->Outono em Berlim

por Chico Pelúcio

Há dezoito anos não fazia um tempo tão quente no outono de Berlim. Mesmo assim o clima é dos mais agradáveis. O Sol e uma temperatura que varia entre 15 e 25 graus centígrados tiram todos de dentro de casa e os convidam às ruas, praças, parques e bares na calçada. Cidade deliciosa onde todos se respeitam. Cidade que traz uma vida pulsante nos seus mais diversos lugares.

Após a queda do muro boa parte da Berlim oriental tomou contornos ocidentais , o que foi uma pena pois hoje o mundo está ficando igual. Nessa área encontramos um universo semelhante ao que vemos nos grandes shoppings, na Broadway, na Av. Paulista, na Champs Eliseé e provavelmente nos arredores da Praça Vermelha. Entretanto, é nessa área que se concentra a maioria dos museus e lá está o emocionante templo do teatro mundial onde o dramaturgo e diretor Bertolt Brecht construiu sua obra, o teatro Berliner Ensemble. Ainda lindo – e sempre lotado – esse teatro foi o único prédio da região que sobreviveu intacto aos bombardeios da segunda guerra. No segundo andar ainda está preservado um espelho com a marca do único estilhaço de granada que o atingiu. Dizem que foram os Deuses do teatro que o protegeram. Depois de assistir a uma por demais tradicional montagem do “Círculo de Giz Caucasiano” do mesmo Brecht, com 3 horas de duração, ao sair do teatro dou de cara com um enorme outdoor de uns 25 metros de altura, com a Gisele Bünchen me lembrando de que o século XX já passou e que agora, globalizado, o mundo é dela e de seus patrões. Ela está em todos os lugares e em todos os tamanhos por essas bandas.

Estou, junto com 5 companheiros do Grupo Galpão, no bairro Creuzberg, onde estamos ensaiando para o nosso próximo espetáculo com o diretor Jurij Alschitz, no Akt-Zent International Theatre Centre. Esse bairro, que fazia divisa com a antiga Berlim oriental, nos últimos anos começou a ser ocupado por uma população essencialmente jovem. Embora seja uma parte da cidade ocupada por muitos turcos, são os jovens artistas, profissionais liberais, donos de restaurantes e bares que hoje vivem aqui.

E é por essa Berlim pela qual eu me apaixonei.

A Berlim onde não vi um guarda na rua e nem mesmo nos metrôs onde não existem roletas de controle. Metrô que transporta gente, bicicletas e cachorros para qualquer parte da cidade, sem discriminação. Cidade que, por ter um transporte público eficiente, tem um trânsito tranquilo sem buzinas ou congestionamentos de automóveis. Convivem nos passeios, nos super mercados, em restaurantes e nas ruas, crianças, adultos, cachorros ( todos mansos, bem educados e com chipe de identificação) e bicicletas. As bicicletas têm pista própria nos passeios largos e nas ruas e são usadas até por crianças de dois, três anos acompanhadas dos seus pais também sobre duas rodas. Aliás, em Berlim, é mais fácil ser atropelado por uma bicicleta do que por um carro. Uma cidade que tolera com bom senso os fumantes e nem tanto quem não fala alemão. Há uma diversidade de restaurantes em cada quarteirão, com suas mesas nas calçadas. Mas não espere cardápio em inglês e qualquer tipo de cartão de crédito. Aqui se usa o dinheiro vivo retirado normalmente nos caixas de rua existentes em cada quarteirão. Caixas “leves, ao ar livre e soltos sem medo de bombas”.

Há uma objetividade germânica que impede “salamaleques” e hipocrisias.
Por exemplo, a visita do Papa há alguns dias, provocou uma onda de protestos da comunidade gay e de cidadãos que não concordavam com os gastos do Estado nos eventos da visita de sua Santidade, pois acreditam que Estado e religião são coisas distintas.

