->Finalmente a estreia em Cerro Navia

Depois de dois dias de adaptação, finalmente é chegado o dia da nossa estreia, que está marcada para o distante bairro de Cerro Navia, uma comunidade na periferia de Santiago. Com exceção da apresentação que faremos no Museu da Memória, que está numa área central, quase todas as nossas funções ocorrerão na periferia ou em cidades do interior como Talca e Quilicura. A administração do Festival passou todos os encargos de produção para as municipalidades locais, o que acaba gerando uma infinidade de problemas. Na nossa estreia, simplesmente faltaram os carregadores para descarregar o cenário e fazer a montagem. O resultado foi que a produção teve que se desdobrar para conseguir outros carregadores. Tudo na última hora.

O elenco sai cedo do hotel para que tenhamos algum tempo para repassar o texto em espanhol e acertar uns últimos detalhes que ficaram inseguros no ensaio feito com nossa acompanhante chilena, a Arele. O sol castiga e o calor é digno de um verão brasileiro. Ao sairmos do centro e começarmos a percorrer a periferia da cidade, as casas se tornam bem mais simples, a poeira fina de calcário parece penetrar pelos poros da pele. A paisagem se torna mais desoladora, com muito menos árvores. Os carros são mais velhos, a fisionomia indígena das pessoas parece se tornar mais acentuada. O cenário está montado num parque, em frente a uma piscina pública. Parece ser uma área administrada pela municipalidade. O espaço está rodeado de arquibancadas e pode receber tranquilamente umas mil e quinhentas pessoas. Debaixo de um sol escaldante, fazemos a passagem dos microfones e na sombra que se forma atrás do cenário, sentamo-nos em roda e passamos toda a peça com as músicas e a versão do nosso “portunhol”. O camarim está improvisado numa tenda montada num chão batido. É impossível fazer um aquecimento físico porque o chão tem uma poeira que enche a todos com certa aflição e gastura.

Oito e quarenta da noite e a luz do dia ainda persiste. Wladimir tenta a duras penas, “afinar” as luzes do espetáculo. O público já se concentra em bom número, enquanto os técnicos circulam pelo cenário com a escada no intuito de acertar os focos e a área de iluminação para o espetáculo. As crianças do elenco, nossos filhos, tomam banho numa bica do parque. A luz do dia demora a cair. Todos estão um pouco tensos se o “portunhol” dará bons resultados ou não. Antes de entrarmos em cena, o alcaide de Cerro Navia profere um breve discurso. Terceiro sinal e entramos em cena. A primeira cena não dá a exata noção se o público está ou não entendendo. A comunicação, por fim, se estabelece com a cena do parto, que faz com que os espectadores entrem no espírito do espetáculo. Com altos e baixos, alguns tropeços naturais, conseguimos conquistar o público. Ao final, a grande maioria das pessoas que vieram assistir ao Festival com suas famílias vem nos cumprimentar agradecidas. São pessoas simples, trabalhadoras, gente que não tem costume de freqüentar teatros. Não foi um espetáculo para os participantes do Festival ou para a cidade de Santiago, mas sim uma apresentação para a comunidade de Cerro Navia. A dúvida que fica é se a comunidade comportaria duas apresentações, como está marcado na programação do Festival.

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