->UMA CIDADE DEVASTADA PELO TERREMOTO

           Saímos de Santiago logo depois do almoço em direção à cidade de Talca, situada a três horas e meia ao sul da capital. A estrada é uma autopista em linha reta rodeada de plantações, especialmente de parreiras de uvas, pêssegos, milho e cerejas. Trata-se de uma vale bastante fértil, apesar da aridez do terreno. Os leitos dos rios estão praticamente secos, o que não impede que haja uma intensa irrigação que possibilita a presença de uma forte atividade agrícola. O vale por onde passamos está cercado por montanhas que são absolutamente áridas. Chegando mais próximo de Talca, começam a aparecer as grandes vinícolas. O Chile é famoso pela uva carmenère, que foi extinta por uma praga na França e que foi trazida por um agricultor. A existência da uva só foi constatada muitos anos depois por especialistas, que estudavam a possibilidade de melhorar a qualidade da cabernet.

           Talca é uma simpática cidade, muito arborizada e que viveu no ano passado um terremoto aterrador, que destruiu boa parte de seu casario antigo. As consequências do abalo sísmico estão em todos os lugares – nos terrenos baldios causados pela queda de prédios e de casas, nas rachaduras em igrejas, prédios públicos e monumentos. A desolação parece levantar ainda mais o ânimo dos chilenos, que querem continuar vivendo aqui e que parecem multiplicar suas forças na adversidade. O terremoto foi no dia 27 de fevereiro e Talca foi uma das cidades de grande porte mais destruídas, só perdendo para Concepción. Um quadro aterrador de destruição pode ser visto no mercado central da cidade, que ficou com a estrutura toda abalada e é um quarteirão inteiro interditado no coração da cidade.

           A estrutura montada para nossa apresentação é aparentemente muito boa com trezentas cadeiras e uma boa arquibancada que deve comportar pelo menos uns mil espectadores. O lugar escolhido é a alameda de árvores belíssimas da Av. Bernardo O’ Higgins em frente ao teatro Municipal da cidade que, segundo nos disseram é o mais moderno e bem equipado teatro do Chile. Os problemas começam quando nos comunicam que a área das cadeiras será reservada apenas para convidados, uma vez que o espetáculo foi comprado pelo banco e a empresa, que são os principais patrocinadores, que possibilitaram a vinda do festival até a cidade. Tudo bem que o patrocinador tenha suas regalias, mas criar distinções e hierarquias no espaço público da rua é algo que causa constrangimentos. Além disso fomos intimados a não passar o chapéu porque os patrocinadores estarão presentes e isso “não ficaria bem”. Existe aí outro equívoco uma vez que passar o chapéu faz parte da linguagem do espetáculo e busca criar um vínculo com o público em que o lema é cada um dá segundo suas possibilidades e seus desejos. O resultado desagradável é uma enorme massa de pessoas que fica amontoada nas laterais, fora das grades colocadas para delimitar o espaço do espetáculo. Depois de uma série de pedidos e negociações, conseguimos que as áreas vazias no entorno do cenário fossem ocupadas pelas pessoas que esperavam do lado de fora.

           Todos esses contratempos não foram capazes de apagar o brilho de mais esse encontro com o público chileno, que vibrou com as malandragens e safadezas de Till na versão do Galpão. Terminado o espetáculo, levamos, Inês e eu, as crianças, para andarem nos triciclos na praça central de Talca. Meia-noite, as crianças brincam enquanto uns poucos adultos conversam e nos abordam, cumprimentando-nos pelo evento da praça.

Uma Resposta para “UMA CIDADE DEVASTADA PELO TERREMOTO”

  1. O Chile é fascinante justamente porque impõe a seu povo uma luta intrínseca. Foi fundado pela vontade e não pela ganância, ao contrário da maioria dos países da nossa América do Sul. Onde é árido eles cuidam em plantar árvores, onde é seco eles regam. Quando há terremoto, há reconstrução. Não há self-service porque o chileno pensa coletivo. Não faz sentido comer sozinho.
    Na verdade, é o chileno que não desiste nunca.

    Parabéns pelo trabalho de levar sonhos a quem mais precisa deles.

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