Mesmo com pouco tempo de folga, nos intervalos dos ensaios conseguimos ver outras peças de teatro – sempre lotadas e na sua maioria com, no mínimo, 2h30 de duração e “sem medo de ser feliz”. Algumas delas assistimos no Schaubühne um espaço que possui quatro salas de espetáculos que me lembraram o Galpão Cine Horto.

Nossa volta será em breve. Saudade de BH? Sim. Mas triste por saber que quando voltar não verei mais a mesas do Bolão nos passeios de Santa – Kreusberg – Tereza. E distante, vejo a nossa Belo Horizonte, cidade dos bares e botequins, cidade do teatro de rua e das praças de lazer perdendo “vida” e identidade. Em seus lugares, a burocracia “burra”, as leis estúpidas e os fiscais do poder.
Oxalá o B de BH fossem também de Berlim, de Belo, de Beauty e, por quê não também de Bunchen.

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->Sol em Berlim

Por: Inês Peixoto
Chegamos em Berlim, com o sol e a temperatura agradáveis de final de verão, acompanhados por uma sensação diferente. Não estamos aqui para apresentar um espetáculo e sim para dar continuidade ao processo de treinamento para o nosso trabalho, com direção de Jurij Alschitz. Estamos tomados por uma euforia juvenil. Este intercâmbio, com o AKT-ZENT, nos traz novos ventos. Viajamos para o outro lado do mundo para estudar, entender nossa dramaturgia, construída a partir dos contos de Tchékhov, e beber, sedentos, as técnicas de trabalho e de texto desenvolvidas pelo Jurij.

O AKT-ZENT está situado num bairro chamado Kreuzberg, muito agradável, residencial, repleto de restaurantes, cafés, pessoas andando de bicicleta, crianças e um lindo rio. No primeiro dia nos encontramos com Olga Lapina e, depois de um aquecimento corporal e energização do nosso novo espaço de trabalho, partimos para um aquecimento da memória, relembrando o treinamento que ela desenvolveu, em Belo Horizonte. Então, iniciamos nosso trabalho de mesa.

Olga nos passou alguns comandos do Jurij, que estava finalizando um treinamento com atores na China. Nosso super internacional diretor chegou dois dias antes e nos pegou de surpresa! Então, sentamos com a equipe completa (Chico e Lydia, Beto e Simone, Inês, Júlio, Diego e Toninho) e iniciamos nosso mergulho na filosofia de Tchékhov.

Nossos encontros estão sendo preciosos. De um caos filosófico construído a partir de pensamentos escolhidos de vários contos de Tchékhov, estamos assistindo, extasiados, ao nascimento de uma dramaturgia que nos envolve cada dia mais. Com o Jurij praticamos o entendimento das três linhas que devemos perseguir em cena: as linhas do ator, do personagem e do texto. Caminhamos, com coragem e honestidade, de encontro aos temas propostos e esperamos que estas linhas se encontrem bastante no palco! Até nossa volta!!!!

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->Galpão em Berlim

Dando continuidade ao processo da segunda montagem dedicada à Tchékhov, os atores do Grupo Galpão estão em Berlim para três semanas de trabalho com Jurij Alschitz, que assina a direção do novo espetáculo.

Baseado principalmente nos contos do autor russo, o trabalho tem estreia prevista para dezembro deste ano.

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->Crise no Teatro Italiano

Por: Eduardo Moreira

Estive dois dias na programação da ocupação do teatro Vale, aqui de Roma. O teatro, uma bela construção clássica, seria fechado pela municipalidade e a classe artística de Roma que decidiu arregaçar as mangas e ocupá-lo à força.

