->Notas dispersas da viagem de reestreia de “Romeu e Julieta” 7

Não conheço público que tenha mais respeito e admiração pelo teatro que o inglês. Eles assistem uma peça de quatro horas em pé na maior concentração e respeito. Nas apresentações do Globe era comum ver pessoas assistindo e acompanhando o texto original em inglês.Durante a segunda guerra o horário do teatro em Londres passou para as sete PM porque os alemães costumavam bombardear a cidade lá pelas dez. Assim, os londrinos ainda podiam ir ao teatro antes das bombas caírem do céu. Uma pausa prolongada num teatro britânico torna-se uma suspensão sempre cheia de intensidade.
Além das três apresentações de “Romeu e Julieta”, consegui ver e sentir a reação do público em mais três espetáculos – “KIng John” ( Rei João) da Sérvia, “King Lear” ( Rei Lear) da Bielorrúsia e “As you like it” (Como gostais) da Geórgia. Os três dividiram conosco o palco do “Globe” . Trata-se de três produções do leste europeu. Apesar de não ter aguentado assistir todo o espetáculo dos sérvios, fiquei impressionado com o vigor do teatro do leste europeu. Encenações viscerais, atores com uma presença exuberante, muito música e cenas vigorosas, apesar de estéticamente `as vezes muito sujas. Dizem que o teatro do leste da Europa tem a marca muito presente das encenações do diretor lituano Eimuntas Nekrosius. Ela estará no festival “Globe to globe” com sua famosíssima montagem de “Hamlet” ( em lituano – Hamletas ).
O mais incrível é que, em cada encenação, percebia-se por trás das peças de Shakespeare, o espírito diferente de cada povo. Em três espetáculos bem musicais dava para sentir como o espírito e a maneira de ver o mundo de cada país e cultura se expressava na voz e no corpo dos atores. Esse, aliás, foi o sentido mais admirável, dessa louca empreitada que foi fazer um festival com 37 companhias de trinta e sete países diferentes,uma entrando depois da outra. Possivelmente um dos cenários mais complicados das montagens presentes no festival foi o nosso. As três companhias que assisti usavam o palco praticamente vazio. Tive a impressão de que os ingleses sentiam-se orgulhosos em ouvir as obras de Shakespeare faladas em português, sérvio, russo e georgino(?). Shakespeare, o autor que arrebatou o mundo. ( continua)

5 Respostas para “Notas dispersas da viagem de reestreia de “Romeu e Julieta” 7”

  1. Eduardo querido, o tempo passa numa velocidade estonteante. Parece que foi antes de ontem. Assisti Romeu e Julieta em 1994 aqui no SESC SJCampos e, na quela época, ainda dando os primeiros passos na profissão, me encantei, me emocionei e aquela apresentação confirmou pra mim o que já era uma suspeita: era isso o que eu faria pelo resto da vida. Acompanhei a trajetória do Galpão esses anos todos, até chegar na condição de ter sido dirigido (maravilhosamente) por você. Agora, lendo os relatos da passagem pelo Globe, me sinto um pouquinho lá com vocês, por que sei quantas estradas são necessárias para se chegar onde vocês chegaram (e continuarão!). Meu abraço fraterno a todo o grupo e vida longa a este espetáculo lindo, jóia rara. Espero vê-los novamente.

  2. Caro Eduardo, sou de BH e vi todos os espetáculos encenados pelo Galpão desde “Album de Famíia”. Tenho um carinho especial pelo “Romeu e Julieta” e já assisti mais de 10 vezes a peça. Ano passado estive em Londres e visitei o Globe pela primeira vez. Fiz um tour guiado e a guia era uma senhorinha apaixonada pelo templo. Ao final, aproximei-me e perguntei-lhe se ela se lembrava da encenação de vcs e ela, efusiva, mencionou o carro como palco e disse que adorou. Eu, orgulhoso, acrescentei que era da mesma cidade do grupo. Estarei na platéia de pelo menos uma das apresentações do final de semana. Abraço a todos e merda!

  3. Deve ser também porque a peça é muito boa né… Ainda mais se tratando de vocês… Um Beijo

  4. Deve ter sido incrível estas movimentações de ponto de vista envolvido com as culturas mundiais num único foco, Shakespeare.
    E o mais relevante foi ver vocês representarem o Brasil e a nossa cidade (BH).
    Parabéns! Continuarei seguindo o sucesso, a criatividade e adaptação de fundo moral introduzidas nas peças com tanto entusiasmo.
    Um grande abraço a todo grupo.

  5. Deve ter sido muito emocionante esse festival. Para nós de BH é muito bacana saber que os ingleses receberam tão bem o Romeu e Julieta de vocês, hoje voltei à praça do Papa para matar a saudade dessa peça. Tinha ido já ontem, mas gosto muito e achei que seria ainda mais bonito de dia, e desta vez levei minha tia que não enxerga mais, mas adora escutar as músicas, sabe cantá-las e se lembra bem das cenas do Romeu e Julieta (e da Rua da Amargura), do tempo que ela ainda enxergava. E olha, tudo bem que deve ter sido lindo no Globe, mas acho difícil que seja mais bonito que debaixo da Serra do Curral, com a platéia toda colorida, e o céu do jeito que estava hoje. Também acho que o vento faz a sua parte, parece que a Julieta vai voar. As cenas do Romeu e da Julieta são tão maravilhosas, e hoje consegui chegar mais perto e ver o rosto dos atores. É bem diferente quando a gente consegue ver o rosto. Sente-se mais emoção!

Deixe um comentário