->PRIMEIRAS IMPRESSÕES DO CHILE

Segue primeiro relato de Eduardo Moreira sobre a viagem do Galpão ao Chile –

Depois de uma longa viagem passando pelo Galeão, no Rio, chegamos a Santiago quase meia-noite, onze horas no Chile. Os trâmites do aeroporto foram tranqüilos e rumamos por avenidas largas e modernas até o Hotel Lyon, no bairro de Providência, com ruas largas e arborizadas, além de uma enorme quantidade de galerias comerciais.

O verão é tórrido como o brasileiro. Pelas ruas, movimentadas por jovens cheios de energia necessária a uma madrugada de sábado, passeiam animados transeuntes, quase todos com cigarros acesos nas mãos. A primeira impressão é a de que os chilenos resistem com mais força ao politicamente correto e saudável anti-tabagismo.

Domingo de folga. Sem muitas informações sobre o Festival e suas atividades, passeamos pelas ruas tranqüilas da cidade. Vamos ao La Moneda, o palácio presidencial que traz à mente as terríveis imagens de Allende com um capacete e uma metralhadora, disposto a resistir aos golpistas militares que imporiam ao país e ao continente uma das mais brutais ditaduras do século passado, matando impiedosamente milhares de pessoas. Fantasmas do passado que as novas gerações desconhecem e que nos parecem distantes, “pero no mucho”.

Leio os jornais e nas entrelinhas tento encontrar marcas que liguem algo com o passado. Pelas notícias, o país parece trilhar sem grandes traumas os rumos da democracia. Analisando os espetáculos chilenos do Festival, vejo que existe uma montagem escrita e dirigida por Guillermo  Calderón, um dos mais respeitados diretores e dramaturgos chilenos que fez o famosíssimo “Neva”. Ele quer tocar nas feridas do passado e estreia o espetáculo “Villa-Discurso”, que conta a história de três mulheres às voltas com o que fazer com a Villa Grimaldi, um dos locais mais conhecidos de tortura aos opositores de Pinochet. A segunda parte do espetáculo, segundo o texto de apresentação do Festival, é uma carta escrita pela ex-presidente Michelle Bachellet sobre as frustrações  e aspirações da primeira presidente do país, que sofreu na carne as torturas do regime militar.  O jornal “El Mercurio” traz uma entrevista com Calderón em que ele diz que se sente afrontado com o fato de utilizarem o Estádio Nacional (que foi um dos desses centros) como um lugar para lazer e diversão. A segunda impressão é de que o país vive um dilema, nas entranhas, entre esquecer ou lembrar de um passado de ódio e violência que, por mais esforços que se faça, não quer calar.

Caminhamos pelas ruas da cidade e pelo metrô. Chama a atenção como o transporte público é muito mais eficiente e como a cidade é muito mais limpa, bem organizada, sem mendigos e com uma atmosfera muito mais humana do que as metrópoles brasileiras. A organização das ruas mostra que estamos num país em que as pessoas vivem em condições mais humanas e civilizadas. E aí vem à mente a pergunta: que caminho de desenvolvimento é este de que tanto se vangloriam algumas pessoas no Brasil? Um modelo destrutivo que não respeita regras básicas de civilidade e de bem-estar social e a quem só parece importar os índices de superávit econômico? Enquanto isso, as ruas estão imundas, não parece haver um mínimo de respeito com a coisa publica, convivemos com uma quantidade impressionante de mendigos e consumidores de crack, que vivem vegetando como animais pelas ruas das nossas cidades. Em suma, nossas cidades estão cada dia mais feias e mal tratadas. É claro que podemos pensar que resolver os problemas de um país pequeno como o Chile ou o Uruguai deve ser mais simples, mas isso não é desculpa. A terceira impressão, que ainda precisa ser mais bem constatada, é que existe algo de muito estranho em nossa organização social e nós, que olhamos o tempo todo para a Europa e os Estados Unidos, podíamos prestar um pouco mais de atenção ao que se passa por países da América do Sul, como o Chile.

O passeio termina com um giro por alguns dos inúmeros museus da cidade. Conseguimos visitar o Centro Cultural Palacio La Moneda e o Museu Chileno de Arte Precolombino. Salta aos olhos a quantidade de museus e atrações culturais da cidade. Tudo bem, podemos argumentar que estamos na capital do país e que certamente existe uma centralização da vida cultural do país por aqui. Mas se formos fazer uma primeira comparação, sem muita profundidade, não existe no Brasil nenhum festival de teatro com a extensão de tempo e de programação como o “Santiago a Mil”. Se colocarmos lado a lado cidades como Belo Horizonte e Santiago, é uma covardia o número de museus e atrações culturais da capital chilena em relação à nossa cidade. Para não falar bobagem antes da hora, ainda vou dar uma olhada nos índices educacionais do país e relacioná-los com o Brasil. Mas, a primeira impressão é a de que deveríamos ter vergonha da nossa situação de desigualdade e de destrato com o bem comum que vemos em nossas cidades. Fruto, sem sombra de dúvidas, dos níveis catastróficos de nosso ranking educacional e cultural. Bom, vamos ver o que encontraremos pela periferia da cidade e pelo interior, onde acontecerá a grande maioria das apresentações do Galpão. Fazemos parte da programação de “calle” do “Santiago a Mil” e nosso encontro vai se dar mais com o povão do que com a elite cultural da cidade. Mando novas noticias.

Uma Resposta para “PRIMEIRAS IMPRESSÕES DO CHILE”

  1. Adorei a possibilidade de acompanhar um pouco as andanças do Galpão. Espero um dia que possa voltar ao Piauí e que não esteja tão cansado que não possa ir ao Delta. Um abraço,
    Fernando Silva.

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