No primeiro dia, tive a sorte grande de assistir a uma palestra e demonstração de trabalho com o diretor alemão, radicado em Turim, na Itália, Peter Stein. Ele é um dos grandes nomes do teatro europeu atual e falou sobre teatro e política cultural com uma simplicidade e franqueza muito boas. Foram três horas de encontro que teve uma fala inicial de uma hora e meia, um estudo de texto de um monólogo da “Medeia” com a participação de uma atriz italiana e um debate. Peter Stein é muito conhecido por suas montagens das tragédias gregas. Ele dirigiu uma famosa montagem que circulou pelos principais festivais do mundo chamada “Oréstia”. Seu último espetáculo, uma adaptação de “Casa dos mortos” de Dostoievski, tem 09 horas de duração e todos por aqui na Itália dizem que é muito forte. Na sua fala, ele sublinhou muito a necessidade do teatro se colocar em oposição à dispersão do mundo moderno, transformando-se assim, num lugar de encontro e de verdadeira troca entre as pessoas. Seu trabalho de texto sobre o monólogo da Medeia foi muito calcado no aspecto argumentativo e político da tragédia grega, onde o ator fala diretamente para o público. Ele insistiu muito também na importância do trabalho filológico, na tradução e na montagem das tragédias gregas nos dias de hoje. Saber o porquê e como dizer aquelas palavras proferidas pelos personagens, seu sentido profundo para a polis grega e sua correlação com os dias de hoje. Deu vontade de montar uma tragédia grega.

O segundo dia no teatro Vale foi dedicado ao dramaturgo, teórico e diretor norte americano, David Mamet. Mesmo sem entender muito bem (e mesmo assim, adorando), vi uma leitura feita por ótimos atores italianos do texto “Glengary Glen Ross”, com o qual Mamet ganhou o prêmio Pulitzer. Depois de um debate passaram um vídeo de uma montagem “Perversão Sexual em Chicago”, outro texto do ator.

Os atores italianos parecem estar numa encruzilhada. Dizem por aqui que os grupos simplesmente desapareceram e que, ou existem as grandes estrelas da encenação como Ronconi e Peter Stein, ou então um bando de atores desesperados, dando tiro para tudo quanto é lado, para tentar sobreviver. O fechamento do Teatro Vale, um dos mais tradicionais de Roma, seria um claro indício disso. A crise econômica é iminente e todos esperam a queda da Itália e nunca do Berlusconi, que continua escapando de todos os processos penais que tentam lhe imputar.

Quanto à vinda do Galpão, acho que a repercussão foi muito boa e esperamos voltar o mais rapidamente possível. Auguri a tutti!

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->Galpão no Teatro Vascello

Por: Eduardo Moreira

Cumprindo uma rapidíssima turnê em Roma, no Teatro Vascello, o Galpão voltou a estabelecer laços com a Itália, onde se apresentou nas ruas, numa longa temporada por 15 cidades, no ano de 1989. Foi, aliás, essa temporada que possibilitou ao grupo, no retorno ao Brasil, comprar a sede atual na Rua Pitangui, 3413.

Apesar da passagem meteórica, o espetáculo “Zio Vanja” foi assistido por uma seleta platéia de diretores e atores de teatro e de cinema, além de muitos estudantes. O entusiasmo entre alguns estudantes da Escola de Teatro da Universidade de Roma foi tamanho que alguns deles procuraram a diretora Yara de Novaes para um possível workshop sobre Tchékhov.

As apresentações exigiram ensaios exaustivos para que pudéssemos acertar e precisar as legendas em italiano que foram projetadas durante o espetáculo no cenário. As dúvidas iam desde a necessidade de se traduzir todo o texto, sem cortes, até o lugar onde os textos seriam projetados. Ao final, chegou-se a conclusão de que o melhor seria mesmo projetar as legendas em italiano dentro do cenário, para que os espectadores pudessem desfrutá-las sem grandes esforços.

Na platéia, além dos vários diretores e atores, estavam grupos como o Potlach e o Centro de Pesquisa de Pontedera (onde Grotowski trabalhou até seu falecimento) representados por Roberto Bacci e Carla Polastreli. A primeira apresentação foi na verdade um ensaio aberto, especialmente aberto, para a classe teatral da cidade. O segundo, aberto para o público em geral, contou com a presença do embaixador brasileiro, o Sr. José Viegas, o adido cultural da embaixada, Acir Madeira e uma extensa equipe da embaixada.

