->O encontro com a comunidade resistente de Pedro Agirre Cerda

Nossas próximas duas apresentações estão marcadas para outra comunidade da periferia de Santiago, Pedro Aguirre Cerda. A cidade é dividida em mais de cinqüenta comunidades, que tem prefeito (alcaide), administração própria, orçamento e tudo o mais. Pedro Aguirre Cerda é fruto de uma invasão de terrenos que ocorreu no final da década de cinqüenta numa região em que os militares tinham como objetivo transformar numa vila para a aeronáutica. A luta popular resistiu e fez com que os invasores tomassem conta do local, transformando-o no bairro que também è conhecido com “La Victoria”. Durante os anos de chumbo da ditadura Pinochet, “La Victoria” foi um dos maiores centros de resistência. A alcaide que nos recebeu, uma mulher bem indígena com feições muito fortes e marcantes, é do Partido Comunista do Chile e nos trata com muita atenção e carinho.

A apresentação acontecerá no Estádio Municipal, que é um campo de futebol com uma arquibancada grande num de seus lados. O campo está situado num centro comunitário, onde funciona um núcleo de tratamento de drogaditos, alcoólatras e perturbados mentais. Nosso camarim está montado numa sala que tem uma plaqueta indicativa – “terapia de grupo”. Fico pensando que alguns de nós já poderiam ficar por aqui mesmo para tratamentos terapêuticos. No fundo do cenário vemos as Cordilheiras do Andes, que despontam peladas pela secura do tempo.

Nove e quinze da noite e finalmente começa a escurecer. Entramos em cena e o público (umas mil e trezentos pessoas) espalhado pelas arquibancadas, começa a aplaudir. Foi uma apresentação inesquecível. Finalmente nosso “portunhol” funcionou perfeitamente. As reações aconteceram com precisão e cenas como a menção à beleza da cor “roja del copillo”, a bunda de Doroteu e o “pinta el peo de rojo” são aplaudidas em cena aberta. Ao final, as pessoas vêm até nós para agradecer, conversar, tirar fotos. Mais uma vez encontramos com um público que tem pouco costume de ver teatro e que reage com muita espontaneidade e alegria.

No dia seguinte, saio um pouco mais cedo para Pedro Aguirre, a fim de pegar alguns depoimentos com pessoas do bairro. Meu guia é Gallo, um funcionário da prefeitura local, que é responsável pelas atividades culturais junto à comunidade. Ele è comunista e vivia até à pouco na Franca, onde fazia trabalhos documentais de vídeo junto a grupos teatrais como o “Teatro del silencio”. Saiu fugido do Chile com seus pais quando tinha um ano de idade, escapando para a Argentina e depois para a Europa. Ele me mostra o centro de saúde que foi construído pela administração atual e que recebeu doações e aparelhos de ultrasonografia doadas pelo PC italiano, vindo da cidade de Gênova. O tour ainda me apresenta a sede do partido, um centro cultural e as “tiendas” que, na verdade, funcionam como disfarce para os traficantes de drogas, que já dominam boa parte do bairro. Entrevisto uma secretária da prefeitura e uma mulher que participou ativamente das invasões que fundaram o bairro e que acabou presa e torturada durante os anos do general Pinochet. O poder local é verdadeiro matriarcado. Depois de nossa segunda apresentação, também marcada pela macica presença de um público entusiasmado, elas nos servem no refeitório do centro de recuperação, um prato delicioso chamado “porotos com masamorra”, uma espécie de sopa de milho e feijão acompanhada de tomates, cebolas, coentro e uma pasta de manjericão. Dormimos bem.

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