o anúncio pela própria empregada que o coronel Verchinin acaba de chegar. Há a proposta de fazer um recurso de vários atores vestirem camisas com o escrito “verchinin”, mas acabamos não conseguindo fechar a cena toda. Passamos pelo menos uma três vezes, fora os longos ensaios para câmera e a  luz. A cena parece se deslocar mais para o cinema que para o teatro.. Chove muito lá fora e o isolamento acústico não nos permite ouvir nada. Alguma coisa parece meio fora da ordem, quando começam a aparecer algumas goteiras pelo espaço.            A cena é explicitamente construída a partir de algumas sugestões levantadas pelos “workshops”. Exemplos disso são as fotos espalhadas pelo camarim, o bolo desenhado numa cartela de papel, as meninas que contracenam com a camera na hora de se reportarem a Verchinin, as fotos pregadas nas roupas das meninas quando elas vem para receber o novo comandante.            Na avaliação final do trabalho, Coutinho mostra-se satisfeito com o novo formato, que lhe parece mais familiar com os exercícios. Alguns atores, como Simone, reclamam de uma certa formalidade focada no cinema e menos no teatro. Por outro lado, alguns, como Paulo, acham que as novas regras e uma necessidade de se adaptar a certas formalidades, acabam por ajudar a quebrar uma certa dureza e um tom declamatório e assertativo das falas. A pressão do tempo paira sobre nós e Henrique afirma que a única coisa que realmente não o interessa é fazer uma montagem careta e convencional de Tchekov e que, para escapar dessa armadilha, ele topa qualquer estrada. Ele termina o ensaio com o dilema de firmar melhor o trecho que fizemos ou seguir em frente, buscando outras leituras para uma extensão maior da peça. 

 

Terça, 26. Correndo para fechar uma proposta do primeiro ato,            Começamos com os exercícios dos quadrados de Mônica Mdeiros. Kike acha interessante e pede que filmem lá de cima, de uma das passarelas. Em seguida partimos para o jogo dos “view points” em que está delimitado um espaço quadrado, com algumas cadeiras , com a proposta de se buscar relações matemáticas usando como material o espaço e o tempo. Nada de buscar a criação de situações e cenas. O resultado é interessante de se ver e dá vontade de propor uma abordagem do segundo ato a partir desses exercícios.            Partimos logo para a continuação da montagem de uma estrutura do primeiro ato, como uma espécie de ocupação do espaço do teatro. Assim, as irmãs começam a peça no camarim, enquanto os homens conversam coisas dispersas no “porão”. Em seguida, elas saem para o espaço central , que seria o “salão” da casa. Com a chegada de Verchinin, anunciada por uma Anfissa, que caminha numa escada solta no espaço e traz um bolo desenhado num pedaço de papel, as três meninas se apresentam para a câmera, como se referindo ao comandante. Os atores vestem camisetas pretas escritas em giz com os dizeres “Verchinin”. Logo em seguida, um ator assume o papel de comandante e faz um discurso da peça sobre as fragilidade da nossa maneira de viver  e sobre a  inevitabilidade do nosso esquecimento . Na seqüência, as meninas apresentam Andrei,e é a vez de Kulygin fazer as honras da casa para Irina, Masha e Olga e também Verchinin. Somos então levados para uma mesa, onde se encontram alguns oficiais , que tocam música. As relações Masha-Kulygin, Irina-Tuzenbach-Solioni são estabelecidas,além do alcoolismo de Tchebutykin. Olga chama todos para o almoço e a patuléia ruma para a sala do lanche. Nisso, Anfissa traz flores, Natasha chega, é ridicularizada por Olga e pelos demais. Simone, no papel de Natasha, propõe a utilização de um colar feito com um rolo de fita crepe, que desencadearia a estranheza por parte dos convivas em geral e também das irmãs. Envergonhada, Natasha  se esconde no banheiro e Andrei, o namorado, corre no seu encalço. Cena dos dois na porta do banheiro. Temos aí um borrão de roteiro. Além do teatro, temos de conceber a convivência com as duas câmeras, a luz. Sobra pouco tempo para a interpretação e uma possível aproximação com um estado tchekoviano de ser ou estar em cena.             Henrique e Bel se desdobram, tentando organizar a movimentação, os textos, a intenção de treze atores em cena, além de Coutinho, Jacques, Neco, Albertinho e toda a equipe de câmeras e fotógrafos, que olham pelo monitor e procuram organizar o caos. Tudo isso interrompido pela hora do lanche e uma espera extenuante, que nos exige um exercício atroz de paciência e de resistência física.             Num dado momento, Kike pede que liguem o ar condicionado ( é uma garantia de que eles não vão filmar) e sentamos todos em volta da mesa para tentar organizar o caos que se aproxima com a chegada da cena do almoço). Mesmo com a bagunça, é curioso perceber com vai se moldando um desenho em que cenas delicadas e usando um espaço ínfimo se misturam com cenas extrovertidas e farsescas, numa miscelânea teatral que, se conseguirmos realizar minimamente, pode vir a ser muito interessante. Acho que o tema do filme do Coutinho poderia ser sobre o desespero da criação.. 

