Outono em Berlim
por Joao 3 de outubro, 2011, 12:06
por Chico Pelúcio
Há dezoito anos não fazia um tempo tão quente no outono de Berlim. Mesmo assim o clima é dos mais agradáveis. O Sol e uma temperatura que varia entre 15 e 25 graus centígrados tiram todos de dentro de casa e os convidam às ruas, praças, parques e bares na calçada. Cidade deliciosa onde todos se respeitam. Cidade que traz uma vida pulsante nos seus mais diversos lugares.
Após a queda do muro boa parte da Berlim oriental tomou contornos ocidentais , o que foi uma pena pois hoje o mundo está ficando igual. Nessa área encontramos um universo semelhante ao que vemos nos grandes shoppings, na Broadway, na Av. Paulista, na Champs Eliseé e provavelmente nos arredores da Praça Vermelha. Entretanto, é nessa área que se concentra a maioria dos museus e lá está o emocionante templo do teatro mundial onde o dramaturgo e diretor Bertolt Brecht construiu sua obra, o teatro Berliner Ensemble. Ainda lindo – e sempre lotado – esse teatro foi o único prédio da região que sobreviveu intacto aos bombardeios da segunda guerra. No segundo andar ainda está preservado um espelho com a marca do único estilhaço de granada que o atingiu. Dizem que foram os Deuses do teatro que o protegeram. Depois de assistir a uma por demais tradicional montagem do “Círculo de Giz Caucasiano” do mesmo Brecht, com 3 horas de duração, ao sair do teatro dou de cara com um enorme outdoor de uns 25 metros de altura, com a Gisele Bünchen me lembrando de que o século XX já passou e que agora, globalizado, o mundo é dela e de seus patrões. Ela está em todos os lugares e em todos os tamanhos por essas bandas.
Estou, junto com 5 companheiros do Grupo Galpão, no bairro Creuzberg, onde estamos ensaiando para o nosso próximo espetáculo com o diretor Jurij Alschitz, no Akt-Zent International Theatre Centre. Esse bairro, que fazia divisa com a antiga Berlim oriental, nos últimos anos começou a ser ocupado por uma população essencialmente jovem. Embora seja uma parte da cidade ocupada por muitos turcos, são os jovens artistas, profissionais liberais, donos de restaurantes e bares que hoje vivem aqui.
E é por essa Berlim pela qual eu me apaixonei.
A Berlim onde não vi um guarda na rua e nem mesmo nos metrôs onde não existem roletas de controle. Metrô que transporta gente, bicicletas e cachorros para qualquer parte da cidade, sem discriminação. Cidade que, por ter um transporte público eficiente, tem um trânsito tranquilo sem buzinas ou congestionamentos de automóveis. Convivem nos passeios, nos super mercados, em restaurantes e nas ruas, crianças, adultos, cachorros ( todos mansos, bem educados e com chipe de identificação) e bicicletas. As bicicletas têm pista própria nos passeios largos e nas ruas e são usadas até por crianças de dois, três anos acompanhadas dos seus pais também sobre duas rodas. Aliás, em Berlim, é mais fácil ser atropelado por uma bicicleta do que por um carro. Uma cidade que tolera com bom senso os fumantes e nem tanto quem não fala alemão. Há uma diversidade de restaurantes em cada quarteirão, com suas mesas nas calçadas. Mas não espere cardápio em inglês e qualquer tipo de cartão de crédito. Aqui se usa o dinheiro vivo retirado normalmente nos caixas de rua existentes em cada quarteirão. Caixas “leves, ao ar livre e soltos sem medo de bombas”.
Há uma objetividade germânica que impede “salamaleques” e hipocrisias.
Por exemplo, a visita do Papa há alguns dias, provocou uma onda de protestos da comunidade gay e de cidadãos que não concordavam com os gastos do Estado nos eventos da visita de sua Santidade, pois acreditam que Estado e religião são coisas distintas.
Mesmo com pouco tempo de folga, nos intervalos dos ensaios conseguimos ver outras peças de teatro – sempre lotadas e na sua maioria com, no mínimo, 2h30 de duração e “sem medo de ser feliz”. Algumas delas assistimos no Schaubühne um espaço que possui quatro salas de espetáculos que me lembraram o Galpão Cine Horto.
Nossa volta será em breve. Saudade de BH? Sim. Mas triste por saber que quando voltar não verei mais a mesas do Bolão nos passeios de Santa – Kreusberg – Tereza. E distante, vejo a nossa Belo Horizonte, cidade dos bares e botequins, cidade do teatro de rua e das praças de lazer perdendo “vida” e identidade. Em seus lugares, a burocracia “burra”, as leis estúpidas e os fiscais do poder.
Oxalá o B de BH fossem também de Berlim, de Belo, de Beauty e, por quê não também de Bunchen.











