->Para Barbara, da sua “patota”

O bardo nos uniu de uma maneira forte e indissolúvel. Lembro-me de nossa primeira temporada de “Romeu e Julieta” no parque de Battersea, em Londres. D. Bárbara acompanhou toda a temporada e ainda nos deu o luxo de repartir conosco seus conhecimentos, numa visita a Stratford-upon Avon.

A viagem, feita num micro-ônibus, teve direito a uma aula completa sobre a vida e a obra de Shakespeare. De pé, no desconfortável veículo, ela nos explicava os tortuosos caminhos das intermináveis guerras dos York e dos Lancaster. Sem dar a mínima para a bucólica paisagem rural britânica, ela se entusiasmava e nos deleitava com sua paixão pelo teatro e, especialmente, por Shakespeare.

Nossa relação de respeito, amizade e paixão pelo teatro começou um pouco antes, precisamente no ano de 1993, quando fizemos nossa estreia carioca de “Romeu e Julieta”, no Centro Cultural do Banco do Brasil, em parceria com o espaço do Centro dos Correios. No sábado da mesma semana, numa coluna do jornal “O Globo”, ela escreveu sua crítica entusiasmada da montagem, com o título preciso de “Fidelidade na infidelidade”.

Ela cantou em sua crítica aquilo que os ingleses repetiriam com frequência nas nossas subseqüentes três temporadas em Londres: que o espetáculo, em sua atrevida concepção brasileira do texto original, trazia uma leitura muito viva sobre o caráter popular da obra de Shakespeare.

Daí em diante, nossos encontros passaram a ser frequentes. Sempre que fazíamos temporada no Rio de Janeiro, era religioso que marcássemos nossa sopa na sua casa, no largo do Boticário. E sempre nos divertíamos imensamente com suas histórias, sua fúria contra o mau teatro e sua paixão pelo ofício e pela vida. Era o encontro da “patota”.

Mesmo quando alguns dos nossos espetáculos não a agradavam muito, nós nunca deixávamos de honrar nosso encontro com a “patota”. Crítica honesta e fiel a seus princípios, nunca se isentou de nos malhar, quando assim acreditava que deveria fazê-lo. E, independente, de qualquer coisa, sempre nos encontrávamos com um enorme carinho e um tremendo respeito mútuo.

O teatro perde uma grande apaixonada, quixotesca e furiosa defensora.  D. Bárbara vai nos fazer uma enorme falta, sobretudo, pela sua inteligência e clareza ao expor seus pontos de vista e colocar os pingos nos “is”, sempre sem papas na língua.

Tricolor de coração, era uma mulher adorável, sem nenhum ranço de erudição pedante, apesar da vastíssima cultura. Conversava de tudo, sempre com muito humor e espontaneidade. Nada a deixava mais satisfeita e entusiasmada do que um bom espetáculo. E nada a deixava mais contrariada do que um teatro displicente e mal elaborado. Em sua braveza crítica, tinha uma ironia e uma malícia deliciosas.

Nosso último encontro se deu numa noite fria, em pleno aterro do Flamengo, quando D.Bárbara, já com a saúde debilitada, garantiu com antecedência um dos assentos da frente, para assistir ao espetáculo “Os gigantes da montanha”. Foi em outubro de 2013. Lembro-me dela saindo, às pressas, feliz da vida e correndo para ainda ter tempo de escrever uma crítica do espetáculo, que pudesse ser publicada na mesma semana. O amor pelo teatro a mantinha viva e plena de vigor,   apesar da debilidade pulmonar que ia consumindo-a.

Clara, lúcida e extremamente generosa, deixa para o teatro brasileiro um legado teórico e de crítica que vai nos fazer muita falta. Estamos mais pobres e mais órfãos. Para mim, fica a lembrança, sempre viva, de D. Bárbara subindo as escadas para pegar um livro escondido, quase inacessível, no ponto mais alto da estante de sua maravilhosa biblioteca, do sobrado do Boticário, para nos mostrar alguma boa peça ou estudo crítico. Sua vontade de ensinar, de servir, de falar e venerar a arte do teatro era incomensurável.

É a vida…cumprimos nossa sina. Mas que merda! Ah, quer saber, muita MERDA D. Bárbara! Viva sempre o teatro. Da sua “patota”.

2 Respostas para “Para Barbara, da sua “patota””

  1. Bárbara fará muita falta! 🙁

  2. Grande Bárbara Heliodora! Vai fazer muita falta nestes tempos em que já nos falta tanta coisa… 🙁

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