 

27 de fevereiro Vamos caminhando…            Começo com aquecimento made in Galpão. Em seguida, exercícios propostos por Kike e Bel. É sempre complicado encontrar uma nomenclatura que traduza a idéia do exercício.. Hoje Bel referiu-se ao exercício com o nome de “sistema”. É o exercício que, na minha ainda confusa percepção, traduz de maneira bastante precisa, o jogo teatral proposto pela direção para trabalharmos a encenação do Tchekov. Isso porque “As três irmãs” é uma peça polifônica, e existem diferentes níveis de discurso e de atenção, que perpassam a peça.            O interessante do exercício do “sistema” é a abertura de diferentes texturas de discursos. Quando a proposta mistura, sem a necessidade de uma seqüência lógica,várias possibilidades de discursos dispersos e não necessariamente relacionados entre si, ele “esquenta” a possibilidade de compreensão da complexidade da peça. Na peça de Tchekov, os personagens são “potências” que transitam o tempo todo entre o passado e a utopia de um futuro. Coerente com isso, o exercício propõe quatro possibilidades : “eu quero” ( o personagem expressa algum desejo), o “sabe qual é o seu problema¿”( o personagem interpela um outro, criando um conflito), um personagem lê um jornal ( jogando ao léu notícias, que criam situações inusitadas), um outro personagem vê pela janela( podendo descrever situações ou outros  personagens, que também criam situações ou narrativas inusitadas)            Hoje acontece basicamente uma cena-situação, que é repetida duas vezes entre Teuda, Lydia e Beto. Alguns momentos esfriam, outros aquecem, mas é curioso perceber quando alguns momentos em que a cena corre como algo que está de fato acontecendo, sem teatro construído, são bastante interessantes.            Fechamos a parte dos exercícios, e nos embrenhamos na difícil tarefa de dar continuidade a uma proposta de encenação da peça. Retomamos o primeiro ato do discurso de apresentação de Verchinin e, aos trancos e barrancos, chegamos ao final do ato, usando a mesa do lanche como cenário real para o almoço na casa de Olga.Seguimos com a cena dos piões que são presenteados para Irina no seu aniversário e a cena de Andrei e Natasha, no banheiro.            Fechamos o primeiro ato. Pausa para o lanche. Estão entre nós, Mariana, a senhora Dias, e a fofura da Antonia, a mais nova filha do casal. Fico pensando nas terríveis improvisações a que somos obrigados a enfrentar em nossa vida de mambembices pelo mundo afora. Henrique, no meio desse turbilhão, com mulher e duas filhas, a outra, Helena, freqüentando o nosso “Despertar” por uma semana.            Retomamos com uma breve conversa sobre o segundo ato, e a proposta de criação de cenas como a do flerte entre Masha e Verchinin, a declaração de Tuzenbach para Irina, a cena inicial de Natasha e Andrei ( que marca o início da ascendência de Natasha sobre as irmãs e a casa) e a cena entre Anfissa e Andrei. Discretamente, Henrique troca os atores que farão Verchinin, para que Fernanda e Chico não tenham que viver a intimidade da criação de uma cena. Volto a ser Verchinin. É muito prazeroso criar com Fernanda, colega que já há algum tempo, não tinha tido a oportunidade de estar  junto num processo de criação.            O incrível é que as cenas saem num tom razoavelmente acertado, sem declamação, e Kike até abre um precedente de aceitação de um certo tom de auto-comiseração e melancolia apresentados no Andrei feito pelo Rodolfo. Sentamo-nos novamente em roda, e Kike e Bel sugerem cortes e mudanças de falas até mais ou menos setenta por cento do segundo ato.Coutinho senta conosco e diz, em tom de chacota, que o filme poderia se chamar as duas irmãs.            Fechamos o dia. O cerco do cansaço vai se fechando e, sorte nossa, teremos folga na sexta. Segundo Henrique, e todos nós concordamos, parece que estamos trabalhando há uns três meses nesse projeto.  

 

