->O PÚBLICO, ESSE FUGIDIO OBJETO DE DESEJO

Foi destaque na imprensa escrita de Belo Horizonte, nessa semana, o fato da campanha de popularização do teatro ter apresentado uma queda acentuada de público no ano de 2015. Há um bom tempo, fala-se da importância de se criar alternativas para a carência absoluta do grande público nos espetáculos de teatro da cidade. Os espetáculos já não cumprem temporadas e, as apresentações, quando acontecem em maior número, dificilmente excedem uns três fins de semana.

No início da década de 1980, quando comecei a fazer teatro, os espetáculos cumpriam, normalmente, três meses de temporadas, sendo que as funções aconteciam, no mínimo, de quinta a domingo. Hoje, o lançamento de um espetáculo tornou-se uma espécie de evento. A bilheteria perdeu completamente seu valor e, as companhias e grupos, não estabelecem mais uma relação de sobrevivência com o fluxo de espectadores que compram ingressos na bilheteria. Essa tendência de alicerçar a sobrevivência em projetos, que precisam ser aprovados, retira a independência do teatro e o torna ainda mais vulnerável. Não conseguimos mais, como artistas de teatro, viver da venda direta do nosso trabalho. A maioria tem se salvado no refúgio das instituições universitárias.

É claro que não é o caso de querer comparar o teatro de uma época com o de outra. Teria sido o teatro do início da década de oitenta mais independente ou limitado do que o é hoje? Não saberia responder. Na época, havia muito menos pessoas em volta do fazer teatral. Menos grupos, menos escolas, menos informação e muito menos casas de espetáculos. Sem dúvida, a produção era mais barata. Independente de comparações que acabam não levando a nada, acredito, que, de alguma forma, a ausência de vínculo das produções com o fluxo de público, acaba criando distorções e um certo desprezo ou indiferença dos artistas em relação ao “maravilhoso público pagante”. Isso também não deixa de ser um fator preocupante. O próprio público frequentador de teatro criou o costume de querer receber convites para as produções em que amigos participam, como se também fosse possível “descolar um pão gratuito na padaria ou um litro de leite no supermercado como uma cortesia”.

Essa reflexão me leva a citar dois pontos de vista congruentes de duas personalidades do mundo teatral a quem tive o prazer e o privilégio de ter acesso nesse último mês. O primeiro foi o livro ‘Teatro’, escrito pelo dramaturgo e diretor norte-americano David Mamet. E o segundo foi a entrevista dada pela nossa querida atriz Bibi Ferreira, no programa ‘Roda viva’ da TV Cultura. Ambos falam, sem reserva, que o teatro é feito única e exclusivamente para o público. Uma peça, para continuar viva,  precisa agradar ao público que vai assistir ao espetáculo e paga. Acho que uma boa parte da classe teatral torceria o nariz diante de uma afirmação tão singela e óbvia como essa.

Provocativo e contundente, Mamet afirma que, numa verdadeira troca teatral, “a plateia precisa ter duas qualificações: 1- deve ter vindo para ser entretida e 2- deve ter pagado o ingresso”. E por que a plateia deve ser formada por pagantes? Abro as aspas para as palavras do roteirista de ‘Tio Vânia em Nova York’: “Para permitir que as forças mágicas operem. (…) As frases mágicas induzem a plateia a se auto-sugestionar quanto à existência de forças de outro mundo. O preço do ingresso é um sacrifício que dá o direito à plateia de ter esse deleite. A plateia precisa ser formada por pagantes. O ato de pagar faz com que as pessoas passem de críticos a consumidores de direito. (…) O público que vem para ser satisfeito e que paga para ter esse privilégio vai extrair da peça esse deleite a que tem direito. Se a peça não for deleitável, ele vai ler o programa, dormir ou ir embora.”

O curioso é que a falta de conexão com o público faz, segundo a opinião tanto de Bibi quanto de Mamet, com que o grande nó do teatro atual seja a falta de bons dramaturgos. O teatro está sem rumo no quesito da construção de ideias. Para quem frequenta teatro, o argumento me parece bem consistente e, podemos até ser mais enfáticos, irrefutável. A grande maioria de todos esses processos coletivos/colaborativos/grupais se perdeu em devaneios. Boa parte deles, por uma espécie de esquizofrenia intelectual, em que falta ter como objetivo, a cadeia final e mais importante do teatro: o público.

Volto a citar o texto de Mamet, dirigindo-se aos aspirantes a dramaturgos, com sua linguagem direta, típica de um anglo-saxão: “Essa é a essência da troca teatral, e aqui observamos que o teatro é um exemplo perfeito de operação desimpedida do livre mercado. O dramaturgo não tem nenhuma oportunidade de explicar ao ator, investidor ou público: “O que eu quis dizer foi tal”. Ele pode apenas oferecer seus bens para a venda e ver se alguém os compra. (…) Que dizer da opinião do público? Seu julgamento desimpedido deve ser levado em consideração, pois a audiência é o reduto de potenciais compradores e, ainda que você possa discordar da rejeição, precisa compreendê-la, senão morrerá de fome”.