Nosso aquecimento vocal da segunda apresentação foi conduzido por Francesca dela Monica, que é italiana e muitíssimo conhecida por seu trabalho vocal, não só na Itália e na Europa, mas em boa parte do mundo. Ela vem desenvolvendo uma parceria com o nosso Ernani Maletta, na preparação vocal de vários espetáculos. A próxima parceria dos dois (junto com a Babaya) será no espetáculo “Hécuba”, com direção de Gabriel Villela.

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->Tio Vânia no Rio

Chegamos ao Rio na noite de terça-feira, no meio de uma neblina e uma chuva fina.Estamos num pequeno hotel escondido no bairro do Peixoto, em Copacabana, que é o bairro mais democrático e popular dessa cidade que é também a mais misturada e democrática das cidades do Brasil. Por mais que as pessoas torçam os narizes, achando que lugar de pobre é na periferia, é exatamente essa mistura de gentes e de classes sociais que mais me encanta nas esquinas e nos botequins do Rio. E isso se vê muito nitidamente nas ruas de Copacabana. As fotos da peça estão presentes nas ruas da cidade , estampadas naqueles cartazes espalhados pelo mobiliário urbano dos pontos de ònibus.Como o tempo até a estreia é curto, passamos a tarde e a noite de quarta, ensaiando e fazendo ajustes técnicos para a apresentação no teatro do SESC Ginástico. Yara abre os trabalhos comentando o espetáculo que ela assistiu em Divinópolis. Ela faz comentários precisos e inquietos sobre uma certa tendência de nós, atores, em nos acomodarmos em cena, fazermos o personagem na linha do menor esforço e sem nos desafiarmos. Há cenas que estão sem jogo, endurecidas por um certo cotidiano de apresentações. Ela aponta para uma tendência a se esmerar excesivamente algumas cenas, com um tipo de virtuosismo de interpretação, que leva o espetáculo para um indesejável artificialismo. No ensaio, trabalhamos todas as cenas do espetáculo,com destaque para a cena em que Helena e Sônia se reconciliam e bebem juntas e a cena dos mapas em que Ástrov e Helena se beijam.  Ao final do trabalho, estamos cansados, mas revigorados no encontro com a peça de Tchékhov e suas inúmeras possibilidades. Mérito principalmente da inquietação da nossa diretora que nçao nos deixa ficarmos paralisados e inebriados com a boa aceitação do público.

Quinta-feira. Dia da estreia. Na terça, ao chegarmos ao teatro, encontramos um bilhete com uma bela orquídea branca deixado no camarim pela nossa querida Luana Piovani, que acabara de deixar o Ginástico com sua peça. Hoje foi a vez de encontrarmos um lírio deixado no teatro com um  comovente recado escrito pela nossa também queridíssima Fernanda Montenegro se lamentando pelo fato de não poder nos assistir porque estará se apresentando em Porto Alegre. Outras flôres chegam com um bilhete carinhoso dos nossos colegas do “Armazem”. Os colegas do Galpão nos enviam, via Inezinha, a simpática mensagem de “boa estreia” “aos que vieram antes de nós”, assinada pelos que “virão depois de vós”. Que Tchékhov e os deuses do teatro abençoem todos nós.

Passamos um outro ensaio, dessa vez mais técnico, buscando ajustar algumas intensidades de luz e de som. O palco do Ginástico parece perfeito para a peça, trazendo uma relação da cena com os espectadores bastante íntima. Fazemos aquecimento de corpo e de voz e nos recolhemos aos camarins para o momento da maquiagem e da troca dos figurinos. Os produtores e divulgadores entram e saem com seus figurinos de receber o público de estreia. Eduardo Barata, nosso divulgador, está quase quarenta quilos mais esbelto e esbanjando simpatia e alegria. É a beleza do amor! Gilma e Ana Luiza ,Bia e Ana Amélia carregam programas e conferem listas de convidados. Bia (filha da Ana Luiza) e Mariana, assistentes da produção, ajudam a contar  os produtos da boutique. Os técnicos conferem com Paulo André os ajustes de avisos e de sinais. Eu bebo uma dose de vodca russa para ajustar melhor o espírito.