Dia 28, caímos numa cilada…            Todos parecem especialmente cansados. O início dos trabalhos atrasa e levamos uma advertência “numa boa” do nosso simpático Ernesto. Os corpos estão preguiçosos e mal começamos um voleibol com uma certa má vontade e recheado de comentários depreciativos, seja sobre a nossa capacidade de criar, seja sobre a nossa falsa habilidade circense e falta de capacidade física de fazer as coisas. É uma máscara de convívio social bastante freqüente no meio de teatro, misto de auto-ironia e depreciação coletiva. Num dado momento, Neco retira a bola concreta e pede-nos que joguemos um vôlei imaginário. A atenção melhora, mas mesmo assim, não chegamos ao entusiasmo.            Começamos o trabalho com a explanação de Henrique sobre a continuação do segundo ato até o final. A idéia é fazer a cena coletiva toda encima do palco do cine Horto. A cena é uma pedreira porque cheia de conversas atravessadas e diferentes níveis de discurso que se misturam. A imagem usada pelo diretor é de uma estufa concentrada onde convivem quase dez personagens, dizendo coisas aleatórias, conversas paralelas, jogos de palavras,etc. Os personagens não fazem frases como meros anunciados, mas projetam as palavras para trás, às vezes para a frente, outras são proferidas num tom de imaginação ou de  lamento, ou simplesmente são jogadas fora, sem nenhuma preocupação de dizer algo significativo. Taí a pedreira da cena. Como diz o nosso diretor é como se constituíssemos uma “jam session” de palavras e ações.            Para enfrentarmos a questão, Kike sugere alguns exercícios de “view point”. Misturar relações matemáticas de ocupação do espaço e do tempo, usar situações como “Sabe qual é o seu problema¿”, ou “Eu vou fazer tal coisa…”, além de possíveis situações relacionadas com a peça. No primeiro exercício, boto uma bomba tipo “cabeça de nêgo”, que acaba não explodindo. Surgem algumas situações interessantes, apesar de alguns altos e baixos.            Bel chega com as cópias do segundo ato cortado. Mesmo com os cortes, o ato continua quilométrico. Fazemos uma primeira leitura em roda, que sai simplesmente catastrófica.Hora do lanche, e Henrique nos sugere que façamos uma nova leitura, no meio de toda a equipe, dessa vez comendo no meio do burburinho. O diretor interrompe a todo o momento, fazendo correções, principalmente no sentido de se evitar o tom excessivamente de enunciado. Terminada a segunda leitura, a avaliação é de que a leitura foi mais razoável. Partimos para a cena. A proposta é fazermos um “corrido” de todo o segundo ato. Como não sabemos de cor as falas e mesmo a seqüência delas, a solução é fazer com o texto na mão.            O resultado é um exercício de desespero coletivo, onde todos batem cabeça, tentando encontrar um espaço e buscando o fio da meada das ações e das situações. O resultado é péssimo e, ao final, só nos resta avaliar que esse não foi o melhor caminho, que talvez devêssemos ter criado um código para o jogo coletivo, que pudesse minimamente amarrar as situações.(Henrique deu o exemplo de deixar os atores sentados numa fileira, e só na hora em que seu personagem estivesse em ação, ele deixaria uma determinada cadeira e ocuparia o espaço. A idéia, aliás, parece bastante com a amarração feita na sua “Gaivota” de Tchekov)            Ficamos de repensar formas de tratar essa grande cena final do segundo ato, talvez com a ajuda de “workshops”. O tempo total da desastrosa apresentação do segundo ato foi de 32 minutos.Fico imaginando quem teve de assistir 32 minutos de uma grande confusão e uma sucessão de lances desesperados dos atores tentando encontrar algo de palpável. O dia deverá terminar com uma avaliação, gravada a portas fechadas entre Coutinho e Henrique. ( O que será que eles devem estar dizendo dos atores, é a indagação que não quer calar!). Ao final, reunião no segundo andar para falar da situação crítica do patrocínio da Petrobras, que até hoje não foi assinado e nem tem o valor e a data para ser lançado. 

 

Primeiro de março, algumas citações,            Leio o texto de Richard Gilman sobre “As três irmãs”, e lá está a pedra angular do que estamos tateando e, tenho certeza, não vamos conseguir resolver ao final dos dezoito dias de trabalho. Ele diz, na página 32: “ Perguntas não serão respondidas, conversas promissoras serão cortadas, provocativas notícias serão recebidas com silêncio, assuntos mudados sem aviso; uma fala inflamada será imediatamente seguida por uma comum que a ignora; fantasias ocuparão suas posições em qualquer dos lados de uma exposição de fatos. Solioni irresponsavelmente dirá “tiquetiquetiquetique” e Tchebutykin, a propósito de nada, dirá “Balzac se casou em Berdichev”.            Mais adiante, ele prossegue: “Todas essas descontinuidades e elisões, e ainda mais suas presenças em unidades de diálogos maiores têm como objetivo a contínua ruptura de qualquer fluxo  suave de conversa, de narrativa agradável ou progresso temático, e uma das funções disso é substituir uma lógica convencional de construção dramática – o retrato de uma ação – por uma composição mais de acordo com a natureza do tempo como sendo nossa condição O tempo não tem lógica, nem razões ou justificativas; ele não prossegue suavemente, ele não prossegue, de maneira alguma, simplesmente é. E não tem enredo.”            E mais adiante: “Algumas vezes, descontrolados por sua obstinada invisibilidade, querendo imaginá-lo como real, construímos uma lógica para o tempo, objetivando-o como passado, presente, futuro, racionalizando-o como causa e efeito.Contudo, “As três irmãs” não é uma peça acerca de causas e efeitos, é, apenas, acerca de efeitos.” 

