->Notas dispersas da viagem de reestreia de “Romeu e Julieta” 6

Começa a apresentação e, de cara, sentimos uma forte vibração que vem da platéia. Os brasileiros reagem com uma forte emoção e um sentimento de nostalgia da infância e da terra natal distante, que é trazida pela música. Isso a tal ponto que, quando eu entro como o melancólico Romeu cantando e tocando “Lua branca” na perna-de-pau, já vejo na platéia uma porção de pessoas com os olhos vermelhos e enxugando as lágrimas. É incrível o poder emocional que a música traz para o teatro. Já os ingleses parecem achar aquilo tudo curiosamente atrativo e estranho. Seremos sempre os exóticos. O povo que recentemente saiu das florestas e começou a fazer teatro. Mas, por outro lado, como eles adoram teatro e especialmente Shakespeare, ficam bem orgulhosos que o Bardo seja também reverenciado e montado pelo povo estranho das florestas da América do sul.
O espetáculo sai com a energia dos que sobrevivem a um naufrágio. Em alguns momentos é muito difícil segurar a emoção. A voz fica engasgada. A fala tropeça. O espetáculo nos traz muitas lembranças e voltar a encená-lo no Globe, depois de quase doze anos, faz voltar um filme de muita emoção. Traz de volta os ensaios de Morro Vermelho, a presença e a perda da Wanda, os sonhos, conquistas, cicatrizes e perdas de trinta anos de estrada. O palco baixo me obriga a mudar a marcação da segunda parte da “Lua branca”. É impossível levantar do palco e tocar o acordeon ao mesmo tempo. A janela não abre no começo da cena do balcão e Julieta não sai para reverenciar a lua manipulada pelo Narrador. Pouco importa. A cena segue quente e cheia de poesia. A buzina sai mascada e perde-se um pouco o feito cômico da interrupção da cena de amor entre os amantes de Verona. A luta entre Teobaldo e Romeu sai perfeita como até então não havia saído em todos os ensaios. Depois da cena da festa e do balcão, o público está de tal maneira entregue `a encenação, que tudo passa a ser comunhão e magia. A morte de Mercucio e a despedida dos amantes são aplaudidas. O público parece estar hipnotizado e o nosso encontro parece interromper o tempo. Como se experimentássemos um vácuo na passagem irremediável do tempo. Os relógios pararam, a vida quotidiana está suspensa. Quase quatro horas. Depois do monólogo final de Shakespeare, o grupo entoa o “Flôr, minha flôr” e a platéia desperta do sonho e aplaude furiosamente. Despertamos do sonho. Finalmente estreamos!!!

3 Respostas para “Notas dispersas da viagem de reestreia de “Romeu e Julieta” 6”

  1. Lindo o teu post!
    Lembro-me de vos ter visto no Globe no Verao de 2000. Nessa altura vivia em Londres – seis meses de estagio numa companhia inglesa, arquitectura. A minha irma estava comigo nessa noite, de visita ao pais. Eu 25 anos, ela 22. Apertamos as maos de emocao. Choramos. Rimos. Foi maravilhoso!

    Hoje vivo em Amsterdao… muita agua passou debaixo da ponte. Nao faco mais arquitectura… Adivinhou? Teatro eh o que faco agora! 🙂
    Essa noite magica mudou tudo, de forma subtil, entranhando-se e tornando claro o que eu queria da vida. Levou tempo, mas funcionou!

    Obrigada Grupo Galpao! Maravilha ler este post e saber que estiveram la de novo.
    Um beijo e tudo de bom para voces.
    Marta

  2. Assisti vocês ,acho que foi em 1987/1988, na Praça da Sé em São Paulo!
    Me impressionei muito, fiz alguns esboços na hora e depois, chegando em casa fiz alguns desenhos com lápis de côr!
    Tinha me esquecido deles…
    Quando li que iriam se presentar no The Globe, achei o máximo e fui procurar.
    Hoje achei e vou mandar para o endereço de BH.
    PARABÉNS!!!!
    Continuem nos orgulhando da criatividade brasileira, para dizer o minimo!

  3. Eu to maravilhada so em ler tudo isto parabéns eu to ainda mas apaixonada por este universo chamado teatro

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