->Notas dispersas da viagem de reestreia de “Romeu e Julieta” 5

Acompanhar o processo completo da produção, como estou fazendo nessa viagem para Londres, é saber com propriedade que a tarefa é digna de “Um apanhador no campo de pepinos” É um fogo a ser apagado atrás de outro. Depois da homenagem `a nossa chegada ao palco do Globe, a produtora do evento chama a Gilma e eu, num canto da “Green room”, a sala de espera dos artistas. Ela diz que temos que fazer um intervalo. É uma norma da casa e todas as produções aceitaram as condições impostas pelo festival. Com toda a delicadeza possível, tentamos explicar que artísticamente é impossível fazer um intervalo. O espetáculo foi concebido para ter uma hora e quarenta minutos sem intervalo. Malu nos pergunta porque não deixamos essa condição clara desde o começo. Nós argumentamos que nunca tivemos notícia dessa condição. Ela faz cara feia e beicinho, mas não tem jeito. Claro que um intervalo, especialmente em termos econômicos, é muito conveniente ao Globe. Além da bela loja que eles tem anexa ao teatro, o teatro é cercado de barraquinhas de comida e bebida que ficam cheias durante o intervalo ao ar livre do teatro. Nenhum espectador deixa de, pelo menos, tomar um copo de café ou um taça de vinho ou cerveja. Bom, não temos tempo para muita conversa e fica decidido, sem grandes argumentações, que o espetáculo segue sem intervalo.
Duas e meia. O teatro está lotado. O céu totalmente encoberto e dando sinais de chuva. A platéia é ruidosa. Davis, nosso chefe de palco, nos conduz pelos corredores que levam para fora do teatro. Enquanto aguardamos `a beira do gelado Tâmisa, os espectadores retardatários entram correndo. Ao cruzar com Francesca num dos corredores, depois da “rodinha” ( nosso ritual coletivo antes de entrar em cena), comento com ela que é difícil trabalhar em condições de tamanha urgência e desespero. Ela diz que esses momentos costumam gerar uma energia milagrosa na cena. É isso: trazer a adversidade para o nosso lado, extraindo daí uma energia criadora revitalizante. Vamos lá. É hora de enfrentar a fera. Abrem-se as portas de entrada do teatro e surpreendemos o público pelas costas, como se pegássemos um exército pala retaguarda. Começou a “guerra” em que atores e público devem jogar juntos. ( Continua amanhã)

Uma Resposta para “Notas dispersas da viagem de reestreia de “Romeu e Julieta” 5”

  1. Quando chegarem aqui em São Paulo, vocês terão todo o carinho que merecem. Não vejo a hora de rever RJ tantos anos depois. Nunca esqueci a apresentação no Patio do Colégio, foi linda. É minha memória mais bela de um espetáculo de teatro. Amo vocês!

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