->Quem viver, verá

Estamos entrando em 2012, ano em que o Galpão completa seu trigésimo ano de atividade ininterrupta. A data nos fez pensar numa série de eventos comemorativos e, antes de mais nada, na criação de uma marca, que funcione como um emblema desse momento tão significativo. Quando completamos vinte anos, o lema comemorativo veio com os dizeres – “Grupo Galpão, 20 anos de teatro”. Os vinte e cinco anos falavam de “um teatro de encontros”, celebrando o fato do Galpão ser um grupo de atores que, ao longo de toda a sua existência, trabalhou com diferentes diretores, cenógrafos, figurinistas, dramaturgos, atores e artistas em geral, numa permanente troca de experiências, que acabou por ser fundamental na moldura daquilo que chamamos a linguagem do grupo. E agora, os trinta anos? Que universos e novas perspectivas se abrem no horizonte do grupo? A idéia de uma marca precisa partir de um conceito que nos ajude a pensar no lugar do grupo dentro do contexto atual e também do significado da existência de uma companhia de atores que consolidou uma proposta artística ao longo de trinta anos, numa cidade como Belo Horizonte.

O que teria acontecido nos últimos cinco anos de singular em relação aos 25 anos anteriores que celebraram a arte dos encontros? Sem dúvida que a passagem do tempo e uma certa urgência com relação ao mesmo. Acho que as características mais marcantes que seguem acompanhando a trajetória do Galpão são o trabalho coletivo, baseado num esforço de grupo; o fato de sermos um grupo de atores que continua trabalhando com diferentes diretores convidados, o que dá `a sua linguagem uma qualidade bastante diversa ( o “Eclipse” é, certamente, um dos exemplos mais radicais dessa multiplicidade de linguagens) e uma busca pelo risco e pelo desconhecido que também está intimamente ligado a uma prática teatral muito mais próxima da diversidade do que da especialização. Lembro que quando chegamos `a finalização do livro dos 15 anos do Galpão, eu e Cacá Brandão, chegamos, sem pestanejar, ao título – “Grupo Galpão, 15 anos de risco e rito” . A busca do risco sempre foi, em alguns momentos mais outros menos, outro objetivo primordial. Tentando responder `a pergunta que abre esse parágrafo, acho que o grupo começa, pouco a pouco, a se abrir `a reflexão sobre o possível legado que o Galpão poderia ou deveria deixar para as gerações futuras.

É claro que essa não é uma propriamente uma novidade. A própria fundação do Galpão Cine Horto, quase quinze anos atrás, é uma prova irrefutável desse desejo de transmissão de uma forma de fazer teatro característica do grupo. Além disso, as dezenas de encontros e de breves oficinas que fazemos todos os anos por nossas viagens pelo Brasil são também testemunhos dessa preocupação. O curioso é que os muitos artistas e grupos que se formaram ou se reciclaram dentro do Cine Horto, apesar de se organizarem teatralmente em características bem próximas `as do Galpão, acabaram por praticarem uma linguagem muitas vezes diametralmente oposta `a do grupo, especialmente quando pensamos na questão do público. A tendência mais forte que nasceu e floresceu no centro cultural do Galpão foi de um teatro colaborativo, que frequentemente privilegia menos a comunicação com o público e mais um processo de produção interna do grupo. Nisso não vai nenhum tipo de crítica ao trabalho desses coletivos e desses artistas, mas apenas a percepção de os universos são bem distintos. O grupo não criou uma nova de geração de atores que esteja presente dentro dos espetáculos do próprio grupo. Isso não propriamente por uma incapacidade, mas mais por uma opção.Talvez fosse o momento de repensar esse tipo de opção. Quando nos preparamos para fazer uma remontagem comemorativa da nossa versão de “Romeu e Julieta”, dirigida pelo Gabriel Villela, fico pensando com meus botões, se essa nova versão não poderia contar com uma nova geração de atores, que certamente ajudariam na renovação do grupo.

Esse tipo de renovação acontece muito quando os atores do grupo trabalham com outros grupos mais jovens ou no seio do Cine Horto, mas ainda não penetrou no seio do próprio grupo, que se mantem fechado. Não tenho certeza sobre que tipo  de transformação está sendo gestada no limiar desses nossos trinta anos, mas creio que mudanças grandes virão. Alguns indícios claros disso são  a divisão do grupo em dois elencos distintos no projeto “Viagem a Tchékhov” e a arriscada empreitada de uma nova sede que reuniria o Grupo Galpão e o Cine Horto na avenida dos Andradas. Quem viver, verá.

