->Esclarecimentos sobre as apresentações de “Os Gigantes da Montanha” no Rio

O Grupo Galpão acabou de estrear no Rio de Janeiro, com grande sucesso e repercussão, seu último espetáculo “Os Gigantes da Montanha”, de Luigi Pirandello, com direção de Gabriel Villela.

As quatro apresentações realizadas em frente ao Monumento aos Pracinhas Brasileiros Mortos na Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, reuniram 10 mil espectadores, de quinta a domingo.

Além da repercussão na imprensa em geral, o Galpão recebeu inúmeras manifestações e mensagens saudando a parceria com Gabriel Villela, um marco para o teatro brasileiro, desde a montagem de “Romeu & Julieta”, em 1992.

Entre as muitas saudações e críticas positivas de “Os Gigantes da Montanha”, pipocaram também manifestações de protesto e de solidariedade ao grupo, pelas dificuldades que tivemos em conseguir um espaço público que comportasse nossas apresentações no Rio.

De fato, como já havia sido revelado em nosso blog, todas as tentativas de liberação dos espaços inicialmente selecionados – parque dos Patins (na Lagoa Rodrigo de Freitas), praia do Leme e praça Quinze – deram com os burros n’água. As justificativas foram impedimentos legais e ocupações previamente agendadas.

Se não podemos falar em dificuldades intencionalmente criadas pelo poder público, é certo que as iniciativas de apoio também não existiram. Esgotadas as primeiras possibilidades, outros espaços foram cogitados: Lapa, Fundição Progresso, Cinelândia e a praça do Centro Cultural dos Correios.

Novamente diante das dificuldades de liberações, nos vimos sem tempo hábil para organizar a produção do evento, inicialmente programado para final do mês de agosto. Foi quando, no final de julho, surgiu a possibilidade de conseguirmos o espaço do Monumento dos Pracinhas. O local era perfeito e já havia sido cogitado pelo próprio grupo para as apresentações da remontagem de “Romeu & Julieta”, realizadas no Rio, em 2012. O monumento, assim como toda a área do Aterro do Flamengo, é considerado de jurisdição federal. No caso específico dos Pracinhas, o espaço é controlado pelo Ministério do Exército.

Diante das dificuldades de encontrar outro lugar e das excepcionais condições oferecidas pelo Monumento para a montagem do espetáculo e a acomodação do público, firmamos um contrato com a administração do monumento. Nesse contrato ficou acertado que, pelo pagamento do valor de R$ 18.000 (dezoito mil reais), poderíamos dispor do espaço externo e das escadarias do monumento por quatro dias (10, 11, 12 e 13 de outubro), além de suas dependências internas, utilizadas como camarim e depósito de objetos de cena e figurinos nos dias de apresentação.

É bom que se esclareça que o contrato e o pagamento foram exemplarmente acertados e cumpridos entre ambas as partes, sendo que o Galpão só tem elogios ao tratamento que recebeu tanto da direção quanto dos funcionários do monumento.

O combinado não sai caro e a assinatura do contrato com a direção do monumento foi uma opção conscientemente tomada pelo Galpão e está fora de discussão. O que precisa ser matéria de reflexão são as dificuldades cada vez maiores que vêm sendo apresentadas para a realização de qualquer evento cultural em espaços públicos. Os entraves burocráticos, as cobranças de taxas e outras exigências legais estão tornando inviáveis as apresentações de teatro de rua.

E isso não é exclusividade da cidade do Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte, a utilização das encostas da Praça do Papa ficou condicionada à exigência da Fundação de Parques e Jardins de custearmos um possível replantio de sua grama, além de um complexo processo de aprovação do evento, agravado pela proximidade da Copa das Confederações. A isso tudo, soma-se a exigência de aprovação de croquis de mapas de cenários, gradeamento, banheiros químicos, limpeza urbana, ambulâncias, ARTs, etc.. No Rio, quando tudo parecia finalmente arranjado, surgiu de última hora a cobrança, pelo Ministério da Fazenda (esfera federal), de uma taxa por metro quadrado ocupado pelo cenário da peça e pelas quinhentas cadeiras disponíveis para a acomodação do público.

