->Início Turnê Litoral: Paraty

Segue abaixo o relato do ator Eduardo Moreira sobre a primeira apresentação da turnê Litoral.

Nota 1 : Paraty

Em 1988, o Galpão criou junto com o dramaturgo e diretor Eid Ribeiro, o espetáculo “Corra enquanto é tempo”, que fazia uma bem humorada incursão no universo das seitas evangélicas que começavam a tomar conta, ainda que timidamente, das ruas e dos bairros de periferia das grandes cidades brasileiras.É claro que o espetáculo não foi exatamente bem recebido, mas era tolerado pelos crentes que o assistiam. Alguns anos depois, fizemos em plena praça 7, no centro de Belo Horizonte, uma cena do mesmo “Corra” para o filme “Samba canção” do Rafael Conde. A cena, que acabou sendo cortada do filme, nos deixou uma estranha e amarga sensação de perceber como as seitas evangélicas haviam crescido e como também havia aumentado na mesma proporção, o espírito de intolerância dessas mesmas seitas com tudo que fosse crítico ou estranho aos seus dogmas. E por que falar disso para abrir um diário de bordo de viagem? Simplesmente porque começamos nossa turnê pelo litoral dos estados do Rio de Janeiro e de São paulo, pela cidade de Paraty, no bairro popular da ilha das Cobras, onde nos vimos mais uma vez cercados pelos cultos religiosos, que dominavam a praça.
A idéia da prefeitura de levar um espetáculo de qualidade para uma comunidade carente e sem oportunidades de consumir cultura, me pareceu perfeita.O estranho foi que a quase totalidade dos adultos que assistiram ao espetáculo ( deviam ser uns quase trezentos) eram provenientes do centro de Paraty. Do bairro da ilha das Cobras, apenas as crianças. Os adultos, moradores da comunidade, estavam todos distribuídos nas três igrejas da praça ( duas evangélicas e uma católica) que disputavam os fiéis com alto-falantes ruidosos. Os outros adultos, menos interessados em se entregar a Deus e mais próximos ao universo do concorrente, o Demônio, se espalhavam pelos butecos próximos à pequena pracinha, em cuja quadra, instalada bem no centro da mesma, estava montado o cenário de “Till, a saga de um herói torto”.
Não que o espetáculo tenha sido ruim, pelo contrário, tinha um público atento e pessoas bem interessadas. Mas deu para sentir o tipo de atitude intolerante que essa gente das igrejas evangélicas cultiva em relação a tudo que esteja fora de seus restritos dogmas. Na segunda metade do espetáculo, tivemos que conviver com o discurso desvairado de um pastor que decidiu colocar os alto-falantes para fora da área da igreja , com o intuito claro de nos prejudicar e de competir com nosso espetáculo.
Fora essa nota desagradável, encontro com pessoas agradáveis e amigas como os diretores do internacionalmente conhecido grupo “Contadores de história” de Paraty, uma neta de Oduvaldo Vianna( o pai) e uma artista plástica suíça que, sem entender uma palavra de português, me deu um belo depoimento de como o espetáculo tinha lhe tocado o coração, com “sua mistura exótica e estranha de universo de Brueguel com imagens de Fellini”. Acho muito bonito que ela tenha falado de Brueguel e ligado o universo do pintor ao cinema e ao mundo pictórico de Fellini, que sempre foi uma inspiração fundante e profunda da estética do Galpão. Atrevo-me até a dizer que a Teuda é a maior atriz felliniana brasileira e uma das principais espalhadas por este vasto mundo. Não foi à toa que Robet Lepage, canadense, que é um dos maiores diretores da atualidade, exigiu que a produção do “Cirque du Soleil”, encontrasse de qualquer maneira, aquela atriz que havia desempenhado o papel da ama, na produção brasileira de “Romeu e Julieta”, que ele havia assistido no “Globe Theater”, na cidade de Londres.Encontrar uma atria legitimamente felliniana não é mesmo coisa fácil e o Lepage não perdeu tempo.
A viagem de Belo Horizonte a Paraty durou quase treze horas passando pelo Rio. Viajar por terra pelo Brasil é sempre uma aventura. A Rio-Santos está cheia de barreiras, com alguns pontos cheios de enormes pedras espalhadas pela estrada. A avenida Brasil, acesso de entrada do Rio, cidade que é o principal cartão postal do Brasil, está um abandono de dar dó. Uma das cidades mais agradáveis do Brasil. Estava bem vazia, com pouquíssimos turistas. Talvez as chuvas e o desabamento das encostas do começo do ano tenham espantado muita gente para visitar o litoral, especialmente em Angra dos Reis e por aqui também. A ausência da agitação turístico-consumista, é uma boa oportunidade de aproveitar seus encantos e prestar um pouco mais de atenção nas pessoas da terra. Muitos estrangeiros que movidos pela contra-cultura e pelo hippismo acabaram se alojando em Paraty. Além deles, pescadores e alguns poucos turistas.
A iha das cobras era uma ilha que no período de enchentes servia como refúgio para as cobras. Hoje se transformou num bairro popular de Paraty, com uma urbanização muito desorganizada, típica das periferias das cidades do Brasil. Apesar das pousadas e dos restaurantes chiques, dá para se ver que os canais que cortam Paraty estão muito poluídos e que falta saneamento básico. É o velho problema que nos aflige – o progresso do Brasil é uma coisa que se percebe só na casca. Por trás das aparências e da disparada de compras de bens de consumo como TVs, eletro-domésticos e automóveis, continuam faltando educação, saneamento básico, cultura, cidadãos conscientes e críticos, etc, etc. Partimos para Caraguatatuba, segunda parada de nosso périplo.

4 Respostas para “Início Turnê Litoral: Paraty”

  1. Olá, gracinhas, eu queria agradecer a oportunidade de vê-los em Caraguatatuba. Eu tive a sorte de vê-los também em BH, na praça do Papa. É tanta beleza, sempre, impossível não ir até vocês quando tenho chance (e arrastar quem posso e ainda não os conhece). Caraguatatuba é uma cidade triste, com programas culturais ficcionais (lindos nos sites e nos papéis). Como em outros lugares, a população tem fome de poesia e beleza, mas se alimenta com os muitos lixos disponívies, na ausência do que é saboroso. Para vocês terem uma idéia, aqui em Craguá a Poeta Hilda Hilst tinha a Casa da Lua, sua casa de verão, algo que deveria ser valorizado pela cidade….Mas o centro cultural nem sabia disso! Ah, mas o que eu queria mesmo dizer é OBRIGADA por toda beleza que vocês nos dão. A mim sempre chega como alimento, às vezes remédio, quando estou à beira de uma das minhas mortes diárias. Obrigada, orbigada, orbigada. Ana Paula

  2. Beleza de texto, Carioca. Parabéns ao Galpão por seus 28 anos completados dessa forma bonita, na estrada, na praça.

  3. Estou a seguir vocês e me aproveitar dos relatos sempre vivos.
    A falta de atenção dos governos com a educação e o descaso com o crescimento das cidades, durante anos e anos, só nos traz esse resultado. A população carente, só tem dois destinos imediatistas de salvação, Deus ou o Diabo. Reinam e convivem, igrejas e poderes paralelos como milicias e tráfico.
    Triste demais e nos deixa uma sensação de impotência muito grande. Estamos em ano de eleição e as propostas pouco convincentes só pregam mais desesperança deixando evidente os verdadeiros interesses. Deus nos acuda, ou o Diabo!
    Boas andanças!

  4. muito comprido e complexo para os alunos aprenderem em apenas uma aula (45min)

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