7 Respostas para “Quem viver, verá”

  1. Ler e entender seu texto tornou-se minha tarefa de hoje.
    Inegavelmente associo a uma conversa que tive com o Zéluiz sobre uma entrevista na Folha onde abordava-se a necessidade do Galpão renovar.
    Talvez por mero acaso, talvez pelo destino, tive a honra de conhecer o grupo desde seus primórdios e até com grande proximidade, partilhando momentos importantes.
    A existência do grupo e sua trajetória mostram um rico caminho de aprendizado, descobertas, ensinamentos e muitos frutos. Certamente outras virão, viverei para ver e aplaudir.

  2. 30 anos – Lindo tempo de fazer teatral. De composição teatral. Penso que a cada ano nos artistas buscamos novos rumos influenciados, é claro, por nossos rumos pessoais. 30 anos seriam o mais puro traçado de emoção e razão do Grupo. Como numa linha do tempo vocês trilharam uma bela história com lindas montagens e muitas emoções. Mas, com o passar do tempo acabamos todos nos preocupando mais com quem somos do que com quem éramos! Nossas raízes, nossos anseios (base de qualquer artista). 30 anos seria hora de olhar pra trás e trilhar aquilo que pensamos ter trilhado e às vezes viajamos alto no caminho… O que quero dizer é que é preciso voltar e se fazer grupo… Tão sonhador e simples como… Um simples grupo! Sem pretensões saborosas apenas a espreita de uma emoção coletiva que às vezes perdemos no caminho. Com as dificuldades aprendemos o valor dos centavos com a bonança logo aprendemos como gastar e multiplicar. É complexo por demais abrir o grupo. Sempre complexo porque é difícil se dar a novos trejeitos e novos enlaces com nova gente teatreira. Trocar com novos diretores já é uma aventura, nem sempre todos embarcam com o novo… Mas o novo vem reciclar o velho, o baú velho de emoções que acabamos nos tornando enquanto Cias de teatro. E é nessa concepção que devemos seguir. Na pluralidade do novo fazer teatral que sempre se faz velho, afinal sempre estaremos por aqui. Nessa estrada somos todos do mesmo barco o que nos torna tão velhos e tão novos em tudo que somos, fazemos e acreditamos não são os anos que passaram mais sim a permanência nossa neles, quanto eles em nós. Vão se os anos ficam as nossas permanências neles… Parabéns! Sucesso! Novas portas, janelas e paredes para o grupo pintar e repintar com ajuda de novos e velhos artistas que virão somar – . Daniel Tsunamy – Anjos da Noite Companhia Teatral (1996/2011) 15 anos de teatro e histórias. (Floripa/SC).

  3. Boa tarde!
    Gostaria de saber aonde vcs farão show em BH. Obrigado

  4. Eduardo,
    Vejo que as observações do Jurij Alshintz (entrevista na Folha de São Paulo) tiveram eco e o levaram a refletir. Os 30 do Galpão talvez sejam propícios à humildade e a um retorno aos ideais dos tempos heróicos. Que tal dar chance à garotada que do Galpão Cine Horto e oportunidade para que possam exercitar o entusiasmo e a alegria do Eduardo, da Wanda, do AEdson, do Chico, do Fernando Linares, da Teuda nas ruas, há 30 anos?
    WR.

  5. Queridos do Galpão;
    Um única peça de teatro que me fruiu até hoje, foi o espetáculo “Um Moliere Imaginário”, em 2004 no teatro de Blumenau, estava na faculdade de teatro em São Paulo e participei do festival universitário de teatro daquela cidade. Fico grato a vocês por fazer arte, sempre que estão em São Paulo, vejo seus espetáculos, estou ancioso para ver a nova montagem de Romeu e Julieta, termino com uma frase de uma das personagens de Um Moliere Imaginário. “…sem o teatro, onde representaríamos nossos sonhos?”
    Beijos.

  6. este post é incrível! Obrigado pela informação! Angela@nossafamiliaalvares.com.br

  7. O Grupo Galpão sempre foi uma referência para mim, para a minha trajetória artística e mais recentemente para a minha pesquisa de finalização de curso de graduação e posteriormente uma pós.
    Compartilho com o Gilberto o fato de ser este um Grupo que possui uma trajetória rica de aprendizados. O Galpão é certamente um coletivo que muito influenciou e continua influenciando muitos outros grupos pelo Brasil e pelo mundo.
    Estou de olho na programação dos 30 anos! Quero muito poder participar! Preciso…
    Aplaudirei também, e muito!

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