Primeiro de março, começa a terceira semana            Depois do desastroso final da segunda semana, em que tentamos às pressas chegar ao final do segundo ato, recomeçamos, com uma certa aura de tensão. Para onde vai esse filme, afinal¿ A reunião secreta de Coutinho e Henrique provavelmente já redirecionou o trabalho em algo: começamos o dia com o aquecimento junto com uma entrevista pessoal feita pelo Coutinho com cada um dos atores. A mim, ele pergunta sobre o exercício do relato do acidente de Wanda. Não sei o que foi perguntado aos outros colegas. Fico apenas sabendo, via Inês, que ele passou um exercício de texto com uma letra de música, para as garotas.            No aquecimento, que acabou sendo quilométrico, em função das entrevistas, fazemos alem de várias sessões de quadrados, um exercício muito interessante de tentar evitar que uma pessoa que não está sentada, sente-se numa cadeira que está vazia. O jogo consiste em todas as pessoas que estão sentadas se locomoverem de uma cadeira para outra, a fim de evitar que a que está de pé, se assente. O exercício traz uma possibilidade de criar uma regra que organize melhor o jogo coletivo, que foi uma das possíveis formas de criar um parâmetro comum para a complicada solução da segunda parte do segundo ato.            Voltamos ao texto e fazemos uma leitura à meia voz. A seqüência de cenas parece mais memorizada e vamos tentando focar a leitura para buscar uma forma mais natural e menos empostada. Lemos a cena mais umas duas vezes, e resolvemos partir para um exercício que mistura os “view points” , com o exercício da janela, do jornal e da pessoa que caminha e fuma, além dos textos do ato. O exercício apresenta muitos ganhos. O tom sai menos formal e o jogo se impõe melhor. Aparece uma certa desconstrução, que é bem característica do teatro do Henrique, e que ajuda a quebrar com o risco do formalismo.            A segunda proposta é refazer o exercício ,tentando manter-se ainda mais fiel à seqüência do ato. Logo no início do exercício, Kike interrompe, pedindo que não fiquemos prisioneiros da situação e sua seqüência. Retomamos, e dessa vez a coisa evolui bem melhor.A idéia de que todos esperam uma festa, que ameaça começar e acaba abortada pela presença de Natasha, consegue finalmente ser apresentada de uma maneira mais clara.            A pedidos de Jacques e Neco, vamos repetir o exercício pela terceira vez. A repetição tem bons momentos, mas o final segue confuso e algumas passagens ficam menos claros, mas mesmo assim, algumas cenas e ações acabam tendo algum ganho. Kike fica um pouco assustado com a visão a partir do monitor de cinema do que é uma cena absolutamente teatral. Ele chama a atenção de Jacques para o fato da luz estar muito chapada. É o conflito das duas formas que se estabelece. Pra onde ir¿ para o teatro ou o cinema…Mas esse embate faz parte desse filme, que o velho Coutinho não sabe ou diz que não sabe o que será dele.            Terminamos o ensaio com uma reunião, não gravada, em que se discute os rumos que o trabalho vai tomando. Paulo André, especialmente, reclama desse rumo porque,segundo suas palavras, deixamos de viver um “processo”, para fazer um mero exercício de construção de cenas. Devo dizer que eu não concordo, e concordo menos ainda, com uma preocupação meio estranha de aparecer mal na fita. Parece que tem gente almejando aparecer fazendo uma cena pronta e inesquecível. Lembro-me bem quando Coutinho justificou o convite ao Galpão, que era  de  buscar um grupo de atores, onde a carga de egolatria seria mais reduzida ou controlada, e que poder-se-ia assim expor-se melhor as entranhas de um processo criativo.Terminamos nosso décimo-primeiro cheios de indagações, dúvidas e temores sobre que rumo tomar nesses sete dias que nos restam. Em princípio, tocamos com a criação de cenas em dois atos, faltam outros dois. 

 

 

 

Dois de março. Algumas reviravoltas.            Domingo de muita chuva. Encontramos preguiçosamente às duas e meia. Aquecimentos dispersos. Henrique é chamado no segundo andar. Ele e Bel tem uma reunião secreta com Coutinho e Neco, para falar dos rumos do trabalho. A reunião é demoradíssima, e usamos nosso tempo para fazer o exercício as ocupação das cadeiras e depois decorar textos. A proposta é experimentar outros atores dobrando papéis como Solioni e também outros atores experimentarem o diálogo sobre a filosofia entre Verchinin e Tuzenbach. Durante os ensaios, surge uma curiosa situação de vários atores falando o texto de um mesmo personagem e outros vários fazendo a parte do oponente. È o debate sobre a filosofia.            Henrique volta da reunião meio alterado. Parece que lhe passaram um sabão ou coisa parecida. Mudança de rumos. Nada de improvisações malucas, mas a montagem tradicional da situação do segundo ato. Coutinho está com cara de poucos amigos, e quer ver os atores desenvolverem com um pouco mais de segurança uma determinada cena. Passamos o dia todo montando com marcas detalhadas o segundo ato a partir do momento em que Tuzenbach e Irina se encontram com Verchinin e Masha. Os detalhes são muitos e uma das coisas mais difíceis é manter a pausa e a tensão cheia de potência que a situação e os personagens de Tchekov pedem.            Parece existir uma certa saia justa por parte dos atores, que se sentem meio aprisionados pela proposta. Inês diz que está parecendo televisão. Paulo promete que não vai mais abrir a boca. Ele acha que seus comentários com Coutinho acabaram por precipitar a mudança de rumo. Bel está com uma terrível alergia que deixa seu nariz como um pimentão. Kike não perde a calma, sempre dando instruções e indicações. Coutinho e Neco ficam mais calados. Jacques, o fotógrafo, sempre que pode, comenta que o diretor fala demais. Ele parece que quer ver mais cenas, como se cenas pudessem aparecer assim como mágica.            Terminamos o dia com as observações do diretor sobre a cena. Ele acha que o debate da filosofia ainda está meio didático. É preciso haver mais paixão. O texto ainda está muito mastigado. Eu creio que pensar muito no texto ainda se torna um entrave. Combinamos para amanhã a continuação desse trabalho e na terça a apresentação de três workshops que traduzam de alguma maneira o terceiro ato. Discute-se ainda a possibilidade da preparação de uma boa leitura de uma parte do quarto ato. O tempo vai mordendo o nosso calcanhar. 

