->O Baobá de Nísia Floresta*

Em 2003, Eduardo foi convidado para passar as férias em Natal / RN com toda a família. Partimos com Tiago, João e Bárbara, para nossa temporada de verão, convidados pelos Clowns de Shakespeare. Em uma de nossas andanças para conhecer o Rio Grande do Norte, me vi completamente dominada por uma emoção inexplicável ao passar diante de um Baobá centenário, plantado no meio de uma pequena cidade chamada Nísia Floresta. Esta árvore, com sua potência natural, existia em meus pensamentos desde a infância, com um toque de maravilhoso, por causa das ilustrações de “O Pequeno Príncipe”. Estava eu, na terra de uma mulher que lutou pela igualdade das mulheres, diante de uma árvore de duzentos anos supostamente plantada por uma mulher africana, sentindo a energia de histórias que sempre amei ler e escutar, num momento de completa sintonia com as forças da natureza.

No mesmo instante tive uma inspiração: um dia, quero montar um espetáculo que aconteça debaixo de uma árvore e que tenha como ponto de partida os contos tradicionais brasileiros. Câmara Cascudo com certeza estava por ali também… Eu sou dessas que abraçam árvores, pedras e sempre presto atenção aos sinais da natureza. Em 2008, afortunadamente, pude colocar essa inspiração para fora. Fui convidada para dirigir o Projeto Pé na Rua do Galpão Cine-Horto e, dessa matriz nasceu o espetáculo Arande Gróvore, que encenávamos sempre debaixo de uma grande árvore. Mas isso, é outra história…

Agora, estou lendo um livro que está me fascinando: “Encontros com o griot Sotigui Kouyaté”, escrito por Isaac Bernat. Vi Sotigui em cena algumas vezes, nos espetáculos dirigidos por Peter Brook e para sempre guardarei na memória a imponência doce da sua figura enorme, com braços e pernas muito longos e mãos tão grandes que capturavam a todo instante o nosso olhar. Isso sem falar na energia de paz e sabedoria que exalava do seu corpo em cena. Lendo o livro de Isaac, descubro que Sotigui era um griot, que significa mestre na arte de falar, responsável pela transmissão de conhecimento , apaziguador de conflitos, contador de histórias, genealogista, conselheiro de reis, nascido numa tradicional família de griots, os Kouyaté. Herdeiro por hereditariedade desse ofício que sua família exerceu na África Ocidental desde tempos imemoriais, referência cultural de países como Mali, Guiné e Burkina Faso, região onde viveu e vive essa tradicional família, ele, não separava a vida da arte. Sotigui não separava o ofício e a vida, ele unia o visível ao invisível através de uma prática diária do sagrado. Trabalhando no plano da sensibilidade, ele se mantinha em conexão constante com o mundo espiritual.

Acompanhando numa leitura ávida a experiência maravilhosa de Bernat na África junto a Sotigui, fico sabendo que o Baobá é uma árvore sagrada onde antigamente se enterravam os griots, e por isso, há o costume das pessoas se sentarem à sua sombra para ouvir e contar histórias. Em cada detalhe do livro, em cada pensamento do encontro destes homens notáveis, fui criando uma identificação profunda com a simplicidade sofisticada dessa troca, que aguçou e fortaleceu o desejo de ir cada vez mais ao encontro das minhas singularidades.

Tudo isso para dizer que, mesmo sem saber que em Nísia Floresta eu estava diante de uma árvore sagrada para os griots, em minha rudimentar conexão com minha ancestralidade, recebi o recado direitinho. Nós atores, somos contadores de histórias, cada qual ao seu jeito e precisamos nos conectar com nossas raízes. Que são profundas como as dos Baobás. Por isso, fiquei com uma vontade louca de contar essa história.

No generoso relato de Bernat, ele compartilha muitas pérolas de Sotigui. Faço um colar com duas: “Para a tradição malinca, não há nada que alguém possa lhe dar que já não esteja em você” e “Quando você estiver perdido, lembre-se de onde veio e não estará mais perdido”.

Para mais, sugiro a leitura do maravilhoso livro “Encontros com o griot Sotigui Kouyaté” – de Isaac Bernard – Editora Pallas.

*texto escrito em janeiro de 2016

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