->Novo trabalho do Galpão

UMA TENTATIVA DE FURAR O CERCO:

Lembro-me de um debate, no qual participei com alguns atores em Vitória, no Espírito Santo, em que, num dado momento, um ator se lamentou, dizendo que, antes das chamadas leis de incentivo, quando os artistas pensavam em montar um espetáculo, as pessoas iam para a sala de ensaio e começavam a ensaiar. Hoje, os artistas escrevem um projeto e esperam. Estamos vivendo essa espécie de círculo vicioso em que parece que perdemos nossa autonomia e independência.

A montagem de um experimento cênico, que fuja ao modelo de um espetáculo, tem sido o grande desafio perseguido pelos atores do Galpão, ao longo desse atípico ano de 2014. A busca é a de encontrar um novo modelo ou, pelo menos, algo que seja uma alternativa a um formato de criação e de produção que se mostrou muito rico e produtivo, mas que precisa ser repensado. O desafio é criar alternativas que nos proporcionem diversificação e maior independência.

O que acontece é que, desde o princípio da década de 90, o Galpão tem montado espetáculos de grande porte, com cenários, adereços, figurinos e material técnico que precisam de uma carreta para serem transportados. O efeito disso é impactante e dá um sabor todo especial à linguagem do grupo. Mas, ao mesmo tempo, tais dimensões acabam por criar um modelo que pode se tornar limitador. A busca por esse sarau cênico-musical, ainda sem um título definido, faz parte dessa tentativa de reinvenção, com consequências inevitáveis não apenas na forma de produção e de criação, mas especialmente nos seus contornos artísticos.

O elemento mais animador desse ano foi a capacidade dos atores do grupo, independente de terem dinheiro ou patrocínio previsto para uma nova montagem, conseguirem se manter na sala de ensaio, criando cenas individuais e coletivas, que visavam à preparação de um material de pesquisa que poderia se transformar num novo espetáculo. Acho que temos um material em potencial não só para esse sarau musical, como também, para outras cenas, coletivas e/ou individuais. A empreitada nos coloca o tempo todo diante do dilema entre a experimentação e o salto da preparação, necessariamente rigorosa e bem acabada de um espetáculo a ser apresentado ao público.

Nosso foco é o de conciliar rigor e liberdade para criarmos novos caminhos. Os desafios são grandes. Não há nenhuma certeza, mas vamos em frente. Uma premissa sempre funcionou, mesmo nos momentos mais difíceis da história do Galpão: o trabalho, o exercício diário do ofício, sempre conseguiu superar os dilemas e encontrar soluções.

Deixe um comentário