 

Dia 3, segunda.            Damos seqüência à marcação mais pormenorizada do segundo ato. No aquecimento, mostramos alguns exercícios vocais como “Donna nóbile” e a escala com os passos de 4,3,2 e 1. Partimos para a cena. Henrique pega da parte que Natasha corta a música e vai até o final do ato, com a entrada de Olga e Kulygin e os mascarados levando Anfissa.            Fazemos um geral, sem pausas. O resultado agrada a todos. O diretor diz que conseguimos uma naturalidade, que traduziu bem a falta do que fazer e a permanente busca de romper com um silêncio, que insiste em dominar tudo. O segredo talvez seja criar ações, que ajudem a superar o estágio de mera interpretação. Nesse sentido, o acender e apagar o isqueiro me ajuda durante o debate da filosofia.            Terminado o geral, pausa para o lanche. Pequenas conversas dispersas sobre mandar a carta para a Petrobras, falando das terríveis dificuldades provenientes da não assinatura do contrato.            Voltamos com a variação de papéis. Vários atores fazem diferentes Verchinins, Tuzenbachs e Mashas durante a discussão da filosofia. A busca é por um tom de conversa mais natural. O resultado é interessante. Em seguida, troca-se Solioni na discussão com o barão, e também na conversa com Tchebutykin.O papel de Andrei passa de Rodolfo para Paulo, na cena com Anfissa. Henrique acredita que essas trocas podem ser interessantes para alguma cena do filme.            O final do ensaio é aberto para uma discussão de como podemos levar à frente os workshops do terceiro ato. O meu grupo decide tentar fazê-lo com baldes e ações ligadas ao ato de se lavar. Uma metáfora de que as pessoas estariam de alguma forma se revelando, expondo seus fracassos e decepções. O perigo de um fiasco é grande. O cansaço vai chegando a um ponto, que parece esvaziar a todos. O dia foi sem o diretor de fotografia, o Jacques, que foi fazer algum “bico”, no Rio.            Depois do trabalho, pela primeira vez nessas três semanas, vamos tomar cerveja com Henrique e Bel, no velho Silvios. Até o velho e desassossegado Eduardo Coutinho está entre nós, com Neco, Beth. Depois ainda chegam Valéria e Albertinho. Todos se deliciam com os quitutes de fritura. Muita cerveja, histórias engraçadas de Teuda e do teatro, e o velho Coutinho cantando hits da jovem guarda. O velho cansado e maltratado pelos excessos da vida, se transforma como por mágica, num menino travesso e lépido. E lá vamos nós para casa, embalados pela cerveja e as vozes de Wanderléia e Roberto Carlos. 

 

Dia 04. Pressões por um terceiro ato            Estamos marcados para apresentar pelo menos três workshops que toquem de alguma maneira no terceiro ato. Primeiro erro a ser evitado, que aconteceu no trabalho sobre o segundo – tentar ser conciso e não querer contar tudo.Estou num grupo com Lydia, Julio, Arildo e Toninho.Por sugestão minha, fazemos todo o trabalho com uns baldes de água. Começamos com um exercício de ocupação de espaço a la “view point”, como se os atores reproduzissem o esforço de apagar o incêndio. Pouco a pouco, as pessoas vão se sentando e os textos são ditos. Eu pego um monólogo de Verchinin em que ele descreve o incêndio e reflete sobre até quando a humanidade vai continuar sofrendo; Arildo escolhe Tchebutykin dizendo que esqueceu o que sabia de medicina e como matou uma mulher; Toninho e Lydia pegam o diálogo de Olga e Irina, em que a primeira tenta convencer a irmã a se casar com o barão; e Julio trata do monólogo em que Andrei conta que hipotecou a casa. Claro que mal conseguimos ensaiar. A apresentação sai até muito boa, com muita água espalhada pelo espaço. No comentário final, Kike diz, com plena razão, que propostas puramente estilísticas sobre uma peça de autor como Tchekov, acabam por enfraquecer seu conteúdo. De fato, vira pura forma, que não dá conta da complexidade daquele universo.            Participo ainda de um outro trabalho idealizado por Fernanda sobre o encontro e o flerte cantarolado entre Verchinin e Masha. Os dois personagens acendem fósforos no escuro e cantarolam a música “Como vai você”, de Antonio Marcos. É uma homenagem a Coutinho e sua veneração pela jovem guarda.Ao final, os dois amantes juntam dois fósforos acesos e a cena termina.            Mais três workshops são apresentados: Inês, Rodolfo, Paulo e Simone lêem, em roda o monólogo de Verchinin e vão dispondo sapatos, nos degraus de uma escadaria . Ao final, um dos sapatos é guardado numa caixa, como se fosse o túmulo ao qual todos nós estamos destinados. Henrique, em seu comentário mata mais uma vez a charada, dizendo que o exercício padece de um excessivo espírito de auto complacência. A entonação da leitura é de fato como se todos estivessem dizendo “vejam, como somos pobres coitados, destinados à velhice e à morte”.            Outra cena é apresentada por Fernanda, Teuda, Chico e Beto e usa de maneira mais efetiva as escadas propostas pela direção. É a cena em que Irina diz a Olga que quer ir para Moscou. Em seguida entra Andrei duplicado por dois atores, revelando que hipotecou a casa. Ao longo da cena as escadas vão sendo colocadas no chão,e passamos de um senso vertical para uma horizontalidade que, de certa forma, pode traduzir a impossibilidade de ir para Moscou. É muito formal também, mas parece incomodar menos ao diretor.            Uma última cena, executada por Inês, Teuda e Simone e também idealizada por Fernanda, mostra as três primeiras cenas do ato, quando Olga e Natasha se debatem sobre mandar ou não Anfissa embora e Natasha mostra as suas garras,ameaçando Olga, e dizendo que ela deve se mudar para o andar de baixo. Tanto Henrique como Coutinho apontam para a incapacidade ou a confusão de Olga diante do ardil de Natasha. Na cena apresentada, Olga explode e o que eles apontam é que ela não teria essa força. Olga representa um mundo aristocrático que está condenado à extinção pelo avanço de outras forças sociais. A cena é apresentada com a utilização de balanços, que criam alguns estados bem curiosos para as atrizes. Talvez exista um excesso de drama nas interpretações, mas isso não chega a ser apontado na avaliação final, exceto pela explosão de fúria de Olga.            Voltamos à pergunta que nos aflige: E agora, o que tocar¿ Para onde apontar a bússola do trabalho¿ As atrizes pressionam para seguirmos em frente, sem voltar para os dois primeiros atos já minimamente construídos. Henrique, momentâneamente perdido e confuso, decide ceder e lá vamos nós tentar fazer cortes e apontar situações e personagens que devam ser privilegiados nesse próximo ato.Percebo que ficarei meio alijado do trabalho nesse terceiro ato, uma vez que me cabe o personagem de Verchinin, que tem apenas um monólogo filosofal e mais um flerte com Masha, assuntos que já foram tocados nos outros atos. Henrique vai tentar privilegiar outras coisas como o monólogo de Tchebutykin sobre a medicina e o mesmo personagem na cena da quebra do relógio. Outros pontos serão a cena de Masha com Kulygin, a revelação do amor de Masha, e Olga dizendo para Irina casar com o barão.            Henrique começa pela cena do conflito de Olga com Natasha, usando a concepção espacial do workshop de Simone, Chico e Teuda em que as roupas eram atiradas por Olga da parte de cima do alambrado do espaço central do teatro.Como estou fora da cena, dou uma corrida ao Palácio das Artes, para dar um abraço em Bárbara Heliodora, cuja coletânea de críticas está sendo lançada pela editora Perspectiva. As críticas de “Romeu e Julieta” e “Rua da Amargura” estão na edição. 