Terceiro sinal.O teatro está lotado e nós estamos com a adrenalina um pouco acima do nível normal. Algumas cenas parecem sair desajustadas. Alguns tempos se dilatam e outros se apressam. A platéia reage cautelosamente. O segundo ato parece “ganhar” os espectadores. Na primeira fila estão Eduardo Coutinho e Humberto Werneck. É impossível não enxergar o público da primeira fila. A cena da briga sai com ímpeto e qualidade. A platéia parece estar totalmente dentro do espetáculo. O “feeling” da cena dos mapas entre Helena e Ástrov fica mais habitado de paixão e de olhares hipnotizados. Ao final, a platéia se manifesta ruidosamente com aplausos carinhosos.

Acho que vencemos. Não pelos aplausos e o reconhecimento que, sem súvida, são sempre ótimos. Mas, pelos novos olhares  e perspectivas que encontramos para a peça. Depois do espetáculo, encontro com vários amigos queridos que sempre nos prestigiam no Rio, nos enchendo de carinho e de emoção.

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->Uma bela experiência em Ouro Branco

Depois das participações em festivais como o de Curitiba, Londrina e Porto Alegre e da temporada de dois meses em Belo Horizonte, chegou a vez de adaptarmos o nosso “Tio Vânia” a espaços alternativos, mambembamdo pelas cidades do interior de Minas, nos chamados festivais de inverno, que acontecem ao longo do mês de julho. Nossa primeira empreitada foi coroada de sucesso, o que nos trouxe uma emoção muito particular em todos os sentidos. Essa experiência foi a de conseguir transformar um galpão de modestas proporções de uma paróquia da cidade num teatrinho capaz de abrigar nossa versão da peça de Tchékhov. A empreitada só foi possível pela boa vontade de todos em estavam envolvidos no projeto. A começar pelo Ildeu, diretor do festival de Ouro Branco. Segundo ele, sempre que se começa a pensar na grade do festival, a primeira pergunta dos habitantes da cidade é se o Galpão estará presente ou não. Depois de sucessivas apresentações de nossos espetáculos na cidade – fizemos lá “Um Molière imaginário”, “Um homem é um homem”, “Pequenos milagres”(também heróicamente adaptado para um palco no meio da praça), “Till, a saga de um herói torto”- o público torce e praticamente exige a presença do Galpão no festival. Isso cria um vínculo do Galpão com um público que se torna cativo, que acompanha a ´nossa trajetória e que torce pelo grupo. Ao final do espetáculo, fui para a boutique ajudar à produção na venda de nossos produtos e foi muito interessante  conversar com o público, que faz questão de comentar as novidades trazidas pelo encontro com a obra de Tchékhov e com a direção da Yara, fazendo sempre um paralelo com outros espetáculos do grupo.É o vínculo com o público de diferentes cidades por onde nos apresentamos com frequência é que molda uma das características mais fortes do grupo, que é exatamente de ter uma relação tão forte e sedimentada com seu público. E esse vínulo se estabelece pelas mais diferentes cidades nos mais diversos pontos do país de norte a sul. Como sempre digo nos diversos encontros que estabelecemos com grupos e o público em geral nas cidades por circulamos – o Galpão é hoje certamente um dos grupos que mais viajou e viaja pelo Brasil, fazendo do ofício do teatro uma profissão sem limites. Essa é  a nossa profissão de fé – andar por esse país para ver se um dia descansamos felizes!

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->Galpão, Tchekhov e Jurij Alschitz : Novas paisagens

 

Dando continuidade ao  projeto “Viagem a Tchekhov”, terminamos no dia 29 de Junho nosso primeiro encontro prático e teórico com o diretor e professdor russo Jurij Alschitz e sua assistente lituana, Olga Lapina. Durante um mês, praticamos os treinamentos psico-físicos desenvolvidos pelo mestre russo, técnicas vocais aplicadas por Olga Lapina e trabalho de canto a partir de músicas folclóricas russas, com arranjos e ensaios coordenados pelo maestro Ernani Malleta. Os atores envolvidos neste segundo processo são Inês Peixoto, Lydia Del Picchia, Simone Ordones, Chico Pelúcio e Júlio Maciel. Porém, sempre que a agenda permitiu, os outros atores do grupo, que estão viajando com o espetáculo “Tio Vânia” também participaram do treinamento. 