Mais do que associar essas dificuldades e entraves a circunstâncias de política municipal e estadual da cidade do Rio de janeiro, é preciso que levantemos uma ampla discussão sobre a utilização artística dos espaços públicos não só nessa cidade, mas em âmbito nacional.

Cada vez mais estamos ficando à mercê de exigências e burocracias (municipais, estaduais e federais) que coíbem e sufocam o desenvolvimento e a proliferação de manifestações artísticas no espaço público de cidades brasileiras. Além de não apoiar e incentivar a arte, o poder público no Brasil está passando a dificultar e punir, sob a pretensa justificativa de regulamentar.

E a maior vítima disso tudo é a democratização da arte e da cultura, num país tão carente desses valores como é o Brasil, onde 90% dos municípios não possuem teatros ou casas que possam receber espetáculos teatrais.

15 Respostas para “Esclarecimentos sobre as apresentações de “Os Gigantes da Montanha” no Rio”

  1. É realmente uma lástima essa burocracia. Fazer a arte, a cultura reféns de normas, papéis, números é um absurdo. Acho que por essas e outras o artista deve se apropriar ainda mais de seu ofício para fazer refletir e lutar pelas mudanças. Como no teatro, contar verdades através de mentiras, ao contrário daqueles que contam mentiras para encobrir verdades.
    É uma pena a atual situação, que tantas pessoas não tenham a oportunidade de conhecer o teatro de rua, de ter um contato mais frequente e direto com a cultura por conta da frieza do sistema.
    Sou imensamente grato pelo trabalho de vocês e pela difusão que vocês fazem pelo Brasil, fazendo questão de levar o teatro até pessoas que talvez nunca (ou raramente) tenham tido a oportunidade de ver a arte que não sabiam poder existir, permitindo-as sonhar de novo e fazer brotar sentimentos mais.

  2. Sábias palavras, Eduardo. Lúcido, como habitualmente. São discussões necessárias e, realmente, estão cada vez mais acentuadas as dificuldades para ocupação artísticas dos espaços públicos. De resto, sorte dos cariocas que puderam compartilhar tanto talento nos quatro dias de apresentações. Uma pena não poder estar em SP no dia 27!

  3. Essa é a triste história do Brasil. Querem um povo ignorante, submisso e sem acesso à cultura para que fiquem livres pra praticarem seus absurdos e abusos. Parabéns pra vocês. Eu estava no Monumentos aos Pracinhas no domingo, bati palmas de pé e bato palmas pra vocês sempre. De novo, Parabéns.

  4. gente…vergonhoso!!!!Lastimável…que triste…pagar pra dar cultura ao povo que mora nesta cruel cidade…ai num tenho o que falar…

  5. Boa iniciativa de expor essas dificuldades que nós do público nem temos noção. Mas infelizmente aqui no Rio não só atividades artísticas e culturais que estão tendo dificuldades de ocupar o espaço público. Vimos atordoados a criminalização e a prisão de centenas de pessoas em praça pública no último dia 15, sob alegação de formação de quadrilha. Tenho certeza que da mesma forma que a sociedade carioca ficou em peso contra tais atitudes arbitrárias da PM, apoiarão a luta do grupo e demais artistas na ocupação do espaço público e na manutenção da popularização da cultura.

  6. O cerne desta questão está claramente exposta no último parágrafo do seu texto, Eduardo. Precisamos refletir a existência real de uma sociedade democrática. Além de todas as questões sociais que temos observado, claramente em uma cultura do espetáculo, em detrimento da arte, o que atinge uma preocupação relevante se considerarmos que a principal forma de patrocínio “artístico” atual é através do mecanismo estatal, via lei de cultura. Não questiono a lei, necessária e justa, mas toda a “arte” de um país sendo produzida com controle do estado. Nós artistas temos o dever de refletirmos sobre essas questões, de trazê-las a tona através da arte, principalmente nesses tempos onde o estado de direito se vê ameaçado. Aplausos pelo não esmorecimento do Galpão.