 

6 de março. Hora de montar para o cinema.            Começa a última semana, que terá apenas quatro dias. Os atores parecem que esperam a continuação da montagem do esqueleto do terceiro ato. Nada feito. Voltaremos para o primeiro, refazendo as cenas e as falas, casando melhor a interpretação e os planos e contra planos, ajustando o teatro ao olhar da câmera. Simone diz que agora está com a cabeça em Irina, e que quer esquecer Natasha. Ela insiste em querer seguir para o terceiro, e que seria um retrocesso querer voltar ao primeiro. Henrique, polidamente,diz que pode ser uma boa oportunidade de se repensar os personagens. Ao final de alguma polêmica, fica decidido que ainda poderemos talvez um dia, fazer alguma cena do terceiro e terminar com uma leitura do quarto ato. O mais importante é não criar uma situação de frustração por não ter feito a peça inteira. Seria uma loucura querer abarcar “As três irmãs” em dezoito dias de trabalho.            Começamos pela cena do camarim. Os planos são pensados e repetidos várias vezes. Resultado: a hora do lanche atrasa e ainda não conseguimos fechar as cenas das três irmãs no camarim. Os Solioni revezam entre Rodolfo e Toninho. Arildo é Tchebutykin e Chico Tuzenbach. Inês continua de Olga, Fernanda de Masha, e Irina passa de Lydia para Simone.             O dia está meio tenso. Beth, a produtora está aflita com a chegada de repórteres locais, que querem entrevistar Coutinho. Soraia Belusi, do jornal “O Tempo” está plantada no Cine Horto desde às 13 horas. Chegam ainda Sergio e Beto Magalhães, do “Estado de Minas”. Alguns colegas comentam, em tom de brincadeira, que estou na coluna social, ao lado de Bárbara Heliodora.Beto faz discursos anti Campanha de popularização e traz o artigo de Julia para que Toninho e Teuda leiam. O ócio vai nos corroendo por dentro. A conseqüência são xícaras e xícaras de café e várias tragadas no cigarro artesanal preparado por Paulo André. Chega a visita de Patrícia Faria acompanhada pela Laís, que fez a preparação do “Ano que meus pais saíram de férias”, e que está trabalhando com alguns meninos para o próximo filme do Luis Vilaça. Hoje ainda teríamos o convite para assistir a pré-estréia do novo filme da Laís Bodanski. O convite partiu do Fabiano Gullane. Várias pessoas da equipe também gostariam de ir. Doce ilusão. Conseguimos ainda passar a entrada de Teuda-Anfissa, anunciando a chegada de um bolo e também de Verchinin. O trabalho é finalizado, quase às onze, com a cena dos Verchinin. É a única coisa que faço, depois quase oito horas de espera.              Há um certo clima de fim de festa. Os atores ensaiam uma homenagem ao Coutinho, cantando músicas da jovem guarda. Está programada uma festa para domingo, que certamente será um dia manco, porque Henrique e Bel já viajam no próprio domingo, o que também deve acontecer com toda a equipe do Rio.            Converso com alguns colegas sobre a possibilidade de termos uma sondagem com Henrique sobre a viabilidade de fazermos um trabalho de teatro juntos. Provavelmente ainda teremos alguns fóruns com Pimenta para resolver o caso. 

