->FIT, o teatro político e as modernidades

Nos últimos dias, a mídia de Belo Horizonte divulgou com alarde a nova edição comemorativa dos vinte anos do FIT – Festival internacional de teatro de Belo Horizonte. Além da dívida acumulada da edição do ano passado e um certo sentimento de decepção com a programação, os veículos fizeram uma retrospectiva bastante rasa da história daquele que se convencionou denominar ” o evento teatral mais importante da cidade”. A primeira coisa que me chamou a atenção foi a ausência total e absoluta de qualquer citação ao verdadeiro mentor e criador do festival – o grupo Galpão.

Justiça seja feita, o único a colocar em público os pingos nos is ( com algumas informações equivocadas de datas) foi o Cassio Pinheiro, atual diretor do festival. Para os mais jovens e também os mais esquecidos ou desmemoriados, é bom que se diga que o pai do FIT foi o FESTIN (festival Internacional de teatro de rua) criado pelo Galpão, durante a gestão de Berenice Menegale na Secretaria Municipal de Cultura da cidade. O evento aconteceu em 1992 e foi resultado das experiências vividas pelo grupo em suas viagens internacionais pelo Perú, França e Itália. Nessas andanças, os atores do Galpão conviveram de perto com vários grupos europeus e latino-americanos que, além de terem sedes próprias e desenvolverem projetos sociais em suas cidades-sede, promoviam vários eventos como festivais internacionais de teatro.

O contato com esses grupos nos fez planejar e levar a cabo, contra todas as dificuldades, a ideia de um festival internacional de teatro, que fizesse de Belo Horizonte um lugar de celebração e de reflexão sobre o teatro. Realizado a duras penas, com verbas reduzidíssimas, o evento conseguiu sustentar-se em duas edições, até que finalmente foi amplamente encampado e organizado pela Secretaria, em parceria com o Galpão, na sua edição de 1994. É o que se convencionou chamar da primeira edição do hoje conhecido FIT-Bh. Sem querer criar polêmicas, acho que levantar um histórico desses vinte anos de evento e não citar  a concepção e o esforço desbravador de fundação pré-festival, levado a cabo pelo Galpão, além de ser uma lacuna de informação, soa deselegante, chegando aos limites da desonestidade intelectual.

Querendo distancia de maiores controvérsias, sinto que existe uma “disputazinha” bem provinciana e mesquinha sobre  os rumos do FIT. Como se os  defeitos e erros de conduta na condução e execução do festival servissem de álibi para os grupos que se sentem alijados e que se acham os mais capacitados. Em suma, tem muita gente torcendo contra. E as  baixarias contam sempre com o apoio de uma tropa de jornalistas que correm famintos atrás de fofocas e factóides. Tempos de informações rasas e de celebridades vazias.

Pulando do contexto do FIT para o de outros festivais, a participação em eventos como como a Mostra Internacional de São Paulo, o festival de Curitiba e o Cena Brasil Internacional, no Rio me deu a oportunidade de assistir a uma série de espetáculos que atestam o esforço do teatro brasileiro em marcar presença, com discussões e críticas ao momento político e social por que passa o país. Há uma clara tentativa de se repensar os rumos do país que coincidem com os cinquenta anos do malfadado golpe militar de 1964 e a experiência, no mínimo frustrante, de paralisia e de conivência  eleitoreira com as mais nefastas práticas de administração e de controle político, depois de quase quinze anos de poder por parte do PT. Há também uma tentativa de se  jogar uma luz sobre as recentes manifestações de rua  que acabaram naufragando diante da eclosão da violência e da pressão da mídia.

Sinto um esforço sincero e louvável do teatro de repensar esse momento `a luz dos recentes acontecimentos em que floresce uma indignação que vem misturada com frustração e revolta. Existe também um sentimento exacerbado de perplexidade da maioria das pessoas que não sabem bem para onde pode levar tudo isso. Esteticamente aparece uma certa insistência em formas convencionalmente “modernas” como, por exemplo,  a utilização excessiva de cenas em que os atores falam textos ao microfone enquanto guitarras e baterias soam meio sem sentido e fora de contexto.Com todo o respeito aos colegas, artistas sinceros e engajados num esforço de busca de expressão e de linguagem, mas muitas vezes a forma soa forçada.

Fora isso, é curioso que a Tv , especialmente a rede Globo, passe em brancas nuvens diante dos cinquenta anos do golpe militar que, não só foi amplamente apoiado pelas organizações, como também foi responsável pela consolidação de um império de comunicação que, por si só, já constitui  uma ameaça ao espírito e ao exercício de uma sociedade plural e democrática. Enquanto a comunicação de massa oportunamente se omite, a Comissão da verdade cambaleia e não se entende, deixando-nos esperar pelo pior. Em suma, o esquecimento e a ocultação dos fatos vão se consolidando. Só nos resta torcer para que a história não se repita em forma de farsa ou de tragédia.

2 Respostas para “FIT, o teatro político e as modernidades”

  1. A divulgação do FIT deste ano ficou muito aquém do esperado. Uma semana antes da estreia, procurei informação pela internet e não encontrei. Procurei também nos pontos turísticos de BH e nada. Pensei até que que não haveria mais, por algum motivo. Diante disso e pelo fato de eu estar muito atarefado, desisti de me informar sobre as apresentações . Assisti apenas a dois espetáculos de rua. Foi uma pena. Achei “que havia algo estranho no ar”. Aproveito para parabenizar o grupo na pessoa das atrizes Inês e Teuda, pelo belíssimo trabalho na novela “Meu Pedacinho de Chão”. Fico feliz por ver que há um pouco do Galpão nesse raro projeto de excelência exibido pela Globo.

  2. Parabens Eduardo! De fato a cidade parece sofrer de uma falta de memoria induzida, em relacao ao FIT.

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