  7. O cerne desta questão está claramente exposta no último parágrafo do seu texto, Eduardo. Precisamos refletir a existência real de uma sociedade democrática. Além de todas as questões sociais que temos observado, estamos vivendo claramente em uma cultura do espetáculo, em detrimento da arte, o que atinge uma preocupação relevante se considerarmos que a principal forma de patrocínio “artístico” atual é através do mecanismo estatal, via lei de cultura. Não questiono a lei, necessária e justa, mas toda a “arte” de um país sendo produzida com controle do estado. Nós artistas temos o dever de refletirmos sobre essas questões, de trazê-las a tona através da arte, principalmente nesses tempos onde o estado de direito se vê ameaçado. Aplausos pelo não esmorecimento do Galpão.

  8. Caríssimos! Parabéns pelo espetáculo e pela carta!! Urgente tornar pública esta questão cada dia mais grave!
    Há braços!!!!!!!!!!!!

  9. Lamento que um trabalho tão lindo enfrente tantos problemas, infelizmente no Brasil a cultura é pouco valorizada, mas não desanimem dias melhores viram e estamos lutando para isso acontecer. Parabéns e Boa sorte em novas jornadas.

  10. Isso explica o atormentador olhar de dignidade de todo o elenco sob os aplausos finais. Esse olhar que carrega a impecável trajetória de lutas, amor, e fé; em passos poéticos, guardados pelo poder categórico das entrelinhas. Magnífico momento que eu levarei na alma e na consciência. Obrigada. Bravos!!!

    Rio de Janeiro ( Monumento aos Pracinhas)

  11. Os espaços púbolicos estarão se tornando espaços particulares do governo?????????

  12. Os espaços públicos estarão se tornando espaços particulares do governo?????????

  13. Por isso é urgente não somente para o teatro de rua mais uma legislação para a cultura de forma geral. Estes e outros entraves como licitações, prestações de contas, comprovação de atividade, registro de profissão, aposentadorias, taxas e serviços, tudo depende hoje de uma legislação própria para a cultura que tem que passar a ser visto como segmento produtivo e merecedor de investimentos com as especificidades que o diferem de outros segmentos produtivos. Para tanto estamos com um grupo formado no Tocantins elaborando uma possível minuta de legislação.

  14. Olá, amigos e amigas do Galpão.

    Bom dia!

    É triste saber dessas coisas todas e de toda essa dificuldade, tributação e custo de uso do espaço público para uma atividade cultural que será beneficiada por todos.

    Vejo sempre o público, sempre pagando várias vezes por uma coisa, sem saber.

    Sou diretor de uma Cia 2 Banquinhos, de Circo, Teatro e Rua e me solidarizo, estamos estudando uma data até final do ano, de marcar uma audiência pública para discutir o assunto da Praça como equipamento cultural no município do Rio de Janeiro e uma menção a isenção do pagamento de qualquer custo para fins culturais de apresentação pública serão incluídos na pauta.

    Se vocês puderem, gostaria muito de receber um e-mail no meu e-mail particular, onde vocês pudessem explicar um pouco mais sobre as tentativas de usar o espaço público para ser colocado na pauta da abertura da Audiência Pública.

    No mais sucesso e muita paciência para lidar com essa burocracia brasileira, que mais nos suga e nos contribui muito pouco. Lembremos que o nosso trabalho independente de estar patrocinado ou não, é público é faz parte do artigo da constituição brasileira, onde todo cidadão precisa ter acesso a cultura e incentivos e facilidades para a área precisam ser pensados e criados.

    Abraços e sucesso!

  15. Um belo espetáculo, em grande apresentação, uma proveitosa utilização de espaço, possivelmente, uma das melhores visões proporcionadas ao público para a fruição dos detalhes de um trabalho tão rico, pleno de estímulos, sentidos, signos e significados.

    Um novo sentido, transbordante de vida, foi atribuído ao Monumentos dos Pracinhas, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, em meu nome, em nome da minha cidade e de toda a população carioca agradeço de coração:

    Muito obrigado, Grupo Galpão!

    Que alegria assistir o trabalho de vocês, que bom rever mais uma vez os amigos tão queridos!

    Evoè!!
    mario
    http://teatroderoda.org
    .

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