E, Mamet, continua: “A rejeição não articulada da plateia é a melhor ferramenta de estudo (talvez a única) do aspirante a dramaturgo. Sabemos porque a plateia aceitou este ou aquele trecho ou peça: porque era divertido, era triste, era dramático. Mas por que ela, caso a caso, cena a cena ou ritmo a ritmo, rejeitou a peça? Geralmente, por uma só razão: não tinha dramaticidade. (…) Bom, o que isso significa? Uma coisa apenas: que a tarefa do dramaturgo é fazer o público se perguntar o que vai acontecer depois. Só isso. Dizer que algo tem dramaticidade significa dizer: “Fiquei com vontade de continuar aqui para descobrir o que acontece depois””.

O teatro ganhou muitas coisas nas últimas décadas. Existe um espírito de inquietação e de reflexão, que é sempre muito positivo. As trocas e os encontros tornaram-se mais recorrentes, mas, de alguma maneira, perdemos um pouco (ou muito) no quesito de nossa ligação com o público. As audiências parecem estar mais restritas a guetos, a turmas. Os espetáculos perderam um pouco o seu sentido republicano de res publica, feito para uma cidade, para um país, o mundo. Em suma, para plateias sem restrições. E, por que não? Que paguem.

As respostas diretas e sem rodeios de Bibi, em sua entrevista, dizendo que o público é a instância fundamental e o fim de toda a estrutura teatral desde sempre, só me deixam mais convicto de que os grupos e a classe precisam encarar essa questão do encontro com o público.

Quanto à campanha, que foi um pretexto inicial para esse escrito, não há dúvida de que ela precisa ser repensada. As repetições de peças, a baixa qualidade de um bom número delas e a falta de disponibilidade dos organizadores e da classe em arregaçar as mangas e repensar um modelo, que dá provas de um esgotamento, atestam o fato. Seria bom que os grupos, os artistas e suas associações de classe repensassem o modelo da campanha dentro de um contexto de uma programação mais global, pensada para o ano todo. Bom, mas esse é um assunto para outra ocasião.

Uma Resposta para “O PÚBLICO, ESSE FUGIDIO OBJETO DE DESEJO”

  1. Caro Eduardo, que texto interessante. Realmente nós (eu e meus amigos, nenhum de nós público “de teatro” mas público “comum” que inclui o teatro em suas opções de lazer) andamos nos perguntando o que vem acontecendo em BH. O último FIT não teve tantas opções espetaculares como já teve; o Savassi Jazz Festival ficou bem mais modesto em suas duas últimas edições, e a Campanha de popularização do teatro pouco chamou a atenção esse ano, os filmes bacanas no Belas Artes não ficam mais tempo suficiente para que as pessoas possam assistir. A cidade sempre esteve abarrotada de opções populares no mau sentido (isso existe), como se as pessoas só se dispusessem a pagar por filmes de ação e princesas da Disney e ninguém tivesse outros interesses, e que saudades tenho do Usina Unibanco que passava filmes interessantes!!! E o teatro, que tem que competir exatamente com esses filmes, como fica? Fica um pouco na decepção, infelizmente. Eu gostei tanto de um FIT há uns anos atrás (teve Clowns de Shakespear com Ricardo III, gente da França e do México, e um O Idiota maravilhoso do pessoal do Nordeste, além de tanta coisa boa daqui mesmo incluindo o Romeu e Julieta do Galpão na praça do Papa) que marquei férias para coincidir com o último FIT e poder aproveitá-lo. Mas infelizmente não foi tão bom como o outro, o de 2012 se não me engano. Menos opçôes de fora, menos novidade, tudo menos. Fico achando que é a crise financeira, a falta de patrocinadores, será isso? Eu penso que apesar da terrível inflação que estamos vivendo, estamos dispostos a pagar por entretenimento, mas cadê opção variada, cadê espetáculos maravilhosos? Tem o Galpão é claro que salva a pátria, mas uma andorinha né… Se eu fosse empresária teatral ia buscar fora o que tá faltando aqui, mas não ia buscar na Globo não. Nada contra o pessoal do Rio mas eles já fazem o esforço deles, montam seus espetáculoa com atores conhecidos, vêm aqui e fazem sucesso. Eles já tem seu nicho. Eu ia buscar o pessoal do Nordeste que foi tão maravilhoso em 2012, e procurar o povo de outros estados tb, e gente de fora do Brasil, e quem mais quisesse vir. É livre mercado mesmo! As opções de teatro têm que melhorar!

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