 

07 de março, adiante com o cinema            Retomamos da cena do monólogo de Verchinin. Todos dizem que o tom do dia anterior ficou muito bom, entre uma sinceridade e uma canastrice, que daria um tom para o personagem.Coutinho quer fazer mais uma vez para ter uma opção de um plano mais aberto. Ele me pede que no final do monólogo, olhe para uma outra câmera, a que está fazendo o plano mais aberto, que pega todos os Verchinin. Faço duas vezes, mas o tom parece que sai atravessado. Falta o charme, fica mais para o sério. É difícil começar! Como já temos uma “boa”, seguimos em frente. Fazemos a cena das irmãs com Andrei, depois a entrada de Kulygin e o almoço com os oficiais nas casa das três irmãs. Com vários planos e contraplanos, chegamos ao final do primeiro ato, com Lydia no papel de Natasha, executando a cena do banheiro com Andrei.            São oito e meia da noite. Kike dispensa os atores, e ficamos eu e Fernanda para fazermos a cena do encontro amoroso entre Verchinin e Masha. A mesma cena da passarela que havíamos feito há uma semana ou mais. Luz pronta, câmeras a postos, fazemos a cena direto,sem parar. Acrescentamos uma fala final de Verchinin dizendo à Masha que a ama loucamente e um beijo final. Henrique comenta que a cena ficou um pouco vazia no começo, com uma conversa meio açucarada entre os dois. Ele contesta a idéia do beijo. Fernanda realça que realmente essa é uma peça em que nada se concretiza, e que o beijo seria uma forma errada de ler a cena. Voltamos à cena… Henrique pede que Verchinin  volte a fumar um cigarro e que suas respostas sejam mais “jogadas fora”. Ele não diz que está com remorso porque a filha está doente, sofrendo. Ele diz simplesmente, como se fosse algo corriqueiro. É o velho problema de fazer Tchekov com uma carga de angústia e de nostalgia que extrapolam o tom normal da vida, e fazer com que o peça se torne aborrecida. Os personagens são potência, eles estão sempre prontos a realizar algo, que simplesmente não conseguem. 

 

 

08 de março, sábado            Entramos de sola para refazer o miolo do palco do segundo ato. A idéia de dobrar os Solionis e os Andreis continua. Paulo e Julio se encarregam de Andrei e Rodolfo e Toninho ficam com Solioni. Como a cena acontece num único espaço, o palco, a filmagem torna-se mais simples e ganha agilidade.O problema é que tudo acaba saindo muito picado, sem uma continuidade teatral, o que requer de nós, atores, um grande esforço de concentração. O trabalho está totalmente focado no cinema, no olhar da câmera. Pensando no teatro, parece que a cena não engata, ela é feita aos trancos e barrancos.            Como no dia anterior, Coutinho parece contente. Ele realmente ficou um pouco assustado com o rumo que o trabalho parecia ter tomado, principalmente depois das improvisações acerca do segundo ato, em que cenas malucas foram produzidas como Olga se enrolando num tapete, Natasha carregando um pedaço de pau, Verchinin trazendo uma bicicleta ou Solioni arrancando a perna de uma boneca trazida por Natasha, como se fosse seu filho, Bobik, etc. É como se as três irmãs tivessem se instalado num hospício. Mas é curioso como também foi fácil abandonar as maluquices e concentrar fogo na essência da cena. O debate entre Coutinho e Neco com Henrique foi exatamente no sentido que o diretor da parte teatral abandonasse as experimentações excessivamente abertas, e buscasse com urgência levantar um material “formal” da peça. O filme precisava disso. E a última semana foi toda voltada para esse objetivo, apesar dos muxoxos de alguns atores, mais “experimentais”.            Ao final da filmagem, sentamo-nos em roda e fazemos uma avaliação com Coutinho. Ele reafirma a necessidade de trilharmos esse caminho de montar mais formalmente as cenas. O conflito entre o teatro e o cinema prossegue sub-reptíciamente em todos os momentos do trabalho. É preciso que as pessoas entendam que estamos produzindo um filme e que o teatro tem de vir a reboque. Ainda encontrarmos um tempinho para falar de uma possível parceria futura com Henrique Dias para montar um espetáculo com o Galpão. Tocamos no assunto da rua, e ele nos diz que teve umas poucas experiências performáticas na rua, e que não se vê montando nada tradicionalmente de teatro de rua. Toninho diz que preferiria trabalhar com ele num espaço fechado. Acho que concordo. O tipo de teatro e de pesquisa que ele vem conduzindo seria mais proveitoso para um teatro fechado, e possivelmente explorando um grande texto clássico. Aliás, é curioso como o teatro do Henrique e da companhia dos Atores tem recebido uma enormidade de convites para se apresentar no exterior. A visão contemporânea que o trabalho do Henrique impõe nas suas releituras de textos clássicos, é um mote muito favorável à participação em festivais internacionais. Só esse ano, eles estarão se apresentando no Festival de Bogotá, na França, Japão e Canadá.            O dia termina com a vaca atolada na casa de Teuda. Muita cerveja e cachaça, mas o cansaço é tamanho, que só nos resta fugir para casa. Amanhã, último dia, o batente está marcado para as dez da manhã. Henrique e Bel viajam no final da tarde. Teoricamente, teremos de tocar nos dois últimos atos. 