Desta vez, não contamos diariamente com a presença do nosso querido Eduardo Moreira, que sempre compartilha com simplicidade e inteligência nossas experiências com os seguidores do nosso blog mas, tentaremos contar um pouco sobre este encontro precioso para o Galpão. 

Estamos vivendo uma experiência nova em vários sentidos e desenvolvendo novas maneiras de entendimento do trabalho. 

Após o Ecum 2010 com os mestres russos, convidamos o Jurij para desenvolver um trabalho com o Galpão e, quando tudo foi acertado, começamos a leitura de todos os contos de Tchekhov traduzidos para o português, para a  realização de tarefas, seguindo as instruções enviadas por ele via e-mail e Skype. Podíamos escolher qualquer conto e qualquer tema. Quando ele e Olga chegaram em Belo Horizonte, nosso primeiro dia de encontro foi para apresentação das cenas que criamos. 

Nos comunicamos em inglês ( alguns são mais fluentes que os outros, por isto contamos com a tradução simultânea do nosso assistente de direção brasileiro, Diego Bagagal). O inglês com sotaque russo do Jurij  nos deu novos nomes: Chica, Sima, Ínes, Julia, Beta e, Lydia  se salvou. Ele ama “pão de queija” e banana! Depois de 9 horas diárias de trabalho em inglês, com muito estímulo físico e mental,  voltávamos para casa com muitos textos escolhidos dos contos de Tchekhov, que deveriam ser decorados e apresentados no dia seguinte. 

Jurij, no segundo dia de trabalho, nos disse que há 20 anos ele não aplicava seu treinamento numa sala pintada de preto ( cor do salão de criação e ensaios do Galpão) mas, que ele nos amava e ia tentar trabalhar assim mesmo. Ele desenvolve todo o trabalho  conectado com a energia do espaço circulando pelo corpo dos atores. Então, nos transferimos  para uma sala de ensaio do Cine-Horto. Este desabafo fez com que Chico saísse correndo atrás de um pintor, comprasse latas de tinta branca e, num fim de semana, todo o salão foi pintado de branco. E voltamos para nosso treinamento no Galpão branco. 

Tchekhov  diz em um de seus contos: “A sensação é superior a qualquer descrição. Esta riqueza de cores e sons que cada qual recebe da natureza na forma de impressões, na pena dos escritores é uma tagarelice numa forma monstruosa e irreconhecível ”. 

Olhando para o treinamento e ensinamentos do Jurij como se fosse uma nova paisagem que está  sendo apresentada para o Galpão, conhecida porque é teatro, desconhecida porque vem pintada com cores que estamos tentando entender, arriscaremos pequenas descrições. 

Seria precipitado expor aqui o treinamento em si, porque ele é tão estimulante e complexo, que tem de ser experimentado. Ao final desse processo, Jurij como maravilhoso  pedagogo que é, quer que estejamos capacitados para aplicar os exercícios desenvolvidos por ele. São exercícios que trabalham a energia do espaço e do corpo potencializadas para a criação, atenção, ritmo, presença, improviso, expansão e redução de deslocamento, impulso corporal na voz, pontos de energia do corpo associados à emissão da voz, enfim, ingredientes que todos nós conhecemos bem, porém, apresentados em novas composições. 

Então, pensamos que nesta etapa em que nos encontramos, poderíamos compartilhar frases soltas do Jurij, frases que anotamos durante as inúmeras palestras que tivemos o privilégio de sentar e escutar durante este intenso mês de Junho. 

Aforismos de Jurij: 

“Paradoxo dá energia. A lógica, não.” 

