->O dilema entre lembrar e esquecer

Depois de quatro apresentações em bairros periféricos de Santiago, chega o momento de nos apresentarmos em frente ao Museu da Memória, na região central da cidade. O prédio, uma imponente construção moderna envolvida por uma espécie de capa verde que dá uma sensação de claustrofobia, foi construído na gestão da presidente Michelle Bachellet, para lembrar os horrores da ditadura militar no país. Dizem os amigos esquerdistas que o novo presidente Piñera, de direita e um dos homens mais ricos do mundo, já tratou de esvaziar as verbas destinadas à manutenção da fundação do Museu da Memória. A ditadura que matou quase trinta mil pessoas parece que continua a ser um tabu entre os chilenos. Na surdina, o que percebemos é que existe um esforço em se sublimar o ódio que persiste entre os familiares das vítimas e os algozes. Por aqui, como no Brasil, a punição aos crimes de tortura parece que passou em brancas nuvens. Alguns, como o dramaturgo Guillermo Calderón, insistem em tocar na ferida. Ele resolveu estrear sua nova montagem na Vila Grimaldi, um antigo centro de tortura dos militares em Santiago.

O museu, apesar de sua assepsia modernista, é muito revelador. É impossível evitar uma sensação de incômodo e certo pavor diante da forca do ódio e dos caminhos que a política pode tomar diante de impasses e da cegueira das ideologias. Além, é claro, de uma enorme frustração, diante de uma experiência de socialismo democrático, que foi violentamente destruída, como aconteceu com o governo de Allende. Logo na rampa externa do prédio, estão inscritos os mandamentos da declaração dos direitos humanos. Também na área externa, vemos um enorme mural em ferro fundido, com os versos escritos na prisão do Estádio Nacional pelo poeta popular e compositor Victor Jara, logo depois assassinado pelos militares. No primeiro andar, aparecem relatórios de comissões de direitos humanos em diferentes países. Da América do Sul, aparecem os trabalhos das comissões da Argentina e do Uruguai. Do Brasil, nada. No segundo andar, damos de cara com as imagens finais de Allende, cercado no palácio do La Moneda, com a gravação de seu discurso final, conclamando os chilenos a resistirem ao golpe em nome da democracia. O que se vê em seguida são intermináveis depoimentos em vídeos, relatos gravados, matérias de jornais, artigos, relatando a enorme tragédia que se abateu sobre boa parte da população chilena. Os assassinatos, as operações comuns entre órgãos de repressão dos países do Cone Sul, a vida dos exilados, o enterro do poeta Pablo Neruda, a redemocratização. No subsolo do prédio, funciona um arquivo com um banco de dados sobre os desaparecidos e as vítimas sobre a ditadura.

Terminada a visita, é chegada a hora de afinar os microfones, arrumar os objetos de cena, preparar a maquiagem, fazer o ensaio vocal. O cenário está montado em frente a uma arquibancada. Meia hora antes do horário marcado, a arquibancada já está tomada por uma plateia predominantemente jovem. Muitos atores estão presentes como nossa querida amiga Maria Izquierdo, Caioia, amigos do grupo Estandarte de Natal, além de programadores de festivais de cidades como Barcelona, Càdiz, Caxias do Sul e Bogotá. Como trata-se do espetáculo feito na área central, será a apresentação voltada para as pessoas mais ligadas diretamente ao Festival.

O espetáculo estabelece uma comunicação muito forte com o público, que reage a todas as gags e piadas. O “portunhol” vai se azeitando cada vez mais, o que faz com que os atores fiquem mais tranqüilos e soltos. Ao final, o público irrompe numa saudação entusiasmada e as pessoas querem tirar fotos, conversar. É incrível o calor humano e a simpatia que recebemos do público chileno. Amanhã voltamos à periferia distante de Las Cisternas, onde nos espera um novo encontro com um público mais popular e menos acostumado às convenções do teatro.

Uma Resposta para “O dilema entre lembrar e esquecer”

  1. A todos do Galpão muita sorte nessa jornada pelo Chile, e que os moradores aproveitem ao maximo o talento do grupo. Esperamos todos no Palacio, dia 17. PS: Mantenham-se longe dos grevistas.

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