 

 

 

 

 

Domingo, 09 de março. Fim. 

            O começo, previsto para dez, começa preguiçosamente às dez e quarenta. A vaca ainda está atolada e não adianta querer apressar inutilmente as coisas. Henrique, nesse sentido, parece um diretor bem pouco ansioso. Percebe, com uma certa calma, como anda a temperatura do coletivo.            Ajustes técnicos começam a ser feitos. Ronaldo e Helvécio montam uma nova mesa. Grampeiam um pano preto sobre o tampo da mesa. Jacques e Albertinho começam a posicionar as câmeras. Bel e Kike checam textos nos seus computadores. Modernos, os nossos diretores estão o tempo todo fazendo observações, anotações e cortes de texto nas telas de seus laptops. Valéria e Alexandre distribuem os microfones. Wlad ajusta as luzes, sempre monitorado pelo Jacques.Tayse e Bianca rondam o espaço como duas zumbis sonolentas, que não vêem a hora de descansar um pouco. Bianca, no camarim, anota e seleciona as quase três mil fotos tiradas ao longo de dezoito encontros, que ficam desfilando pelo painel do computador presente no camarim.Luciana e Neco se aboletam na frente dos visores. Coutinho caminha de um lado para o outro, com um cigarro apagado entre os dedos. Nós, atores, rolamos preguiçosamente pelo chão, tentando despertar um corpo bastante castigado pelo cansaço acumulado.            Henrique acende, e decide dar o “start”. Vamos fazer o terceiro ato, em volta da mesa. O texto, que está quase decorado,não deve ser lido e muito menos interpretado como uma cena. Voltamos à gênese do trabalho de buscar pequenas ações, que de certa forma, nos distraiam do sentido do que está sendo dito. Nada é anunciado, mas é vivido. Tchekov levou o realismo a um extremo e, consequentemente a um paradoxo.             Como por magia, vivemos um momento único de dizer-contar-viver as palavras do terceiro ato de uma maneira assustadoramente viva. É muito impressionante o funcionamento de dois atores dizerem simultaneamente as falas de um mesmo personagem. São os casos de Rodolfo e Toninho com Solioni, e Paulo e Julio com o monólogo de Andrei. As cenas se desenrolam de maneira estranhamente verdadeiras e cheias de sentido, como se vomitássemos algo que estava preso ao longo desse processo de três semanas. O jogo com as câmeras também sai natural, sem nenhum esforço de parte a parte. Flui uma relação entre os atores, a direção e a técnica, que é uma espécie de um coroamento de um esforço concentrado e sincero.Ao final, ninguém comenta nada, mas todos estão visivelmente realizados. Vamos almoçar no segundo andar do Cine Horto.            Voltamos para o último ato. Fica o temor de que a última impressão apague os importantes momentos que vivemos ao longo do processo. Vamos voltar a uma simples leitura do quarto ato. Apesar de todos os elementos construídos, vamos mais uma vez nos deparar com um ponto fraco do grupo, que são as leituras, frequentemente burocráticas e sonolentas, dentro da prática do Galpão. E realmente o começo parece temerário. Arildo passa longe do espírito de Tchebutykin, Chico faz um Tuzenbach meio iletrado, Beto canta uma melodia que não diz nada, Simone fica dramática. Henrique Dias interrompe a leitura, e refaz o percurso da situação e dos personagens. Rodolfo e Toninho passam razoavelmente por Solioni, Paulo e Julio melhoram um pouco o nível da leitura com Andrei. Inês e Lydia entram discretas e no tom. O melhor momento vem com Fernanda que, ainda que descontrolada, dá um tom vivo à despedida de Masha e Verchinin. Daí para a frente, a atmosfera de Tchekov já contagiou a todos, e o final entre as três irmãs traz uma certa redenção e alívio para um começo bastante  confuso e disperso.            Rápidas despedidas…Kike e Bel correm para Confins. Chegam barris de chopp para a festa de despedida. Coutinho pede às atrizes que cantem as letras de Roberto Carlos distribuídas para as meninas no dia da primeira entrevista com os atores. Depois do número musical, cada um deve fazer um breve depoimento de como foi o convívio com o texto de Tchekov. Coutinho corre atrás de uma riqueza de depoimentos que não houve no dia da revelação do texto. O elenco aceitou muito passivamente a proposição. Inês diz que ela é uma Olga que vai para Moscou. Paulo André faz uma espécie de autocrítica. Wladimir diz que ficou feliz com a convivência artística de Rodolfo e Chico.Os outros depoimentos ficam ocultos. Vamos beber e comer. Como em toda a festa, é preciso ter um insuportável som nos píncaros do volume.            Fim. Ou melhor, sabemos que não é o fim, mas apenas mais um começo. Não sabemos o que vai sair de tudo isso. Coutinho jura que não sabe que filme vai fazer. Talvez por temperamento, não consigo acreditar tanto nesse salto no escuro. Estamos felizes e, de certa forma, já sentindo um vazio que vai se tornar ainda mais fundo ao longo do tempo.             A noite termina com o velho e bom Coutinho, com sua voz rouca e combalida pela nicotina e pelo álcool, dizendo que quer um filme que seja visto com prazer pelas pessoas comuns, que não entendem nada de teatro ou de cinema. Essa é provavelmente a chave para se entender porque os filmes dele são sempre tão bons.

Deixe um comentário