“ Somos escravos do tempo. Para o Rei, isto não existe” 

“O ator não pode estar no mesmo nível do personagem, e sim, ver o personagem de longe.” 

“Existem três linhas numa cena : Texto, emoção e movimento.” 

“ Se a história é para baixo, o espírito tem que ser para cima”. 

“ Não pinte o personagem. Dê algumas pinceladas”. 

“ Não vou falar sobre uma pessoa, vou falar sobre a vida”. 

“ Se sabemos “o que” falar, temos grande liberdade”. 

“ A reza deve te fazer mais forte. Na igreja você recebe a energia e sai com ela. O texto tem de te fazer mais forte, te trazer energia.” 

“A energia fica na memória e o corpo retém a memória da energia”. 

“Não existe a palavra e sim a energia que transita entre a conexão, entre as palavras”. 

“A combinação entre o quente e o frio, gera energia.” 

“O texto não é dito pela boca, é dito através das energias”. 

“Se não houver paradoxo no texto, temos de encontrá-lo na cena”. 

“Não acredite em suas primeiras impressões”. 

“ O ator e o diretor devem mudar a opinião do público durante a performance, duas ou três vezes”. 

“Personagens têm vários nomes. Qual o nome? Com quem você está falando hoje? Quem é você neste momento? Temos um nome para cada situação”. 

“Mudança interna. Mudar internamente o nome e imediatamente tudo muda. Acontece por si”. 

“Se você trair seu talento, seu talento vai te matar. Talento é uma energia incrível!” 

“ No teatro psicológico trabalhamos  “O que? Qual a mensagem? No teatro filosófico, abstrato, trabalhamos “Quais  idéias são fortes? “. 

“ Ser condutor das idéias de Tchekhov para o público”. 

“Criar em equilíbrio. A fantasia não pode matar o sentido do que estamos falando”. 

“ Não há um só caminho. Há vários caminhos”. 

Continuaremos em tarefas no mês de Julho e Agosto. Em Setembro nos encontraremos com Jurij em Berlim. Novas paisagens virão… 


Jurij Alschitz e Diego Bagagal

 

Júlio, Inês, Lydia e Simone

 

Olga Lapina e o grupo

 

Olga e o grupo

 

Inês, Chico, Lydia, Simone, Júlio, Jurij e Diego

 

Ernani Maletta e o grupo

 

Fotos: Ana Alyce Ly

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->Passeando pelas ruas e pelas páginas de jornais com o olhar do Dr. Ástrov do “Tio Vânia”

Tchékhov escreveu “Tio Vânia” entre 1896 e 1897. Ou, pelo menos, finalizou sua versão definitiva nesse período. O público que assiste a nossa montagem no Galpão Cine Horto, fica muito impressionado pelo discurso tão bem articulado e de uma clareza ecológica e ambientalista de tal forma contundente, proferida pelo doutor Ástrov, em pleno final do século XIX, quando a perspectiva de uma catástrofe dos recursos naturais era algo simplesmente impensável. Nosso autor criou um ecologista “avant-la- lettre” pelo menos uns sessenta anos antes da matéria começar a pontuar nossas manchetes diárias. Numa carta escrita no seu retiro em Ialta, endereçada a Olga Kníper, sua mulher e atriz do “Teatro de Arte de Moscou”, nosso autor diz que passa os dias escrevendo e plantando árvores. Ele tinha a convicção de que, assim como a arte e tudo que traz beleza à atribulada vida humana, também as árvores são capazes de “criar homens mais gentis e bem educados”, nas palavras da apaixonada Sonia se referindo ao trabalho desenvolvido por Ástrov, na recuperação das paisagens e no plantio de novos bosques.

Assim como ler livros jamais poderá fazer com que as pessoas se tornem piores ou menos virtuosas, também plantar e proteger as árvores e a natureza em geral certamente não poderá deseducar ninguém. Muito pelo contrário.Assim como a fruição da arte é fundamental para criar pessoas sensíveis, educadas e engajadas num projeto de sociedade e de bem comum, que extrapole o individualismo vazio, também o contato e a defesa da natureza é algo que se faz essencial para o desenvolvimento desse quesito.

Bom, digo tudo isso, para falar que as palavras do Doutor Ástrov me perseguem o tempo todo, especialmente quando caminho pelas desoladoras ruas da nossa metrópole, outrora chamada de “cidade jardim”.Nunca vi tantas árvores cortadas, a começar pelo parque Municipal, uma espécie de pulmão verde do caótico centro da cidade.Só para ficar próximo de casa, a rua Pitangui, onde fica situada a sede do Galpão,está hoje reduzida a uma sequência de tocos de árvores impiedosamente decepadas. E o que mais irrita é que toda essa depredação é promovida e maquiada com uma demagógica propaganda de cunho ecológico de bem estar individual. Nunca vi tanta destruição de casas e de árvores em quase todos os bairros de Belo Horizonte. Em nome de uma pretensa liberdade, deixa-se o poder econômico destruir impiedosamente nossas ruas e nossa paz.A cidade vai sendo rasgada e descaracterizada em nome de uma circulação elitista, feito para um transporte elitista de carros, quase na sua totalidade conduzidos por uma única pessoa. Enquanto isso, os pedestres caminham pelas vias assustados e ameaçados por vias em que se pratica a perversa inversão de que a prioridade é sempre o carro. E o resultado é uma poluição que avança, trazendo doenças. É só olhar para as árvores da cidade para sentir como vivemos num ambiente contaminado, desequilibrado, gerador de possíveis novas doenças decorrentes de “um delicado equilíbrio que foi rompido e que fará com que a vingança da natureza logo dê seus primeiros sinais”. Boa parte das árvores da cidade são vítimas de pragas e de doenças

Outro elemento presente de forma intensa na peça e, especialmente nas palavras do Dr. Ástrov , é o poder da beleza, como algo capaz de nos mobilizar, nos tirar da indiferença. E é muito triste  perceber como, cada vez mais, a cidade vai se tornando um amontoado de construções de gosto muito duvidoso,espigões verticais que não respeitam o nosso direito ao horizonte e aos raios do sol e cuja construção visa apenas a ganância, o lucro desmedido e a mais absoluta irresponsabilidade.

Num momento especialmente dramático para os interesses das futuras gerações no Brasil, em que um congresso dominado pela mais absurda irresponsabilidade de um poder econômico tipicamente capitalista periférico, regido pelo impulso de ganhar  o máximo no tempo mais curto, sem pensar nada no futuro e no legado que deixaremos para os que vierem depois de nós,acaba de aprovar um novo código florestal que abre caminho para mais destruição, nada mais atual do que dizer as palavras do dr. Ástrov, escritas há 113 anos atrás.

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->Algumas notícias acerca do “Tio Vânia”

Yara esteve em Belo Horizonte para assistir ao espetáculo, depois de duas semanas de ausência. Ela gostou do que viu. Achou o espetáculo mais seguro, sem as hesitações das primeiras semanas. Conseguimos superar um estado de estarmos acossdos pelo texto e pelas marcas. Ela só nos pediu que desarrumássemos um pouco a cena, criando ruídos, algumas falas “trepadas”, algo que nos trouxesse o frescor de algo acontecendo aqui e agora. A receita funcionou muito bem e deu um novo ímpeto, sacudindo uma estrutura que começava a se acomodar em fala-contrafala-outra fala, uma acontecendo comportadamente depois da outra. O objetivo claro é de fugir da formalidade, uma espécie de boa execução das ações verbais, sem sujeiras, o que faz com que tenhamos um bom espetáculo, mas que se torna refém de uma certa formalidade. Nossa diretora detectou também uma tendência de narrar para o público o que o personagem está sentindo. Tal característica de enunciar os sentimentos se associa a uma outra tendência de buscar uma “teatralidade” em que as falas são ditas de forma frontal e que os atores acabam se apropriando de determinadas poses. O resultado imediato foi uma semana em que todas as apresentações resultaram mais desafiadoras e consistentes para todos nós, os atores.

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